sábado, 31 de julho de 2010
Ladeira Chic
Gostaram do texto aí embaixo? Quem escreveu foi a amiga e designer Evinha, também conhecida como Mademoiselle Monté. Chique que só ela, ela agora mantém um blog para falar de outras coisas elegantes, não apenas na moda mundial e local, mas zapeando entre tópicos que vão de Gastronomia à Cinema. Eu mesmo ando tentando aprender alguma cosia com ela e me tornar mais apresentável. É por isso que, agora, os homens da equipe do Blog da Reclamação não usam mais camisa de micareta enfiada em calça jeans branca para ir ao trabalho. Valeu mesmo Eva!
Cliquem aqui para conhecerem o Ladeira Chic!
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Sexta-Feira dos convidados: A construção
Ela começou de mansinho, por volta de 2007, na esquina da Rua Dhália com a Cons. Aguiar. A sua chegada foi inclusive comemorada pelos moradores das redondezas. A construção iria ocupar o terreno baldio que abrigava vários menores, moradores de rua, que ocasionalmente cheiravam cola e incomodavam a vizinhança.
Além disso, provavelmente a kombi do teto verde não teria mais lugar. Eu explico. Convivíamos com a tal kombi do teto verde há um bom tempo. O veículo se instalava todas as noites na mesma esquina ocupada hoje pela construção. Ao cair da noite lá estava ele, com sua lona verde, protegendo seus clientes de uma possível chuva e vendendo Deus sabe o quê para os consumidores das madrugadas. Estes desocupados por sua vez, achavam interessante colocar suas bandas clássicas preferidas (Gatinha Manhosa, Kelvins Duran etc.) às alturas na madrugada de uma quarta-feira, assim chamavam a atenção e animavam os trabalhadores noturnos da região e evitavam as freqüentes brigas entre as prostitutas e travestis que partilhavam também a esquina. Era tudo com boa intenção, e percebe-se como vivíamos em harmonia.
Mas voltando, eis que chegou a construção. Sob a insígnia da Construtora Santo Antônio, celebramos então a sua vinda! Que ótimo, finalmente um edifício residencial para ocupar aquele reprodutor de miséria social sob as nossas janelas. Perderíamos mais uma parcela da parca vista para o mar, mas tudo bem, valeria a pena recuperar nossas noites de sono, mesmo que um pouco mais quentes.
Creio que desde que começou, de fato a kombi sumiu e também os moradores que haviam se apropriado do terreno. Começaram então os trabalhos nos primeiros meses de 2007. Perfurações, água mal cheirosa, proliferação de mosquitos da dengue, mas duraria pouco, tínhamos aquela certeza e esperança de que sofreríamos por 1 ano ou 2 no máximo e enfim a paz. As perfurações duraram todo o ano. Não esperei o réveillon para ver as comemorações sobre a construção, estava fora do país durante 2008, mas com saudades deste ambiente social caloroso, retornei em julho e pude admirar os avanços. Estavam batendo as estacas. Que férias pacíficas tive eu na minha querida cidade. Acordava com o batidão às 8h da manhã. E claro, dormia com ele que continuava na minha cabeça depois de um dia inteiro de batidas ritmadas.
Saí do país novamente. Um ano depois, estava eu de volta, esperando para ver aquele magnífico prédio, com famílias simpáticas habitando a minha rua. De fato, encontrei pessoas no prédio. Ele era habitado agora por uma dúzia de pedreiros cantores que faziam seu show pendurados por cabos de segurança, enquanto outros lá embaixo batiam em tonéis de concreto, no melhor estilo STOMP para completar a cadência ritmada. Era uma maravilha que começava, claro, às 8h da manhã. Além disso, eu tinha a oportunidade de compartilhar meus momentos íntimos com aquelas simpáticas pessoas que tinham acesso visual à janela do quarto e ao caminho que eu era obrigada a fazer quando saía do banho. Como isso me trazia felicidade.
Estamos em meados de 2010 e a construção continua...a construção. Ela, que deveria ocupar o terreno baldio, ocupa hoje, por vezes, a rua inteira, com seus exuberantes caminhões de descarga que fazem, geralmente em horário de pico, um ângulo perpendicular à Rua Dhália, interrompendo assim o trânsito, para que todos possam admirar sua magnitude.
