sexta-feira, 14 de maio de 2010

Reclamação rima com assombração.




Pessoal, alguém aí lembra do texto "A porta", que eu postei aqui algumas semanas atrás? Pois é, não é que foi uma reclamação tão fantástica que acabou rendendo uma história de terror? Tanto que fou publicada no Assomblog, blog de histórias sobrenaturais do jornalista Roberto Beltrão!

Clique aqui para ver o conto publicado no Assomblog!

Vão lá e aproveitem para prestigiar as histórias de outros leitores e fãs de literatura fantástica, que também publicam contos por lá.  E comentem! Quem sabe meu texto não acaba saindo na coletânea de Histórias medonhas do Recife Assombrado?

E é isso. Meus agradecimentos à equipe do Assomblog pelo reconhecimento. Que seja apenas a primeira de muitas histórias reclamativas sobrenaturais!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Ficha Limpa, passou!





Tá, eu confesso. Nem eu mesmo acreditava que fosse dar certo. Mas deu. O projeto da Lei Ficha Limpa foi aprovado pela câmara dos deputados. Foi tanta reclamação no juízo dos caras que eles não tiveram escolha, a não ser fazer a vontade do povo. Claro que estarmos em época de eleição deu ajudada. E assim, parece que o Brasil vai, finalmente, começar essa caminhada em direção à liderança dos países emergentes, através de uma política transparente e democrática, que tanto se fala, mas que ninguém viu ainda.
Só que o Ficha Limpa ainda não é lei. Antes, tem que passar pelo Senado e pelo Presidente. Ninguém crê que um ou outro deixe de aprovar o projeto, mas é bom ficar ligado. Com mais de meio milhão de assinaturas, um sem-número de e-mails e ligações telefônicas, essa campanha foi um sucesso e uma mostra do poder da vontade do povo.
Só não podemos deixar a peteca cair agora.

ônibus vazio


O ônibus pára e eu subo. Distraidamente, passo o cartão magnético pela maquineta enquanto procuro meu MP3 Player na mochila. Passo pela catraca e levanto o olhar para o corredor do ônibus. O que eu vejo quase faz meu coração parar.










Ninguém. O ônibus, salvo pelo motorista, o cobrador e por mim mesmo, encontra-se totalmente vazio. O susto é tão grande que fico alguns minutos tentando processar, em meu cérebro condicionado, uma situação tão bizarra. Pegar ônibus vazio no Recife, tipo, completamente livre de pessoas desse jeito, é mais ou menos como avistar um disco voador sendo pilotado pelo Hipopocaré e tendo um caboclo de lança como comissário de bordo. Nem digo que é impossível, mas é difícil pra caralho de acontecer. Por isso, a foto. Sei que todos vão me acusar de mentiroso, tentar apontar todas as falhas grotescas de Photoshop na imagem e tudo mais, mas é verdade. Peguei um ônibus vazio.
É uma sensação estranha poder escolher em que lugar sentar. Sem pessoas anormalmente carentes de atenção do seu lado, tentando puxar assunto sobre coisas que você não dá a menor importância. Nada de anônimos se esfregando em você eroticamente e pondo a culpa no movimento do ônibus. Ausência total de vendedores de caneta, amendoim e DVDs do Padre Marcelo Rossi.
Nada. Liberdade total.
Era uma sensação tão desacostumada, um sentimento de estranheza tão grande, que eu não pude relaxar. Fiquei imaginando por que aquele ônibus em especial encontrava-se assim, tão desprovido de gente. Seria aquele veículo um alvo potencial de bandidos noturnos, que se aproveitavam da baixa densidade demográfica no veículo pra assaltar suas vítimas com calma e lentidão sádicas? E onde estavam os odores almiscarados de suor humano misturado à lágrimas de desespero que eu havia sempre associado ao ato de usar o transporte público? De repente, nada mais fazia sentido e eu já não sabia como me portar nessa situação. Abalado, escolhi um lugar no final do veículo e me encolhi em meu canto escuro e esquecido.
Baixinho, eu rezei pra que alguém, qualquer um, subisse no ônibus.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Recife e o Inverno deslocado


