quinta-feira, 15 de julho de 2010

Dia Mundial do Rock, parte IV : As the Shadows Fall - Epílogo


Tá, tudo bem, o Dia Mundial do Rock acabou faz tempo, mas eu não podia deixar de partilhar esse vídeo. Consegui encontrar, depois de vasculhar a Internet pelos seus recônditos mais obscuros e pervertidos, aquele que é um dos poucos, senão o único, registro audiovisual da seminal banda de Black Metal pernambucana, a saudosa As the Shadows Fall, que teve uma importante parte da sua biografia esmiuçada no último post. Gostaria que os leitores atentassem, ao assistir essa verdadeira raridade videoclíptica, para as deploráveis condições nas quais os rapazes mostravam seu trabalho. O local parece ser a varanda de uma residência, possivelmente a casa da tia de algum dos integrantes da banda. Percebam os vultos fugidios que passam na frente da câmera, encobrindo momentaneamente os músicos. Provavelmente os primos menores vindo conferir a performance do grupo ou simplesmente o tio se deslocando para o banheiro, após se encher de cerveja na tentativa vã de esquecer tudo aquilo que estava presenciando em sua sala de estar. O cinegrafista, compreensivelmente, parece hipnotizado pela figura macabra do vocalista Blackthorn, cujos berros alucinantes soam mais como um ganso histérico sendo impiedosamente violentado por um rinoceronte. Apesar disso, dá para ter uma boa visão do baixista e do guitarrista, me parecendo que o folclórico Thamuz já devia, nessa época, ter abandonado seus companheiros de música.
Mas fiquem atentos mesmo lá pelos 3:40 de apresentação, quando é possível vislumbrar, rapidamente, a figura grotesca do baterista Zephyr, que só podia estar possuído pelo espírito da besta-fera durante a apresentação, de tal forma que a pessoa que documentou o show mal tinha coragem de travar contato visual com o músico.
E agora, sem mais delongas, eu os deixo com o vídeo da música “Awaken of a Timeless Sleep”, da banda As the Shadows Fall. 
Assistam e tentem dormir depois.





terça-feira, 13 de julho de 2010

Dia Mundial do Rock, parte III : O Blog do Moreira



E fechando esse longo especial do Dia Mundial do Rock, o Blog da Reclamação mantém seu compromisso de indicar blogs relevantes e de qualidade. Dessa vez ficamos com o Blog do Moreira, dedicado à, nas palavras do autor, "Rock, tecnologia, motos e coisas anormais do cotidiano". Moreira, músico e jornalista, é também muito bem conectado com a cena de Rock local e quase sempre acerta quais são as grandes atrações que virão para o Recife. Dêem uma conferida no blog dele e aproveitem para dar uma olhada em uma ótima notícia para os fãs de Metal, postada lá recentemente.

Dia Mundial do Rock, parte II : As the Shadows Fall


Para quem não sabe, o Metal, que já é um subgênero do Rock, se divide em várias categorias, todas bastante diferentes entre si. São categorias como Death, Thrash, Melodic, Speed, Doom, Gothic, Symphonic, Progressive, Nordic e outras mais. Todas têm lá suas razões de ser e suas características próprias, tanto em relação ao visual dos seus seguidores, quanto à parte instrumental e letras das canções. Dessas vertentes, uma das mais reconhecíveis, espalhafatosas e difíceis de digerir é o Black Metal. Se você não é fã dessa categoria e nem faz idéia do que seja, tente imaginar um bando de homens mal-encarados, cabeludos, vestindo trajes que têm mais couro e metal do que uma convenção de sado-masoquistas, mostrando rostos pintados ao estilo Secos e Molhados e berrando em uma voz gutural e incompreensível letras rebeldes e satânicas. Dá para imaginar que o público, especialmente em Pernambuco, é bastante restrito. Mesmo assim, a cena local já teve vários representantes, alguns deles fazendo certo sucesso no underground metálico. É o caso da pernambucaníssima As the Shadows Fall. Abaixo segue uma imagem que mostra bem o visual dos caras:



Kiss é o caralho!


