quinta-feira, 22 de julho de 2010

Decadência humana, parte I: som alto


Aquela velha passada na padaria, no final do dia. Comprar pão-doce, sabe como é. A fila andando lentamente, repleta de pessoas comuns e desinteressantes, do jeito que uma fila deve ser. De repente, um barulho ensurdecedor e meus ouvidos são instantaneamente sodomizados por uma música eletrônica estilo bate-estaca, do tipo que todos deveriam ter sido legalmente obrigados a esquecer ainda nos anos 90. No estacionamento da panificadora, surge uma caminhonete caindo aos pedaços, pneus carecas, farol quebrado, acabamento no mais puro durepox, pintura cor de ferrugem e uma série de adesivos evangélicos segurando a coisa toda no lugar. A parte de trás do veículo era completamente dominada por uma caixa de som maior e, sem dúvida, mais cara do que o meu apartamento. 


Tipo assim, só que pior.

Da caminhonete salta o motorista, alto, camisa quadriculada com os três primeiros botões abertos e um olhar levemente retardado. Minha mãe sempre me ensinou a nunca formar conceitos prévios das pessoas que sequer conheço, mas, enfim, nunca escutei a velha mesmo e assim que esse indivíduo apareceu em meu campo de visão, meu cérebro gritou “pau pequeno!”.

“Mas Fred. De repente o cara é o novo Kid Bengala, o Long Dong Silver tupiniquim, o infame Bem-Dotado de Itú! Como você pode saber?”. Foda-se. Pra mim, se saiu por aí de carro, com um sistema de som que vai levar mais tempo pra pagar do que a casa própria e musicalmente estuprando os ouvidos de transeuntes inocentes, tem pau pequeno. E mole. Pau pequeno e, ainda por cima, mole, é praticamente uma deficiência física. Devia ter assentos especiais nos ônibus pra pessoas assim. E esse cara tem que estar tentando compensar alguma coisa. Claro que, na verdade, acaba não compensando coisa alguma. Não tem mulher que prefira ficar surda a passar a noite com um homem anatomicamente correto e capaz de atender, ainda que minimamente, suas exigências. Ao menos foi o que me contaram e, por Deus, espero que seja verdade, porque eu não tenho dinheiro pra uma caixa de som dessas e duvido que fosse caber na minha bicicleta. 


Mas eu poderia estar errado.

De repente, o dono da caminhonete anda mirando no público altamente específico e, compreensivelmente, reduzido das deficientes auditivas com expectativas sexuais nulas. 

Tem gosto pra tudo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Dia do Amigo: a pelada



 


Difícil não reclamar da idade. Especialmente quando se chega naquela em que a gente sente que consegue continuar fazendo as mesmas coisas de dez anos atrás, mas o corpo, sempre um realista, acaba estilando o esforço e te punindo com cãibras, contusões, hematomas, paradas cardiorrespiratórias e morte. Mas somos teimosos e adoramos sentir que estamos enganando a velhice mantendo os mesmos hábitos da juventude. Desses, o que mais demora a morrer é a tal da pelada. Não, não tô falando daquela sua tia velha que adora se exibir pelada na varanda. Essa aí tem mais é que morrer mesmo. O mais rápido possível. Não, me refiro mesmo à informal partida de futebol entre amigos, geralmente praticada aos domingos por homens sedentários que passam a semana sentados em seus escritórios, onde o maior esforço físico que realizam é apertar o botão da máquina de café expresso. Chega o final de semana e todo mundo pensa que virou menino de novo, realizam um máximo de dois minutos de alongamento antes da partida e acham que estão prontos para passar o dia jogando bola, geralmente na praia mesmo. Por isso que de vez quando a pelada mata um. Sim, nesse caso, pode ser a sua tia velha, de nojo mesmo.

