Do dicionário, dízimo:
1 A décima parte; décimo. 2 Contribuição que se pagava à Igreja e que correspondia à décima parte dos frutos recolhidos. 3 A décima parte de qualquer salário ou rendimento o qual se doa, voluntariamente, em várias Igrejas protestantes.
Como dito acima, entre os evangélicos principalmente, é coisa séria. É um valor que se paga para manter a instituição funcionando (às vezes, o dinheiro é usado de maneira diferente. Acontece), atendendo todos os que ela procuram, seja em busca de alento, emprego, paz de espírito, projeção social, amigos (reais ou imaginários. Sou ateu) ou whatever f%$+ing que seja.
De dezinho em dezinho, o cofre é enchido, as contas, pagas e a instituição mantém suas portas abertas, as pessoas continuam sendo atendidas em suas necessidades espirituais e todo mundo sai feliz e de alma alimentada e bem nutrida. Para quem bota fé, funciona (hehe... trocadilho).
Mas eis que surge um outro grupo de instituições com a sagaz ideia de implementar o dízimo de maneira tal que não pagá-lo é muitas vezes considerado uma heresia, como tirar o pão de cada dia da mesa de um trabalhador. São instituições também da área alimentícia. Mas se por sua vez as igrejas e afins vendem um produto que alimenta a alma, estas outras instituições vendem produtos que enchem o bucho mesmo (diferente das igrejas, que, vez por outra, acabam enchendo é o saco).
Divaguemos sobre os restaurantes e suas taxas de 10%.
Estes templos de ode à gula, luxuria e prazer quase que orgasmático (amo muito tudo isso. Hehe... trocadilho de novo) cada vez mais vêm agregando fiéis consumidores que, durante a semana, passam a deixar de comer em casa para comer na rua (viva o crescimento das cidades, que deixa nossas casas cada vez mais longe dos nossos trabalhos) e, durante o fim de semana, passam a abandonar suas refeições domésticas por N motivos, que vão desde socializar, encontrar amigos, comer uma coisinha diferente ou, no caso dos solteiros que não cozinham, por pura preguiça de aprender a cozinhar mesmo.
Ao passo que aumenta a demanda, aumenta também a oferta. E tome Recife a abrir restaurante, reformar restaurante, relançar restaurante e por aí vai. O recifense nunca comeu fora tanto quanto hoje (dados resultantes da observação, durante onze anos, de uma experiência empiricoparticipativa que teve a mim mesmo como cobaia, além de amigos, familiares e conhecidos). Isto resulta em uma explosão demográfica de uma casta adorada por alguns, odiadas por outros, mas requisitada sempre que se está num restaurante. Os garçons.
Estes caras estão no esquadrão de frente do estabelecimento. Se são legais, acessíveis, solícitos, o cliente volta. Óbvio, a comida tem de ser boa e, em alguns casos, a cerveja tem de ser gelada, senão é trabalhar em vão. Os caras têm de ATENDER BEM, do começo ao fim. E para isso, precisam ser bem remunerados.
Há países que levam tão a sério o bom atendimento que criaram a cultura de dar gorjeta quando bem atendidos. É uma gentileza e como toda ela, deve ser uma escolha, não uma obrigação.
Aí vem o empreendedor brasileiro e subverte a porra toda. Renomeia a gorjeta, passando a chamá-la Taxa de Serviços, institucionaliza a danada, passando a colocá-la na conta, quantifica-a como a décima parte de qualquer que tenha sido o montante do consumo e, na maior cara de pau, ainda inventa que é pra pagar parte do salário dos garçons, que passam a acreditar e defender essa fuleragem como um dogma.
E ainda tem aquela plaquinha que os auto-autoriza a cobrança do dízimo...
Mas não tem de ser assim. Vamos aos fatos:
FATO FODÁSTICO: COBRAR 10% NO RECIFE É CONTRA A LEI. LEI Nº 13.856, DE 26 DE AGOSTO DE 2009.
1 - Gorjeta é um dinheiro com que se gratifica um pequeno serviço, além do preço estipulado. É uma gratificação informal. Dá quem quer e quanto quiser. Taxa é um tributo estabelecido, regulamentado. Coisas totalmente diferentes.
2 – Volta e meia, pergunto ao garçom quanto dos 10% são de fato destinados a eles e o maior valor que escutei até hoje foi 7%. O dono fica com os outros 3%. Seria mais justo passar a cobrar 7%?
3 – Não seria. Mesmo que aquela plaquinha na parede dos restaurantes diga que o estabelecimento está autorizado a cobrar os 10%, em lugar algum diz que o consumidor é obrigado a pagar. E o motivo é óbvio. EU PAGO GORJETA SE EU QUISER, PORRA! Se esse valor passa a ser obrigação e for para ajudar no salário do funcionário, eu, de certa forma, estou pagando o salário do cara, o que faz de mim sócio. Opa! Vamos conversar sobre participação nos lucros?
4 – O mais importante. Apesar da culpa dessa cultura de 10% não ser totalmente do garçom, mas sim do dono do estabelecimento, não custa nada treinar a equipe pra deixar o cliente à vontade para pagar quanto quiser e se quiser, em vez de tentar constrangê-lo quando ele pede para retirar os 10% da conta. Já ouvi frases como “não vai pagar? A consciência é sua”, ou “você vai tirar parte do meu salário”.
5 – O fim dessa cobrança depende de você. Pare de pagar o dízimo aos restaurantes. Quer ajudar garçom? Peça para tirar os 10% da conta e pague a gorjeta diretamente a ele. Se você fizer as contas, vai ver que de 10% em 10%, vai-se embora um ingresso de cinema, de um show, uma semana de combustível ou a prestação daquele PS2 que você passou no cartão em 12 vezes sem juros.
Por @Gustavo_C













