quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O cabeludo e a freira, Parte 2


As pancadas na porta reverberam por todo o corpo de Pedro. Considerou seriamente a possibilidade de simplesmente sair correndo dali, pular o muro da escola e nunca mais voltar. Depois disse a si mesmo que estava sendo ridículo. Ele iria conversar com uma freira idosa que, por acaso, era a Diretora da escola onde ele estudava por mais tempo do que os seus pais estavam casados. Ela iria pedir para que ele cortasse os cabelos, ele iria negar-se e a coisa ficaria por isso mesmo. O que ela poderia fazer de tão terrível, afinal?
- Entre. – soou uma voz rouca de dentro da sala.
Pedro empertigou-se e abriu a porta lentamente. Encontrava-se em um recinto escuro e abafado. Percebeu que as paredes estavam cobertas de imagens afixadas em pesadas molduras de madeira trabalhada. A grande maioria representava Jesus Cristo em algum momento de intenso sofrimento durante seu calvário, em detalhes vívidos e perturbadores. Nas prateleiras pesadas havia livros que Pedro não conseguiu identificar, grandes volumes encadernados em couro. Também haviam algumas estatuetas de santos católicos, todos mártires sendo mostrados no momento do seu sacrifício. Ali estava São Sebastião, coberto de flechas como um alfineteiro, exibindo uma expressão de intensa agonia. Viu São Pedro sendo crucificado de cabeça para baixo, a dor estampada em seus olhos, mas formando uma imagem que, para Pedro, era até um pouco cômica. Havia outras figuras do cristianismo que ele não conseguiu identificar. Não viu sinal de plantas ou qualquer tipo de ornamento. Finalmente, seu olhar se fixou na enorme escrivaninha à sua frente. Também estava coberta de livros antigos e imagens de pessoas sendo horrivelmente torturadas, o que levou Pedro a pensar que ser um santo da religião católica deveria ser um péssimo trabalho, já que a aposentadoria parecia consistir, basicamente, de sofrimento extremo e mortes grotescas. Atrás da mesa, encontrava-se a Diretora. Pedro reprimiu uma exclamação de espanto, mas não teve certeza se teve sucesso.
Era uma mulher devastada pela idade avançada, cujos anos pareciam ter sido talhados á faca por todo o rosto, a única parte do seu corpo, além das mãos, visível no hábito que lhe cobria por inteira. Era baixa e corcunda e trazia as mãos esqueléticas cobertas de veias protuberantes, verdes e azuis. O rosto murcho era marcado por incontáveis rugas, mantendo sua face petrificada em uma eterna expressão de desgosto. Além disso, usava um par de óculos cuja lente direita era totalmente escura, evidenciando que a mulher havia perdido uma visão. Seu nome era Irmã Bondade. De alguma forma, isso parecia deixar sua figura ainda mais sinistra.



 
- Sente-se. - crocitou a mulher, observando Pedro fixamente com seu olho são. O rapaz obedeceu rapidamente, acomodando-se em uma cadeira baixa e desconfortável, que o deixava em um plano inferior ao da religiosa à sua frente. Ela desviou o olhar para alguns papéis na escrivaninha, folheando-os vagarosamente. Voltou a atenção para Pedro, olhando-o como se ele fosse algum tipo de invertebrado, que havia inadvertidamente entrado em sua sala, talvez arrastando-se por debaixo da porta. Perguntou, os olhos fixos e a voz baixa: 