Acordo lentamente e percebo, de imediato, que algo está errado. Talvez “errado” não seja a palavra correta, porém alguma coisa está, definitivamente, diferente. Passo as mãos pelo colchão e não consigo detectar a familiar sensação pegajosa do suor acumulado pela noite toda. O quarto, dominado por uma estranha penumbra, já não parece irradiar pelas suas paredes as microondas cancerígenas com as quais eu já havia me acostumado. Intrigado, caminho até a janela, abro a cortina e me deparo com essa paisagem:

Não, eu não fui transportado por ladrões de órgãos até São Paulo durante o sono. Acontece, mas não foi isso. O que eu estou vendo é simplesmente um dos aspectos mais insanos do Verão daqui: o Dia de Inverno Temporário. Não é simplesmente uma chuva de Verão, que se evapora tão logo toca o asfalto fervente e imediatamente se transforma no mormaço que invade nosso sistema pulmonar e conspira, junto com as microondas das paredes, para encurtar ainda mais nossas existências confusas. Não, esse é um dia seqüestrado diretamente da estação normal de Inverno. O céu permanece nublado, atapetado de nuvens escuras de chuva, que descarregam seu aguaceiro durante a maior parte do dia. Por essa cobertura tempestuosa, o sol não consegue passar. A temperatura cai e os recifenses, animados, tiram dos armários seus embolorados casacos jeans e botas de couro. Aqueles mesmos pelos quais pagaram rios de dinheiro e só usam durante 4 dias no Festival de Inverno de Garanhuns, todo ano. Como crianças, andam pelas ruas alegres e encapotados, coletivamente desejando que aquele dia mágico demore a acabar e fazendo com que a cidade, como um todo, adquira um leve cheiro de naftalina. Se possível, encerram a noite dentro de um cinema ou qualquer outro lugar dotado de um forte ar-condicionado. Os mais sofisticados ensaiam fazer fondue e tomar chocolate quente em casa. Se tivessem lareiras em suas salas, acenderiam.
No dia seguinte, tudo volta a ser como era. Um dia normal de Verão recifense, impregnado de todos os odores, texturas e fluidos corporais que costumam acompanhá-lo. Os casacos e botas voltam para dentro de seus tristes armários de onde só sairão dali a vários meses. As pessoas se arrastam pelas ruas, levando suas vidas medíocres e cobertas de suor, se perguntando se o dia anterior havia de fato existido ou se foi apenas um sonho bom, talvez uma alucinação causada pelo calor. Gostaria de poder dizer que há uma solução para esta situação, mas a verdade é que não existe tal coisa. São dias raros e aleatórios, quando Deus decide brincar com os corações e mentes recifenses, dando-lhes uma medida de esperança no meio do Verão.
Simplesmente aproveite o dia, mas não se acostume.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Ficha limpa, última chamada




Reclamação séria agora, pessoal. Esta noite é o último dia de votação do projeto Ficha Limpa. Já falei sobre ele antes, mas pra os pagãos que, na época, ainda não conheciam a luz ungida do Blog da Reclamação, vou dar uma explicada rápida. O Ficha Limpa visa tornar ilegal a candidatura de qualquer pessoa que tenha cometido atos ilícitos,  besteirinhas como roubo, formação de quadrilha, estupro e outras coisas mais. Se você acha um absurdo um camarada meter bala em alguém na rua, comer a própria filha de 5 anos de idade, tacar fogo numa floresta cheia de índios e depois se candidatar a prefeito, apóie o projeto. Se na sua opinião essas coisinhas são bobagem, por favor, me passe seu telefone de contato e endereço para que eu possa encaminhá-los para a delegacia mais próxima.
E é isso. Vamos ver se dessa vez, os bandidos ficam na prisão e não em Brasília.

