Ia começar às 11:00. Acordei tarde demais, às 10:20 e tomei o banho mais rápido da minha vida, praticamente lavando apenas o rosto e os sovacos, jogando desodorante por cima de tudo e rezando para que, na animação da partida, ninguém notasse. Escovei metade dos dentes, coloquei uma roupa qualquer e saí desabalado com minha fiel bicicleta pelas ruas enlouquecidas de Setúbal. O bairro, por vezes quase bucólico, exibia um tráfego frenético, quando todos os habitantes da região pareciam ter finalmente percebido, ao mesmo tempo, que o Brasil ia jogar dali a meia-hora. Havia combinado de assistir o jogo na casa de amigos, não muito longe, apenas 15 minutos de bicicleta em um dia normal. O que, evidentemente, não era o caso.
Motoristas ensandecidos formavam filas imensas com seus veículos, todos usando suas buzinas incessantemente, verdadeiras vuvuzelas tupiniquins. Desesperado, resolvi invadir a calçada, na esperança de ganhar alguns minutos a mais na corrida contra o tempo. Ingenuidade minha. A coleção de buracos presente em 97,43% do calçamento recifense transformou minha idéia genial em um passeio de Mountain Bike nas trilhas do inferno. A cada solavanco que maltratava meus testículos eu dava adeus a um filho em potencial. Faltavam, naquele momento, 12 minutos para o início da partida. Lembrei que precisava levar um refrigerante e praticamente me joguei de encontro ao expositor de galeto da padaria que surgiu à minha esquerda. Inocente que só eu mesmo, imaginei que seria o único irresponsável tentando comprar alguma coisa àquela hora. Chorei lágrimas de desespero quando vi o tamanho da fila já formada no caixa. Peguei o refrigerante e me posicionei no último lugar. A operadora da registradora, possuída por algum espírito selvagem, passava as compras com uma velocidade e competência totalmente incompatíveis com o que exibia no seu dia-a-dia. A fila andava rápido, mas empacou, claro, na senhora que estava logo na minha frente. Era uma velha de aspecto centenário, semblante cansado e cadeado no peito. Não, não estou querendo escrever poesia aqui. Por algum motivo, a desgraçada andava por aí com um cadeado no decote da blusa.
Na moral, eu nem sei bem o que comentar sobre isso.
Pois é. Perturbador. Talvez Deus, em sua sabedoria, tenha decidido que os homens devem ser preservados da visão de certos horrores ancestrais, condenando aquela pobre senhora a vagar pelas ruas do Recife sem jamais exibir aquilo que se ocultava dentro do seu sutiã. Por esse pequeno milagre, eu sou grato. A estranha mulher finalmente terminou de contar suas moedinhas de 1 centavo, pagou pelas suas compras e partiu. Passei o refrigerante rapidamente, olhando para o relógio a cada 10 segundos. 5 minutos para começar o jogo. Peguei minhas compras, saltei na bicicleta, terminando de assassinar toda a minha futura prole e pedalei loucamente. Pessoas corriam e gritavam pelas ruas, carros subiam pelas calçadas e eu rezava não pela minha segurança no meio daquele caos urbano, mas sim para que o juiz engolisse o apito e precisasse de cuidados médicos, atrasando assim o início da partida. 3 minutos. Escutei um ronco de motor e subitamente minha velocidade aumentou. Olhei para trás assustado e vi que um motoqueiro, impaciente, havia encostado na traseira da minha bicicleta e me empurrava para frente. Como não havia mesmo o que fazer, resolvi aproveitar a carona. Quase na esquina da casa do meu amigo, virei para a direita e ergui a mão em agradecimento ao piloto da motocicleta. Ele retribuiu erguendo o dedo médio e assim permaneceu enquanto se afastava na distância. Venci os últimos metros que me separavam do jogo, prendi minha bicicleta de qualquer maneira e cheguei, finalmente, no apartamento onde meus amigos me esperavam ansiosos. A partida começou. Sentei no sofá, abri o refrigerante e comecei, finalmente, a assistir o jogo que eu havia sofrido tanto para conseguir ver a tempo.
Nesse dia, o Brasil foi eliminado da Copa.












