sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sexta-feira dos convidados: Texto roubado é mais gostoso!



Cabe aqui uma explicação para o texto de convidado dessa sexta-feira. É que ele vem do blog Vai faltar ventilador, da amiga e publicitária Karina Nobre. Se algum de vocês resolver visitar o link, vai logo perceber que não há atualizações desse Novembro do ano passado, uma vez que a autora encontra-se atolada até os cachos loiros em trabalho. Pelo mesmo motivo, meus pedidos de um texto original foram ignorados, o que me motivaram à uma ação drástica: roubar uma história de Karina e publicar à revelia, mas tendo sua irmã, Déa, como cúmplice. É, aquela da história do cachorro cagão. Sim, é cosia de família mesmo. Assim sendo, deixo vocês com não um, mas dois pequenos textos da Lôra, como é conhecida entre os amigos, onde ela demonstra com bom-humor a experiência de ir morar fora do seu estado de origem.
PS – Os textos vão em seu formato original, exatamente como foram publicados pela autora em seu blog.




no mundo inteiro, deve haver pouquíssimos lugares com fauna tão rica quanto são paulo. basta andar na rua e você nota que por aqui trafegam livremente seres das mais variadas espécies, ou como diria minha amiga dayana, pessoas humanas de todos os tipos. é fantástico. desde que amarrei meu jegue aqui em sampa, posso dizer que já vi de um tudo. já vi cearense descendente de alemão, filho humilde de carioca com argentino, judeu desapegado de bens materiais, casal careta de pernambucana com jamaicano, maranhense que nasceu na Itália (hein?), trabalha no amazonas e vive em dubai, bahiano workaholic, japonês com sotaque de gaúcho, e até acreano dizendo que existe. digaí que muderno.

essa cidade tem de tudo. ou melhor, quase tudo. porque tem um espécime raro, bem dizer extinto dos núcleos sociais vulgares, que ao vivo, assim de pertinho mesmo, eu nunca vi não. você por acaso conhece algum paulistano puro? sim... paulistano puro, ariano, daquele que nasceu, cresceu, estudou e passou férias em são Paulo. tem não truta. e se tem, alguém por favor me diga onde essas pessoas foram parar. fico achando que todos eles estão presos num engarrafamento qualquer na marginal tietê, buzinando loucamente. nos fins de semana, eles devem ficar todos entulhados nas arquibancadas do pacaembu, ou correndo em círculos no ibirapuera. ou nas filas de restaurantes caros. aliás, em qualquer fila. dizem que paulistano adora uma fila... eu, como boa pernambucana que sou, morro de medo de fila. e, cá entre nós, também temo pelo dia em que cruzarei o caminho de um paulistano puro. sei não... não se pode esperar atitudes equilibradas de alguém que nunca apanhou brincando de cuzcuz, nunca catou tatuí na areia da praia, nunca chamou a mãe do melhor amigo de puta velha e nunca saiu pra brincar e voltou com o pedaço de pixe colado na orelha. sabe o que eles fazem no verão? põem uma bermuda, um tênis e saem por aí com a meia esticada na canela.


*************************************

os apelidos que os paulistanos dão aos seus queridíssimos amigos e colegas de trabalho, definitivamente, não funcionam como ferramenta facilitadora da comunicação. a fá, a rê, a la, o ma, o ri, a ju, o gu... são sempre monossílabos, sempre uma redução simples do seu primeiro nome. prático né? não. o problema é que, infelizmente, só existem 26 letras no alfabeto e, dentre elas, algumas tem fonética igual ou muito parecida. você tem que ter ouvido de tuberculoso pra saber se estão chamando a na ou a ma. e quando acontece a situação altamente improvável, a terrível coincidência, de haver duas pessoas com o início no nome igual? aí complica.

imagina só você, que se chama marieta, e trabalha com uma moça chamada maria. é ma pra cá, ma pra lá, e você para o tempo todo pra ver quem está te chamando e, lógico, nunca é com você. sua vida vira um verdadeiro inferno, sua produtividade cai, seu chefe pergunta se você está com problemas em casa. tudo porque aqui, na capital mundial da criatividade para apelidos, não interessa se você se chama carolina, camila, kátia, cassandra ou caceta, você sempre (eu disse sempre) será reduzida a uma sílaba. ca. ou ka, dá no mesmo. pois bem.. acontece que, por uma desgraça do destino, a recepcionista aqui da agência foi embora. a fê. e adivinha só quem entrou no lugar dela? a ca. eu adoro a ca, ela é muito melhor que a fê, só que a desgraçada fudeu com minha vida. eu era feliz e não sabia.


