quarta-feira, 9 de junho de 2010

Amor que entristece


Só deixando uma coisa bem clara: eu sou doido, maluco, ensandecido, pirado pela minha cidade. Pode até não parecer, já que eu escrevo em um Blog de reclamações cuja inspiração maior é, justamente, o próprio Recife. Sei que passo os dias e os posts descendo o cacete nas cercanias, mas é tudo na boa intenção. Freqüentemente, o prefeito me liga chorando. Bem, na verdade, é mais uma respiração pesada do outro lado da linha, uns soluços suspeitos e gemidos animalescos, mas só posso chegar à conclusão de que é o Prefeito, angustiado com minhas bem-intencionadas críticas. Mas uma coisa eu garanto; eu amo este lugar.
Recife é uma cidade peculiar ao extremo, cujos nativos parecem viver em uma freqüência um pouco diferente da dos habitantes de outras metrópoles. Parte disso vem do verdadeiro excesso de cultura que transborda por aqui. São tantas manifestações, estilos de música e dança diferentes, folclore, teatro, artes plásticas, Gastronomia, cinema e tantas outras coisas que fica difícil, às vezes, encontrar um recifense assim, totalmente normal. Por outro lado existe a rica História que formou o povo daqui, um dos mais rebeldes do Brasil e que sempre foi chegado em superlativos e inovações. Por essas e outras que temos aqui a primeira sinagoga das Américas, o restaurante mais antigo do Brasil ainda em funcionamento, o jornal mais antigo das Américas em circulação, o primeiro observatório astronômico do país, a avenida mais comprida em linha reta do mundo e muito mais. O Recife transpira História, mas infelizmente, boa parte dela ainda se encontra escondida ou abandonada ao descaso, enquanto os recifenses caminham alheios às riquezas ocultas nas velhas ruas da cidade.
Quer uma prova? Então siga esse roteiro:
1-    Vá até a Avenida Conde da Boa Vista, no bairro da Boa Vista, um dos maiores e mais antigos do Recife, bem no coração da cidade.
2-    Dependendo do sentido, pode ser no começo ou no final. Para quem vai pela Avenida Guararapes, é no começo, ali perto da lanchonete pseudo-árabe Habib’s.
3-    Se foi de ônibus, atravesse a rua. Se foi de carro, se arrombou, porque vai levar multa. Pois é.
4-    Olhe para o alto e você deve encontrar o templo da Primeira Igreja Batista do Recife, uma das mais antigas do país. Um prédio modesto, mas muito bonito e que por si só já valeria a visita.





5-    Entre no templo pelo portão de ferro preto que fica à esquerda e suba as escadas. Quando sua cabeça estiver acima do muro, volte sua visão para a esquerda e se impressione.


















6-    Parabéns. Você acaba de encontrar aquela que é, provavelmente, uma das lojas maçônicas mais antigas do Brasil, possivelmente das Américas. Guardada por uma dupla de grifos com feições femininas e encarando um pátio de pedras portuguesas, o edifício tem aquele estilo antigo, clássico e misterioso, tão comum à arquitetura do centro da cidade.
Como se pode ver pela imagem, a edificação já viu dias melhores. O acabamento e fachada estão em péssimo estado e o prédio todo encontra-se, incrivelmente, totalmente cercado por prédio maiores, que impedem que a loja seja vista pelas pessoas da rua. O pátio, acreditem se puderem, hoje serve apenas como estacionamento, provavelmente para os lojistas que trabalham na área, como pode ser visto na imagem abaixo.



E assim, um local cheio de História, que deixaria Dan Brown verde de inveja, permanece desconhecido para os habitantes do Recife, que mal sabem o que se encontra logo atrás da parede da lanchonete, enquanto saboreiam suas esfihas de R$ 0,49. O prefeito que me perdoe, juro não gosto de vê-lo chorar, mas por que tal coisa acontece? A loja maçônica, claro, é apenas um exemplo. Caminhar pelo Recife não é só respirar História, é se angustiar pelo estado em que a mesma encontra-se preservada em nossa cidade.
Reafirmo: amo minha meu Recife.
Mas freqüentemente me entristeço ao caminhar pelas suas ruas.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Veículos ridículos II


Se é para ter um veículo, que seja um que imponha um mínimo de respeito. Ou ao menos que seja identificado como um meio de transporte de fato. Hoje em dia, existe todo tipo de veículo escroto nas ruas da cidade e nem sequer é possível entender como funcionam ou para que servem exatamente. Por exemplo, alguém sabe me dizer o que, em nome da foda, é essa coisa aí embaixo?