Como se pode observar na foto, não são exatamente os genros que a sogrinha pediu a Deus. Evidentemente, essa é uma caracterização para as apresentações ao vivo, eles não pegavam ônibus ou iam até a esquina comprar o pão vestidos desse jeito grotesco, para o alívio da população em geral. Mas não é o caso de se pensar que debaixo da maquiagem infernal e roupas pútridas, estavam os Backstreet Boys esperando para ser descobertos. Em outras palavras, a maioria dos caras era bastante feio mesmo, exibindo uma falta de beleza uniforme que combinava bastante com a proposta do estilo musical. Logicamente, todo grupo tem seu destaque e nesse caso, o baterista Von Zephyr se sobressaía pela absoluta e total feiúra. Claro que esse não é o nome verdadeiro dele, integrantes de bandas de Black Metal costumam usar pseudônimos obscuros da mitologia pagã, religião satanista ou qualquer nome que faça uma Testemunha de Jeová tentar comer a própria bíblia em desespero, junto com os órgãos genitais. Zephyr, que quando caracterizado para uma apresentação parecia mais o demônio, era capaz de assustar homens feitos e fazer com que ateus se convertessem ao cristianismo, de puro medo. Possuía mais de dois metros de altura, braços longos, peludos e musculosos, pele pálida, cabelos que se assemelhavam a uma anêmona saída do inferno e um sorriso capaz de paralisar o coração de um assassino de criancinhas. Inspirado, satanás quis que ele nascesse vesgo. 



Não é Zephyr. Mas, Deus, como chega perto.


Se a luz do seu quarto não estiver apagada e você estiver acompanhado, junte coragem e tente imaginar essa criatura massacrando uma bateria com um décimo do tamanho dele, berrando ensandecidamente e fazendo caretas inumanas e você terá uma leve idéia do que era o show dos caras. Difícil era os outros integrantes acompanharem o ritmo. Ocasionalmente, Zephyr fazia as vezes de segurança do grupo, por motivos mais do que óbvios. É memorável a ocasião na qual a banda se apresentou na saudosa Soparia do Pina, local freqüentado por alternativos, roqueiros, boysinhos e marginais em proporções iguais. Quando um dos espectadores, incauto e possuído por prováveis desejos suicidas, começou a ridicularizar o visual do grupo, os músicos tentaram manter a calma. Mas quando a mesma figura resolveu, por motivos até hoje desconhecidos, chamar o vocalista Blackthorn de “Batman”, Zephyr decidiu que era hora de partir para uma ação drástica. Erguendo-se, o baterista localizou o rapaz que, acreditando-se protegido pelo anonimato do público do show, xingava os integrantes da banda e ria junto com seus amigos.
Ao verem aquela criatura abissal pular a bateria e correr em sua direção coberto de pregos afiados, couro suado e intenções malignas, o grupo de amigos rapidamente retirou-se do local, buscando refúgio dentro de um carro. Isso pouco os ajudou. Um deles tentava, desesperado, enfiar a chave na ignição enquanto os outros observavam, tomados de horror, Zephyr se aproximando tal qual a besta do apocalipse enviada pelo próprio Satã. Quando acercou-se do veículo, o baterista, enfurecido, passou a desferir socos através da janela aberta do banco de trás. Devia ser realmente difícil desviar dos golpes desferidos pelo percussionista possuído, nem tanto pelo espaço exíguo que não permitia muitos movimentos, mas principalmente pelo estrabismo do músico, que olhava para uma direção e esmurrava em outra, pegando suas vítimas completamente de surpresa. Diz a lenda que Zephyr, bufando de ódio e salivando como um animal raivoso, conseguiu, com seu longo braço, atingir todos os três garotos que se encontravam no banco traseiro, seguidas vezes, e o grupo só se salvou porque o motorista, finalmente, conseguiu dar a partida no carro e acelerar loucamente pelas ruas do Recife, certamente parando apenas quando a gasolina acabou. É possível que até hoje eles durmam de luz acesa, lembrando-se daquela noite fatídica na qual suas almas quase foram arrancadas dos seus corpos destroçados pelo baterista do As the Shadows Fall.
Mais uma homenagem do Blog da Reclamação ao Dia Mundial do Rock e um abraço ao amigo Thamuz e todos os integrantes da icônica As the Shadows Fall! Vocês fazem falta.