Mas aí, claro, o rendimento não é o mesmo de antigamente. E há uma enorme diferença na forma como a partida se desenrola. Nada de dribles. Dá muito trabalho sair correndo e ainda tentar driblar o adversário. Quando acontece, geralmente é aquela velha puxadinha pro lado, que não engana mais nem a minha avó. Pode ser para esquerda ou para direita, o que dá ao jogador que está tentando roubar a bola 50% de chances de acerto. Se ele, por sorte, for para o lado correto, ótimo. Senão, desiste e deixa o adversário passar, sem nem olhar para trás e rezando para que o zagueiro seja um pouco mais determinado do que ele. A maioria aposta mais nos passes longos, dizendo a si mesmos que os bons jogadores não são os de maior velocidade e sim os que têm mais habilidade na hora de lançar a bola. Geralmente não dá em nada. Ou o passe é tão ridiculamente fraco que acaba no pé do adversário ou tão forte que acaba acertando a cabeça do lateral do time oposto, que aproveita para se fingir de morto e sair do jogo antes de dar mais vexame.

Ninguém se importa de jogar de cara para o sol, ruim mesmo é ter que ficar contra o vento. Nessa situação, a maior parte dos jogadores desiste de avançar e se concentra na defesa, sempre dizendo que é importante reforçar a retaguarda. De vez em quando aparece um mais ousado que projeta o bucho para frente e, aproveitando a inércia, consegue chegar até a área do outro time, lá ficando até se recuperar do esforço, geralmente de cócoras na beira do campo e exibindo um preocupante tom arroxeado no rosto convulsionado. A idade muda até a personalidade dos jogadores. Os fominhas de antigamente, odiados por pegarem a bola e só soltarem quando a partida acabava e o dono exigia a pelota de volta, são os generosos de hoje. Ninguém quer correr o risco de ficar com a redonda no pé e, Deus que me livre, ter que sair correndo com ela. O rodízio de goleiros continua. A diferença é que agora todo mundo quer ficar no gol, posição mais invejada em uma partida na qual o time adversário, bando de perronhas, não consegue lançar um mísero ataque ao campo oposto. É tanta tranqüilidade que dá até para tomar uma cervejinha e bater papo com o vendedor de amendoim.

E eu, que sempre fui o pior dos piores, eternamente pedindo próxima e sendo escolhido puramente em razão de um sistema de cotas de amizade, descobri que, inacreditavelmente, melhorei depois desses anos todos. Na última partida eu corri, lancei, arrisquei alguns dribles desengonçados e até mesmo chutei a bola na direção geral do gol adversário, acertando a velha que passava lá atrás. Estava até bastante orgulhoso de mim mesmo até que percebi que, na verdade, não era eu que tinha progredido em minhas habilidades futebolísticas. Os adversários é que não tinham mais forma física para exibir o futebol arte de antigamente, malandro, maroto, malicioso e, mais importante, móvel. E como os companheiros de time, em sua maioria, se encontram na mesma situação, a pelada fica parecendo mais uma partida de totó, com todos mantendo suas posições e chutando a bola preguiçosamente, somente quando esta, fortuitamente, acaba sobrando para alguém. 

Não, aquele último jogo não foi nada bonito. Os gols só aconteciam por acidente, os jogadores passavam metade do tempo com uma das mãos nas costelas e reclamando de falta de ar enquanto alguns ainda caíam no chão pateticamente, sem nem estarem participando da jogada, e lá ficavam, indiferentes à própria dignidade. Mas foi divertido. Afinal, pelada só merece esse nome quando acontece entre amigos. E dar risada junto com eles é muito, muito melhor do que fazer gol.

Sorte minha, porque eu mesmo não fiz nenhum.

Uma homenagem do Blog da Reclamação ao Dia do Amigo!


segunda-feira, 19 de julho de 2010

O sereno




Mais um final de semana na casa da minha avó, nos confins misteriosos da cidade de Olinda. Lá chegando, começa a maratona de novelas na televisão, todas devidamente explicadas e comentadas pela matriarca da família. Na hora de dormir, ela procede à tarefa de arrumar meu quarto. Faz a cama, coloca mais travesseiros, traz um cobertor e começa a fechar todas as janelas. Ingênuo, peço que ela as deixe abertas, para refrescar mais o quarto. Ela se vira para mim com olhos arregalados e as rugas de um terror ancestral vincando seu rosto marcado pela idade e se recusa terminantemente a atender meu pedido. Quando pergunto o porquê, ela olha ao redor e me confidencia em um sussurro assustado:

- É por causa do sereno.