- Nome...
- Pedrinho. Hmm, Pedro. Pedro Luís dos Santos.- acrescentou rapidamente, como se houvesse marcado um ponto.
- Ah, sim, o cabeludo. - murmurou a freira, fingindo recordar do caso apenas naquele momento e franzindo os lábios como se acabasse de proferir um palavrão e sentisse a boca suja por isso.
- Sou eu mesmo...- respondeu em voz baixa Pedro, pressentindo que o sobrenome não iria ser de grande ajuda.
A diretora fez uma careta de asco, entrelaçando os dedos antes de continuar:
- Então você é o famoso cabeludo do Santa Maria, não é? O que não possui respeito algum pelas regras deste colégio, base da educação de tantas personalidades ilustres desta nossa cidade. - Pedro abriu a boca para protestar, mas a freira interrompeu-o.         
- Boca fechada enquanto eu falo rapaz! Pensa que eu não o conheço? Acha que eu não sei o tipo de gente que você é? Sempre se rebelando, tentando subverter as regras estabelecidas pela sociedade. Eu conheço você bem demais.
- Peraí – protestou Pedro, sem conseguir se conter mais - a senhora não me conhece, não sabe nada da minha vida, não s...
 - Pedro Luís dos Santos, – começou a religiosa, elevando a voz acima da do rapaz, que calou-se imediatamente - filho de Maria Pereira dos Santos e de José Ricardo dos Santos, filho único, nascido em dez de outubro de mil novecentos e noventa e quatro, tendo, portanto, quinze anos de idade. Rendimento escolar apenas satisfatório, pouca participação em sala de aula, bom aluno de Educação Física, representante de turma no ano passado e retrasado. Gosta de música estrangeira de qualidade duvidosa, jogos de computador violentos e de ir ao Shopping Center, praticamente todos os dias, apenas para vadiar com outros colegas. Também todos os dias, vai à cantina do seu Júlio, sempre no segundo intervalo, geralmente após ir ao banheiro. Compra uma coxinha, mais um copo de refrigerante, dirige-se à quadra de esportes e aguarda, enquanto come, a sua vez de jogar futebol. Terminada a aula, espera que o seu pai ou sua mãe venha busca-lo na porta do colégio, onde fica jogando conversa fora com os mesmos amigos que você irá, fatalmente, encontrar mais tarde no Shopping Center. Esqueci alguma coisa?
 - Não...- respondeu Pedro, assustado com os conhecimentos da religiosa e chocado ao se dar conta do quanto a sua vida era resumível.
 - Então, como pode ver, rapazinho, eu conheço você. Eu-conheço-você-bem-demais. Enfatiza a freira, sorrindo maldosamente. A essa altura da entrevista, Pedro já começava a sentir algo muito parecido com pânico. Como pretendia cursar Direito, como o pai o fez, resolveu apelar para legalidades e tentar, pelo menos, confundir a religiosa.
- Não sei se a senhora sabe, mas a constituição garante, democraticamente, à todas as pessoas, o direito de ir e vir, de expressar suas opiniões e de se vestir como quiserem também. - Despejou Pedro, contente de ter decorado a sua parte no trabalho de História sobre as leis brasileiras.
- Isso é lá fora.
- Como as...
- Isso é lá fora. Dentro do MEU colégio, EU faço as regras, EU escrevo a constituição e EU sou, de uma só vez, os poderes executivo, legislativo, judiciário e, principalmente, religioso!
- Mas...mas...mas isso não é jus...
- O que não é justo, moleque, é haver tanta gente aí fora, sem ter onde morar, passando fome, sem poder estudar e você a ponto de jogar fora este privilégio porque quer deixar esse cabelo crescer!
- Jogar fora...?Então, a senhora quer dizer...
- Eu quero dizer - completou a freira, um sorriso sádico se abrindo em seu rosto encarquilhado - que o estatuto do colégio prevê e condena qualquer comportamento e/ou vestuário que fuja dos padrões pré-estabelecidos, aí incluindo-se namoros dentro e nos limites externos da escola, brincadeiras violentas ou viciosas, acessórios femininos sendo usados por rapazes e, é claro, garotos de cabelos compridos. Em outras palavras, cabeludo, você não fica neste colégio. É claro que você pode, se quiser, optar por deixar a escola. É seu direito inalienável e - acrescentou maldosamente - democrático.
Silêncio. Pedro mantinha os olhos pregados ao chão, enquanto a irmã Bondade deixava o mal-estar causado pelas suas palavras carregar o ambiente, sufocando a sua presa, ali em pé, quase abatida. Pedro saboreava a derrota quase sem ter lutado. Sentia que aquilo estava errado. Sabia que era vítima de prepotência, despotismo e  autoritarismo, ainda que não encontrasse bem o sentido daquelas palavras e lhes adivinhasse apenas vagamente o significado. Sentia, sem saber, o cansaço dos lutadores, que tentam ir contra os poderes do mundo e parecem nadar, sempre, contra as ondas de um mar sem fim, a qualquer momento prestes a se afogar e este momento, para ele, havia chegado, mal havia posto os pés na água. Mas não podia ser assim. Não deveria ser assim. E não seria. Lutaria, ainda que sem esperanças. Começou a pensar, a martelar seu cérebro furiosamente, buscando em sua cabeça alguma coisa, qualquer informação que, se não o salvasse da tirania, ao menos fizesse com que as pessoas, no futuro, passassem por ele e dissessem “Ali vai um bravo. Perdeu, mas com certeza lutou e não se entregou antes do fim.”
Antes de tudo, deveria erguer a cabeça e encarar o seu destino como um homem. Começou, lentamente, a levantar o olhar do chão de mármore escuro e assim foi subindo, até encarar de frente seu algoz, a terrível Irmã Bondade. Tentou sustentar o olhar, mas vacilou sem conseguir sustentar-se em face da horrenda expressão de triunfo monocular da religiosa. Repugnado, subiu um pouco mais o olhar e foi só então que, distraído como era, percebeu, na parede atrás da freira, um pouco acima do espaldar da cadeira, uma pintura de Jesus Cristo. Fixou o olhar naquela gravura, passando os olhos pelo rosto inexplicavelmente alvo, as gotas de sangue porejando sua testa, os cabelos compridos. Cabelos compridos? Era verdade, havia esquecido daquele fato, Jesus Cristo possuía cabelos compridos. O filho de Deus era cabeludo, como ele! Aliás, muito mais do que ele, já que o Salvador exibia, naquela gravura, uma cabeleira de causar inveja à muitos dos seus ídolos musicais. 


 
Rock n’ Roll!


Sentiu o coração batendo mais forte. Não havia mais dúvidas, ele sabia exatamente o que falar. Sorriu, e ao fazê-lo, destruiu o sorriso que deformava o rosto da freira. Jogou os cabelos para trás com as mãos, fazendo com que a irmã Bondade agarrasse o crucifixo em seu pescoço e murmurasse algo entre os dentes cerrados.
- Não vou cortar o cabelo.
- ...como?
- Isso mesmo que a senhora escutou. Não vou cortar o cabelo.
- Ah, não vai? - Ameaçou a diretora, tentando esconder o seu choque.
- Não. E a senhora sabe por quê?
- Por quê?-Perguntou a freira, a voz tremendo de raiva.
- Porque eu não preciso. A senhora falou que era errado usar cabelo comprido neste colégio, mas Jesus Cristo, que a senhora jurou obedecer e servir, ele que é o filho do nosso Senhor, que morreu pelos nossos pecados, ele tinha cabelos compridos!
Silêncio.
- Se o chefe da senhora, ou melhor, o filho do chefe, usava cabelo comprido, por que é que eu não poderia usar? - Insiste Pedro, sentindo, pela primeira vez na vida, o prazer de esmagar o espírito de um inimigo mortal.
Mais silêncio. Calmamente, a freira retirou os antiquados óculos de aro grosso, limpou a lente esquerda, transparente, com uma flanela que extraiu de algum bolso, recolocou-os e então encarou o cabeludo.
- E você sabe por que Jesus Cristo possuía cabelos compridos? - Perguntou calmamente.
- Não...-Respondeu Pedro, um tanto confuso.
- Porque Jesus Cristo nunca estudou no Colégio Santa Maria! Porque se tivesse estudado, eu já teria mandado ele cortar aquela juba! No meu colégio, valem as minhas regras, pode ser filho de Deus ou do cão! E o senhor vai me aparecer aqui na segunda-feira bem cedo, antes da aula, de banho tomado, dente escovado e cabelo cortado, entendeu?
Silêncio.
A turma do Shopping estranhou a ausência de Pedro, que era capaz de faltar o treino de futebol, mas não deixava de encontrar com os amigos. Porém naquela tarde de sexta-feira, ele não apareceria.
Havia ido cortar o cabelo.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O cabeludo e a freira, Parte 1