Dia Mundial do Rock, parte I : Metal no Recife





Pernambuco, capital multicultural do Brasil, terra do maracatu, frevo, caboclinhos e cavalo-marinho, tem espaço pro Rock n’ Roll. Aliás, sempre possuiu vários representantes dessa vertente musical, bandas nacionalmente conhecidas, como a Eddie ou até mesmo internacionalmente reverenciadas, como a Nação Zumbi, fundada pelo saudoso Chico Science. E, embora possa contar com um número tímido de representantes, ao menos quando comparada à uma megalópole como São Paulo, os metaleiros, sub-tribo do Rock, também se encontram representados no estado, especialmente em sua capital.
Curtir Heavy Metal no Recife, é preciso admitir, nunca foi lá tarefa das mais fáceis. O visual estereotipado do headbanger, com cabelos compridos, barba hirsuta e coberto de preto da cabeça aos pés nunca se enquadrou bem à realidade tropical recifense. Ao contrário do que acontece em climas mais amenos, o metaleiro pernambucano costuma cultivar, em seu dia a dia, um visual mais adequado à temperatura local, apenas se utilizando de vestimenta completa em dias de show. É então que verdadeiras hordas de criaturas feias, suadas, cobertas de pêlos e paramentadas em negro se aglutinam como espectros malditos nos cantos mais obscuros da cidade.
Antigamente, como Recife se encontrava fora do circuito de conjuntos internacionais, a maioria dos shows de Metal que acontecia na cidade era de pequenas bandas locais, muitas delas fazendo covers dos seus ídolos favoritos, como Judas Priest, Black Sabbath ou Motorhead. Alguns poucos conjuntos se arriscavam à apresentar ao público suas composições próprias. Sem dinheiro para absolutamente nada, essas bandas faziam seus shows na raça, movidos puramente pela vontade de mostrar seu trabalho. Tocavam em postos de gasolina, debaixo de viadutos e em puteiros. Pois é. Era comum ir a shows nas localidades mais suspeitas do centro do Recife, lugares que não ofereciam o mínimo de conforto, segurança, acústica ou mulheres virgens. De fato, virgem mesmo, só os próprios metaleiros, em sua grande maioria inexperientes em qualquer assunto relacionado ao sexo oposto. Quase todos só haviam tocado em um seio quando mamaram em suas mães, geralmente até os 12 anos de idade. O visual, claro, não ajudava. Levava vantagem quem conseguia, milagrosamente, achar uma fêmea que gostasse de escutar Metal. Essas eram disputadas à tapa, uma raridade em um ambiente onde pessoas de cabelos compridos tinham muito mais chance de ter um pênis oculto em suas calças de couro.
Apesar das dificuldades, os metaleiros conseguiram se reproduzir. Supõe-se que por fissão celular, já que a reprodução sexuada ainda era um mistério para a maior parte deles. Hoje em dia, o Recife possui um público crescente de headbangers, já tendo sido visitado por bandas do porte de Scorpios, King Diamond, Gamma Ray, Blind Guardian, Helloween, Stratovarius e Iron Maiden. Os metaleiros, claro, comparecem em massa para esses concertos, sempre sonhando com a próxima grande banda e com o dia em que finalmente vão ver uma mulher pelada que não seja proveniente da Internet. Tudo bem, esse último está mais difícil, mas os caras são persistentes. E nessa teimosia, acabam compondo mais uma das inúmeras tribos musicais do Recife.
Uma homenagem do Blog da Reclamação ao Dia Mundial do Rock!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Figuras folclóricas: Leão