O sereno. O assassino serial do mundo geriátrico. Nêmeses da minha avó e de tantos outros idosos, aterrorizados pela possibilidade de serem visitados por esse vento genocida. O sereno matou mais gente do que as secas no Nordeste, as enchentes no Sudeste, as geadas no Sul e as balas perdidas no Rio de Janeiro, em um dia devagar. Felizes são os americanos e japoneses, enfrentando nada mais do que alguns furacões e tufões, meras brisas quando comparados ao sereno, verdadeira arma de destruição em massa da natureza. Invisível e indetectável, ataca apenas os velhinhos, preferencialmente os mais impressionáveis. Eficiente como um ninja, incansável como o Dragão de Komodo. Esse insidioso deslocamento de ar podia, em questão de minutos, demolir as defesas do corpo humano, abatendo as pessoas com uma fúria comparável apenas à Divina. 

- Vou deixar tudo bem fechadinho pra você, viu meu filho? Não se preocupe, o sereno não vai te pegar.

- Mas vovó...eu vou morrer de calor e...

- Não discuta com sua avó! Pronto, fechei tudo. Até a janelinha do banheiro. E não vá abrir nada, que você sabe que eu tenho sono leve! Eu venho aqui e fecho de novo!  O calor não mata ninguém, o sereno sim! Quero ver entrar um vento que seja nesse quarto...

Vovó estava certa. Não entrou uma única brisa a noite inteira. Na manhã seguinte, quando finalmente tive permissão de abrir as janelas e a porta, o quarto já havia se transformado em uma estufa de gás carbônico, o que até me teria feito muito bem, caso eu pertencesse ao reino vegetal. Alucinando levemente pela privação de oxigênio, eu cambaleei para fora do quarto, onde minha avó, sorridente, me esperava com a mesa do café da manhã posta.

- Dormiu bem, meu filho?

Como ainda tenho esperanças de receber, futuramente, uma herança, resolvi não responder. Respirei fundo o ar puro da manhã e me preparei para me alimentar. No cardápio matutino, uma especialidade da minha avó.

Vitamina de abacate.

domingo, 18 de julho de 2010

Domingo é dia de enquete!



Mais uma enquete encerrada e fica claro o sofrimento dos brasileiros que não possuem TV a cabo, sendo obrigados a assistir aberrações como Gugu e Raul Gil aos Domingos, sem dúvida aumentando as estatísticas de suicídio nesse dia da semana. O Blog da reclamação leva ao ar sua primeira enquete futebolística e aproveita para agradecer a todos os que votaram na última. Lembrando tamném que já tivemos três convidados para os textos reclamativos das sextas-feiras e a galera parece estar gostando. O último foi Alberto Penaforte, com um texto mais ácido do que sangue de Alien, falando das agruras dos que já passaram dos quarenta. Sorte que ainda estou longe.

Continuem lendo, comentando e reclamando!

sábado, 17 de julho de 2010

Cidinha


O Blog da Reclamação, vez por outra, se reserva o direito de reclamar com seriedade. Isso é especialmente verdadeiro ao se abordar o tema da política brasileira, verdadeira piada de humor negro que provoca apenas sentimentos de indignação e raiva extremados, quando os únicos palhaços da história somos eu e você. Não, o Blog da Reclamação não vai se especializar no assunto nem muito menos começar a ganhar uma coisinha de lado para fazer propaganda política de ninguém. É um blog apolítico, satírico, anárquico, ácido, mal-educado e mal- encarado, porém sem pretensões de ordem política.