Claro, para que apreciemos ainda mais a sua chegada (e permanência), ela começa seus trabalhos mais cedo, às 7h da manhã com o fabuloso show dos pedreiros cantores e sua orquestra inspirada no STOMP. O melhor de tudo é o repertório.
Evinha, feliz moradora da rua Dhália.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
Vida de estagiário, parte final
O ambiente em si era bastante organizado e tinha uma aparência limpa. Os equipamentos eram novos e os funcionários pareciam bem treinados. Virei-me e vi, do outro lado do salão, uma enorme silhueta contra a luz que entrava pela janela da parede oposta. Devia ter mais de dois metros de altura, ombros largos e braços musculosos. Algumas tatuagens, talvez símbolos de lealdade a alguma gangue, eram visíveis na pele esticada sobre os músculos protuberantes. Estava de costas e parecia concentrado na tarefa de destrinchar uma carcaça de origem dúbia e para isso se utilizava de um enorme cutelo, manchado de sangue e coberto de restos de entranhas.
- Aquele ali é o nosso chef. – informou, eficiente, o gerente.
- Hmm. Grandinho ele, né?
- O senhor vai querer falar com ele agora?
- Hmm, não. Não, acho que ele tá bem ocupado, não quero atrapalhar o serviço dele... – hesitei, enquanto observava os pedaços de vísceras voando a cada golpe do enorme cozinheiro.
- Besteira. Ele não se importa. Fifi? O moço quer falar com você.
- Oi? Fifi?
A figura gigantesca se voltou para mim. Era um homem de físico avantajado, cabelos compridos tingidos de loiro, maquiagem e o maior par de seios que eu já visto fora de uma revista pornô. Me olhou de cima a baixo com uma expressão de agrado e eu me senti grato pela longa bata da Vigilância Sanitária que eu estava vestindo por cima das minhas roupas. Ao terminar a avaliação, sorriu maliciosamente.
- Bom dia, moço.
- Bom dia, seu...quer dizer, dona...ahn...bom dia, Fifi.
Não conseguia tirar os olhos dos seios de Fifi. Aquele peitos incongruentes, estufados debaixo do avental manchado de sangue, eram tão desconcertantes que me deixaram sem fala por alguns momentos.
- Gostou, moço? – perguntou o cozinheiro, me encarando nos olhos.
- Oi? Se eu gostei? Gostei de quê?! – retorqui, na defensiva.
- Da minha cozinha, moço... – respondeu Fifi, candidamente.
- Ah, sim. Muito boa. É uma cozinha de respeito. Quer dizer, é muito...muito limpinha ela. Organizada. Parabéns, viu?
- Ai, brigada, moço.
- Agora tem um probleminha, Fifi.
- Qual? – perguntou Fifi, arregalando os olhos delineados com lápis muito escuro.
- Hmm. É a sua...a sua maquiagem. Não pode, Fifi. Dentro de uma cozinha não pode bijuteria, perfume e nem maquiagem. Hmm. Sinto muito.
- Mas moço! E eu vou sair na rua sem me pintar? Sem um brinquinho? É o mesmo que sair pelada!
Estremeci quando imagens do cozinheiro Fifi, vestindo apenas um Toc Blanc na cabeça e carregando um cutelo manchado em uma das mãos, invadiram a minha mente, que quase entrou em colapso naquele momento.
- Heim, moço? Como é que eu faço?
- Oi? Desculpa, Fifi, me distraí. Olha, eu sei que é chato, mas cozinha não é lugar de...de ficar bonita. Você bota suas jóias e maquiagem quando largar, pode ser?
- Sei disso não, moço. Não garanto nada. – respondeu Fifi, cruzando os braços sobre o peito volumoso e ainda segurando o cutelo ensangüentado em uma das mãos, o qual eu encarava fixamente.
- Hmm. Quer saber? Relaxa, Fifi. Isso tudo é frescura mesmo. Trabalhe do jeito que você quiser, viu? Só...só lembra de lavar as mãos de vez em quando, tá? Assim, quando der. Sem querer incomodar.