Se você já passou por qualquer rua, qualquer rua mesmo do Recife, já o viu. Não muito alto, magro, a pele esticada sobre os músculos. Vê-se que a tez, por debaixo da sujeira acumulada ao longo dos anos, é de uma brancura intensa. Algumas tatuagens azuladas pelo tempo, cujo significado está perdido até mesmo para seu dono. Possui cabelos loiros, duros de imundice e suor e o rosto emoldurado por uma barba mal cuidada e empretecida, que por vezes lhe chega até o peito. Os olhos, de um azul turmalino, são cercados por teias de rugas profundas. O nome verdadeiro ninguém sabe ao certo, mas atende pela alcunha de Leão. O que ele tem em comum com o animal que inspirou seu apelido é, talvez, a capacidade de sobrevivência. Não trabalha, mas também não pede esmola nem qualquer tipo de ajuda financeira. Deve dormir em algum lugar durante as noites quentes do Recife, embora ninguém saiba exatamente onde. E de onde tira o alimento que lhe sustenta o corpo castigado é um mistério.
Mas caminha.
E como caminha. Há décadas Leão vaga sem rumo pelas ruas da cidade, podendo ser encontrado em todos os lugares e em nenhum deles. Como uma espécie de entidade urbana, parece ser verdadeiramente onipresente, tudo vigiando e jamais interferindo. De quando em quando, visita as latas de lixo dos bairros chiques da cidade. Boa Viagem, Pina, Setúbal. Derby, Madalena, Espinheiro. Casa Forte, Apipucos e Jaqueira. Todos fazem parte do reinado do Leão recifense, quase sempre passeando semi-invisível por entre seus súditos, ignorando seu Rei e sendo por ele ignorados. Freqüentemente, cerca-se de objetos comuns, esquecidos ou abandonados por seus antigos donos. Nas mãos de Leão, tornam-se símbolos de um poder místico e inescrutável. E quando sua mente não consegue mais conter essa força ancestral, torna-se visível à plebe e passa a pregar seu conhecimento à todos os que se encontrarem nas imediações.
- Esse aqui é meu manto do poder, que protege meu corpo! – balbucia, agarrando entre os dedos febris um pedaço rasgado de estopa.
- Carrego comigo o cetro da luz e da sabedoria! – murmura, brandindo uma lanterna velha, sem lâmpada.
- Com minha lâmina sagrada, me defendo dos meus inimigos! – grita, apoiando-se precariamente em um cabo de vassoura quebrado.
- Em minha cabeça, levo a coroa da sabedoria! – choraminga ele, baixando a cabeça com tristeza e tocando com a ponta dos dedos encardidos um desbotado boné de propaganda eleitoral.
Mas então o momento de magia se desfaz como se jamais houvesse existido e Leão volta a se cobrir de sombras.
Nas mesas dos bares do Recife, os boêmios especulam sobre a origem de tal personagem, cada um dando sua versão da história e não existem duas iguais. Uns afirmam que Leão, com seus traços arianos, é o filho renegado de algum príncipe europeu, exilado ao Sul do Equador devido a um proverbial amor proibido. Outros juram que ele, na verdade, era um pobre rapaz, honesto e trabalhador, garçom de alguma das inúmeras churrascarias da cidade, cuja família havia sido, em sua totalidade, assassinada por algum motivo tão mesquinho que o próprio tempo, envergonhado, fez questão de esquecer. Não há consenso, a não ser pelo fato de que Leão era alguém que, por algum motivo, havia perdido tudo o que lhe era caro em algum momento de sua vida.
Não é difícil encontrá-lo. Dê uma caminhada pela cidade e, mais cedo ou mais tarde, ele vai surgir, como que formado dos próprios elementos que compõem a rua. Ouça com atenção e talvez você consiga, afinal, levantar o véu de mistério que cobre o passado de mais uma figura folclórica do Recife.

domingo, 11 de julho de 2010

Domingo é dia de enquete!