Mas qual a situação da nossa política, afinal? Temos as pessoas certas gerindo nossa pátria? A verdade é que aqueles que são os dirigentes da nossa nação, supostamente exercendo o trabalho de maior importância do país, dado que têm, em suas mãos, as rédeas e o futuro do Brasil, acabam sendo os que menos merecem a confiança de nós, o povo. Nós, os acomodados. E acostumados demais com essa situação, de uma forma tal que o ato de queixar-se contra essa realidade deprimente já não faz mais parte do instinto do cidadão honesto e trabalhador. 

Mas de vez em quando aparece alguém para mostrar que é, sempre, necessário se queixar dos rumos da política brasileira. Berrar, espernear, fazer escândalo e encarar, ao menos no começo, as risadas cínicas dos que acreditam que essa realidade jamais vai mudar. Assim, deixo vocês com um exemplo de reclamação capaz de calar todo um plenário, transformando o escárnio em constrangimento e, talvez, arrependimento. No vídeo, a deputada carioca Cidinha Campos usa, do jeito correto, sua imunidade para desancar os corruptos que infestam a nossa política. 

Esse Blog não teria reclamado de forma mais memorável.



sexta-feira, 16 de julho de 2010

Se tem mais de quarenta, agüenta




Mudar de profissão depois dos quarenta é foda. Mesmo que seja pra ter mais uma profissão. É foda. Você vai ter que fazer algumas coisas para as quais não tem mais testículos (ou ovários) nem humildade. Tipo fazer estágio, ver garotos de 20 e poucos anos concluindo o mestrado, justificar a idade o tempo todo depois que preenche a ficha do estágio da outra linha e, acima de tudo, freqüentar universidade no período da manhã ou tarde. 

Por mais que haja uma galera cheia de boa vontade, não dá pra passar incólume às reações da maioria dos alunos imberbes e alunas tabacudas, ambos entupidos de hambúrgueres, refrigerantes e preconceito. Você pode dar a sorte de ficar numa turma desencanada, mas esta será sua área de conforto. O resto serão olhares de estranhamento e indiferença (“o que é que ele tá fazendo aqui”?), pirralhos alienados, bibliotecárias e professores chamando você de professor, professor querendo sua ajuda pra fazer a cabeça da turma – já que vocês dois são mais experientes e ele quer se promover academicamente e ter menos trabalho –  e o povo querendo te empurrar a presidência do diretório acadêmico e roubadas semelhantes (se você está lá nessa idade, deve ter tempo pra isso). Ah, os nobres acadêmicos também podem ignorar seus pedidos de orientação e de encaminhamento a projetos, porque preferem moldar profissionalmente os coitados dos meninos e meninas. Sem contar que você vira personagem folclórico e a turma sempre acha interessante comentar o que você diz, faz ou veste. 

Parafraseando o notável filósofo Zé Pequeno, interessante o caralho. 




Já falei, o professor faltou. Eu sou calouro, cacete!




Se sobreviver a isso, é possível perceber algumas vantagens na vida universitária pós-quarenta. Os vendedores de cartão de crédito, livros e seguros passam longe de você e vão direto nos otários novinhos. Dificilmente você vai ser incomodado com brincadeiras idiotas de calourada. Os professores vão tomar cuidado antes de lhe sacanear com trabalhos baseados em textos de auto-ajuda. E seus colegas de turma com o tempo percebem que um cérebro acima dos 40 anos pode sim trabalhar com mais informações que os horários dos jogos do campeonato pernambucano, o custo da feira do mês e o rombo no hipercard. O fato é que a maioria dos universitários não assimilou os dados – acho que nem sabem que existe IBGE, pergunta pra ver - apontando uma atividade cada vez mais intensa em pessoas de todas as idades, principalmente após os 40. Tem muita gente abrindo novos caminhos para si, a fórceps, que seja. Não tá satisfeito? Muda de profissão, mesmo tendo que enfrentar o universo quase pré-adolescente e teleguiado das faculdades brasileiras. Paciência. E os boyzinhos e boyzinhas vão ter que aturar os tios. 

E de vez em quando suportar serem superados pelos quarentões.


