sábado, 7 de agosto de 2010

Ovo?!



Suspense.

Semana que vem, o Blog da Reclamação revelará uma novidade bombástica que, estranhamente, tem muito a ver com a imagem acima. Mistério. Muito mistério. E ovos também, por algum motivo. Se quiser saber do que diabos eu estou falando, fique acompanhando o Blog atentamente nos próximos dias.

Aguardem.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Sexta-feira dos convidados: Dízimo com quem andas e te direi se pago


Do dicionário, dízimo:
1 A décima parte; décimo. 2 Contribuição que se pagava à Igreja e que correspondia à décima parte dos frutos recolhidos. 3 A décima parte de qualquer salário ou rendimento o qual se doa, voluntariamente, em várias Igrejas protestantes.

Como dito acima, entre os evangélicos principalmente, é coisa séria. É um valor que se paga para manter a instituição funcionando (às vezes, o dinheiro é usado de maneira diferente. Acontece), atendendo todos os que ela procuram, seja em busca de alento, emprego, paz de espírito, projeção social, amigos (reais ou imaginários. Sou ateu) ou whatever f%$+ing que seja.
De dezinho em dezinho, o cofre é enchido, as contas, pagas e a instituição mantém suas portas abertas, as pessoas continuam sendo atendidas em suas necessidades espirituais e todo mundo sai feliz e de alma alimentada e bem nutrida. Para quem bota fé, funciona (hehe... trocadilho).
Mas eis que surge um outro grupo de instituições com a sagaz ideia de implementar o dízimo de maneira tal que não pagá-lo é muitas vezes considerado uma heresia, como tirar o pão de cada dia da mesa de um trabalhador. São instituições também da área alimentícia. Mas se por sua vez as igrejas e afins vendem um produto que alimenta a alma, estas outras instituições vendem produtos que enchem o bucho mesmo (diferente das igrejas, que, vez por outra, acabam enchendo é o saco).
Divaguemos sobre os restaurantes e suas taxas de 10%.
Estes templos de ode à gula, luxuria e prazer quase que orgasmático (amo muito tudo isso. Hehe... trocadilho de novo) cada vez mais vêm agregando fiéis consumidores que, durante a semana, passam a deixar de comer em casa para comer na rua (viva o crescimento das cidades, que deixa nossas casas cada vez mais longe dos nossos trabalhos) e, durante o fim de semana, passam a abandonar suas refeições domésticas por N motivos, que vão desde socializar, encontrar amigos, comer uma coisinha diferente ou, no caso dos solteiros que não cozinham, por pura preguiça de aprender a cozinhar mesmo.
Ao passo que aumenta a demanda, aumenta também a oferta. E tome Recife a abrir restaurante, reformar restaurante, relançar restaurante e por aí vai. O recifense nunca comeu fora tanto quanto hoje (dados resultantes da observação, durante onze anos, de uma experiência empiricoparticipativa que teve a mim mesmo como cobaia, além de amigos, familiares e conhecidos). Isto resulta em uma explosão demográfica de uma casta adorada por alguns, odiadas por outros, mas requisitada sempre que se está num restaurante. Os garçons.
Estes caras estão no esquadrão de frente do estabelecimento. Se são legais, acessíveis, solícitos, o cliente volta. Óbvio, a comida tem de ser boa e, em alguns casos, a cerveja tem de ser gelada, senão é trabalhar em vão. Os caras têm de ATENDER BEM, do começo ao fim. E para isso, precisam ser bem remunerados.
Há países que levam tão a sério o bom atendimento que criaram a cultura de dar gorjeta quando bem atendidos. É uma gentileza e como toda ela, deve ser uma escolha, não uma obrigação.
Aí vem o empreendedor brasileiro e subverte a porra toda. Renomeia a gorjeta, passando a chamá-la Taxa de Serviços, institucionaliza a danada, passando a colocá-la na conta, quantifica-a como a décima parte de qualquer que tenha sido o montante do consumo e, na maior cara de pau, ainda inventa que é pra pagar parte do salário dos garçons, que passam a acreditar e defender essa fuleragem como um dogma.
E ainda tem aquela plaquinha que os auto-autoriza a cobrança do dízimo... 