Encerramos mais uma enquete aqui no Blog da Reclamação! Dessa vez, houve um empate técnico entre a indignação causada pelo desempenho pífio das seleções favoritas e o nojo de assistir a performance do técnico da Alemanha e sua secreção nasal. Fiquem agora com mais uma enquete e não esqueçam de votar!

sábado, 10 de julho de 2010

O horror, o horror


Ônibus cheio. Eu lá atrás, perto da porta de desembarque, em pé e tendo que me segurar nas barras do teto para não cair por cima das pessoas. Uma mulher se aproxima penosamente, espremendo-se entre os outros passageiros, praticamente sendo parida mais uma vez, até ficar bem na minha frente. Lentamente ergue os braços em busca de apoio, procurando manter-se estável no sacolejo perene do coletivo. É então que algo terrivelmente bizarro acontece. Da axila manchada de suor da mulher surge um inseto. Preto, lustroso, enorme. Arrastando pesadamente sua carapaça quitinosa.
A mulher tinha um besouro no sovaco.                 




AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!


Não chego a dizer que sofro de pavor de insetos. Consigo segurar soldadinhos em minhas mãos com razoável desenvoltura. Embuás não me assustam. Mas qualquer outro animal, seja ele insetóide ou aracnídeo, me causa uma repulsa primitiva quase incontrolável. Mas não é medo, já disse. Eu acredito apenas que insetos, em geral, são aberrações enviadas por Deus para castigar a humanidade por sua descrença, iniqüidade e mal gosto musical. A barata, que se enquadra em uma categoria a parte, nada mais é do que o arauto escolhido pelo anticristo para anunciar sua vinda antes de se manifestar na Terra. O ser que havia brotado da axila daquela pobre mulher não chegava a ser esse pesadelo kafkaniano, mas era parecido o suficiente. Além de estar muito, muito perto de mim. Olhei ao redor. Não havia saída. Uma massa de corpos suados formava uma sólida barreira em torno de mim, da mulher, seu sovaco e o besouro. O pequeno animal seguia caminhando lentamente. Esperançoso, imaginei que ele poderia entrar na blusa daquela senhora e se aconchegar, talvez, em seu sutiã.
Assim que eu acabei de formar esse pensamento, o bicho parou. Começou a girar, devagar, sobre o próprio eixo, suas pequenas antenas estalando. Procurando. De repente, parou, virado na minha direção. Um terror gélido começou a se formar na boca do meu estômago. Tentei dizer a mim mesmo que, afinal, ainda havia uma certa distância entre mim e aquele sovaco, de maneira que eu estaria seguro até o final da viagem. Quase que imediatamente, o motorista do ônibus entrou em mais uma via esburacada do Recife. Logo, o coletivo e todos os seus passageiros iniciaram uma dança profana, cuja cadência era marcada pelas inúmeras crateras que se espalhavam pela rua. Corpos se balançavam como pedaços de carne em um caminhão frigorífico sem refrigeração. Tentando manter-se firme, a mulher rodopiava loucamente, seu sovaco passando cada vez mais perto do meu rosto lívido. Sempre que isso acontecia, eu podia ver o besouro resolutamente me encarando, seus olhos repartidos como pequenos espelhos transparecendo apenas ódio, malícia e trevas. Teria gritado, se não achasse que assim estaria correndo o risco de acabar engolindo a criatura. O inseto, cavalgado aquela amaldiçoada axila, se aproximava cada vez mais. Batia as patas e agitava as asas em macabra antecipação. Era o fim. Fechei os olhos e procurei pensar em tudo de bom que eu havia vivido até ali. Resignado, pedi por um fim rápido.
Até que, repentinamente, o ônibus parou. Um grande número de passageiros desceu, outros sentaram, uns tanto levantaram e a mulher sumiu por alguns segundos. Quando reapareceu em meu campo de visão, exibia um sovaco marcado por antigas e amareladas manchas de sudorese, porém misericordiosamente livre de insetos. Aliviado, senti minhas forças retornando. O inseto, afinal, devia ter migrado para um outro hospedeiro e, possivelmente, já estava bem longe dali àquela altura. Relaxei e me permiti até mesmo rir um pouco da pavorosa situação vivenciada apenas alguns segundos atrás. Estava seguro, afinal de contas.
A não ser que...
A não ser que o besouro houvesse realmente encontrado uma nova montaria: eu. Naquele momento, ele poderia estar se arrastando pelos recessos mais suados do meu corpo, arranhando minha pele com suas patas pontiagudas.
Baixei a cabeça, amaldiçoei as axilas alheias e permiti que o desespero invadisse meu ser até o final da viagem.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O caso do cachorro cagão