Por Alberto Penaforte, amigo e autor do blog Rádio Gastronomia.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Dia Mundial do Rock, parte IV : As the Shadows Fall - Epílogo


Tá, tudo bem, o Dia Mundial do Rock acabou faz tempo, mas eu não podia deixar de partilhar esse vídeo. Consegui encontrar, depois de vasculhar a Internet pelos seus recônditos mais obscuros e pervertidos, aquele que é um dos poucos, senão o único, registro audiovisual da seminal banda de Black Metal pernambucana, a saudosa As the Shadows Fall, que teve uma importante parte da sua biografia esmiuçada no último post. Gostaria que os leitores atentassem, ao assistir essa verdadeira raridade videoclíptica, para as deploráveis condições nas quais os rapazes mostravam seu trabalho. O local parece ser a varanda de uma residência, possivelmente a casa da tia de algum dos integrantes da banda. Percebam os vultos fugidios que passam na frente da câmera, encobrindo momentaneamente os músicos. Provavelmente os primos menores vindo conferir a performance do grupo ou simplesmente o tio se deslocando para o banheiro, após se encher de cerveja na tentativa vã de esquecer tudo aquilo que estava presenciando em sua sala de estar. O cinegrafista, compreensivelmente, parece hipnotizado pela figura macabra do vocalista Blackthorn, cujos berros alucinantes soam mais como um ganso histérico sendo impiedosamente violentado por um rinoceronte. Apesar disso, dá para ter uma boa visão do baixista e do guitarrista, me parecendo que o folclórico Thamuz já devia, nessa época, ter abandonado seus companheiros de música.
Mas fiquem atentos mesmo lá pelos 3:40 de apresentação, quando é possível vislumbrar, rapidamente, a figura grotesca do baterista Zephyr, que só podia estar possuído pelo espírito da besta-fera durante a apresentação, de tal forma que a pessoa que documentou o show mal tinha coragem de travar contato visual com o músico.
E agora, sem mais delongas, eu os deixo com o vídeo da música “Awaken of a Timeless Sleep”, da banda As the Shadows Fall. 
Assistam e tentem dormir depois.





terça-feira, 13 de julho de 2010

Dia Mundial do Rock, parte III : O Blog do Moreira



E fechando esse longo especial do Dia Mundial do Rock, o Blog da Reclamação mantém seu compromisso de indicar blogs relevantes e de qualidade. Dessa vez ficamos com o Blog do Moreira, dedicado à, nas palavras do autor, "Rock, tecnologia, motos e coisas anormais do cotidiano". Moreira, músico e jornalista, é também muito bem conectado com a cena de Rock local e quase sempre acerta quais são as grandes atrações que virão para o Recife. Dêem uma conferida no blog dele e aproveitem para dar uma olhada em uma ótima notícia para os fãs de Metal, postada lá recentemente.

Dia Mundial do Rock, parte II : As the Shadows Fall


Para quem não sabe, o Metal, que já é um subgênero do Rock, se divide em várias categorias, todas bastante diferentes entre si. São categorias como Death, Thrash, Melodic, Speed, Doom, Gothic, Symphonic, Progressive, Nordic e outras mais. Todas têm lá suas razões de ser e suas características próprias, tanto em relação ao visual dos seus seguidores, quanto à parte instrumental e letras das canções. Dessas vertentes, uma das mais reconhecíveis, espalhafatosas e difíceis de digerir é o Black Metal. Se você não é fã dessa categoria e nem faz idéia do que seja, tente imaginar um bando de homens mal-encarados, cabeludos, vestindo trajes que têm mais couro e metal do que uma convenção de sado-masoquistas, mostrando rostos pintados ao estilo Secos e Molhados e berrando em uma voz gutural e incompreensível letras rebeldes e satânicas. Dá para imaginar que o público, especialmente em Pernambuco, é bastante restrito. Mesmo assim, a cena local já teve vários representantes, alguns deles fazendo certo sucesso no underground metálico. É o caso da pernambucaníssima As the Shadows Fall. Abaixo segue uma imagem que mostra bem o visual dos caras:



Kiss é o caralho!