Medo da luz




 



 
Infelizmente, é preciso lembrar que o sol do Recife é capaz de perturbar a vida dos seus cidadãos por outros aspectos que não apenas o calor infernal. A claridade, por exemplo. O céu límpido e livre de nuvens que tanto encanta os turistas é motivo de pesadelo para a vida diária das pessoas. A luminosidade é tão forte que levantar os olhos alguns graus acima da linha do horizonte significa cegueira imediata e permanente. Se você escutar o barulho de algo caindo na sua cabeça de dia, se jogue em qualquer direção, mas não olhe pra cima. Óculos escuros são considerados itens de segurança obrigatórios e os camelôs, cientes da necessidade do povo, comercializam seus produtos de baixa qualidade, para um público que não pode pagar por proteção adequada. O resultado é uma explosão demográfica de ceguinhos de ônibus e porta de igreja, um problema que as autoridades ainda se encontram despreparadas pra enfrentar, apesar dos e-mails diários que eu envio ao Prefeito.
Mas não é só ao ar livre que a claridade atrapalha. Os raios de luz radioativa invadem os lares recifenses de todas as direções e o nosso sol parece dar voltas ao redor da cidade, tentando cobrir todos os ângulos possíveis, de maneira que é preciso viver em uma semi-penumbra permanente, com cortinas e persianas cerradas em todas as horas do dia. Claro que, fazendo isso, o vento também não vai poder entrar nas casas das pessoas, o que no meu caso não faz diferença nenhuma. O excesso de claridade do Verão do recife é, sem dúvida, um estorvo. Mas tem gente que exagera na hora de tentar resolver o problema.
Meu irmão mais velho, por exemplo, costumava tomar precauções contra a luminosidade que beiravam a psicose. Todas as noites, antes de dormir, ele procedia ao seu ritual de buscar e vedar toda e qualquer possível entrada de luz em seu quarto. Fechava as janelas, cerrava as persianas, bloqueava quaisquer orifícios que pudessem existir nas paredes e chegava ao absurdo de preencher todas as frestas ao redor da porta com pano de chão. Depois disso tudo, colocava uma máscara de dormir feminina, um lençol e um travesseiro em cima do rosto. E assim ele esperava se proteger da luminosidade da manhã seguinte, isolado em um ambiente controlado à prova de claridade. Mais ou menos como a bolha de oxigênio onde Michael Jackson passava as noites, só que com muito mais monóxido de carbono e muito menos criancinhas. Esse cenário insalubre tornava-se definitivamente hostil quando levamos em conta que ele sempre sofreu de apnéia, de forma que passava a noite emitindo grunhidos e roncos assustadores. Entrar no quarto dele nessas condições era um suplício freqüente, um teste de nervos que nem sempre valia à pena. Me sentia o próprio São Jorge indo encarar o dragão.
Claro que pra maioria das pessoas, isso tudo é desnecessário. Uma simples cortina já resolve o problema e garante um sono imperturbado pela claridade matutina. E se você sentir que o medo da luminosidade começa a afetar seu pensamento racional, passe protetor solar no corpo todo e durma de persianas abertas de vez em quando.
É meio foda, mas ainda é melhor do que virar o ogro da caverna.

domingo, 9 de maio de 2010

Homenagem do Dia das Mães ou Como o ato de reclamar é, comprovadamente, uma característica genética