Em algum lugar do passado, namorei um cara que tinha uma fazenda em Gravatá, onde criava um pastor alemão. Depois de mudar para uma casa, ele resolveu levar o cachorro para morar em Recife; dar mais atenção e carinho - já que a fazenda era só pros finais de semana, e olhe lá. Tentando fazer tudo certinho, consultamos um veterinário sobre "como levar o cachorro em um carro comum". Aparentemente, meio calmante resolveria nossos problemas e executaríamos a tarefa com facilidade. Claro, aparentemente, porque pra mim nunca é fácil. Chegamos à fazenda com o único objetivo de levar o cachorro. A orientação era dar o calmante e esperar até duas horas pra fazer efeito. Assim que o cachorro dormisse, colocá-lo no carro e voltar pra casa.
            Foi o que tentamos fazer. Dar o calmante já foi trabalhoso, porque o cachorro comia tudo ao redor, mas conseguia deixar o calmante intacto. Depois resolvemos abrir o remédio e misturar com carne de churrasco. Aí o cachorro endoidou e comeu sem critério mesmo. Esperamos 30 min., 1h, 1h e 30min... 2h... só pra garantir, mais uma hora, e nada do cachorro piscar, bocejar, sentar... quanto mais dormir.
            “Ok, acho que é porque ela é muito grande, vamos dar a outra metade!”
             Mais um pedaço de carne, mais duas horas, e nem sinal de sonolência. O cachorro parecia até ter um ar de riso.
            “Puta merda! Dá mais um inteiro logo, que esse negócio não faz efeito!”
            Feito! Mas nada de sono no cachorro.
            Resolvemos, depois de 6h de tentativas frustradas, levar o cachorro acordado mesmo. Baixamos o banco de trás e amarramos a coleira de forma que mantivéssemos o animal o mais longe possível do volante, pra evitar possíveis sustos. Seguimos, então, para os 8km de buracos até chegar à BR. Nos primeiros minutos da viagem, estranhamos o fato de que o cachorro fazia questão de ficar em pé, se sustentando desajeitadamente como quando estamos num ônibus em movimento sem lugar pra segurar.
            15 minutos depois de sairmos da fazenda, um barulho de engasgo e um cheiro azedo. Olhamos pra trás e o cachorro tinha vomitado.
            "Eeeeeeeeeeca, na alcatifa do carro!"
            “Fazer o quê, né? Só dá pra limpar quando chegar em casa.”
            Diante do ocorrido, nada de ar condicionado, abrimos as janelas e seguimos viagem.
            Mais alguns minutos e ruídos depois, percebemos que a cachorra - tinha dito que era fêmea? - teve uma fortíssima dor de barriga - possivelmente causada pelo excesso de remédio ( e sono que é bom, nada!). Seguiram-se mais vômito, mais cocô e mais vômito e mais cocô até chegarmos à BR. A essa altura, o cachorro já tinha ingerido uma boa parte da mistura e o que sobrava o fazia escorregar pelo carro. Muitas vezes ele meteu as patas empapadas de cocô e vômito nos vidros de trás na tentativa de se manter em pé.
            Acho que não é preciso dizer que o cheiro, então, já se tornara insuportável e nós precisávamos alternar o perfume de carro - provavelmente tóxico, mas um verdadeiro alívio - nos nossos narizes. Um dos momentos mais críticos e definitivamente o mais constrangedor da viagem foi ter que parar no posto de gasolina. O frentista fez questão de chamar os amigos e outros clientes pra mostrar duas pessoas na merda e um cachorro - agora sim - sonolento.
            Ao chegar em casa, fomos tomar uma longa série de banhos para tirar o cheiro impregnado nas nossas peles, roupas, narizes e principalmente, memórias. Vale lembrar que o carro, mesmo depois de muitas lavagens caras e profissionais, foi vendido pouco tempo depois, ainda com odores estranhos, que não sei se eram reais ou decorrentes do trauma mesmo.