Como se pode observar na foto, não são exatamente os genros que a sogrinha pediu a Deus. Evidentemente, essa é uma caracterização para as apresentações ao vivo, eles não pegavam ônibus ou iam até a esquina comprar o pão vestidos desse jeito grotesco, para o alívio da população em geral. Mas não é o caso de se pensar que debaixo da maquiagem infernal e roupas pútridas, estavam os Backstreet Boys esperando para ser descobertos. Em outras palavras, a maioria dos caras era bastante feio mesmo, exibindo uma falta de beleza uniforme que combinava bastante com a proposta do estilo musical. Logicamente, todo grupo tem seu destaque e nesse caso, o baterista Von Zephyr se sobressaía pela absoluta e total feiúra. Claro que esse não é o nome verdadeiro dele, integrantes de bandas de Black Metal costumam usar pseudônimos obscuros da mitologia pagã, religião satanista ou qualquer nome que faça uma Testemunha de Jeová tentar comer a própria bíblia em desespero, junto com os órgãos genitais. Zephyr, que quando caracterizado para uma apresentação parecia mais o demônio, era capaz de assustar homens feitos e fazer com que ateus se convertessem ao cristianismo, de puro medo. Possuía mais de dois metros de altura, braços longos, peludos e musculosos, pele pálida, cabelos que se assemelhavam a uma anêmona saída do inferno e um sorriso capaz de paralisar o coração de um assassino de criancinhas. Inspirado, satanás quis que ele nascesse vesgo. 



Não é Zephyr. Mas, Deus, como chega perto.


Se a luz do seu quarto não estiver apagada e você estiver acompanhado, junte coragem e tente imaginar essa criatura massacrando uma bateria com um décimo do tamanho dele, berrando ensandecidamente e fazendo caretas inumanas e você terá uma leve idéia do que era o show dos caras. Difícil era os outros integrantes acompanharem o ritmo. Ocasionalmente, Zephyr fazia as vezes de segurança do grupo, por motivos mais do que óbvios. É memorável a ocasião na qual a banda se apresentou na saudosa Soparia do Pina, local freqüentado por alternativos, roqueiros, boysinhos e marginais em proporções iguais. Quando um dos espectadores, incauto e possuído por prováveis desejos suicidas, começou a ridicularizar o visual do grupo, os músicos tentaram manter a calma. Mas quando a mesma figura resolveu, por motivos até hoje desconhecidos, chamar o vocalista Blackthorn de “Batman”, Zephyr decidiu que era hora de partir para uma ação drástica. Erguendo-se, o baterista localizou o rapaz que, acreditando-se protegido pelo anonimato do público do show, xingava os integrantes da banda e ria junto com seus amigos.
Ao verem aquela criatura abissal pular a bateria e correr em sua direção coberto de pregos afiados, couro suado e intenções malignas, o grupo de amigos rapidamente retirou-se do local, buscando refúgio dentro de um carro. Isso pouco os ajudou. Um deles tentava, desesperado, enfiar a chave na ignição enquanto os outros observavam, tomados de horror, Zephyr se aproximando tal qual a besta do apocalipse enviada pelo próprio Satã. Quando acercou-se do veículo, o baterista, enfurecido, passou a desferir socos através da janela aberta do banco de trás. Devia ser realmente difícil desviar dos golpes desferidos pelo percussionista possuído, nem tanto pelo espaço exíguo que não permitia muitos movimentos, mas principalmente pelo estrabismo do músico, que olhava para uma direção e esmurrava em outra, pegando suas vítimas completamente de surpresa. Diz a lenda que Zephyr, bufando de ódio e salivando como um animal raivoso, conseguiu, com seu longo braço, atingir todos os três garotos que se encontravam no banco traseiro, seguidas vezes, e o grupo só se salvou porque o motorista, finalmente, conseguiu dar a partida no carro e acelerar loucamente pelas ruas do Recife, certamente parando apenas quando a gasolina acabou. É possível que até hoje eles durmam de luz acesa, lembrando-se daquela noite fatídica na qual suas almas quase foram arrancadas dos seus corpos destroçados pelo baterista do As the Shadows Fall.
Mais uma homenagem do Blog da Reclamação ao Dia Mundial do Rock e um abraço ao amigo Thamuz e todos os integrantes da icônica As the Shadows Fall! Vocês fazem falta.