É como se uma lambreta tivesse dado para uma caminhonete e o filho nascesse anão. Não sei bem em que categoria se pode alocar um veículo assim, porque não cheguei a perceber claramente para que serve esse troço. Talvez seja apenas uma motocicleta com rodinhas, para quem ainda está aprendendo e precisa de um grande bagageiro, certamente para acomodar toda a humilhação que já não cabe mais no coração do motorista. Ia observar que não existem portas, o que já testemunha contra a segurança do veículo mas, por outro lado, quem ia querer roubar uma bosta dessas? A única vantagem parece estar na hora de fazer a manobra ao estacionar, já que a parte frontal praticamente não existe. É claro que, em caso de acidente, a fé no divino é a única coisa que permanece entre o motorista e uma morte horrenda despedaçado sobre o capô do veículo da frente.
Mas ao menos estamos falando aqui de uma aberração da natureza. Um ser nascido da união impura entre duas espécies diferentes e não-tementes à Deus, despreocupadas que sua prole pudesse, um dia, horrorizar os transeuntes e outros carros. A culpa é dos pais, não da criança.
Mas o que dizer dessa besteirinha lá no fundo da foto?







Não, sério. Que porra é essa? Quem foi que roubou a dignidade desse carro e depois o obrigou a exibir sua desonra pelas ruas de Setúbal? E, mais importante, quem em sã consciência sai por aí dirigindo um veículo desses? Será que é para as pessoas terem pena e darem passagem no engarrafamento? Vai ver é alguém que não agüenta mais a falta de estacionamento no Recife e resolveu radicalizar, adquirindo um veículo de bolso. Você acha cútchi-cúcthi? Eu não.  Eu acho que é coisa de tabarel. Claro que essa é apenas uma das formas de se interpretar a coisa. Já foi dito que o tamanho do carro é inversamente proporcional à genitália de quem o dirige. Se for este o caso, esse motorista possui um membro de proporções bíblicas, provavelmente ocupando todo o banco do passageiro. Deus me defenda de pegar uma carona com ele.
E é por essas e outras que prefiro ficar com minha velha bike. Está caindo aos pedaços e sua presença certamente ofende o senso de estética alheio.
Mas é uma bicicleta de verdade.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Veículos ridículos


Se locomover pelo Recife, sabemos todos, não é uma tarefa fácil. As opções de ônibus e metrô não são as ideais e nem atendem as necessidades da população que, sem opção, é obrigada a suportar uma rotina de filas, solavancos, calor indescritível, odores nauseabundos e amolegamento incessante ao se utilizar do sistema público de transporte. Uma considerável parcela dos cidadãos recifenses, contudo, possui seu próprio veículo, podendo se deslocar para onde bem entenderem, sem passar pelos perrengues diários citados acima. Pelas ruas da capital pernambucana desfilam desde clássicos populares, como o Fusca, que possui um clube de dedicados entusiastas, até importados de marcas famosas, sendo comum a presença de BMWs, Land Rovers, Beatles e até mesmo uma ocasional Ferrari, que eu nunca vi, mas me garantiram que existe.
Já o meu veículo particular é esse que se encontra abaixo.









Sou o orgulhoso proprietário de uma bicicleta popular herdada da minha amiga alemã, Lucy. A bike mesmo não é européia, muito menos germânica. Foi comprada, de segunda mão, do mecânico de bicicletas, ali no caminho para o aeroporto do Recife. E é do tipo que é vendida em supermercados. O freio dianteiro não funciona direito, o traseiro só quando eu aperto o arame de contato simultaneamente, o banco caiu e as marchas mudam sozinhas quando passo por um buraco. Por motivos alheios à minha compreensão, ambas as câmaras de ar, trocadas recentemente, continuam murchando em um ritmo alarmante. Os pedais engancham com freqüência e a corrente só pode ser manuseada depois de uma injeção anti-tetânica. O adesivo descascou em boa parte do quadro e essa pintura cor de ferrugem que pode ser observada na imagem é, de fato, ferrugem mesmo. Os pneus estão calvos e as rodas fazem mais barulho do que um Fiat 147. A bicicleta é tão feia e velha que eu tenho certeza que, de alguma forma, agride o meio-ambiente toda vez que é usada. Ou até quando está parada mesmo.
Mas, por Deus, é uma bicicleta honesta. Uma bike de verdade, sem frescuras nem firulas. Produto de um tempo quando os homens eram homens e esses mesmos homens possuíam poucos escrúpulos em relação ao seu meio de transporte pessoal e muito menos em relação à própria integridade física. Muito diferente dos veículos ridículos, com rima mesmo, que podem ser encontrados por aí hoje em dia.
Mostrarei alguns, aguardem.