Por Andréa Nobre.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O Blog do Paraíba











Reclamar não é exclusividade do Blog da Reclamação. O publicitário e fotógrafo Gustavo Carvalho prova que é bom na arte de se queixar no seu Blog do Paraíba. Vocês devem lembrar de Gustavo como o cara que bateu a foto da nova logo do Blog da Reclamação e também como um dos sócios da agência Curinga de Comunicação. Em seu blog, ele senta o pau nas grandes empresas, desancando produtos e serviços consagrados e revelando a verdade por trás do péssimo atendimento dispensado ao consumidor, ou seja, todos nós. Visitem o Blog do Paraíba, descubram a origem do nome, conheçam o trabalho do cara e se juntem ao "SAC geral e genérico" que pode, um dia, te ajudar.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Dia de jogo


Ia começar às 11:00. Acordei tarde demais, às 10:20 e tomei o banho mais rápido da minha vida, praticamente lavando apenas o rosto e os sovacos, jogando desodorante por cima de tudo e rezando para que, na animação da partida, ninguém notasse. Escovei metade dos dentes, coloquei uma roupa qualquer e saí desabalado com minha fiel bicicleta pelas ruas enlouquecidas de Setúbal. O bairro, por vezes quase bucólico, exibia um tráfego frenético, quando todos os habitantes da região pareciam ter finalmente percebido, ao mesmo tempo, que o Brasil ia jogar dali a meia-hora. Havia combinado de assistir o jogo na casa de amigos, não muito longe, apenas 15 minutos de bicicleta em um dia normal. O que, evidentemente, não era o caso.
Motoristas ensandecidos formavam filas imensas com seus veículos, todos usando suas buzinas incessantemente, verdadeiras vuvuzelas tupiniquins. Desesperado, resolvi invadir a calçada, na esperança de ganhar alguns minutos a mais na corrida contra o tempo. Ingenuidade minha. A coleção de buracos presente em 97,43% do calçamento recifense transformou minha idéia genial em um passeio de Mountain Bike nas trilhas do inferno. A cada solavanco que maltratava meus testículos eu dava adeus a um filho em potencial. Faltavam, naquele momento, 12 minutos para o início da partida. Lembrei que precisava levar um refrigerante e praticamente me joguei de encontro ao expositor de galeto da padaria que surgiu à minha esquerda. Inocente que só eu mesmo, imaginei que seria o único irresponsável tentando comprar alguma coisa àquela hora. Chorei lágrimas de desespero quando vi o tamanho da fila já formada no caixa. Peguei o refrigerante e me posicionei no último lugar. A operadora da registradora, possuída por algum espírito selvagem, passava as compras com uma velocidade e competência totalmente incompatíveis com o que exibia no seu dia-a-dia. A fila andava rápido, mas empacou, claro, na senhora que estava logo na minha frente. Era uma velha de aspecto centenário, semblante cansado e cadeado no peito. Não, não estou querendo escrever poesia aqui. Por algum motivo, a desgraçada andava por aí com um cadeado no decote da blusa.