Fundado no final da década de 50 no século passado, o Colégio Santa Maria é um dos mais antigos da Zona Sul e um dos mais tradicionais do Recife. É amplamente conhecido pelos ótimos resultados acadêmicos dos seus alunos, pelas mensalidades proibitivas e por seu implacável corpo de diretoria, formado por um grupo de freiras católicas famoso pelo conservadorismo extremo e absoluta falta de tolerância. Apesar disso, a instituição é bastante procurada pelos pais, que muitas vezes precisam inscrever seus filhos em listas de espera intermináveis, algumas vezes aguardando anos e anos para que surja uma vaga. Além da perspectiva de boas notas e um futuro acadêmico mais ou menos assegurado, muitos pais procuram o Santa Maria na esperança de que a famosa rigidez das Irmãs Católicas ponha um fim na rebeldia dos seus, por vezes incontroláveis, rebentos. No colégio não se permitem uniformes fora do padrão, velhos, gastos ou sujos. Meninas não podem usar maquiagem de nenhum tipo e nem pintar os cabelos de cores berrantes ou não-naturais, como rosa, verde ou fúcsia. O mesmo se aplica aos meninos que, além disso, não podem usar cabelos compridos, brincos ou qualquer acessório associado, pelas freiras, ao sexo feminino. A ninguém é permitido o uso de piercings de qualquer tipo, símbolos de outras religiões que não a católica ou tatuagens, visíveis ou não.
Foi nesse ambiente quase militar que Pedro se encontrou, depois de se mudar com a família para o bairro do Pina. Pertencendo a classe média alta, Pedro era um aluno razoável e não dava mostras de insatisfação familiar ou qualquer tendência revolucionária, dentro ou fora da escola. Era, como se diz, um bom rapaz, ainda que um tanto sem graça. Estava na escola há alguns meses e já havia feito um número considerável de amigos, poucos adversários e praticamente nenhum sucesso com o sexo oposto. Era verdade que Pedro, ainda que não fosse feio, simplesmente não possuía nenhuma característica que o fizesse se destacar dos seus pares. Era branco, de estatura mediana e magro, tinha cabelos curtos, lisos e de cor castanha. Assim como a esmagadora maioria dos seus amigos, colegas de sala e adolescentes das classes mais abastadas da cidade. Quase todos praticavam um ou mais esportes, como natação, judô ou futebol de salão. Falavam todos sobre os mesmos assuntos, olhavam para as mesmas garotas e se dividiam apenas na hora de torcer pelos três principais times do estado.
Depois de algum tempo, esse excesso de homogeneidade começou a incomodar Pedro. Não que fosse adepto a radicalizações, mas sentia que, por meio de algumas pequenas mudanças em seu visual, poderia obter um maior destaque entre o corpo discente do Santa Maria, principalmente sua metade feminina. Sendo um rapaz de pouca imaginação e desacostumado com a rigidez da educação exercida em um colégio religioso, Pedro decidiu por deixar seu cabelo crescer. Acreditava que as regras, que ele conhecia bem, acerca da aparência dos alunos eram mais um código de conduta do qualquer outra coisa, imaginando que o fato de ninguém desobedecer às normas vigentes se devia puramente à modéstia e ao conformismo dos estudantes. De maneira que simplesmente deixou de ir ao cabeleireiro e passou a economizar o dinheiro dado pelos pais com esse fim para comprar cigarros na banca da esquina e praticar para impressionar as meninas no final de semana, no shopping.
E assim as semanas passaram, as madeixas de Pedro crescendo lentamente, sem pressa, como se antecipassem toda a dor e angústia que causariam para seu dono e fizessem o máximo para poupá-lo, ao menos por um tempo, dos horrores que o aguardavam. Quando os fios começaram a encobrir suas orelhas, Pedro percebeu uma estranha mudança de comportamento entre os colegas. Os alunos de outras turmas lançavam lhe olhares estranhos. Meninos ou meninas, todos pareciam estar se reunindo sutilmente pelos cantos para comentar sobre algum assunto que Pedro não tinha certeza de qual era, mas que parecia monopolizar a atenção de todos. Estranhamente, seus amigos começaram a evitar sua companhia. Quando indagava os mais chegados se havia algo acontecendo ou mesmo se ele havia, inadvertidamente, feito algo errado, recebia como resposta apenas negativas nervosas, seus interlocutores parecendo ansiosos em terminar a conversa. Começou a ser ostracizado dentro do ambiente escolar, passando seus recreios absolutamente sozinho e sob a constante e incômoda sensação de que todos o observavam. Não conseguia atinar para o motivo dessa conspiração, mas estava começando a ficar farto do comportamento absurdo das pessoas ao seu redor. Até mesmo os professores evitavam dirigir-se à sua pessoa e em mais de uma disciplina, o educador havia simplesmente esquecido de anunciar seu nome na chamada.