- Ai, moço, adorei!
Feliz da vida, Fifi me puxou para um abraço, apertando minha cabeça entre seus seios descomunais. Seu colo enorme cheirava a uma mistura de suor, Leite de Rosas e fígado bovino. Depois de alguns segundos, o cozinheiro finalmente me libertou de sua demonstração de carinho. Atordoado, cumprimentei os funcionários pelo bom trabalho e me encaminhei para a saída. O gerente, atencioso, me acompanhou durante todo o trajeto. O meu colega já se encontrava do lado de fora do estabelecimento, conversando animadamente com o motorista do veículo da Vigilância Sanitária. Assim que me viram, abriram enormes sorrisos.
- Então, Frederico. Conheceu lá a cozinha?
- Conheci sim. E Fifi mandou um beijo pra vocês dois. – respondi, com um sorriso encabulado.
Os homens mais velhos gargalharam, nos despedimos do gerente e saímos para atender outra ocorrência.
Eu havia sobrevivido ao meu primeiro dia de estágio.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Vida de estagiário, parte II
Era um cômodo vasto e mal iluminado. As paredes eram pintadas com cores escuras e havia uma série de divisórias criando caminhos tortuosos, becos sem saída e passagens falsas. Fui caminhando lentamente, impressionado com a estranheza daquele lugar. Quando dei por mim, já não sabia mais onde estava nem como encontrar a saída. O gerente não estava mais à vista.
- Esse lugar aqui é um dos mais requisitados na casa. – me informou a voz incorpórea do administrador.
Completamente perdido, me virava para todos os lados nervosamente, tentando me orientar através do som.
- Cadê você? – perguntei, tentando manter a voz firme, com pouco sucesso.
- Atrás do senhor. – respondeu o gerente, materializando-se às minhas costas, vindo aparentemente de lugar nenhum.
- Atrás do cão! – retruquei, me encostando nervosamente em uma das divisórias.
O funcionário, impassível, retomou o tour, guiando-me através das passagens estreitas da sala, enquanto explicava sua função.
- Esse aqui é o Labirinto. Quando é noite de quinta-feira, lá perto da meia-noite, os clientes vêm todos pra cá.
- E é? Fazer o quê? – indaguei ingenuamente, me arrependendo da pergunta logo em seguida.
- Ah, os clientes adoram. Ficam todos aqui dentro, correndo de um lado para o outro, até achar a saída. No escuro. Pelados.
- Putaquepariu!
- E aí, só tem uma regra: se um cliente consegue agarrar o outro, esse aí vai ter que dar.
- Dar? Hmm. Mas quando o senhor fala dar é...
- O cu.
- Ah. Tá. Claro. Bobagem a minha. Um telefonema é que não ia ser. Mas vê só, não rola briga? E se um cliente não quiser...ah...cooperar com o outro?
- Nunca aconteceu. Na verdade, o problema mesmo é tirar os clientes daqui. Tem gente que não quer mais sair.
- Sei. É, deve ser uma trabalheira danada. E ainda arrumar tudo...
- É muito trabalho mesmo. Especialmente lavar tudo depois. Essa divisória mesmo, onde o senhor tá encostado, só vai ser lavada amanhã.
- Entendo. – Sentindo calafrios, me afastei da medonha superfície.
- Tem mais alguma coisa que o senhor queria ver aqui em cima?
- Não! Não. Já tem material pra muito pesadelo com o que eu já vi. Valeu mesmo.
- Pois não. Vamos até a cozinha então?
Saímos do Labirinto, descemos as escadas e nos encaminhamos até a Copa da Sauna. Lá chegando, avistei meu colega já iniciando a inspeção do local.