sábado, 5 de junho de 2010

Se continuar assim...




Mais uma vitória? Pera, deixa eu confirmar...

É, confere. Mais uma vitória do povo. O presidente Lula aprovou, sem alterações, o Projeto Ficha Limpa. Tá nas mãos do Judiciário agora e daí pra virar lei é um pulo. Sabe, ando achando muito esquisita essa onda de boas notícias. Não é normal. E, pior ainda, vai acabar me deixando sem assunto. Logo vou ter que mudar o nome disso daqui. Blog do Otimismo? Blog da Vitória? Blog do céu cor-de-rosa cheio de nuvens de algodão-doce e pequenos pôneis brincando com ursinhos carinhosos?

Mas nem fudendo.

É, tá bom, tudo muito legal por enquanto. Mas eu conheço a natureza humana. Logo logo alguém, em algum lugar, fará com que eu me sinta envergonhado de ter os mesmos cromossomos que ele. É inevitável. O Blog da Reclamação jamais terminará, pois as queixas são eternas. A insatisfação é humana, a sacanagem é divina.

Aguardem.

Notícia enviada pelos reclamenautas Fátima Germana e Mauro Galhofeiro Rossiter. Valeu!

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Loucos por vitórias! II

E se você duvida da vitória popular e quer provas irrefutáveis, abaixo segue o vídeo no qual o Prefeito do Recife João da Costa rasga seda, faz propaganda de si próprio e fala mais que a nêga do leite. No meio disso tudo, claro, anuncia oficialmente que a Tamarineira não pertence mais a Santa Casa, jamais se tornará um Shopping Center e que as unidades de saúde deverão conviver lado a lado com o parque em si, aberto a toda a população.








João da Costa, você parece o Chapolim Colorado.

Mas se garante.

Vídeo surrupiado diretamente do sempre relevante Blog do Jornalista Jamildo Melo.

Loucos por vitórias!




Semana de vitórias no Blog da Reclamação! E a de hoje é a excelente e, confesso, inesperada notícia de que o Prefeito do Recife, João da Costa, desapropriou o terreno do Hospital da Tamarineira, garantindo assim sua preservação. A Santa Casa, que detinha os direitos sobre o local através de um documento que ninguém jamais viu, foi obrigada a recuar.
Tudo muito bom. Mas agora a luta é outra. Por que não transformar a Tamarineira em um parque, abrindo sua visitação à toda a população de uma cidade tão carente de parques e áreas verdes como a nossa? As árvores e edificações centenárias já estão lá, seria uma questão apenas de criar alguns equipamentos de lazer mais específicos e proporcionar acessibilidade e segurança a todos os freqüentadores. A área verde, que é o mais importante, viria de mão beijada. Recife precisa de mais um parque? Não. Precisa de muito mais do que apenas um. Qualquer pessoa que volte de um passeio por uma cidade com um projeto urbanístico civilizado sabe a falta que fazem as áreas verdes dentro de uma metrópole. Nem precisa ir para Munique ou Paris. Exemplos como a tupiniquim Curitiba mostram que uma cidade verde é uma necessidade, não um charme a mais. E podemos conseguir. Depende de nós lutarmos por um Recife cada vez mais preservado.
Cada vez mais verde.
Agradecimentos ao amigo Alberto Penaforte por me passar a notícia dessa grande vitória da reclamação popular!

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Vencemos!