O cabelo de Pedro agora quase ultrapassava suas orelhas, fazendo com que o garoto adquirisse o hábito compulsivo de jogá-los para trás quando os fios atrapalhavam sua visão. Esse movimento parecia horrorizar todos a sua volta, como se o rapaz estivesse fazendo algo profundamente grotesco ou mesmo obsceno. Passou a encontrar todos os lugares da sala reservados pelos colegas, sendo obrigado a sentar no fundo, muitas vezes com uma ou duas fileiras vazias o separando do resto da turma. Pedro começou a ficar paranoico, buscando uma resposta para o mistério, enquanto parecia ficar cada vez mais repulsivo para todos os seres humanos à sua volta. Sendo filho único e tendo pais que passavam muito pouco tempo em casa, não sabia ao certo com quem falar acerca do problema.
Um dia, estava fazendo o lanche, totalmente só, quando o fiscal de pátio, um homem de meia-idade, alto e obeso, de quem Pedro sempre gostou muito, se aproximou para falar-lhe. Já desacostumado de ter outra pessoa lhe dirigindo a palavra em ambiente escolar, Pedro quase engasgou com sua coxinha.
- Pedrinho...
- Gasp! Er...fala Tonhão! Tudo bom? Como você tá? Quanto tempo, heim? E o nosso Sport, será que sobe esse ano?
- Tá tudo...tudo indo, Pedrinho. Olhe, eu...eu não devia, mas... – e nesse ponto olhou ao redor, suspeitosamente. Assustado, Pedro imitou seu movimento.
- Fala Tonhão, o que foi?
- É que...veja bem. Eu quero saber se tá tudo bem com você. Tá com algum problema em casa? Pode me falar, Pedrinho.
- Oi? Problema em casa? Não, nenhum. Meu videogame quebrou, tirando isso...
- Não, não tô falando disso...é que...você tá diferente e... – Tonhão hesitou, sem encontrar as palavras e olhando fixamente para o topo da cabeça de Pedro, que automaticamente jogos os cabelos para trás. O homem mais velho estremeceu visivelmente.
- O que foi, Tonhão? – inquiriu Pedro, já um tanto nervoso com aquele estranho diálogo.
Tonhão abriu a boca para falar, mas foi interrompido pelo toque do aparelho de rádio que levava à cintura, usado para se comunicar rapidamente com a direção. O fiscal de pátio ficou lívido. Nenhum som saiu de sua boca e ele encarava Pedro, aparentemente sem saber o que fazer.
- Não vai atender, Tonhão? – perguntou Pedro, apontando para o cinturão do seu interlocutor. O aparelho tocou mais uma vez. Tonhão pareceu acordar de um transe e, lentamente, levou a mão ao transmissor. Suspirou profundamente, ofereceu um olhar aterrorizado para o garoto à sua frente e atendeu.
- Alô? Sim, senhora. Sim, senhora. Não, senhora. É, ele...ele se encontra aqui, na minha frente. Sim, senhora. Eu...sim...claro. Imediatamente, senhora. – desligou o rádio com dedos trêmulos e dirigiu sua face marcada pelo desespero para Pedro.
- Tonhão, tá tudo b...
- Pedro, por favor, queira me acompanhar até o escritório da Diretora. – essa última palavra havia sido pronunciada quase em falsete, traindo o medo abjeto que havia se apoderado do homem. Pedro já havia escutado histórias sobre a freira que comandava, há mais de três décadas, aquele colégio. Eram relatos de um horror quase sobrenatural os quais Pedro, pouco imaginativo que era, havia dado pouca atenção. Mas naquele momento, era como se o fiscal houvesse anunciado sua sentença, a pena capital por um crime que ele não estava certo de ter cometido.
- Vai Pedrinho, levanta. Eu vou..eu levo você até lá. Vem, pode se apoiar em mim, se quiser.
- Hmm...valeu, Tonhão, acho que vou andando sozinho mesmo.
- Pedrinho, você...você sabe que gosto muito de você, não sabe?
- Ahn...certo...
- Certo. Só...tudo vai ficar bem, tá bom? – assegurou o fiscal, de forma absolutamente não convincente. Seguiram caminhando em silêncio pelo pátio, os outros alunos encarando-o emudecidos. Ao olhar para os lados, Pedro viu que algumas meninas faziam cara de choro. Entraram no setor administrativo e passaram pelo que pareceu ser uma infinidade de corredores, até chegar em frente à sala da Diretora. Estacaram em frente a uma pesada porta de madeira escura, desprovida de qualquer tipo de adorno, salvo por uma enorme cruz que exibia a figura de Jesus, coberto de sangue e transparecendo um sofrimento inalcançável em seus olhos arregalados. Pedro engoliu em seco.
- Pronto, Pedrinho. Agora, você...é só...olha, você bate que a Diretora já tá te esperando, certo? Só me faz um favor e...e espera eu me afastar, tá bom? – mal completou a frase e o homenzarrão saiu apressadamente pelo corredor, esbarrando desajeitadamente na quina da parede e ainda assim sem diminuir a velocidade. Pedro voltou-se para a porta. Experimentava uma sensação inexplicável na boca do estômago, um mal-estar como nunca antes havia experimentado. Respirou profundamente, ergueu sua mão e bateu timidamente na porta.