Foi então que eu percebi que havia algo muito, muito estranho naquela cozinha.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Vida de estagiário, parte I
O trabalho enobrece o homem, o estágio o traumatiza. Prova disso foi um dos meus primeiros dias trabalhando na Vigilância Sanitária do Recife, alguns anos atrás. Lá, é comum os estagiários acompanharem os inspetores nas visitas aos estabelecimentos comerciais que ficam sob sua jurisdição. Não só restaurantes, lanchonetes e afins, mas também clínicas, creches, escolas e salões de beleza. Naquela vez, fomos parar em frente à uma casa antiga, de fachada sóbria e arquitetura portuguesa, bastante comuns ainda lá no bairro da Boa Vista. O inspetor, que parecia já conhecer bem a equipe de funcionários, foi entrando com desenvoltura e cumprimentando a todos, enquanto eu tentava adivinhar que tipo de serviço era oferecido por aquele lugar. Como é comum nesse tipo de edificação, o local era muito maior por dentro do que parecia ser por fora.
Passávamos por salas e mais salas, cada uma com uma função específica. Ao notar alguns apetrechos capilares em um dos ambientes, arrisquei “Então isso aqui é um salão de beleza?”. “Também”, respondeu o inspetor, com um sorriso malicioso. Avistei o que pareciam ser pequenos quartos, com almofadas e espelhos nas paredes. “Um motel?”, perguntei, já perdendo um pouco da minha ingenuidade. “Não deixa de ser”, replicou meu colega, rindo baixinho. Encontramos o gerente, que sorriu educadamente e me saudou:
- Bem-vindo à Sauna!
- Sauna? Que tipo de sauna? – perguntei, olhando ao redor, desconfiado.
- Gay. Bem-vindo à Sauna Gay. Primeira vez por aqui?
- Claro que sim! O que você quer dizer com isso? – questionei, com mais agressividade do que o necessário.
- Nada, nada. É que passa muita gente por aqui, sabe? – respondeu tranquilamente o experiente funcionário.
Muito profissional, o homem foi nos mostrando os diferentes ambientes. Eu observava tudo com uma curiosidade enorme, um tanto espantado de ver as entranhas de uma sauna voltada para o público homossexual daquela forma, em plena luz do dia, com seus funcionários realizando as tarefas mais prosaicas, como limpar o chão ou preparar os petiscos da noite. Entramos em um dos cubículos, que consistia basicamente de uma pequena televisão fixada em uma das paredes coloridas, uma almofada e uma espécie de cama, minúscula, colada à parede oposta.
- Hmm. Então é aqui que...é aqui que os clientes...bom...vêm se conhecer melhor?
- Aqui? Não, não. Eles se conhecem lá na frente, no salão, ou então na piscina.
- Certo.
- Aqui eles vêm pra meter mesmo.
- Ah, tá. Bom saber. Hmm. Meio apertado, né?
- Ah, meu filho...eles sempre dão um jeito. Por exemplo...tá vendo essa almofada aí atrás de você?
- Opa, essa aqui? – perguntei, saltando agilmente na direção oposta ao do objeto suspeito.
- Essa. Pronto. É nela mesmo. Fica um assim, de cócoras e o outro...
- Beleza, beleza! Já entendi, deu pra visualizar. Valeu aí.
E assim fomos seguindo, com o gerente fazendo as vezes de guia turístico, explicando exatamente as funções de todos os diferentes tipos de quarto. Eu, tentando agir naturalmente, enquanto o funcionário me cobria de detalhes não solicitados, muitos deles envolvendo intensa gesticulação. Já estava um tanto perdido, quando passamos para o segundo andar.
E ali, o que eu vi me deixou boquiaberto.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Decadência humana, parte II: fom-fom
Tenho que admitir que o cara era eclético, pelo menos. Do batidão eletrônico, passou desavergonhadamente para o brega rasgado. As pessoas se remexiam irrequietas na fila mas eu até sorria, perdido no meu mundo interior onde eu assassinava o motorista da caminhote seguidas vezes, de formas criativas e, muitas vezes, escatológicas. O sujeito finalmente terminou de fazer o quer que os imbecis congênitos fazem em uma padaria e voltou para o seu veículo. Um sentimento de alívio coletivo se espalhou por todo o ambiente e parecia que tudo ia acabar razoavelmente bem, até que uma mulher vestindo um short, sem dúvida emprestado da sua filha de 5 anos de idade, passou pela calçada. O retardado da caminhonete, que já estava saindo, quase estancou o veículo e, com os olhos semi-cerrados e a língua pendendo pelo lado direito da boca distorcida, ele fez fom-fom.