 
Pessoal, é com muita satisfação, felicidade e orgulho que venho, através deste post, comunicar que meu conto venceu a promoção do site Assomblog! O jornalista Roberto Beltrão, através de e-mail, me comunicou hoje que o conto que eu enviei e publiquei primeiro aqui no Blog da Reclamação, foi o ganhador. Nem sei como agradecer direito a todos os que sempre me apoiaram nas minhas experimentações literárias, mas eu preciso destacar a fidelidade de alguns leitores que sempre estiveram presentes aqui no Blog da Reclamação, lendo, comentando, interagindo e, claro, reclamando.
Por isso, agradecimentos especiais a Alberto Penaforte, Chico Fagundes, Mauro Galhofeiro Rossiter, Lorena Bezerra, Henna Roberta, Lúcia Fischer, Fátima Germana e meu irmão e eterno apoiador, Saulo Toscano. É por causa do apoio de vocês e muitos outros visitantes anônimos que me empenho em escrever mais e melhor, todos os dias!
Mas não pensem que vou ficar só naquela história. Vem muito mais terror por aí, podem ter certeza. Claro, sem jamais deixar de lado as minhas queridas reclamações!
Um abraço a todos e mais uma vez obrigado!






Se trabalho fosse bom... II


Sim, trabalhar é uma droga e alguns empregos são piores do que outros. Isso já ficou bem determinado. E sendo este o caso, o cidadão tem mais é que abrir o bocão e reclamar mesmo. Só que tem gente que faz isso de barriga cheia. Tipo, cheia mesmo, abarrotada. Tudo bem, não existe trabalho perfeito, sempre tem uma coisinha nele que vai te incomodar.
Mas tudo tem limite.












Para o profissional retratado acima, fica a dica: a Turma do Fom-Fom está recrutando para o próximo semestre.
Vai lá. Desgraçado.



Reclamação sugerida pela amiga e leitora das mais fiéis, Fátima Germana! Valeu!

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Se trabalho fosse bom...




Se você trabalha, então é um reclamador. Ponto. O trabalho, todos sabemos, é um mal necessário e próprio da condição humana. É um terreno fértil de reclamações das mais diversas, em graus mais ou menos justificados. O problema, muitas vezes, tem a ver com elementos periféricos, porém inescapáveis do trabalho. Colegas, chefes, subordinados e por aí vai. Outras vezes, a natureza do emprego em si já é motivo mais do que suficiente para queixas.
Tomemos o exemplo do gari. Poucas profissões são mais ingratas do que essa. Passa-se o dia, muitas vezes as madrugadas, recolhendo o lixo alheio. Ou seja, todas as porcarias que você acha inadequadas para o consumo humano ou que já não possuem mais qualquer tipo de utilidade discernível são o objeto de atenção do gari. Condições insalubres, convivência com pragas como ratos, baratas e testemunhas de Jeová, além de horários completamente insanos são comuns a esse trabalho. Carregando latas e mais latas de lixo e correndo atrás do caminhão de recolhimento enquanto toma cuidado para não cair no triturador, o gari é uma espécie de super atleta da limpeza pública. E no meio dessa dureza toda, os caras ainda escutam gracinhas como “lá vai o cenourinha” ou “eita, o cachorro mordeu o saco do tomatinho”, fazendo referência à cor do uniforme desse trabalhador, que costuma variar de acordo com o local onde se exerce a função.
Um caso mais regional e peculiar de profissão amaldiçoada é, sem dúvida, a exercida pelos integrantes da Turma do Fom-Fom. Para quem não mora no Recife ou simplesmente não sai de casa, a Turma do Fom-Fom é uma iniciativa da prefeitura de educar motoristas e pedestres, aumentando assim o respeito pelas leis de trânsito. Isso geralmente é feito através de intervenções lúdicas e alegres pelas principais ruas e avenidas do Recife, com a participação de personagens coloridos e atraentes.
O que, na verdade, é só uma forma diferente de dizer que os coitados passam o dia vestidos de palhaço enquanto são escrotizados pelos transeuntes, incessantemente.
Fazer parte da turma do Fom-Fom é muito, muito ruim e não há dinheiro que compense o ridículo diário que essas pessoas precisam passar. Mas dentro da galeria de personagens do grupo, um tipo específico se destaca como sendo o menos desejado para o ator que o interpreta. Não, não é o Bruxo Barroada, mas sim a figura da própria Morte. Para interpretar a indesejável, o sujeito precisa colocar uma máscara de borracha de caveira, do tipo que bloqueia todos os poros, matando a pessoa aos poucos por sufocamento. Além disso, é preciso se vestir de preto da cabeça aos pés e ficar pulando para cima e para baixo nos sinais de trânsito, em horários de grande movimento, como ao meio-dia, por exemplo. No calor do Recife. Não é incomum, ao se caminhar pela cidade, encontrar personificações da morte jogadas pela sarjeta, afogadas no próprio suor acumulado nas máscaras de látex. Os casos de insolação são comuns, daí o motivo de se ver tantas Mortes por aí, balbuciando frases incoerentes enquanto seus corpos se contorcem de agonia devido ao calor extremo. Se em perfeitas condições de saúde esse pessoal já é desrespeitado, quando estão vestidos de caveira e gaguejando disparates eles se tornam alvos preferenciais dos motoristas, que agora já sobem com seus carros nas calçadas, tudo para se certificarem de que abateram o espectro medonho.
Por isso, pensem duas vezes antes de reclamarem do trabalho de vocês.
Sempre, sempre pode ser pior.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Não dormirás