Continua...


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Se é na má-vontade...


Estava no calvário diário do ônibus quando vi o cartaz abaixo:




É uma campanha do governo contra a exploração do trabalho infantil durante as eleições. Sem dúvida, um objetivo bastante nobre, em qualquer época do ano. Mas eu me pergunto se não dava para terem feito uma arte melhorzinha. Geralmente, peças publicitárias do governo em nível regional são bem toscas, basta ver as histórias em quadrinhos constrangedoras que saem por aí em época de vacinação. Mas o pôster em questão chamou minha atenção por ser particularmente feioso.
E, até certo ponto, tenebroso. Alguém pode me explicar por que diabos, pra início de conversa, essas crianças não tem nariz? Eu, se visse uma horda de criaturas nanicas desprovidas de narinas se aproximando, metia bala. E depois escravizaria quem sobrevivesse. Além disso, esses garotos parecem sofrer de uma série de deformidades físicas e, possivelmente, mentais. Perceba que a menininha de traços asiáticos é a única olhando para um ponto totalmente diferente dos seus amigos, dando a entender que ela é, possivelmente, uma deficiente visual. Até aí tudo bem, mas não dava pra alguma das outras crianças ter soprado na hora da foto “Japa, vira pra direita, porra!”? Espero que o artista que criou o cartaz não tenha associado os olhos tipicamente pequenos dos asiáticos à cegueira, porque isso seria uma mostra grotesca de preconceito.
Mas ao menos a japinha consegue se locomover sem grandes problemas, mesmo sem enxergar um palmo diante do nar...enfim, sem ver nada. Já o garoto negro com tumores no lugar das orelhas e o menino índio não tiveram tanta sorte. O curumim possui apenas quatro dedos nos pés e todos parecem ser polegares. Já o pequeno afrodescendente simplesmente não tem dedo nenhum, os pés parecendo mais dois cascos uniformes. A garotinha branca, certamente desfigurada por alguma condição congênita, possui os olhos colados um ao outro, diferente dos seus companheiros. Os pais dela deviam ser primos. Mas esse aborto incestuoso ainda está melhor do que o indiozinho, que, por motivos que escapam à minha compreensão, veste uma bandeira de São João pra esconder a mandioquinha dele, ao mesmo tempo em que exibe uma medonha deformação na mão direita.



Sério, que porra é essa? Um sexto dedo? O nariz, que nasceu no lugar errado? Parece mais a minha mão, uma vez que eu me queimei com óleo quente e nasceu uma bolha, que mais parecia um mamilo.

 
Um pulso masculino com um mamilo. Se essa imagem te excita, denuncie a si próprio para a polícia. Agora.


Horripilante, sem dúvida. O que o Departamento de Arte da Prefeitura estava pensando quando lançou esse carnaval de horrores sobre a população permanece um mistério. Mas nada é tão horrendo que não possa ficar pior. Um exemplo disso é o seguinte vídeo, que mostra o retrato falado de um perigoso bandido.








Sério. Essa foi a reconstrução artística do meliante. A não ser que o criminoso seja uma versão masculinizada e doentia da Mônica, duvido que alguém consiga encontrar essa pessoa se baseando por esse desenho. Não sei que tipo de qualificações são necessárias para ser um artista da polícia na Bolívia, mas é provável que seja algo como “ter dedos nas mãos” ou “deficiência mental comprovada”. Pelo menos não foi aqui no Brasil, o único consolo nessa história . E no final de tudo isso, fica a mensagem que eu queria mandar desde o começo.
Se é pra sair malfeito, cacete, não faça.

domingo, 8 de agosto de 2010

Domingo é dia de enquete!



Mais um domingo, mais uma enquete encerrada! Confiram os resultados:



1- "Tipos de emprego" - Por Mauro, o galhofeiro. 25%

2- "O caso do cachorro cagão" - Por Andréa Nobre. 29%

3- "Se tem mais de quarenta, agüenta" - Por Alberto Penaforte. 12%

4 - "Irritando Diego Gouveia" - Por Diego Gouveia. 18%

5 - "A construção" - Por Evinha. 18%


De maneira que a vencedora é Andréa e sua aterrorizante história envolvendo ex-namorados, viagens longas e cachorros com desarranjos intestinais. O Blog da Reclamação parabeniza a escritora pelo primeiro lugar no pódio dos convidados reclamadores e convida a todos os que colaboraram que voltem a fazê-lo no futuro!

E já que estamos falando de votação, democracia e tudo isso, o Blog da Reclamação lança uma enquete politizada. Confiram aí ao lado e votem durante a semana!



sábado, 7 de agosto de 2010

Ovo?!



Suspense.

Semana que vem, o Blog da Reclamação revelará uma novidade bombástica que, estranhamente, tem muito a ver com a imagem acima. Mistério. Muito mistério. E ovos também, por algum motivo. Se quiser saber do que diabos eu estou falando, fique acompanhando o Blog atentamente nos próximos dias.

Aguardem.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Sexta-feira dos convidados: Dízimo com quem andas e te direi se pago


Do dicionário, dízimo:
1 A décima parte; décimo. 2 Contribuição que se pagava à Igreja e que correspondia à décima parte dos frutos recolhidos. 3 A décima parte de qualquer salário ou rendimento o qual se doa, voluntariamente, em várias Igrejas protestantes.