Mas não tem de ser assim. Vamos aos fatos:
FATO FODÁSTICO: COBRAR 10% NO RECIFE É CONTRA A LEI. LEI Nº 13.856, DE 26 DE AGOSTO DE 2009.
1 - Gorjeta é um dinheiro com que se gratifica um pequeno serviço, além do preço estipulado. É uma gratificação informal. Dá quem quer e quanto quiser. Taxa é um tributo estabelecido, regulamentado. Coisas totalmente diferentes.
 2 – Volta e meia, pergunto ao garçom quanto dos 10% são de fato destinados a eles e o maior valor que escutei até hoje foi 7%. O dono fica com os outros 3%. Seria mais justo passar a cobrar 7%?
3 – Não seria. Mesmo que aquela plaquinha na parede dos restaurantes diga que o estabelecimento está autorizado a cobrar os 10%, em lugar algum diz que o consumidor é obrigado a pagar. E o motivo é óbvio. EU PAGO GORJETA SE EU QUISER, PORRA! Se esse valor passa a ser obrigação e for para ajudar no salário do funcionário, eu, de certa forma, estou pagando o salário do cara, o que faz de mim sócio. Opa! Vamos conversar sobre participação nos lucros?
4 – O mais importante. Apesar da culpa dessa cultura de 10% não ser totalmente do garçom, mas sim do dono do estabelecimento, não custa nada treinar a equipe pra deixar o cliente à vontade para pagar quanto quiser e se quiser, em vez de tentar constrangê-lo quando ele pede para retirar os 10% da conta. Já ouvi frases como “não vai pagar? A consciência é sua”, ou “você vai tirar parte do meu salário”.
5 – O fim dessa cobrança depende de você. Pare de pagar o dízimo aos restaurantes. Quer ajudar garçom? Peça para tirar os 10% da conta e pague a gorjeta diretamente a ele. Se você fizer as contas, vai ver que de 10% em 10%, vai-se embora um ingresso de cinema, de um show, uma semana de combustível ou a prestação daquele PS2 que você passou no cartão em 12 vezes sem juros. 

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Corrupção




Se você estava no planeta Terra nas últimas semanas deve ter acompanhado o triste caso de Rafael Mascarenhas, filho da apresentadora da emissora Globo Cissa Guimarães, que perdeu a vida ao ser atropelado por um outro jovem, em túnel no Rio de Janeiro. Os detalhes do acontecimento não serão discutidos aqui, mas quem quiser poder obter mais informações seguindo este link. Contudo, chamou a atenção, durante a investigação, o fato de que o motorista, que não prestou socorro a Rafael, chegou a ser parado, dirigindo seu carro visivelmente danificado pela colisão, por dois policiais militares, que liberaram o veículo depois de aceitarem uma alta soma de dinheiro. Para o azar desses oficiais corruptos, a vítima, que faleceu devido à violência do choque, era filho da já citada apresentadora de TV, uma pessoa bastante pública, transformando o caso em um circo de mídia e jogando mais lama no já combalido nome da polícia brasileira. A aceitação e o oferecimento de propinas são, infelizmente, uma instituição nacional. É notório que o cidadão brasileiro critique seus políticos pela falta de ética quase caricatural que apresentam, enquanto se recusam a fazer a própria parte, desrespeitando leis de trânsito, negociando propinas, jogando lixo nas ruas, vandalizando propriedade pública, etc.
De fato, falar é fácil, difícil mesmo é levar uma vida calcada pela retidão, pela civilidade, pelo respeito aos direitos dos outros e pela honestidade. Não é difícil concluir que os nossos políticos simplesmente refletem nosso próprio comportamento, apenas de uma forma pública, notória. Existem muitas e belíssimas exceções, evidentemente, mas no final das contas, permanece o fato de que vivemos imersos em uma cultura que valoriza o esperto e ridiculariza o honesto, causando uma in versão de valores que encontra-se firmemente enraizada em nossa história.
É possível ser correto. E nem é tão difícil assim, basta tentar. Basta reclamar menos e fazer mais. E ser criativo também ajuda bastante. O texto abaixo ilustra uma situação vivida por mim há alguns anos, quando me envolvi em uma situação, digamos, delicada no trânsito do Recife.

Corrupção X Criatividade


Estava na Zona Sul do Recife, saindo do bairro da Imbiribeira pela avenida de mesmo nome e subi o viaduto, quase em frente ao Aeroporto Internacional dos Guararapes, que leva à Boa Viagem. Aquela passagem suspensa havia sido construída recentemente, fato que ainda deixava alguns motoristas confusos quanto a qual via, exatamente, tomar. Ao fazer a curva, me deparei com duas passagens, separadas por alguns gelos baianos. Como era a primeira vez que passava por ali depois da construção do viaduto, peguei a faixa da esquerda, só percebendo tarde demais que aquela era exclusiva para ônibus. Como estava devagar e não havia outros carros, parei e retornei para o caminho da direita, destinado a carros de passeio. Ali, como que brotando do próprio asfalto, surgiu uma blitz do Departamento de Trânsito, o famigerado DETRAN, famoso em todo o território nacional pelo descaramento com que negocia multas pelas estradas do Brasil, geralmente com a colaboração dos motoristas, claro. 