Sábado, 08:00 horas da manhã. Um dia e horário criados por Deus para que os seres humanos descansem de suas atribuições diárias, dormindo mais um pouco e, mais tarde, encontrando os amigos e família para relaxar. Um pensamento que me transmite paz, firmemente enraizado no meu subconsciente.
Até ser brutalmente arrancado, como uma erva daninha, por um som profano vindo da rua:
- Olha o gás! Apenas 30 reais! OLHA O GÁS!
Transtornado, me levanto e vou até a janela, a tempo de ver o caminhão se afastando pela rua, os alto-falantes berrando suas promessas de gás de cozinha barato. Apenas 30 reais. Respiro profundamente, olho para o meu colchão, minha silhueta eternamente marcada pelo suor em sua superfície, depois de noites e mais noites mal dormidas de Verão. Volto para a cama e tento recuperar o sono perdido e prometido pelo Senhor.
Mas eis que um grito medonho parte da rua e invade meus ouvidos, atingindo em cheio meu cérebro cansado.
- Macaxeira! Macaxeira! MACAXEIRA!
Dessa vez eu pulo da cama e corro para a janela. Minha respiração pesada forma pequenas bolhas na saliva que escorre pelo canto da minha boca retorcida de ódio. Consigo suprimir o instinto de gritar ensandecidamente e, em silêncio, imagino todas as formas não-cristãs através das quais eu poderia forçar uma interação não-natural entre o vendedor e sua macaxeira. Aos poucos me acalmo. Minha visão, escurecida pela raiva e pelo princípio de infarto, lentamente começa a clarear. Volto para a cama, me deito e fecho os olhos. Como um mantra, repito baixinho para mim mesmo que, afinal de contas, era sábado, o dia do descanso escolhido por Deus. Ele não me deixaria na mão daquele jeito. Mais calmo, senti que meu corpo mergulhava lentamente no sono tão almejado.
Até que o Criador, em sua cólera divina, senso de ironia e, provavelmente, falta do que fazer, me faz escutar mais um grito bisonho, um estupro auditivo tornado ainda mais revoltante pelo conteúdo do que estava sendo berrado.
- Hoje tem missa no Templo da Salvação! Ao lado da Borracharia do seu Zezinho Catinguelê! Templo da Salvação! TRAZENDO PAZ PARA A SUA VIDA!
Sinto o ódio sendo bombeado pelas minhas veias, no ritmo do meu coração enlouquecido. Salto da cama, deixo o apartamento e desço correndo as escadas, sem ao menos me vestir. Abro a porta da rua, tomado por intenções assassinas e idéias horrendas, porém criativas. Sou saudado pela visão do apocalipse. Como em uma convenção do inferno, todos os vendedores ambulantes da cidade e propagandistas de bairro se encontram aglomerados em frente ao meu prédio, competindo entre si aos berros, anunciando seus produtos a plenos pulmões. Vende-se não apenas água mineral, DVDs piratas e cavaquinho. Também se comercializa a perdição do corpo e a salvação da alma, o fim de todos os seus problemas e o início de muitos outros.
Minha visão escurece mais uma vez, as pernas fraquejam e sinto lágrimas quentes escorrendo pelas minhas faces marcadas pelo desespero. De joelhos, sou cercado pela multidão de condenados, que gritam cada vez mais alto, se aproximando de mim, produtos nas mãos e olhos vazios, desprovidos de alma. Meu cérebro desiste, se fecha. Morre.
No alto, Deus sorri.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

E não param de aprontar...