Dia Mundial do Rock, parte I : Metal no Recife





Pernambuco, capital multicultural do Brasil, terra do maracatu, frevo, caboclinhos e cavalo-marinho, tem espaço pro Rock n’ Roll. Aliás, sempre possuiu vários representantes dessa vertente musical, bandas nacionalmente conhecidas, como a Eddie ou até mesmo internacionalmente reverenciadas, como a Nação Zumbi, fundada pelo saudoso Chico Science. E, embora possa contar com um número tímido de representantes, ao menos quando comparada à uma megalópole como São Paulo, os metaleiros, sub-tribo do Rock, também se encontram representados no estado, especialmente em sua capital.
Curtir Heavy Metal no Recife, é preciso admitir, nunca foi lá tarefa das mais fáceis. O visual estereotipado do headbanger, com cabelos compridos, barba hirsuta e coberto de preto da cabeça aos pés nunca se enquadrou bem à realidade tropical recifense. Ao contrário do que acontece em climas mais amenos, o metaleiro pernambucano costuma cultivar, em seu dia a dia, um visual mais adequado à temperatura local, apenas se utilizando de vestimenta completa em dias de show. É então que verdadeiras hordas de criaturas feias, suadas, cobertas de pêlos e paramentadas em negro se aglutinam como espectros malditos nos cantos mais obscuros da cidade.
Antigamente, como Recife se encontrava fora do circuito de conjuntos internacionais, a maioria dos shows de Metal que acontecia na cidade era de pequenas bandas locais, muitas delas fazendo covers dos seus ídolos favoritos, como Judas Priest, Black Sabbath ou Motorhead. Alguns poucos conjuntos se arriscavam à apresentar ao público suas composições próprias. Sem dinheiro para absolutamente nada, essas bandas faziam seus shows na raça, movidos puramente pela vontade de mostrar seu trabalho. Tocavam em postos de gasolina, debaixo de viadutos e em puteiros. Pois é. Era comum ir a shows nas localidades mais suspeitas do centro do Recife, lugares que não ofereciam o mínimo de conforto, segurança, acústica ou mulheres virgens. De fato, virgem mesmo, só os próprios metaleiros, em sua grande maioria inexperientes em qualquer assunto relacionado ao sexo oposto. Quase todos só haviam tocado em um seio quando mamaram em suas mães, geralmente até os 12 anos de idade. O visual, claro, não ajudava. Levava vantagem quem conseguia, milagrosamente, achar uma fêmea que gostasse de escutar Metal. Essas eram disputadas à tapa, uma raridade em um ambiente onde pessoas de cabelos compridos tinham muito mais chance de ter um pênis oculto em suas calças de couro.
Apesar das dificuldades, os metaleiros conseguiram se reproduzir. Supõe-se que por fissão celular, já que a reprodução sexuada ainda era um mistério para a maior parte deles. Hoje em dia, o Recife possui um público crescente de headbangers, já tendo sido visitado por bandas do porte de Scorpios, King Diamond, Gamma Ray, Blind Guardian, Helloween, Stratovarius e Iron Maiden. Os metaleiros, claro, comparecem em massa para esses concertos, sempre sonhando com a próxima grande banda e com o dia em que finalmente vão ver uma mulher pelada que não seja proveniente da Internet. Tudo bem, esse último está mais difícil, mas os caras são persistentes. E nessa teimosia, acabam compondo mais uma das inúmeras tribos musicais do Recife.
Uma homenagem do Blog da Reclamação ao Dia Mundial do Rock!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Figuras folclóricas: Leão