Acordo e espremo o lençol pra tirar o excesso de suor. Me levanto da cama e me encaminho ao banheiro. Uma voz conhecida, provavelmente a primeira que eu ouvi e aprendi a confiar, chega aos meus ouvidos:
- Vixemaria, que calor do cão.
Termino de escovar os dentes e me dirijo até a cozinha, em busca de comida e alguns segundos de ar frio. A voz, obstinada, me segue:
- Por que esse cachorro do vizinho não morre logo e pára de latir?
Passo pela sala e ligo a televisão, tentando escapar daquela voz incorpórea. Como sempre, é em vão.
- Mas só passa porcaria nessa TV, credo em cruz!
Desligo o aparelho, respiro fundo e volto ao meu quarto em busca de sossego. Prefiro pensar que sou ingênuo, não idiota.
- Quem botou esse copo aqui? O que esse copo tá fazendo aqui? Já falei que não quero copo aqui!
Conto até 10 em alemão, depois em japonês, percebo que esse é o limite do meu vocabulário numérico em ambas as línguas e ligo meu computador. A idéia é fugir da voz através do mundo virtual dos jogos eletrônicos. Nunca funciona.
- Esse vizinho é um imbecil! Eu odeio ele! Nem sei bem por quê, mas odeio!
Desisto, enfim, de qualquer tentativa de distração e vou até a fonte de tanta reclamação. Minha mãe está na janela do seu quarto, cenho franzido contra a luminosidade do sol da tarde, os olhos verdes que poderiam ser os meus próprios apertados em uma expressão de desgosto.
- Por que essas crianças da escola não param de gritar? Parece mais que estão morrendo!
Me encosto na porta do quarto e escuto, em silêncio, a torrente reclamativa que deságua dos seus lábios. Implacável, minha mãe não poupa quase nada nem ninguém de suas queixas e eu figuro entre um bom número delas. Chego a ensaiar, cuidadosamente e em silêncio, um discurso acerca dos males de se reclamar o tempo todo, sem parar, em relação a tudo.  Mas não chego a articular as palavras. Olhando pra minha mãe, compenetradamente envolvida no ato de se queixar da vida em geral, percebo que essa característica, mais do que qualquer outra, é hereditária. Reclamar está no sangue, é um traço genético que nos une tanto quanto afasta, mas que, no final das contas, prova que sou filho da minha mãe e somos mais parecidos do que eu, muita vezes, gosto de admitir. Se eu reclamo com mais graça e leveza em um blog de humor, isso demonstra apenas que tenho minha própria personalidade. Sou filho, mas ainda sou Fred. Vou até ela, dou um beijo em sua testa branca que mal demonstra as primeiras rugas a trair sua idade e lhe dou parabéns pelo Dia das Mães. Ela me dá um abraço meio sem jeito e agradece. Me viro pra sair do seu quarto e escuto aquela voz, inescapável:
- Mas veja se dava pra você ajeitar logo esse problema da Internet, não agüento mais!
Deixo o quarto em silêncio, resignado. Tenho a quem puxar, embora eu interiorize um pouco mais as minhas queixas, que também são muitas. Mas as mães, imagino, são assim mesmo. Exageram, fazem drama, tempestade em copo d’água e reclamam. Muito. Não é por mal. Geralmente. E elas, afinal de contas, já agüentaram bastante quando éramos crianças birrentas e adolescentes espinhentos. Por essas e outras mais, desejo a todas as mães um ótimo dia e, corajoso, ainda digo: reclamem bastante, que esse dia é de vocês!
Só não exagerem durante o resto do ano, pelamordejesuscristo.

Comunidade reclamativa




Pessoal, hora de reconhecer, mais uma vez, o excelente trabalho realizado pela filial do blog lá no Ceará! A franqueada e amiga Henna Roberta acaba de criar a comunidade do blog no Orkut!

Para vistar a comunidade, clique aqui!

Mais uma vez agradecendo o empenho do grande povo do Ceará e de sua cidade mais nobre, Bacumichá!