O guarda viu minha manobra irregular e fez sinal para que eu parasse. Estacionei o veículo um pouco mais à frente e olhei pelo retrovisor para o policial que se aproximava. Trazia um sorriso ganancioso nos lábios, provavelmente já antecipando o suborno que esperava conseguir naquela ocasião. Acontece que sempre tive como ponto de honra jamais compactuar com qualquer tipo de corrupção, especialmente aquela ligada ao trânsito, uma das categorias que mais me tiravam do sério. Por outro lado, sempre fui um liso crônico e aquela multa ia pesar bastante nas minhas já magras finanças. Considerei a hipótese de argumentar com o policial, explicar que era a primeira vez que pegava aquele trajeto depois da reforma, afinal de contas erros acontecem, etc. Dei mais uma olhada pelo espelho do carro, avaliando a figura do homem que se aproximava. Era baixo e gordo, tinha pele morena e ostentava o obrigatório bigode que distingue, por algum motivo, a grande maioria dos policiais do país. Seu sorriso aumentava a cada passo e passava uma língua pequena e descorada entre o lábio inferior e os pelos protuberantes do superior, amarelados por um provável caso de tabagismo. Não me pareceu do tipo que se deixasse levar por um pedido de desculpas, ainda que honesto. 



Raciocinei furiosamente, tentando encontrar uma solução para o problema. Ao olhar mais uma vez pelo retrovisor, percebi que eu também não estava com a melhor das aparências: trazia a barba por fazer, um escuro par de olheiras de uma noite mal dormida, cabelos desgrenhados e um visível aspecto cansado, tudo isso empapado pelo suor causado pelo inclemente sol do Recife. Vendo a triste figura que eu fazia, uma ideia finalmente me surgiu e o seguinte diálogo teve lugar:

- Bom-dia, cidadão.

- Bom...bom-dia, seu guarda. – gaguejei, arrastando a minha voz e lançando um olhar semimorto para o policial.

- O senhor sabe por que eu lhe parei?

- Sei sim...entrei na faixa de ônibus, né? É que eu estava apressado, preciso chegar a um hospital. – continuei, afundando miseravelmente no banco do carro.

- Sei. O hospital, é? – o guarda hesitou, confuso.

- Isso seu guarda...não estou me sentindo bem. Acho que é grave. – insisti, fazendo minha melhor imitação de cadáver reanimado.



Tipo assim.
 
O guarda ficou mudo. Era provável que não tivesse sido treinado para aquela situação no curso de suborno oferecido pelos seus colegas mais experientes. Na falta de uma referência, resolveu se ater à fórmula.

- Veja bem...isso que o senhor fez foi muito grave... – provocou, balançando a cabeça pesarosamente.

- Eu sei, mas nesse estado que eu estou, não consigo nem pensar mais...acho que é o coração, sabe? – lamentei, deitando minha mão não tão sutilmente por sobre o peito.

O guarda olhou para mim, atentou para todos os meus sete fios de cabelo brancos e me voltou um olhar cheio de suspeita.

- Coração? Na sua idade?

- É genética. Meu pai morreu do coração. Meu avô morreu do coração. Tive até um cunhado que morreu do coração.

- Um cunhado?!

- É que a gente era muito próximo, seu guarda. – respondi, arregalando os olhos contra o sol e tentando forçar algumas lágrimas.

 O guarda olhou em volta, em busca de apoio. Seu superior observava à distância, certamente se perguntando o porquê da demora de uma negociação tão simples. Em casos como esse, as pequenas indiretas lançadas pelo policial gordo seriam suficientes para que o motorista entendesse o recado e contribuísse para a cervejinha do fim de semana dos oficiais. Talvez o superior pretendesse submeter o subalterno a algum tipo de teste. Ou simplesmente não quisesse sair da sombra onde se encontrava. Qualquer que fosse o motivo, dirigiu um olhar significativo para seu comandado e permaneceu onde estava, observando o movimento dos outros veículos.

- Olhe...veja bem. Isso que...isso que o senhor fez...dá uma multa alta, viu? Coisa grave!– reiniciou o guarda, traços de desespero já se tornando patentes em sua voz.

- Grave mesmo é o meu estado! Se eu não chegar em um hospital agora, eu...eu... – e comecei a me tremer, balançando pelo carro em uma mistura um tanto exagerada de epilepsia aguda somada a Mal de Parkinson crônico. 

O policial, boquiaberto, parecia não acreditar nos próprios olhos. 

- Moço! Moço, o senhor...o senhor precisa entender que...olhe, é uma multa pesada! É mais de duzentos reais, moço! – berrava o homem, transtornado.