Por Ana Danos Morais

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

ENGLISH, MOTHERFUCKER!






O professor de Inglês, cansado e ainda sofrendo sintomas de embriaguez da noite anterior, se senta em uma das bancas e aguarda o seu único aluno daquela manhã. Fecha os olhos e pede a Deus para que o estudante seja vítima de algum desastre horrível e não apareça, para que ele consiga passar uma hora e meia cochilando no ar-condicionado e sendo pago por isso.

- Não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem,nãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovem...

- Hello, Teacher!

- PUTAQUEPARIU!

- Ai, teacher, que é isso?!

- NO PORTUGUESE! SPEAK ENGLISH, MOTHERFUCKER!

- …

- OPEN THE GODDAMNED BOOK AND READ THE FUCKING TEXT, BEFORE I SHOVE THIS MARKER UP YOUR SKINNY WHITE ASSHOLE!


O professor, que levava muito a sério a regra de jamais falar português em sala de aula, só se arrependia mesmo do “putaquepariu”.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Dia do Blog!





E hoje, pra quem não sabe, é o Dia do Blog. Pois é, também acabei de descobrir. Deus abençoe o Twitter. Como não fazia idéia de que existia tal coisa, nem muito menos como se comemora, fui atrás de informações. E como hoje em dia tudo é altamente especializado, existe, claro, um blog dedicado ao Dia do Blog, mas que funciona o ano todo, por mais estranho que isso pareça. De qualquer forma, o blogday dá umas sugestões interessantes para os blogueiros de plantão paritciparem mais ativamente desse dia. Vão em forma de manual: 


BlogDay instruções:

  1. Liste cinco novos Blogs que você ache interessantes.
  2. Notifique por email esses cinco bloggers de que serão recomendados por você no BlogDay 2010.
  3. Publique no BlogDay (no dia 31 de Agosto) esse post.
  4. Junte a tag do BlogDay usando este link:
    http://technorati.com/tag/blogday2010 um link para o site do BlogDay: http://www.blogday.org 




Quem acompanha o Blog da Reclamação, sabe que sempre estamos sugerindo blogs legais por aí. Mas, em respeito ao espírito solidário do Dia do Blog, vamos deixar aqui uma lista com 5 blogs que curtimos:



1- Adorável Psicose

2- Danosse.COM - Humor, Entretenimento e Publieditorial

3- Cleycianne - Deus é Mas

4- Cacimba de Letras

5- ladeira chic



Então é isso! Aproveitem a leitura desses blogs, altamente recomendados e comemore seu blogday da melhor maneira possível: lendo e comentando! Especialmente aqui, no Blog da Reclamação, claro!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Vida de estagiário: o abatedouro clandestino, parte final


Fui o primeiro a descer e fui seguido pelo supervisor da Vigilância. O homem mais velho fez um gesto com a cabeça em direção a viatura mais a frente e caminhamos na direção do veículo. Eram dois policiais apenas e começaram a sair do carro, quando ouvimos um estampido.
PÁ!
Meu coração parou e por alguns segundos meu sangue circulou apenas por uma combinação fortuita de inércia e força da gravidade. Minha vida passou rapidamente diante dos meus olhos, em uma edição que, curiosamente, privilegiava os fatos mais constrangedores. Por algum motivo, lembrei que jamais havia experimentado pipoca doce e aquilo me deprimiu momentaneamente. Consegui focalizar minha visão na viatura na minha frente. Parecia vazia. Teriam os policiais sido abatidos, de uma só vez, pelo disparo que eu havia escutado? Respirando fundo, movi a cabeça para a esquerda. O supervisor estava de joelhos, dois passos atrás de mim. Trazia os braços caídos ao lado do corpo e apresentava uma expressão resignada no rosto, como um mártir que entende que sua hora havia finalmente chegado e percebia perfeitamente o motivo do seu sacrifício. Não parecia estar ferido. Com o canto do olho, consegui ver que a Kombi continuava no mesmo lugar, mas não me virei para confirmar a presença de Biu.
Silêncio. Nem o ar, imóvel, fazia qualquer ruído que anunciasse sua presença naquele lugar esquecido por Deus. Me enchendo de coragem, estava prestes a abrir a boca para me dirigir ao meu companheiro, quando ouvi uma risada infantil vindo mais ou menos da minha direita. Um menininho usando apenas uma camisa do Santa Cruz, que mais parecia um vestido cobrindo seu corpo franzino, olhava para nós e ria maldosamente. Debaixo do seu pé direito, uma caixa de Toddynho estourada.