Por Bacuminhááááááá!!!!!!!!!!!!!!!!

sábado, 8 de maio de 2010

Calor do cão II




Recife é quente em todo lugar, mas dependendo de onde você mora, a coisa piora. Quando se vive em um apartamento na beira-mar de Boa Viagem, no 35º andar e tem-se a brisa marinha invadindo os cômodos e o azul do mar sem fim como proteção de tela da sua varanda, o calor é bem mais manejável.
Não é o meu caso.
Moro num conjunto formado por dois prédios de três andares cada um, na beira-canal, um endereço um tanto quanto menos nobre do que o citado acima. Aqui,a gente reza pro vento não vir do lado do Oeste. Quando isso acontece, é preciso abandonar o apartamento às pressas ou recorrer a máscaras de gás. O nome do meu prédio é Feitor. Fica ao lado do edifício Escravo. Não, é sério. Sério. Caralho, já falei que é sério. Não tem elevador, de maneira que sair de casa é sempre um exercício. Foi visitar um amigo ali perto? Descer escada, subir escada, banho. Vai comprar pão na esquina? Mesma coisa. Esqueceu a carteira na padaria? Se fudeu, já levaram, melhor nem sair de casa mais.
O conjunto é virado para o Norte, com o nosso apartamento no lado poente. O calor se acumula nas paredes durante a tarde e irradia pelos quartos durante a noite, em forma de microondas. Tenho certeza de que já estou estéril. Pra escapar, só indo para o janelão da sala. Que vai dar direto na lavanderia do vizinho do edifício Escravo. Nada como ter cuecas sujas e alheias como paisagem. A cozinha toda é um forno só. Não precisa usar o fogão, basta deixar a comida fora da geladeira que fica tudo pronto, espontaneamente. Demora mais um pouco, mas funciona, já testei. O quarto de empregada é considerado fora dos limites de habitabilidade humana. Nada pode viver lá, com a exceção de alguns poucos microrganismos que prosperam em temperaturas inaceitáveis para criaturas pluricelulares. Não sei se alguém já viveu nessa estufa maligna, mas às vezes, nas noites mais quentes de Verão, tenho a impressão de ouvir barulhos estranhos e lamentos sobrenaturais vindos daquele quarto. Alguma empregada já  bateu as botas ali. E não perdoou. Possivelmente, derreteu até a morte e seu ectoplasma fundiu-se ao cimento das paredes. Por isso que esse apartamento saiu tão barato.
Mas enfim, chega de reclamar. Falemos de soluções. Até porque, eu prometi. Bem, é evidente que o calor seria ao menos medianamente dissipado caso houvesse vento circulando no apartamento. O problema é que, por motivos além da minha compreensão, as correntes de ar desviam daqui. Sério. Elas passam pelo lado de fora da janela e vão pra outros lugares. Ou voltam por onde vieram. Ou ficam apenas lá, observando, de sacanagem mesmo, sem nunca entrar. É por isso que desenvolvi o hábito de dormir ajoelhado em uma cadeira encostada na janela, com a cabeça e os braços jogados pra fora, ao alcance da brisa. Admito que existe uma série de problemas de ordem ortopédica e de segurança em relação à esse posicionamento. Pode ser desconfortável quando chove. Às vezes acordo cagado de pombo. Mas entre isso e cozinhar em meu próprio suor, vou pela primeira opção. Porém, só por segurança, se for fazer isso na sua casa, amarre uma corda na sua perna e conecte-a à sua cama.
Vai que tu é sonâmbulo.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Calor do cão




Talvez nem todos vocês saibam, mas nas horas vagas eu faço experiências científicas com o objetivo de melhorar a qualidade de vida da humanidade de maneira geral e do povo do Recife especificamente. Ultimamente, venho me concentrando no problema que mais fustiga os espíritos já alquebrados dos pernambucanos da capital, uma bronca tão pesada que nem toda aquela bomba de cavalo que Cardinot injeta na virilha consegue resolver.
Se você chutou que esse problema é “calor do cão que me afoga em meu próprio suor a me faz ter vontade de assassinar pessoas aleatórias”, acertou. É exatamente isso. As altas temperaturas afetam de forma decididamente negativa a vida diária dos recifenses, obrigados a tomar uma média de 9 banhos diários, que fazem com que as pessoas desbotem feito aquelas camisas de R$ 5,99 que se compra na Cattan. Quer dizer, que vocês compram, eu não. Só compro no Mercado São José. E só adquiro minhas cuecas no brechó. Gosto que minhas roupas íntimas tenham uma história pra contar. Mas eu divago, eternamente. Sim, o calor. Calor este que desodorante nenhum dá vencimento. Cristo só morreu na cruz porque nunca teve que pegar ônibus no calor do Recife. Sorte dele, via crucis mesmo é agüentar o Candeias/Dois Irmãos do começo ao fim. Nessa quentura infernal, todos fedem. O motorista fede. O cobrador fede. O pedreiro gordo e suado, empanado em uma grossa camada de cal fede pra caralho. Aquela boysinha que estuda Direito na Católica, super gostosa, que você sempre quis pegar? Velho, na moral, espere o Verão acabar antes de chegar nela.
E ninguém tá nem aí, porque não há mesmo muito que se possa fazer. Ou será que tem? Nos próximos posts, tentarei oferecer soluções criativas para sobrevivência básica a esse mormaço assassino que toma conta da nossa cidade.
Fiquem ligados e não invistam num ar-condicionado por enquanto.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