- Eu não...eu...ggggg...não...não...nnnnn... – balbuciei, me sacudindo loucamente pelo carro. Por pura força de vontade, comecei a espumar pelos cantos da boca.

- Moço! Moço! – gritava o policial horrorizado, dividido entre a necessidade da propina que precisaria dividir com o superior e o desejo de se livrar daquele candidato a defunto que se debatia grotescamente na sua frente.

- Mas são duzentos reais, moço! – guinchou o oficial, quase aos prantos.

- Gaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhh!

- Tá bom, tá bom, porra! Vai, tá liberado! – concedeu o homem, enfim dando-se por vencido.

- Opa, valeu. – Me recompus com rapidez e saí tranquilamente, observando pelo retrovisor o oficial superior aproximando-se, com uma expressão de profundo desagrado, do policial gordo, que soluçava baixinho na calçada. Sorri para mim mesmo e segui em frente. Teria assoviado, se soubesse como.

Fred 1 X 0 Polícia corrupta.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

No Portuguese


O professor de Inglês respira fundo. Na sua frente está o aluno, um homem de meia-idade, usineiro de sucesso do interior do estado de Pernambuco. Há algumas semanas que as aulas vêm acontecendo e, até aquele momento, o progresso do empresário da cana se limitava ao uso, freqüentemente incorreto, das palavras “Yes” e “No”. A aula desse dia envolvia vestuário e o professor começou com as peças com grafia e pronúncia mais semelhantes ao português, como “jeans”, “blouse” e “jacket”.
- Ok, now repeat:T-shirt. – E apontava para a própria camisa.
- Tixerte. – Repetia o aluno, obedientemente.
- Hmm. Ok. Repeat: Pants. – Seguiu, indicando suas calças.
- Pêntis.
- Boxers. – O professor estacou, em dúvida. Como fazer o aluno entender que ele falava de cueca?
- É o quê, tchitcher? – perguntou o aluno, confuso.
- No Portuguese, Mister Severino. – Respondeu o professor automaticamente. Não se podia falar a língua materna em sala de aula e o professor levava aquela regra muito a sério.
- Biu, tchitcher. – Corrigiu o aluno, muito simpático.
- Ok, Mister Bill. So...ahn...boxers. Boxers…boxers…ok. Here, take a look.
Diligentemente, o professor desenhou a figura do Super-Homem, voando elegantemente pela lousa branca. Apontava com seu marcador para a cueca vermelha que o herói, por algum motivo, vestia sobre as calças azuis.
- Ok, see?
- Ôxe, sei demais. Superômi.
- No Portuguese, Mister Bill!
- Superman, Superman!
- No!
- Vôte, e é o Homi-Aranha, por acaso?
- Argh! No! No. Ok. Let me think... – O professor repetiu mais uma vez a palavra “boxers”, dessa vez apontando sutilmente para sua região pélvica.
- Cumé a história, tchitcher? – Indagou o aluno, franzindo o cenho.
- Boxers. – Tornou a falar o professor, que agora apontava, estupidamente, de si mesmo para o aluno, ainda indicando a área da virilha.
- Apoi num vô fazer esse boxi com o sinhô não, respeito é bom e eu gosto! – retrucou ferozmente o usineiro, levantando-se de sua banca.
Desesperado, o professor saltou na direção da porta, ficando entre a saída e seu aluno, que deu um passo para trás, assustado.
- O sinhô tá manifestado, tchitcher?! – Perguntou Severino, assustado.
- Boxers! Boxers! – Repetia o professor, à ponto de sofrer uma síncope. Resolveu apelar: desabotoou as calças e exibiu sua própria cueca, estampada com uma grande variedade de animais coloridos e sorridentes. Havia sido um presente da sua avó. Horrorizado, Severino encostou-se à parede, as mãos crispadas ao lado do corpo trêmulo.
- Boxers!
- Deus me defenda! Num faço, num faço! O sinhô pode dar a muléstia aí, mai num faço!
O professor agora segurava sua cueca com ambas as mãos e berrava ensandecidamente. Severino, ainda que aterrorizado por se encontrar em situação tão bizarra, finalmente começou a exibir sinais de compreensão. Olhava pensativamente do rosto apoplético do professor de inglês para sua ridícula cueca infantil.
- Apoi...
- Yes! Yes, Mister Bill! Go on!
- Apoi…
- Yes, boxers! That’s right!
- Apoi é Zorba, é?