Fom-fom.
Ele não buzinou. Não, buzinar é uma coisa, fazer fom-fom é outra. Não me importa que tipo de educação você recebeu ou em que parte do planeta Terra você mora. Fazer fom-fom é errado. Fazer fom-fom é anunciar para o mundo que o sua existência é uma piada cruel da natureza, um aborto sem sucesso cujo DNA, segundo as leis de Deus e do homem, deveria ser destruído e lembrado apenas como um aviso tenebroso acerca dos recessos mais baixos e doentios aos quais o ser humano pode chegar. Fazer fom-fom é como sonhar com a própria avó e acordar de pau duro. Mesmo você sendo mulher.
Simplesmente não se faz.
Domingo é dia de...ahh, droga!
Pois é. Hoje é segunda-feira. Domingo mesmo foi ontem. Dia de enquete. Tudo culpa de quem? Minha é que não e sim do maldito computador que, por motivos que escapam à minha compreensão, se recusa a funcionar por mais de uma semana sem parar. Sei não, pra mim isso é o começo da revolta das máquinas. Eu já tranquei todos os eletrodomésticos daqui de casa no quartinho lá de trás. Não quero ser surpreendido enquanto durmo. De qualquer forma, em relação ao resultado da enquete anterior, houve um empate técnico entre todas as opções, tirando a terceira, na qual o goleiro Bruno pegava mais mulheres do que todo mundo, apesar de tudo. Foi a única que ficou zerada. O que provavelmente significa que a maior parte do meu público é composta por mulheres ou homens com fortes tendências homossexuais, coisa que eu já imaginava.
Então, crianças, me perdoem pelos atrasos e falta de atualização. Mais tarde sai texto novo e, por enquanto, fiquem com a nova enquete!
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Irritando Diego Gouveia
Não tenho problema algum em andar de ônibus diariamente na maravilhosssssa cidade do Recife. Como desculpa de pobre, digo às pessoas que transporte público é necessário para ajudar o meio ambiente (poluindo menos), o trânsito (menos carros nas ruas)... Sim, às vezes, sou politicamente correto. Além disso, vamos combinar que ônibus são locais perfeitos para estudos antropológicos. Eles nos reservaram boas surpresas. O CDU/Boa Viagem/Caxangá, por exemplo, é responsável por uma das melhores amizades que fiz na vida (homenagem a Mariana d’Emery). Agora, como tudo na vida, existem coisas no ônibus que irritam. Descaradamente, fazendo uso de quadros do programa Irritando Fernanda Young (IFY), vou explicar coisas que me deixam com cara de –q (o que é isso?) dentro do ônibus.
Quadro 1- Pergunta nada a ver
Você entra no ônibus já chateado porque o cobrador não deu o troco certo, alegando não ter moedas de cinco centavos, senta e aparece um cristão, sabe Deus de onde, com vontade de virar amygo! O tempo é sempre quem rege o primeiro diálogo. Mas que sol, não é? Você responde é, corre para pegar o fone de ouvido, mas a pessoa parece não entender. Ela continua: você estuda, faz faculdade? Terminou? Mestrado? Casado? Solteiro? Isso quando não começa a contar as lamúrias da vida... E não é por nada, mas ficar olhando para o lado no ônibus ativa labirintite facilmente e dá enjôo. Se você não é amigo da pessoa, não queira se tornar dentro do ônibus. Guarde sua carência para a próxima parada de ônibus! Fikdik!
Quadro 2 - Paca, Pouco, Picas
Agora, vamos elencar coisas que irritam paca (muito), pouco ou picas (nada)!
Paca – gente suada, gente que ocupa mais de um assento, gente que esfrega pipiu ou pitoca no ombro do coleguinha (isso é doença, minha gente).
Pouco – gente pregando o evangelho segundo Jesus Cristo, gente que conversa a viagem toda pelo celular (Edicleide, coloca esse menino pra dentro de casa e manda ele ir estudar, Edicleide), gente que não se oferecesse para segurar a bolsa/pasta do coleguinha (isso é falta de educação), gente que não oferece o lugar para idosos (negros, gordos, gays, índios, mulheres e outros quase seres humanos – brinqs).