A porta


Me levantei da banca e deixei a sala de aula. Lá dentro, o professor explicava, com seu sotaque quase cômico, que os artigos, em alemão, simplesmente não possuíam regras. Me pareceu a hora perfeita para usar o banheiro, uma vez que, ausente de regras, uma explicação torna-se um mero exercício de memorização. E isso podia esperar até que eu voltasse do sanitário. Caminhei pela fileira homogênea de armários de metal, passando pela banheiro feminino, buscando chegar ao seu equivalente masculino, em direção diametralmente oposta.
Nada.
Um tanto confuso, refiz meus passos até o inicio da galeria de armários. Encontrei o banheiro feminino e voltei pela direção oposta, agora mais lentamente. Mais uma vez nada. Apenas fileiras intermináveis de armários metálicos perfeitamente simétricos. Estéreis.
O banheiro masculinho simplesmente não estava lá.
Fiquei em pé, confuso, meu cérebro tentando formular explicações racionais para uma situação tão bizarra. Nenhum som escapava das salas de aula do CAC agora. Não havia o ruído de estudantes conversando ou de pés se arrastando pelos corredores. Envolto pela penumbra criada pelas velhas lâmpadas que se esforçavam, quase em vão, para expulsar a noite daquele local, meus ouvidos começaram a registrar aquele inusitado silêncio. Havia uma estranha imobilidade no ar, uma calmaria expectante. O olho do furacão. Ansiosos, os armários me observavam com seus cegos olhos de metal. Foi então que percebi. Estava bem na minha frente, todo aquele tempo. Me esperando.

Um armário, como todos os outros, e atrás dele, uma porta. Intrigado, afastei a peça de mobiliário, que ofereceu pouca resistência aos meus esforços. Parecia querer se mover e revelar o que escondia atrás de si. Era, de fato,a entrada para o sanitário masculino. Estaquei, em dúvida. Por que a porta do banheiro masculino estaria oculta daquela forma? Quem faria tal coisa? O silêncio ao meu redor havia evoluído para um pulsar cadenciado, reverberando em meus ouvidos. Um ritmo surdo, que se espalhava pela minha pele, ossos, sangue e coração. Estendi a mão suada e abri a porta.