O professor de inglês, fulminado, tombou para frente. Seus olhos mortos fitavam o vazio e um fio de saliva escorria de sua boca retorcida. Depois dessa experiência, Severino desistiu de aprender a língua inglesa, sempre contando para os compadres do interior o estranho causo do seu professor, que havia morrido em sala de aula, com as calças tristemente arriadas até os joelhos.
Porém sem jamais falar português em sala de aula.

domingo, 1 de agosto de 2010

Domingo é dia de enquete!



Chega ao fim mais uma enquete do Blog da reclamação, talvez a mais importante até agora! É com prazer e bastante alívio que anuncio que a maioria dos leitores quer que Fred continue escrevendo suas queixas mais ou menos diárias aqui no Blog. Em um segundo lugar apertado demais para o meu gosto, os leitores declararam que só apareciam por aqui para conhecer pessoas novas e talvez preencher suas vidas miseráveis com alguns momentos efêmros de alegria. E a nova enquete joga a batata quente para os outros, perguntando aos fiéis leitores:

Dos textos de escritores convidados, qual foi o que você mais gostou?

1- "Tipos de emprego" - Por Mauro, o galhofeiro.

2- "O caso do cachorro cagão" - Por Andréa Nobre

3- "Se tem mais de quarenta, agüenta" - Por Alberto Penaforte

4 - "Irritando Diego Gouveia" - Por Diego Gouveia.

5 - "A construção" - Por Evinha

Vejam ou revejam os textos pelos links aí em cima e votem nos seus favoritos! Faça sua torcida, junte sua troça de carnaval e defenda seu escritor convidado favorito!

sábado, 31 de julho de 2010

Ladeira Chic



Gostaram do texto aí embaixo? Quem escreveu foi a amiga e designer Evinha, também conhecida como Mademoiselle Monté. Chique que só ela, ela agora mantém um blog para falar de outras coisas elegantes, não apenas na moda mundial e local, mas zapeando entre tópicos que vão de Gastronomia à Cinema. Eu mesmo ando tentando aprender alguma cosia com ela e me tornar mais apresentável. É por isso que, agora, os homens da equipe do Blog da Reclamação não usam mais camisa de micareta enfiada em calça jeans branca para ir ao trabalho. Valeu mesmo Eva!

Cliquem aqui para conhecerem o Ladeira Chic!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Sexta-Feira dos convidados: A construção




Ela começou de mansinho, por volta de 2007, na esquina da Rua Dhália com a Cons. Aguiar. A sua chegada foi inclusive comemorada pelos moradores das redondezas. A construção iria ocupar o terreno baldio que abrigava vários menores, moradores de rua, que ocasionalmente cheiravam cola e incomodavam a vizinhança.
Além disso, provavelmente a kombi do teto verde não teria mais lugar. Eu explico. Convivíamos com a tal kombi do teto verde há um bom tempo. O veículo se instalava todas as noites na mesma esquina ocupada hoje pela construção. Ao cair da noite lá estava ele, com sua lona verde, protegendo seus clientes de uma possível chuva e vendendo Deus sabe o quê para os consumidores das madrugadas. Estes desocupados por sua vez, achavam interessante colocar suas bandas clássicas preferidas (Gatinha Manhosa, Kelvins Duran etc.) às alturas na madrugada de uma quarta-feira, assim chamavam a atenção e animavam os trabalhadores noturnos da região e evitavam as freqüentes brigas entre as prostitutas e travestis que partilhavam também a esquina. Era tudo com boa intenção, e percebe-se como vivíamos em harmonia.
Mas voltando, eis que chegou a construção. Sob a insígnia da Construtora Santo Antônio, celebramos então a sua vinda! Que ótimo, finalmente um edifício residencial para ocupar aquele reprodutor de miséria social sob as nossas janelas. Perderíamos mais uma parcela da parca vista para o mar, mas tudo bem, valeria a pena recuperar nossas noites de sono, mesmo que um pouco mais quentes.
Creio que desde que começou, de fato a kombi sumiu e também os moradores que haviam se apropriado do terreno. Começaram então os trabalhos nos primeiros meses de 2007. Perfurações, água mal cheirosa, proliferação de mosquitos da dengue, mas duraria pouco, tínhamos aquela certeza e esperança de que sofreríamos por 1 ano ou 2 no máximo e enfim a paz. As perfurações duraram todo o ano. Não esperei o réveillon para ver as comemorações sobre a construção, estava fora do país durante 2008, mas com saudades deste ambiente social caloroso, retornei em julho e pude admirar os avanços. Estavam batendo as estacas. Que férias pacíficas tive eu na minha querida cidade. Acordava com o batidão às 8h da manhã. E claro, dormia com ele que continuava na minha cabeça depois de um dia inteiro de batidas ritmadas.
Saí do país novamente. Um ano depois, estava eu de volta, esperando para ver aquele magnífico prédio, com famílias simpáticas habitando a minha rua. De fato, encontrei pessoas no prédio. Ele era habitado agora por uma dúzia de pedreiros cantores que faziam seu show pendurados por cabos de segurança, enquanto outros lá embaixo batiam em tonéis de concreto, no melhor estilo STOMP para completar a cadência ritmada. Era uma maravilha que começava, claro, às 8h da manhã. Além disso, eu tinha a oportunidade de compartilhar meus momentos íntimos com aquelas simpáticas pessoas que tinham acesso visual à janela do quarto e ao caminho que eu era obrigada a fazer quando saía do banho. Como isso me trazia felicidade.