Picas – quando você coloca um fone e senta do lado de uma pessoa que não fede, não passa suor para você, não ocupa mais que o espaço dele (porque sabe que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço), tudo dá certo.
Quadro 3 - Para encerrar o texto... A Apresentação Cultural do Dia
Sim, porque a gente sabe que dia de domingo não é permitido, por lei federal, andar de ônibus. Os que circulam por Boa Viagem então nem pensar. O swing, suor, cerveja, surrasco toma conta dos ônibus e você tem que entoar louvores a Deus se conseguir sair vivo. A performance das bandas Lapada, Nega do Babado, Michelle Melo e Companhia Limitada do Pagode tomam conta dos celulares (celular é uma coisa irritante também). Fudeu! Você pode ser obrigado a passar uma viagem inteira ouvindo brega e vendo a galera rebolar dentro do ônibus.
Nessas horas, tenho vontade de ter um carro e deixar de ser politicamente correto!
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Decadência humana, parte I: som alto
Aquela velha passada na padaria, no final do dia. Comprar pão-doce, sabe como é. A fila andando lentamente, repleta de pessoas comuns e desinteressantes, do jeito que uma fila deve ser. De repente, um barulho ensurdecedor e meus ouvidos são instantaneamente sodomizados por uma música eletrônica estilo bate-estaca, do tipo que todos deveriam ter sido legalmente obrigados a esquecer ainda nos anos 90. No estacionamento da panificadora, surge uma caminhonete caindo aos pedaços, pneus carecas, farol quebrado, acabamento no mais puro durepox, pintura cor de ferrugem e uma série de adesivos evangélicos segurando a coisa toda no lugar. A parte de trás do veículo era completamente dominada por uma caixa de som maior e, sem dúvida, mais cara do que o meu apartamento.
Tipo assim, só que pior.
Da caminhonete salta o motorista, alto, camisa quadriculada com os três primeiros botões abertos e um olhar levemente retardado. Minha mãe sempre me ensinou a nunca formar conceitos prévios das pessoas que sequer conheço, mas, enfim, nunca escutei a velha mesmo e assim que esse indivíduo apareceu em meu campo de visão, meu cérebro gritou “pau pequeno!”.
“Mas Fred. De repente o cara é o novo Kid Bengala, o Long Dong Silver tupiniquim, o infame Bem-Dotado de Itú! Como você pode saber?”. Foda-se. Pra mim, se saiu por aí de carro, com um sistema de som que vai levar mais tempo pra pagar do que a casa própria e musicalmente estuprando os ouvidos de transeuntes inocentes, tem pau pequeno. E mole. Pau pequeno e, ainda por cima, mole, é praticamente uma deficiência física. Devia ter assentos especiais nos ônibus pra pessoas assim. E esse cara tem que estar tentando compensar alguma coisa. Claro que, na verdade, acaba não compensando coisa alguma. Não tem mulher que prefira ficar surda a passar a noite com um homem anatomicamente correto e capaz de atender, ainda que minimamente, suas exigências. Ao menos foi o que me contaram e, por Deus, espero que seja verdade, porque eu não tenho dinheiro pra uma caixa de som dessas e duvido que fosse caber na minha bicicleta.
Mas eu poderia estar errado.
De repente, o dono da caminhonete anda mirando no público altamente específico e, compreensivelmente, reduzido das deficientes auditivas com expectativas sexuais nulas.