Vamos lá. Respirando fundo, com calma. Não adianta perder a cabeça. Pronto. Pronto, melhorou. Agora já dá pra falar. Certo, então, não sou muito de enrolação e prefiro botar as cartas na mesa logo. Por isso que tenho que dizer a vocês, de maneira plácida e tranqüila como um lago em um dia sem vento:
Na boa, tão querendo fuder o meio-ambiente.
É a única explicação racional. Querem fuder a mãe-natureza e sem nem pagar uma cerveja ou dar um cheirinho no pescoço antes. Vocês eu não sei, mas eu me sinto profundamente irritado a cada notícia nova acerca dos absurdos que o povo quer porque quer praticar contra o mundo de forma geral. Na boa, me sinto no desenho animado do Capitão-Planeta. Sabe, aquele que tinha um americano, uma russa, uma chinesa, um cara negro de um país genérico da África e um sul-africano com um penteado igual ao do Príncipe Valente e um macaco de bicho de estimação. Era muito ruim, mas por outro lado, naquela época eu provavelmente ainda botava o colchão na varanda de manhã. Ah, a incontinência infantil. Mas eu divago, absurdamente. A natureza, sim. Não tem jeito melhor de acabar com ela do que tornando legal o próprio ato de destruir nossas reservas naturais. É o que andam fazendo na Câmara dos Deputados, sempre ela. Dessa vez, a bancada ruralista quer tentar fazer passar algumas leis um tanto, digamos, controversas do ponto de vista ecológico. São propostas tão absurdas que só podem ser na vera mesmo e aqui vai uma amostra do que os caras andam aprontando:
  • Reduzir a Reserva Legal na Amazônia de 80% para 50%
  • Reduzir as Áreas de Preservação Permanente como margens de rios e lagoas, encostas e topos de morro
  • Anistia aos crimes ambientais, sem exigir o reflorestamento da área
  • Transferir a legislação ambiental para o nível estatal, removendo o controle federal
Volte para o primeiro parágrafo, siga as instruções e tente não perder a cabeça. Eu sei, não é fácil. Mas, ao menos, ainda não é tarde demais pra salvar o Código Florestal atual, que não é perfeito, mas ainda é bem melhor do que essa escrotice que estão tentando aprovar.
É isso. Os caras não vão poder se reeleger, por causa da aprovação do Ficha Limpa, por isso estão desesperados pra cometer a sacanagem culminante de suas vidas e se aposentarem no auge de suas carreiras de escrotos profissionais.
Mas isso só acontece se a gente deixar.

Reclamação sugerida pelo amigo e galhofeiro Mauro Rossiter!


Direito do consumidor


Nós, consumidores, estamos acostumados a sermos enganados diariamente. Todo mundo já passou pela experiência de se interessar por um produto ou serviço que parece bastante atraente na propaganda e que se revela uma total decepção depois que já pagamos por ele. Os campeões de reclamações nessa área são, provavelmente, as operadoras de telefonia e as salas de bate-papo de sexo. Não que eu freqüente alguma. Foi o que me contaram. Isso, me contaram.
Uma vez, comprei um sanduíche pela foto e o que me foi entregue no balcão era uma caricatura tão grotesca e deprimente do que havia sido anunciado que a atendente não conseguiu me olhar nos olhos durante a entrega do produto. Constrangedor para ela, que sabe que está comercializando uma coisa totalmente diferente da propaganda, constrangedor para mim, que sou feito de palhaço mais uma vez.
Tudo bem, entendo que a publicidade tem por objetivo criar uma imagem para os consumidores, dessa forma dominando nossas mentes impressionáveis e nos fazendo gastar nosso dinheiro e o do vizinho, se ele der vacilo. Eu aceito o mundo pelo que ele é. Mas nem todos são assim. Algumas pessoas se rebelam contra essa realidade de promessas partidas e ilusões efêmeras que é a publicidade. Uma prova de reclamação relevante, necessária e, ouso dizer, engajada encontra-se abaixo, importada de além-mar. Não entregaram o produto que havia sido anunciado na TV, tiveram que ouvir reclamação.








Pois é. Depois a gente faz piada e eles acham ruim.