Estamos em meados de 2010 e a construção continua...a construção. Ela, que deveria ocupar o terreno baldio, ocupa hoje, por vezes, a rua inteira, com seus exuberantes caminhões de descarga que fazem, geralmente em horário de pico, um ângulo perpendicular à Rua Dhália, interrompendo assim o trânsito, para que todos possam admirar sua magnitude.
Claro, para que apreciemos ainda mais a sua chegada (e permanência), ela começa seus trabalhos mais cedo, às 7h da manhã com o fabuloso show dos pedreiros cantores e sua orquestra inspirada no STOMP. O melhor de tudo é o repertório.

Evinha, feliz moradora da rua Dhália.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Vida de estagiário, parte final




O ambiente em si era bastante organizado e tinha uma aparência limpa. Os equipamentos eram novos e os funcionários pareciam bem treinados. Virei-me e vi, do outro lado do salão, uma enorme silhueta contra a luz que entrava pela janela da parede oposta. Devia ter mais de dois metros de altura, ombros largos e braços musculosos. Algumas tatuagens, talvez símbolos de lealdade a alguma gangue, eram visíveis na pele esticada sobre os músculos protuberantes. Estava de costas e parecia concentrado na tarefa de destrinchar uma carcaça de origem dúbia e para isso se utilizava de um enorme cutelo, manchado de sangue e coberto de restos de entranhas.
- Aquele ali é o nosso chef. – informou, eficiente, o gerente.
- Hmm. Grandinho ele, né?
- O senhor vai querer falar com ele agora?
- Hmm, não. Não, acho que ele tá bem ocupado, não quero atrapalhar o serviço dele... – hesitei, enquanto observava os pedaços de vísceras voando a cada golpe do enorme cozinheiro.
- Besteira. Ele não se importa. Fifi? O moço quer falar com você.
- Oi? Fifi?
A figura gigantesca se voltou para mim. Era um homem de físico avantajado, cabelos compridos tingidos de loiro, maquiagem e o maior par de seios que eu já visto fora de uma revista pornô. Me olhou de cima a baixo com uma expressão de agrado e eu me senti grato pela longa bata da Vigilância Sanitária que eu estava vestindo por cima das minhas roupas. Ao terminar a avaliação, sorriu maliciosamente.
- Bom dia, moço.
- Bom dia, seu...quer dizer, dona...ahn...bom dia, Fifi.
Não conseguia tirar os olhos dos seios de Fifi. Aquele peitos incongruentes, estufados debaixo do avental manchado de sangue, eram tão desconcertantes que me deixaram sem fala por alguns momentos.
- Gostou, moço? – perguntou o cozinheiro, me encarando nos olhos.
- Oi? Se eu gostei? Gostei de quê?! – retorqui, na defensiva.
- Da minha cozinha, moço... – respondeu Fifi, candidamente.
- Ah, sim. Muito boa. É uma cozinha de respeito. Quer dizer, é muito...muito limpinha ela. Organizada. Parabéns, viu?
- Ai, brigada, moço.
- Agora tem um probleminha, Fifi.
- Qual? – perguntou Fifi, arregalando os olhos delineados com lápis muito escuro.
- Hmm. É a sua...a sua maquiagem. Não pode, Fifi. Dentro de uma cozinha não pode bijuteria, perfume e nem maquiagem. Hmm. Sinto muito.
- Mas moço! E eu vou sair na rua sem me pintar? Sem um brinquinho? É o mesmo que sair pelada!
Estremeci quando imagens do cozinheiro Fifi, vestindo apenas um Toc Blanc na cabeça e carregando um cutelo manchado em uma das mãos, invadiram a minha mente, que quase entrou em colapso naquele momento.
- Heim, moço? Como é que eu faço?
- Oi? Desculpa, Fifi, me distraí. Olha, eu sei que é chato, mas cozinha não é lugar de...de ficar bonita. Você bota suas jóias e maquiagem quando largar, pode ser?
- Sei disso não, moço. Não garanto nada. – respondeu Fifi, cruzando os braços sobre o peito volumoso e ainda segurando o cutelo ensangüentado em uma das mãos, o qual eu encarava fixamente.
- Hmm. Quer saber? Relaxa, Fifi. Isso tudo é frescura mesmo. Trabalhe do jeito que você quiser, viu? Só...só lembra de lavar as mãos de vez em quando, tá? Assim, quando der. Sem querer incomodar.
- Ai, moço, adorei!
Feliz da vida, Fifi me puxou para um abraço, apertando minha cabeça entre seus seios descomunais. Seu colo enorme cheirava a uma mistura de suor, Leite de Rosas e fígado bovino. Depois de alguns segundos, o cozinheiro finalmente me libertou de sua demonstração de carinho. Atordoado, cumprimentei os funcionários pelo bom trabalho e me encaminhei para a saída. O gerente, atencioso, me acompanhou durante todo o trajeto. O meu colega já se encontrava do lado de fora do estabelecimento, conversando animadamente com o motorista do veículo da Vigilância Sanitária. Assim que me viram, abriram enormes sorrisos.
- Então, Frederico. Conheceu lá a cozinha?
- Conheci sim. E Fifi mandou um beijo pra vocês dois. – respondi, com um sorriso encabulado.
Os homens mais velhos gargalharam, nos despedimos do gerente e saímos para atender outra ocorrência.
Eu havia sobrevivido ao meu primeiro dia de estágio.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Vida de estagiário, parte II