Como dito acima, entre os evangélicos principalmente, é coisa séria. É um valor que se paga para manter a instituição funcionando (às vezes, o dinheiro é usado de maneira diferente. Acontece), atendendo todos os que ela procuram, seja em busca de alento, emprego, paz de espírito, projeção social, amigos (reais ou imaginários. Sou ateu) ou whatever f%$+ing que seja.
De dezinho em dezinho, o cofre é enchido, as contas, pagas e a instituição mantém suas portas abertas, as pessoas continuam sendo atendidas em suas necessidades espirituais e todo mundo sai feliz e de alma alimentada e bem nutrida. Para quem bota fé, funciona (hehe... trocadilho).
Mas eis que surge um outro grupo de instituições com a sagaz ideia de implementar o dízimo de maneira tal que não pagá-lo é muitas vezes considerado uma heresia, como tirar o pão de cada dia da mesa de um trabalhador. São instituições também da área alimentícia. Mas se por sua vez as igrejas e afins vendem um produto que alimenta a alma, estas outras instituições vendem produtos que enchem o bucho mesmo (diferente das igrejas, que, vez por outra, acabam enchendo é o saco).
Divaguemos sobre os restaurantes e suas taxas de 10%.
Estes templos de ode à gula, luxuria e prazer quase que orgasmático (amo muito tudo isso. Hehe... trocadilho de novo) cada vez mais vêm agregando fiéis consumidores que, durante a semana, passam a deixar de comer em casa para comer na rua (viva o crescimento das cidades, que deixa nossas casas cada vez mais longe dos nossos trabalhos) e, durante o fim de semana, passam a abandonar suas refeições domésticas por N motivos, que vão desde socializar, encontrar amigos, comer uma coisinha diferente ou, no caso dos solteiros que não cozinham, por pura preguiça de aprender a cozinhar mesmo.
Ao passo que aumenta a demanda, aumenta também a oferta. E tome Recife a abrir restaurante, reformar restaurante, relançar restaurante e por aí vai. O recifense nunca comeu fora tanto quanto hoje (dados resultantes da observação, durante onze anos, de uma experiência empiricoparticipativa que teve a mim mesmo como cobaia, além de amigos, familiares e conhecidos). Isto resulta em uma explosão demográfica de uma casta adorada por alguns, odiadas por outros, mas requisitada sempre que se está num restaurante. Os garçons.
Estes caras estão no esquadrão de frente do estabelecimento. Se são legais, acessíveis, solícitos, o cliente volta. Óbvio, a comida tem de ser boa e, em alguns casos, a cerveja tem de ser gelada, senão é trabalhar em vão. Os caras têm de ATENDER BEM, do começo ao fim. E para isso, precisam ser bem remunerados.
Há países que levam tão a sério o bom atendimento que criaram a cultura de dar gorjeta quando bem atendidos. É uma gentileza e como toda ela, deve ser uma escolha, não uma obrigação.
Aí vem o empreendedor brasileiro e subverte a porra toda. Renomeia a gorjeta, passando a chamá-la Taxa de Serviços, institucionaliza a danada, passando a colocá-la na conta, quantifica-a como a décima parte de qualquer que tenha sido o montante do consumo e, na maior cara de pau, ainda inventa que é pra pagar parte do salário dos garçons, que passam a acreditar e defender essa fuleragem como um dogma.
E ainda tem aquela plaquinha que os auto-autoriza a cobrança do dízimo... 




Mas não tem de ser assim. Vamos aos fatos:
FATO FODÁSTICO: COBRAR 10% NO RECIFE É CONTRA A LEI. LEI Nº 13.856, DE 26 DE AGOSTO DE 2009.
1 - Gorjeta é um dinheiro com que se gratifica um pequeno serviço, além do preço estipulado. É uma gratificação informal. Dá quem quer e quanto quiser. Taxa é um tributo estabelecido, regulamentado. Coisas totalmente diferentes.
 2 – Volta e meia, pergunto ao garçom quanto dos 10% são de fato destinados a eles e o maior valor que escutei até hoje foi 7%. O dono fica com os outros 3%. Seria mais justo passar a cobrar 7%?
3 – Não seria. Mesmo que aquela plaquinha na parede dos restaurantes diga que o estabelecimento está autorizado a cobrar os 10%, em lugar algum diz que o consumidor é obrigado a pagar. E o motivo é óbvio. EU PAGO GORJETA SE EU QUISER, PORRA! Se esse valor passa a ser obrigação e for para ajudar no salário do funcionário, eu, de certa forma, estou pagando o salário do cara, o que faz de mim sócio. Opa! Vamos conversar sobre participação nos lucros?
4 – O mais importante. Apesar da culpa dessa cultura de 10% não ser totalmente do garçom, mas sim do dono do estabelecimento, não custa nada treinar a equipe pra deixar o cliente à vontade para pagar quanto quiser e se quiser, em vez de tentar constrangê-lo quando ele pede para retirar os 10% da conta. Já ouvi frases como “não vai pagar? A consciência é sua”, ou “você vai tirar parte do meu salário”.
5 – O fim dessa cobrança depende de você. Pare de pagar o dízimo aos restaurantes. Quer ajudar garçom? Peça para tirar os 10% da conta e pague a gorjeta diretamente a ele. Se você fizer as contas, vai ver que de 10% em 10%, vai-se embora um ingresso de cinema, de um show, uma semana de combustível ou a prestação daquele PS2 que você passou no cartão em 12 vezes sem juros. 

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Corrupção




Se você estava no planeta Terra nas últimas semanas deve ter acompanhado o triste caso de Rafael Mascarenhas, filho da apresentadora da emissora Globo Cissa Guimarães, que perdeu a vida ao ser atropelado por um outro jovem, em túnel no Rio de Janeiro. Os detalhes do acontecimento não serão discutidos aqui, mas quem quiser poder obter mais informações seguindo este link. Contudo, chamou a atenção, durante a investigação, o fato de que o motorista, que não prestou socorro a Rafael, chegou a ser parado, dirigindo seu carro visivelmente danificado pela colisão, por dois policiais militares, que liberaram o veículo depois de aceitarem uma alta soma de dinheiro. Para o azar desses oficiais corruptos, a vítima, que faleceu devido à violência do choque, era filho da já citada apresentadora de TV, uma pessoa bastante pública, transformando o caso em um circo de mídia e jogando mais lama no já combalido nome da polícia brasileira. A aceitação e o oferecimento de propinas são, infelizmente, uma instituição nacional. É notório que o cidadão brasileiro critique seus políticos pela falta de ética quase caricatural que apresentam, enquanto se recusam a fazer a própria parte, desrespeitando leis de trânsito, negociando propinas, jogando lixo nas ruas, vandalizando propriedade pública, etc.
De fato, falar é fácil, difícil mesmo é levar uma vida calcada pela retidão, pela civilidade, pelo respeito aos direitos dos outros e pela honestidade. Não é difícil concluir que os nossos políticos simplesmente refletem nosso próprio comportamento, apenas de uma forma pública, notória. Existem muitas e belíssimas exceções, evidentemente, mas no final das contas, permanece o fato de que vivemos imersos em uma cultura que valoriza o esperto e ridiculariza o honesto, causando uma in versão de valores que encontra-se firmemente enraizada em nossa história.
É possível ser correto. E nem é tão difícil assim, basta tentar. Basta reclamar menos e fazer mais. E ser criativo também ajuda bastante. O texto abaixo ilustra uma situação vivida por mim há alguns anos, quando me envolvi em uma situação, digamos, delicada no trânsito do Recife.

