Sábado, 08:00 horas da manhã. Um dia e horário criados por Deus para que os seres humanos descansem de suas atribuições diárias, dormindo mais um pouco e, mais tarde, encontrando os amigos e família para relaxar. Um pensamento que me transmite paz, firmemente enraizado no meu subconsciente.
Até ser brutalmente arrancado, como uma erva daninha, por um som profano vindo da rua:
- Olha o gás! Apenas 30 reais! OLHA O GÁS!
Transtornado, me levanto e vou até a janela, a tempo de ver o caminhão se afastando pela rua, os alto-falantes berrando suas promessas de gás de cozinha barato. Apenas 30 reais. Respiro profundamente, olho para o meu colchão, minha silhueta eternamente marcada pelo suor em sua superfície, depois de noites e mais noites mal dormidas de Verão. Volto para a cama e tento recuperar o sono perdido e prometido pelo Senhor.
Mas eis que um grito medonho parte da rua e invade meus ouvidos, atingindo em cheio meu cérebro cansado.
- Macaxeira! Macaxeira! MACAXEIRA!
Dessa vez eu pulo da cama e corro para a janela. Minha respiração pesada forma pequenas bolhas na saliva que escorre pelo canto da minha boca retorcida de ódio. Consigo suprimir o instinto de gritar ensandecidamente e, em silêncio, imagino todas as formas não-cristãs através das quais eu poderia forçar uma interação não-natural entre o vendedor e sua macaxeira. Aos poucos me acalmo. Minha visão, escurecida pela raiva e pelo princípio de infarto, lentamente começa a clarear. Volto para a cama, me deito e fecho os olhos. Como um mantra, repito baixinho para mim mesmo que, afinal de contas, era sábado, o dia do descanso escolhido por Deus. Ele não me deixaria na mão daquele jeito. Mais calmo, senti que meu corpo mergulhava lentamente no sono tão almejado.
Até que o Criador, em sua cólera divina, senso de ironia e, provavelmente, falta do que fazer, me faz escutar mais um grito bisonho, um estupro auditivo tornado ainda mais revoltante pelo conteúdo do que estava sendo berrado.
- Hoje tem missa no Templo da Salvação! Ao lado da Borracharia do seu Zezinho Catinguelê! Templo da Salvação! TRAZENDO PAZ PARA A SUA VIDA!
Sinto o ódio sendo bombeado pelas minhas veias, no ritmo do meu coração enlouquecido. Salto da cama, deixo o apartamento e desço correndo as escadas, sem ao menos me vestir. Abro a porta da rua, tomado por intenções assassinas e idéias horrendas, porém criativas. Sou saudado pela visão do apocalipse. Como em uma convenção do inferno, todos os vendedores ambulantes da cidade e propagandistas de bairro se encontram aglomerados em frente ao meu prédio, competindo entre si aos berros, anunciando seus produtos a plenos pulmões. Vende-se não apenas água mineral, DVDs piratas e cavaquinho. Também se comercializa a perdição do corpo e a salvação da alma, o fim de todos os seus problemas e o início de muitos outros.
Minha visão escurece mais uma vez, as pernas fraquejam e sinto lágrimas quentes escorrendo pelas minhas faces marcadas pelo desespero. De joelhos, sou cercado pela multidão de condenados, que gritam cada vez mais alto, se aproximando de mim, produtos nas mãos e olhos vazios, desprovidos de alma. Meu cérebro desiste, se fecha. Morre.
No alto, Deus sorri.