Era um cômodo vasto e mal iluminado. As paredes eram pintadas com cores escuras e havia uma série de divisórias criando caminhos tortuosos, becos sem saída e passagens falsas. Fui caminhando lentamente, impressionado com a estranheza daquele lugar. Quando dei por mim, já não sabia mais onde estava nem como encontrar a saída. O gerente não estava mais à vista.
- Esse lugar aqui é um dos mais requisitados na casa. – me informou a voz incorpórea do administrador.
Completamente perdido, me virava para todos os lados nervosamente, tentando me orientar através do som.
- Cadê você? – perguntei, tentando manter a voz firme, com pouco sucesso.
- Atrás do senhor. – respondeu o gerente, materializando-se às minhas costas, vindo aparentemente de lugar nenhum.
- Atrás do cão! – retruquei, me encostando nervosamente em uma das divisórias.
O funcionário, impassível, retomou o tour, guiando-me através das passagens estreitas da sala, enquanto explicava sua função.
- Esse aqui é o Labirinto. Quando é noite de quinta-feira, lá perto da meia-noite, os clientes vêm todos pra cá.
- E é? Fazer o quê? – indaguei ingenuamente, me arrependendo da pergunta logo em seguida.
- Ah, os clientes adoram. Ficam todos aqui dentro, correndo de um lado para o outro, até achar a saída. No escuro. Pelados.
- Putaquepariu!
- E aí, só tem uma regra: se um cliente consegue agarrar o outro, esse aí vai ter que dar.
- Dar? Hmm. Mas quando o senhor fala dar é...
- O cu.
- Ah. Tá. Claro. Bobagem a minha. Um telefonema é que não ia ser. Mas vê só, não rola briga? E se um cliente não quiser...ah...cooperar com o outro?
- Nunca aconteceu. Na verdade, o problema mesmo é tirar os clientes daqui. Tem gente que não quer mais sair.
- Sei. É, deve ser uma trabalheira danada. E ainda arrumar tudo...
- É muito trabalho mesmo. Especialmente lavar tudo depois. Essa divisória mesmo, onde o senhor tá encostado, só vai ser lavada amanhã.
- Entendo. – Sentindo calafrios, me afastei da medonha superfície.
- Tem mais alguma coisa que o senhor queria ver aqui em cima?
- Não! Não. Já tem material pra muito pesadelo com o que eu já vi. Valeu mesmo.
- Pois não. Vamos até a cozinha então?
Saímos do Labirinto, descemos as escadas e nos encaminhamos até a Copa da Sauna. Lá chegando, avistei meu colega já iniciando a inspeção do local.
Foi então que eu percebi que havia algo muito, muito estranho naquela cozinha.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Vida de estagiário, parte I




O trabalho enobrece o homem, o estágio o traumatiza. Prova disso foi um dos meus primeiros dias trabalhando na Vigilância Sanitária do Recife, alguns anos atrás. Lá, é comum os estagiários acompanharem os inspetores nas visitas aos estabelecimentos comerciais que ficam sob sua jurisdição. Não só restaurantes, lanchonetes e afins, mas também clínicas, creches, escolas e salões de beleza. Naquela vez, fomos parar em frente à uma casa antiga, de fachada sóbria e arquitetura portuguesa, bastante comuns ainda lá no bairro da Boa Vista. O inspetor, que parecia já conhecer bem a equipe de funcionários, foi entrando com desenvoltura e cumprimentando a todos, enquanto eu tentava adivinhar que tipo de serviço era oferecido por aquele lugar. Como é comum nesse tipo de edificação, o local era muito maior por dentro do que parecia ser por fora. 