 
Na moral, eu nem sei bem o que comentar sobre isso.


Pois é. Perturbador. Talvez Deus, em sua sabedoria, tenha decidido que os homens devem ser preservados da visão de certos horrores ancestrais, condenando aquela pobre senhora a vagar pelas ruas do Recife sem jamais exibir aquilo que se ocultava dentro do seu sutiã. Por esse pequeno milagre, eu sou grato. A estranha mulher finalmente terminou de contar suas moedinhas de 1 centavo, pagou pelas suas compras e partiu. Passei o refrigerante rapidamente, olhando para o relógio a cada 10 segundos. 5 minutos para começar o jogo. Peguei minhas compras, saltei na bicicleta, terminando de assassinar toda a minha futura prole e pedalei loucamente. Pessoas corriam e gritavam pelas ruas, carros subiam pelas calçadas e eu rezava não pela minha segurança no meio daquele caos urbano, mas sim para que o juiz engolisse o apito e precisasse de cuidados médicos, atrasando assim o início da partida. 3 minutos. Escutei um ronco de motor e subitamente minha velocidade aumentou. Olhei para trás assustado e vi que um motoqueiro, impaciente, havia encostado na traseira da minha bicicleta e me empurrava para frente. Como não havia mesmo o que fazer, resolvi aproveitar a carona. Quase na esquina da casa do meu amigo, virei para a direita e ergui a mão em agradecimento ao piloto da motocicleta. Ele retribuiu erguendo o dedo médio e assim permaneceu enquanto se afastava na distância. Venci os últimos metros que me separavam do jogo, prendi minha bicicleta de qualquer maneira e cheguei, finalmente, no apartamento onde meus amigos me esperavam ansiosos. A partida começou. Sentei no sofá, abri o refrigerante e comecei, finalmente, a assistir o jogo que eu havia sofrido tanto para conseguir ver a tempo.
Nesse dia, o Brasil foi eliminado da Copa.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Mal aê IV

Pessoal, por motivos técnicos, o Blog não foi atualizado ontem e hoje. E quando falo problemas técnicos, quero dizer que meu computador está na assistência e aqueles desgraçados ficam me enrolando. Tudo bem, eu me vingo. De formas sádicas, violentas, criativas e, por que não, eróticas. Não perguntem. Mas enquanto isso não acontece, fiquem com a foto do bebê panda, contem até 10 e se acalmem.





















Na foto: O anticristo. Ou algo parecido o suficiente.


Pois é. Essa coisa aí em cima é um bebê panda. Achou fofinho? Leva pra tua casa. Mas dorme de porta trancada, tá?

As vezes, a natureza é uma escrota mesmo.

domingo, 4 de julho de 2010

Domingo é dia de enquete!




Mais um domingo, mais uma enquete encerrada! E dessa vez, a vencedora foi a opção 4, aquela que indicava a presença de uma entidade misteriosa tentando invadir, pela retaguarda, o espaço pessoal dos usuários de ônibus. Sem dúvida, um problema gravíssimo, tornado ainda mais perturbador pelo fato de tanta gente sofrer com a experiência. Ou não. Aposto que existem pessoas que pegam o coletivo só para procurar esse cara. Gosto não se discute. E falando em gostar, espero que todos tenham curtido o texto do amigo galhofeiro Mauro Rossiter. Lembrando que sexta que vem sai o texto de outra convidada, a escritora, professora e azarada Andréa Nobre!
Por enquanto, fiquem com mais uma enquete!