Dentro, escuridão total. Uma réstia de luz corajosa ousava invadir aquele negror, revelando uma parte dos lavabos e o espelho na parede em cima deles. Meu reflexo parecia estranho, pouco definido. Não natural. Fitei meus próprios olhos, buscando conforto e familiaridade e encontrei apenas escuridão. O pulsar tornava-se mais alto, me impelindo a avançar em direção as trevas. Dei um passo para dentro. Mais outro. Com os olhos adaptados à ausência de luz, consegui identificar, à minha direita, a fila de cabines individuais de sanitários, suas portas escancaradas. Menos uma.
O pulsar pára, repentinamente. Meu olhar é irresistivelmente atraído para aquela porta cerrada. Me aproximo, devagar. Ergo a mão e toco a superfície estranhamente fria da madeira. A luz atrás de mim parece morrer aos poucos, agonizando, desistindo de lutar. As trevas não aumentam, ficam apenas mais densas, quase palpáveis. Me envolvem como uma teia de escuridão, tecida por algo antigo, uma coisa sem explicação, grávida de malícia, uma mente dominada por propósitos por demais alienígenas para que a mente humana possa ao menos começar a compreender. Sinto o meu cérebro ser invadido por visões de horror indescritível, uma torturada existência afastada da luz e do calor, eternamente vagando por intermináveis corredores repletos de armários enferrujados, para sempre encontrando aquela porta oculta, revelando segredos sombrios que pessoa alguma jamais deveria conhecer.
Páro. Caminho lentamente para trás. O pulsar retorna, urgente. Chamando. Implorando por mim. A luz parece renovar-se, fazendo com que as sombras abandonem, apressadas, seus esconderijos infectos. Viro-me para a passagem e saio do banheiro. Lá dentro, ouço a cabine do sanitário se abrindo lentamente. Com as mãos trêmulas, fecho a porta do banheiro. O pulsar agora é um tambor, rufando no ritmo do meu coração descompassado. Por baixo da horrenda pulsação, um som de arrastar, bizarro e, ainda sim, estranhamente familiar, como que saído de alguma região primitiva do meu cérebro, dormente, porém jamais esquecido. Em pânico, tento recolocar o armário no lugar. O mobiliário, antes tão leve, agora encontra-se pesado, obstinadamente imóvel. O pulsar é insuportável. Sinto que a coisa está quase chegando à porta, sua presença imunda roubando a força das minhas pernas. Desesperado, jogo meu corpo contra o armário, sentindo uma dor aguda causada por suas protuberâncias metálicas.
A pulsação pára. O som de arrastar desapareceu. Olho ao redor e vejo que me encontro no início da fileira de armários. A luz, antes mortiça, agora se espalha saudavelmente por todo o local. Ao longe, escuto o tagarelar dos estudantes deixando suas salas de aula. Me afasto, cambaleando, daquele estranho lugar. Um tanto trêmulo, retorno à minha aula de Alemão, que já está se encerrando. Ao notar minha face pálida, um dos estudantes comenta, brincalhão:
- Meu irmão, velho, o que foi que tu comeu?
Forço um sorriso no canto dos lábios, murmuro um boa-noite para as pessoas e me retiro. Voltando para casa, faço a mim mesmo um juramento que jamais pretendo quebrar.
Nunca mais, na minha vida, vou no banheiro do CAC.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Cleycianne




Chegou a hora de tirar o chapéu pra quem entende de verdade de reclamação. Apresento a vocês Cleycianne, auto-proclamada “modelo fotográfica e Cristã batizada”. Cleycianne, que tem um nome tão escroto que meu Word 2007 se recusa a aceitar como sendo uma palavra verdadeira, leva as reclamações a um patamar muito mais elevado, soltando o verbo contra os homossexuais passivos, as lésbicas masculinas, Lady Gaga, Justin Bieber, BBBs, ensaios devassos da Playboy, sexo anal e outras claras manifestações do demônio. Cleycianne sabe bem do que fala e é ungida em Cristo, lavra pomba-gira!
Por enquanto, este continua sendo um blog anáquico-pagão-democrático, mas confesso que a irmã Cleycianne estremeceu as bases da minha (falta de) fé. Não se espantem se, qualquer dia desses, vocês abrirem o Blog da Reclamação e encontrarem posts ungidos em Cristo e amarrados 3 vezes pelo Senhor! Cleycianne, nós te amamos e queremos ser salvos por você, não desista de nós, reclamenautas!
Mas, enquanto a salvação não chega, diz aí...alguém viu a Playboy daquela gostosa do BBB?

Agradecimentos ao jornalista em Cristo Diego Gouveia por me mostrar a salvação. Como ele costuma dizer, fica a dica de Cleycianne!