Passávamos por salas e mais salas, cada uma com uma função específica. Ao notar alguns apetrechos capilares em um dos ambientes, arrisquei “Então isso aqui é um salão de beleza?”. “Também”, respondeu o inspetor, com um sorriso malicioso. Avistei o que pareciam ser pequenos quartos, com almofadas e espelhos nas paredes. “Um motel?”, perguntei, já perdendo um pouco da minha ingenuidade. “Não deixa de ser”, replicou meu colega, rindo baixinho. Encontramos o gerente, que sorriu educadamente e me saudou:

- Bem-vindo à Sauna! 

- Sauna? Que tipo de sauna? – perguntei, olhando ao redor, desconfiado.

- Gay. Bem-vindo à Sauna Gay. Primeira vez por aqui?

- Claro que sim! O que você quer dizer com isso? – questionei, com mais agressividade do que o necessário.

- Nada, nada. É que passa muita gente por aqui, sabe? – respondeu tranquilamente o experiente funcionário.

Muito profissional, o homem foi nos mostrando os diferentes ambientes. Eu observava tudo com uma curiosidade enorme, um tanto espantado de ver as entranhas de uma sauna voltada para o público homossexual daquela forma, em plena luz do dia, com seus funcionários realizando as tarefas mais prosaicas, como limpar o chão ou preparar os petiscos da noite. Entramos em um dos cubículos, que consistia basicamente de uma pequena televisão fixada em uma das paredes coloridas, uma almofada e uma espécie de cama, minúscula, colada à parede oposta. 



- Hmm. Então é aqui que...é aqui que os clientes...bom...vêm se conhecer melhor?


- Aqui? Não, não. Eles se conhecem lá na frente, no salão, ou então na piscina.

- Certo.

- Aqui eles vêm pra meter mesmo.

- Ah, tá. Bom saber. Hmm. Meio apertado, né?

- Ah, meu filho...eles sempre dão um jeito. Por exemplo...tá vendo essa almofada aí atrás de você?

- Opa, essa aqui? – perguntei, saltando agilmente na direção oposta ao do objeto suspeito.

- Essa. Pronto. É nela mesmo. Fica um assim, de cócoras e o outro...

- Beleza, beleza! Já entendi, deu pra visualizar. Valeu aí.

E assim fomos seguindo, com o gerente fazendo as vezes de guia turístico, explicando exatamente as funções de todos os diferentes tipos de quarto. Eu, tentando agir naturalmente, enquanto o funcionário me cobria de detalhes não solicitados, muitos deles envolvendo intensa gesticulação. Já estava um tanto perdido, quando passamos para o segundo andar.

E ali, o que eu vi me deixou boquiaberto.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Decadência humana, parte II: fom-fom




Tenho que admitir que o cara era eclético, pelo menos. Do batidão eletrônico, passou desavergonhadamente para o brega rasgado. As pessoas se remexiam irrequietas na fila mas eu até sorria, perdido no meu mundo interior onde eu assassinava o motorista da caminhote seguidas vezes, de formas criativas e, muitas vezes, escatológicas. O sujeito finalmente terminou de fazer o quer que os imbecis congênitos fazem em uma padaria e voltou para o seu veículo. Um sentimento de alívio coletivo se espalhou por todo o ambiente e parecia que tudo ia acabar razoavelmente bem, até que uma mulher vestindo um short, sem dúvida emprestado da sua filha de 5 anos de idade, passou pela calçada. O retardado da caminhonete, que já estava saindo, quase estancou o veículo e, com os olhos semi-cerrados e a língua pendendo pelo lado direito da boca distorcida, ele fez fom-fom.

Fom-fom.

Ele não buzinou. Não, buzinar é uma coisa, fazer fom-fom é outra. Não me importa que tipo de educação você recebeu ou em que parte do planeta Terra você mora. Fazer fom-fom é errado. Fazer fom-fom é anunciar para o mundo que o sua existência é uma piada cruel da natureza, um aborto sem sucesso cujo DNA, segundo as leis de Deus e do homem, deveria ser destruído e lembrado apenas como um aviso tenebroso acerca dos recessos mais baixos e doentios aos quais o ser humano pode chegar. Fazer fom-fom é como sonhar com a própria avó e acordar de pau duro. Mesmo você sendo mulher. 

Simplesmente não se faz.