Se você já passou por qualquer rua, qualquer rua mesmo do Recife, já o viu. Não muito alto, magro, a pele esticada sobre os músculos. Vê-se que a tez, por debaixo da sujeira acumulada ao longo dos anos, é de uma brancura intensa. Algumas tatuagens azuladas pelo tempo, cujo significado está perdido até mesmo para seu dono. Possui cabelos loiros, duros de imundice e suor e o rosto emoldurado por uma barba mal cuidada e empretecida, que por vezes lhe chega até o peito. Os olhos, de um azul turmalino, são cercados por teias de rugas profundas. O nome verdadeiro ninguém sabe ao certo, mas atende pela alcunha de Leão. O que ele tem em comum com o animal que inspirou seu apelido é, talvez, a capacidade de sobrevivência. Não trabalha, mas também não pede esmola nem qualquer tipo de ajuda financeira. Deve dormir em algum lugar durante as noites quentes do Recife, embora ninguém saiba exatamente onde. E de onde tira o alimento que lhe sustenta o corpo castigado é um mistério.
Mas caminha.
E como caminha. Há décadas Leão vaga sem rumo pelas ruas da cidade, podendo ser encontrado em todos os lugares e em nenhum deles. Como uma espécie de entidade urbana, parece ser verdadeiramente onipresente, tudo vigiando e jamais interferindo. De quando em quando, visita as latas de lixo dos bairros chiques da cidade. Boa Viagem, Pina, Setúbal. Derby, Madalena, Espinheiro. Casa Forte, Apipucos e Jaqueira. Todos fazem parte do reinado do Leão recifense, quase sempre passeando semi-invisível por entre seus súditos, ignorando seu Rei e sendo por ele ignorados. Freqüentemente, cerca-se de objetos comuns, esquecidos ou abandonados por seus antigos donos. Nas mãos de Leão, tornam-se símbolos de um poder místico e inescrutável. E quando sua mente não consegue mais conter essa força ancestral, torna-se visível à plebe e passa a pregar seu conhecimento à todos os que se encontrarem nas imediações.
- Esse aqui é meu manto do poder, que protege meu corpo! – balbucia, agarrando entre os dedos febris um pedaço rasgado de estopa.
- Carrego comigo o cetro da luz e da sabedoria! – murmura, brandindo uma lanterna velha, sem lâmpada.
- Com minha lâmina sagrada, me defendo dos meus inimigos! – grita, apoiando-se precariamente em um cabo de vassoura quebrado.
- Em minha cabeça, levo a coroa da sabedoria! – choraminga ele, baixando a cabeça com tristeza e tocando com a ponta dos dedos encardidos um desbotado boné de propaganda eleitoral.
Mas então o momento de magia se desfaz como se jamais houvesse existido e Leão volta a se cobrir de sombras.
Nas mesas dos bares do Recife, os boêmios especulam sobre a origem de tal personagem, cada um dando sua versão da história e não existem duas iguais. Uns afirmam que Leão, com seus traços arianos, é o filho renegado de algum príncipe europeu, exilado ao Sul do Equador devido a um proverbial amor proibido. Outros juram que ele, na verdade, era um pobre rapaz, honesto e trabalhador, garçom de alguma das inúmeras churrascarias da cidade, cuja família havia sido, em sua totalidade, assassinada por algum motivo tão mesquinho que o próprio tempo, envergonhado, fez questão de esquecer. Não há consenso, a não ser pelo fato de que Leão era alguém que, por algum motivo, havia perdido tudo o que lhe era caro em algum momento de sua vida.
Não é difícil encontrá-lo. Dê uma caminhada pela cidade e, mais cedo ou mais tarde, ele vai surgir, como que formado dos próprios elementos que compõem a rua. Ouça com atenção e talvez você consiga, afinal, levantar o véu de mistério que cobre o passado de mais uma figura folclórica do Recife.

domingo, 11 de julho de 2010

Domingo é dia de enquete!

Encerramos mais uma enquete aqui no Blog da Reclamação! Dessa vez, houve um empate técnico entre a indignação causada pelo desempenho pífio das seleções favoritas e o nojo de assistir a performance do técnico da Alemanha e sua secreção nasal. Fiquem agora com mais uma enquete e não esqueçam de votar!