Corrupção X Criatividade


Estava na Zona Sul do Recife, saindo do bairro da Imbiribeira pela avenida de mesmo nome e subi o viaduto, quase em frente ao Aeroporto Internacional dos Guararapes, que leva à Boa Viagem. Aquela passagem suspensa havia sido construída recentemente, fato que ainda deixava alguns motoristas confusos quanto a qual via, exatamente, tomar. Ao fazer a curva, me deparei com duas passagens, separadas por alguns gelos baianos. Como era a primeira vez que passava por ali depois da construção do viaduto, peguei a faixa da esquerda, só percebendo tarde demais que aquela era exclusiva para ônibus. Como estava devagar e não havia outros carros, parei e retornei para o caminho da direita, destinado a carros de passeio. Ali, como que brotando do próprio asfalto, surgiu uma blitz do Departamento de Trânsito, o famigerado DETRAN, famoso em todo o território nacional pelo descaramento com que negocia multas pelas estradas do Brasil, geralmente com a colaboração dos motoristas, claro. 

O guarda viu minha manobra irregular e fez sinal para que eu parasse. Estacionei o veículo um pouco mais à frente e olhei pelo retrovisor para o policial que se aproximava. Trazia um sorriso ganancioso nos lábios, provavelmente já antecipando o suborno que esperava conseguir naquela ocasião. Acontece que sempre tive como ponto de honra jamais compactuar com qualquer tipo de corrupção, especialmente aquela ligada ao trânsito, uma das categorias que mais me tiravam do sério. Por outro lado, sempre fui um liso crônico e aquela multa ia pesar bastante nas minhas já magras finanças. Considerei a hipótese de argumentar com o policial, explicar que era a primeira vez que pegava aquele trajeto depois da reforma, afinal de contas erros acontecem, etc. Dei mais uma olhada pelo espelho do carro, avaliando a figura do homem que se aproximava. Era baixo e gordo, tinha pele morena e ostentava o obrigatório bigode que distingue, por algum motivo, a grande maioria dos policiais do país. Seu sorriso aumentava a cada passo e passava uma língua pequena e descorada entre o lábio inferior e os pelos protuberantes do superior, amarelados por um provável caso de tabagismo. Não me pareceu do tipo que se deixasse levar por um pedido de desculpas, ainda que honesto. 



Raciocinei furiosamente, tentando encontrar uma solução para o problema. Ao olhar mais uma vez pelo retrovisor, percebi que eu também não estava com a melhor das aparências: trazia a barba por fazer, um escuro par de olheiras de uma noite mal dormida, cabelos desgrenhados e um visível aspecto cansado, tudo isso empapado pelo suor causado pelo inclemente sol do Recife. Vendo a triste figura que eu fazia, uma ideia finalmente me surgiu e o seguinte diálogo teve lugar:

- Bom-dia, cidadão.

- Bom...bom-dia, seu guarda. – gaguejei, arrastando a minha voz e lançando um olhar semimorto para o policial.

- O senhor sabe por que eu lhe parei?

- Sei sim...entrei na faixa de ônibus, né? É que eu estava apressado, preciso chegar a um hospital. – continuei, afundando miseravelmente no banco do carro.

- Sei. O hospital, é? – o guarda hesitou, confuso.

- Isso seu guarda...não estou me sentindo bem. Acho que é grave. – insisti, fazendo minha melhor imitação de cadáver reanimado.



Tipo assim.
 
O guarda ficou mudo. Era provável que não tivesse sido treinado para aquela situação no curso de suborno oferecido pelos seus colegas mais experientes. Na falta de uma referência, resolveu se ater à fórmula.

- Veja bem...isso que o senhor fez foi muito grave... – provocou, balançando a cabeça pesarosamente.

- Eu sei, mas nesse estado que eu estou, não consigo nem pensar mais...acho que é o coração, sabe? – lamentei, deitando minha mão não tão sutilmente por sobre o peito.

O guarda olhou para mim, atentou para todos os meus sete fios de cabelo brancos e me voltou um olhar cheio de suspeita.

- Coração? Na sua idade?

- É genética. Meu pai morreu do coração. Meu avô morreu do coração. Tive até um cunhado que morreu do coração.

- Um cunhado?!

- É que a gente era muito próximo, seu guarda. – respondi, arregalando os olhos contra o sol e tentando forçar algumas lágrimas.

 O guarda olhou em volta, em busca de apoio. Seu superior observava à distância, certamente se perguntando o porquê da demora de uma negociação tão simples. Em casos como esse, as pequenas indiretas lançadas pelo policial gordo seriam suficientes para que o motorista entendesse o recado e contribuísse para a cervejinha do fim de semana dos oficiais. Talvez o superior pretendesse submeter o subalterno a algum tipo de teste. Ou simplesmente não quisesse sair da sombra onde se encontrava. Qualquer que fosse o motivo, dirigiu um olhar significativo para seu comandado e permaneceu onde estava, observando o movimento dos outros veículos.

- Olhe...veja bem. Isso que...isso que o senhor fez...dá uma multa alta, viu? Coisa grave!– reiniciou o guarda, traços de desespero já se tornando patentes em sua voz.

- Grave mesmo é o meu estado! Se eu não chegar em um hospital agora, eu...eu... – e comecei a me tremer, balançando pelo carro em uma mistura um tanto exagerada de epilepsia aguda somada a Mal de Parkinson crônico. 

O policial, boquiaberto, parecia não acreditar nos próprios olhos. 

- Moço! Moço, o senhor...o senhor precisa entender que...olhe, é uma multa pesada! É mais de duzentos reais, moço! – berrava o homem, transtornado.

- Eu não...eu...ggggg...não...não...nnnnn... – balbuciei, me sacudindo loucamente pelo carro. Por pura força de vontade, comecei a espumar pelos cantos da boca.