Tem gosto pra tudo.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Dia do Amigo: a pelada
Difícil não reclamar da idade. Especialmente quando se chega naquela em que a gente sente que consegue continuar fazendo as mesmas coisas de dez anos atrás, mas o corpo, sempre um realista, acaba estilando o esforço e te punindo com cãibras, contusões, hematomas, paradas cardiorrespiratórias e morte. Mas somos teimosos e adoramos sentir que estamos enganando a velhice mantendo os mesmos hábitos da juventude. Desses, o que mais demora a morrer é a tal da pelada. Não, não tô falando daquela sua tia velha que adora se exibir pelada na varanda. Essa aí tem mais é que morrer mesmo. O mais rápido possível. Não, me refiro mesmo à informal partida de futebol entre amigos, geralmente praticada aos domingos por homens sedentários que passam a semana sentados em seus escritórios, onde o maior esforço físico que realizam é apertar o botão da máquina de café expresso. Chega o final de semana e todo mundo pensa que virou menino de novo, realizam um máximo de dois minutos de alongamento antes da partida e acham que estão prontos para passar o dia jogando bola, geralmente na praia mesmo. Por isso que de vez quando a pelada mata um. Sim, nesse caso, pode ser a sua tia velha, de nojo mesmo.
Mas aí, claro, o rendimento não é o mesmo de antigamente. E há uma enorme diferença na forma como a partida se desenrola. Nada de dribles. Dá muito trabalho sair correndo e ainda tentar driblar o adversário. Quando acontece, geralmente é aquela velha puxadinha pro lado, que não engana mais nem a minha avó. Pode ser para esquerda ou para direita, o que dá ao jogador que está tentando roubar a bola 50% de chances de acerto. Se ele, por sorte, for para o lado correto, ótimo. Senão, desiste e deixa o adversário passar, sem nem olhar para trás e rezando para que o zagueiro seja um pouco mais determinado do que ele. A maioria aposta mais nos passes longos, dizendo a si mesmos que os bons jogadores não são os de maior velocidade e sim os que têm mais habilidade na hora de lançar a bola. Geralmente não dá em nada. Ou o passe é tão ridiculamente fraco que acaba no pé do adversário ou tão forte que acaba acertando a cabeça do lateral do time oposto, que aproveita para se fingir de morto e sair do jogo antes de dar mais vexame.
Ninguém se importa de jogar de cara para o sol, ruim mesmo é ter que ficar contra o vento. Nessa situação, a maior parte dos jogadores desiste de avançar e se concentra na defesa, sempre dizendo que é importante reforçar a retaguarda. De vez em quando aparece um mais ousado que projeta o bucho para frente e, aproveitando a inércia, consegue chegar até a área do outro time, lá ficando até se recuperar do esforço, geralmente de cócoras na beira do campo e exibindo um preocupante tom arroxeado no rosto convulsionado. A idade muda até a personalidade dos jogadores. Os fominhas de antigamente, odiados por pegarem a bola e só soltarem quando a partida acabava e o dono exigia a pelota de volta, são os generosos de hoje. Ninguém quer correr o risco de ficar com a redonda no pé e, Deus que me livre, ter que sair correndo com ela. O rodízio de goleiros continua. A diferença é que agora todo mundo quer ficar no gol, posição mais invejada em uma partida na qual o time adversário, bando de perronhas, não consegue lançar um mísero ataque ao campo oposto. É tanta tranqüilidade que dá até para tomar uma cervejinha e bater papo com o vendedor de amendoim.
E eu, que sempre fui o pior dos piores, eternamente pedindo próxima e sendo escolhido puramente em razão de um sistema de cotas de amizade, descobri que, inacreditavelmente, melhorei depois desses anos todos. Na última partida eu corri, lancei, arrisquei alguns dribles desengonçados e até mesmo chutei a bola na direção geral do gol adversário, acertando a velha que passava lá atrás. Estava até bastante orgulhoso de mim mesmo até que percebi que, na verdade, não era eu que tinha progredido em minhas habilidades futebolísticas. Os adversários é que não tinham mais forma física para exibir o futebol arte de antigamente, malandro, maroto, malicioso e, mais importante, móvel. E como os companheiros de time, em sua maioria, se encontram na mesma situação, a pelada fica parecendo mais uma partida de totó, com todos mantendo suas posições e chutando a bola preguiçosamente, somente quando esta, fortuitamente, acaba sobrando para alguém.