 Toddynho: Há anos destruindo a vida de pessoas inocentes.


- Há, se fudero! – E saiu correndo por entre os barracos.
Boquiaberto, observei enquanto ele se afastava e só então me dei conta do que tinha acontecido.
- Pirraiafeladaputa! Se eu te pegar, tu tá fudido! – Berrei, impelido pelo excesso de adrenalina no sangue.
- Frederico! Se acalme! Você por acaso sabe quem é pai desse menino? – grunhiu o tutor ao meu lado, aparentemente recuperado de sua experiência de quase morte.
- Hmm. Não, não sei. Quem é? – Perguntei, olhando para os lados, amedrontado.
- E eu lá sei? Mas se mora aqui no Coque, eu que não quero conversa com ele. E você, quer?
Convencido por aquela lógica cristalina, me acalmei e olhei para trás. Biu estava em seu posto, atrás do volante. Ao me ver, ergueu a mão trêmula em um sinal de OK. Nos voltamos para a viatura, onde os policiais haviam miraculosamente reaparecido, erguendo-se lentamente do chão do carro e olhando ao redor desconfiados.
- Esses são os caras que vieram proteger a gente? – Perguntei com desprezo.
- Podia ser pior. Vai que eles pegavam a viatura e iam embora?
- Mas também não vão servir de nada se der merda aqui.
- Claro que vão servir. Servem de alvo. Quem tem farda leva bala primeiro. Na dúvida, jogue o jaleco fora e bote tudo nas mãos de Deus.
Os policiais finalmente deixaram a proteção do veículo e vieram nos saudar.
- Estávamos prontos para dar assistência. Por sorte, não passou de um alarme falso.
- Assistência? De lá do chão da viatura? – Perguntei, indignado.
- Positivo. Estávamos planejando um curso de ação a partir de uma posição mais taticamente favorável. Felizmente, nossa intervenção não foi necessária. – Respondeu o sargento sem se abalar.
- É aqui o abatedouro? – Perguntou meu supervisor, apontando para um casebre miserável na beira do rio, com um pequeno terreno mais a frente. O policial confirmou com a cabeça.
- Mas e aí, qual é a bronca por aqui? Tá faltando a licença da Vigilância? Autorização dos bombeiros? – Perguntei, em dúvida.
- A informação que nos chegou – Respondeu o policial, impassível – era que o estabelecimento estava comercializando carne de cavalo.
- Oi? Carne de quê?
- De cavalo. Às vezes de jumento, mas geralmente de cavalo. Forneciam pra toda a região da Ilha de Joana Bezerra.
- Putamerda!
Já tinha visto coisas estranhas na Vigilância Sanitária antes, mas abatedouro de cavalo, no coração do Recife, era novidade. Depois fiquei sabendo que, de fato, a maioria das carnes comercializadas na região provinha do açougue equino. De forma que quem frequentava a estação de metrô de Joana Bezerra, simplesmente a mais movimentada da cidade e houvesse cometido a imprudência de buscar uma refeição proteica na área, tinha grandes chances de ter consumido um espetinho de cavalo ou um McHorse. 


 Opa, pode escolher? Me vê o mais gordinho, mal passado, beleza?


- Você que de vez em quando faz um lanche lá na estação antes de voltar pra casa, né? – Perguntei ao tutor, já com o estômago meio embrulhado.
- Faço, mas sempre frequento dona Zeza, aquela do sarapatel. Pessoa simples, mas dos mais altos padrões de higiene. – Respondeu o meu companheiro, muito digno.
- Segundo denúncias, dona Zeza é tia do dono do abatedouro e principal distribuidora da carne de cavalo produzida aqui. – Informou o policial, eficiente.
- Putamerda! Véia safada!
- Calma, agora já foi. Dizem que lá no Cazaquistão carne de cavalo é iguaria. É tudo questão de cultura. Melhor a gente ir lá, inspecionar logo e sair daqui. – Falei, apertando o passo para que o veterano não pudesse perceber meu riso frouxo.
Nos aproximamos do abatedouro e vimos movimento no terreno contíguo. Cheguei mais para perto da cerca composta de pedaços de paus podres e vi um pangaré, magro, maltratado e trêmulo. Estava amarrado pela pata traseira em uma tora de madeira e exibiu uma expressão aliviada ao nos ver.