- Moço! Moço! – gritava o policial horrorizado, dividido entre a necessidade da propina que precisaria dividir com o superior e o desejo de se livrar daquele candidato a defunto que se debatia grotescamente na sua frente.

- Mas são duzentos reais, moço! – guinchou o oficial, quase aos prantos.

- Gaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhh!

- Tá bom, tá bom, porra! Vai, tá liberado! – concedeu o homem, enfim dando-se por vencido.

- Opa, valeu. – Me recompus com rapidez e saí tranquilamente, observando pelo retrovisor o oficial superior aproximando-se, com uma expressão de profundo desagrado, do policial gordo, que soluçava baixinho na calçada. Sorri para mim mesmo e segui em frente. Teria assoviado, se soubesse como.

Fred 1 X 0 Polícia corrupta.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

No Portuguese


O professor de Inglês respira fundo. Na sua frente está o aluno, um homem de meia-idade, usineiro de sucesso do interior do estado de Pernambuco. Há algumas semanas que as aulas vêm acontecendo e, até aquele momento, o progresso do empresário da cana se limitava ao uso, freqüentemente incorreto, das palavras “Yes” e “No”. A aula desse dia envolvia vestuário e o professor começou com as peças com grafia e pronúncia mais semelhantes ao português, como “jeans”, “blouse” e “jacket”.
- Ok, now repeat:T-shirt. – E apontava para a própria camisa.
- Tixerte. – Repetia o aluno, obedientemente.
- Hmm. Ok. Repeat: Pants. – Seguiu, indicando suas calças.
- Pêntis.
- Boxers. – O professor estacou, em dúvida. Como fazer o aluno entender que ele falava de cueca?
- É o quê, tchitcher? – perguntou o aluno, confuso.
- No Portuguese, Mister Severino. – Respondeu o professor automaticamente. Não se podia falar a língua materna em sala de aula e o professor levava aquela regra muito a sério.
- Biu, tchitcher. – Corrigiu o aluno, muito simpático.
- Ok, Mister Bill. So...ahn...boxers. Boxers…boxers…ok. Here, take a look.
Diligentemente, o professor desenhou a figura do Super-Homem, voando elegantemente pela lousa branca. Apontava com seu marcador para a cueca vermelha que o herói, por algum motivo, vestia sobre as calças azuis.
- Ok, see?
- Ôxe, sei demais. Superômi.
- No Portuguese, Mister Bill!
- Superman, Superman!
- No!
- Vôte, e é o Homi-Aranha, por acaso?
- Argh! No! No. Ok. Let me think... – O professor repetiu mais uma vez a palavra “boxers”, dessa vez apontando sutilmente para sua região pélvica.
- Cumé a história, tchitcher? – Indagou o aluno, franzindo o cenho.
- Boxers. – Tornou a falar o professor, que agora apontava, estupidamente, de si mesmo para o aluno, ainda indicando a área da virilha.
- Apoi num vô fazer esse boxi com o sinhô não, respeito é bom e eu gosto! – retrucou ferozmente o usineiro, levantando-se de sua banca.
Desesperado, o professor saltou na direção da porta, ficando entre a saída e seu aluno, que deu um passo para trás, assustado.
- O sinhô tá manifestado, tchitcher?! – Perguntou Severino, assustado.
- Boxers! Boxers! – Repetia o professor, à ponto de sofrer uma síncope. Resolveu apelar: desabotoou as calças e exibiu sua própria cueca, estampada com uma grande variedade de animais coloridos e sorridentes. Havia sido um presente da sua avó. Horrorizado, Severino encostou-se à parede, as mãos crispadas ao lado do corpo trêmulo.
- Boxers!
- Deus me defenda! Num faço, num faço! O sinhô pode dar a muléstia aí, mai num faço!
O professor agora segurava sua cueca com ambas as mãos e berrava ensandecidamente. Severino, ainda que aterrorizado por se encontrar em situação tão bizarra, finalmente começou a exibir sinais de compreensão. Olhava pensativamente do rosto apoplético do professor de inglês para sua ridícula cueca infantil.
- Apoi...
- Yes! Yes, Mister Bill! Go on!
- Apoi…
- Yes, boxers! That’s right!
- Apoi é Zorba, é?



O professor de inglês, fulminado, tombou para frente. Seus olhos mortos fitavam o vazio e um fio de saliva escorria de sua boca retorcida. Depois dessa experiência, Severino desistiu de aprender a língua inglesa, sempre contando para os compadres do interior o estranho causo do seu professor, que havia morrido em sala de aula, com as calças tristemente arriadas até os joelhos.
Porém sem jamais falar português em sala de aula.

domingo, 1 de agosto de 2010

Domingo é dia de enquete!



Chega ao fim mais uma enquete do Blog da reclamação, talvez a mais importante até agora! É com prazer e bastante alívio que anuncio que a maioria dos leitores quer que Fred continue escrevendo suas queixas mais ou menos diárias aqui no Blog. Em um segundo lugar apertado demais para o meu gosto, os leitores declararam que só apareciam por aqui para conhecer pessoas novas e talvez preencher suas vidas miseráveis com alguns momentos efêmros de alegria. E a nova enquete joga a batata quente para os outros, perguntando aos fiéis leitores:

Dos textos de escritores convidados, qual foi o que você mais gostou?

1- "Tipos de emprego" - Por Mauro, o galhofeiro.

2- "O caso do cachorro cagão" - Por Andréa Nobre

3- "Se tem mais de quarenta, agüenta" - Por Alberto Penaforte

4 - "Irritando Diego Gouveia" - Por Diego Gouveia.

5 - "A construção" - Por Evinha

Vejam ou revejam os textos pelos links aí em cima e votem nos seus favoritos! Faça sua torcida, junte sua troça de carnaval e defenda seu escritor convidado favorito!