Não, aquele último jogo não foi nada bonito. Os gols só aconteciam por acidente, os jogadores passavam metade do tempo com uma das mãos nas costelas e reclamando de falta de ar enquanto alguns ainda caíam no chão pateticamente, sem nem estarem participando da jogada, e lá ficavam, indiferentes à própria dignidade. Mas foi divertido. Afinal, pelada só merece esse nome quando acontece entre amigos. E dar risada junto com eles é muito, muito melhor do que fazer gol.
Sorte minha, porque eu mesmo não fiz nenhum.
Uma homenagem do Blog da Reclamação ao Dia do Amigo!
segunda-feira, 19 de julho de 2010
O sereno
Mais um final de semana na casa da minha avó, nos confins misteriosos da cidade de Olinda. Lá chegando, começa a maratona de novelas na televisão, todas devidamente explicadas e comentadas pela matriarca da família. Na hora de dormir, ela procede à tarefa de arrumar meu quarto. Faz a cama, coloca mais travesseiros, traz um cobertor e começa a fechar todas as janelas. Ingênuo, peço que ela as deixe abertas, para refrescar mais o quarto. Ela se vira para mim com olhos arregalados e as rugas de um terror ancestral vincando seu rosto marcado pela idade e se recusa terminantemente a atender meu pedido. Quando pergunto o porquê, ela olha ao redor e me confidencia em um sussurro assustado:
- É por causa do sereno.
O sereno. O assassino serial do mundo geriátrico. Nêmeses da minha avó e de tantos outros idosos, aterrorizados pela possibilidade de serem visitados por esse vento genocida. O sereno matou mais gente do que as secas no Nordeste, as enchentes no Sudeste, as geadas no Sul e as balas perdidas no Rio de Janeiro, em um dia devagar. Felizes são os americanos e japoneses, enfrentando nada mais do que alguns furacões e tufões, meras brisas quando comparados ao sereno, verdadeira arma de destruição em massa da natureza. Invisível e indetectável, ataca apenas os velhinhos, preferencialmente os mais impressionáveis. Eficiente como um ninja, incansável como o Dragão de Komodo. Esse insidioso deslocamento de ar podia, em questão de minutos, demolir as defesas do corpo humano, abatendo as pessoas com uma fúria comparável apenas à Divina.
- Vou deixar tudo bem fechadinho pra você, viu meu filho? Não se preocupe, o sereno não vai te pegar.
- Mas vovó...eu vou morrer de calor e...
- Não discuta com sua avó! Pronto, fechei tudo. Até a janelinha do banheiro. E não vá abrir nada, que você sabe que eu tenho sono leve! Eu venho aqui e fecho de novo! O calor não mata ninguém, o sereno sim! Quero ver entrar um vento que seja nesse quarto...
Vovó estava certa. Não entrou uma única brisa a noite inteira. Na manhã seguinte, quando finalmente tive permissão de abrir as janelas e a porta, o quarto já havia se transformado em uma estufa de gás carbônico, o que até me teria feito muito bem, caso eu pertencesse ao reino vegetal. Alucinando levemente pela privação de oxigênio, eu cambaleei para fora do quarto, onde minha avó, sorridente, me esperava com a mesa do café da manhã posta.
- Dormiu bem, meu filho?
Como ainda tenho esperanças de receber, futuramente, uma herança, resolvi não responder. Respirei fundo o ar puro da manhã e me preparei para me alimentar. No cardápio matutino, uma especialidade da minha avó.
Vitamina de abacate.
domingo, 18 de julho de 2010
Domingo é dia de enquete!
Mais uma enquete encerrada e fica claro o sofrimento dos brasileiros que não possuem TV a cabo, sendo obrigados a assistir aberrações como Gugu e Raul Gil aos Domingos, sem dúvida aumentando as estatísticas de suicídio nesse dia da semana. O Blog da reclamação leva ao ar sua primeira enquete futebolística e aproveita para agradecer a todos os que votaram na última. Lembrando tamném que já tivemos três convidados para os textos reclamativos das sextas-feiras e a galera parece estar gostando. O último foi Alberto Penaforte, com um texto mais ácido do que sangue de Alien, falando das agruras dos que já passaram dos quarenta. Sorte que ainda estou longe.
Continuem lendo, comentando e reclamando!
Assinar:
Postagens (Atom)