 Ah, meu Deus, ainda bem que vocês chegaram! Cadê o exército?


- Ah, bichinho do cavalo! Acho que esse aí ia ser o próximo. E aí, bora entrar e soltar ele logo? – Perguntei ao sargento, comovido.
- Não podemos. – Respondeu o policial.
- Como assim, não podemos? Não foi pra isso que a gente veio?
- Não, Frederico, ele tem razão. Isso aí é com o Controle de Animais. A gente só veio olhar o abatedouro. – Anuiu meu colega.
- Mas o coitado tá preso e sofrendo maus tratos! E vai virar bife ou espetinho ou o sarapatel de dona Zeza, que algum infeliz vai comer lá no metrô! – Exclamei, indignado.
- Eu sei – Respondeu o supervisor, fazendo uma careta a menção da iguaria equina. – Mas a gente não tem como fazer nada. Se soltar e deixar ele aí, vai acabar sendo pego de novo. Ou então vai pra pista e vai causar um acidente. Você quer tentar levar ele na Kombi?
Olhei para o abatido animal com o coração partido e vi que minha proposta era, de fato, irreal. Cabisbaixo, me afastei da cerca improvisada, sem ousar encarar os olhos tristes do cavalinho.


 Ei, ei! Onde vocês tão indo? Já sei, é brincadeira, né? Ha Ha, vocês voltam, né? Né?! Oi?


E no final das contas, nossa presença no Coque se revelou totalmente inútil. O açougue , cujo dono havia fugido muito antes da nossa chegada, estava trancado com uma grossa e enferrujada corrente. Os despreparados policiais, que sequer possuíam mandato de busca, não poderiam adentrar o local mesmo que estivessem equipados ou dispostos a tanto. Voltamos para a condução em silêncio e fomos escoltados para fora da comunidade, com a sensação de dever não realizado e de um dia de trabalho perdido. No caminho de volta, já nas imediações da sede da Vigilância Sanitária, passamos em frente a uma barraca de espetinhos. Senti um calafrio ao observar as pessoas consumindo vorazmente suas refeições de origem suspeita, alheias ao que estavam ingerindo.
Me despedi dos meus colegas e voltei para casa, com os olhos tristes do pobre cavalinho gravados na minha memória, me acompanhando por todo o trajeto.


domingo, 29 de agosto de 2010

Domingo é dia de enquete!


Podem parar de votar, a enquete chegou ao fim! Eu mandei parar, cacete!

Agora sim. E aqui vão os resultados da última pesquisa, que questionava a participação (ou não) dos leitores na primeira promoção do Blog, que premiava o vencedor com um par de convites para o show da Banda golou o ovo, no Uk Pub:



1- Não participei, porque faltou criatividade na hora de esoclher as imagens e escrever as legendas. (12%)

2- Não participei, porque moro fora do estado. Mas tava doido(a) pra ir! (25%)

3- Não participei, porque tinha certeza que ia rolar alguma mutreta. E Fred tem muita cara de safado. (62%)

4- Não participei, porque um prêmio desses eu não aceitava nem de graça! (0%)

E como pode ser observado, grande parte dos leitores não participou devido ao semblante intrinsecamente safado de Fred, ou seja, eu. Não dá pra discutir com quem votou nesse sentido, já que eu concordo com eles. Tenho cara de safado mesmo, fazer o quê?
Mas hoje é domingo, o último do mês, o que significa que chegou a hora de votar no texto dos convidados do Blog, publicados todas as sextas-feiras! Para refrescar a memória de vocês (adoro esse verbo, "refrescar") segue abaixo a lista com os links para os textos para você ler, reler e votar!






E é isso. Divirtam-se e fiquem tranquilos, que a saga do estagiário no Coque termina amanhã, com vocês descobrindo, finalmente, a terrível verdade sobre os abatedourous clandestinos!

Ah, e não esqueçam de seguir o Blog no Twitter, para ficarem sabendo imediatamente de novos textos, promoções ou ouvir reclamações em geral:  @blogreclamacao

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Sexta-feira dos convidados: O almoço e a não moça



[Não sou de reclamar muito. Por isso entendo que para equilibrar o universo algumas pessoas façam isso demasiadamente.]








Dia desses fui almoçar e, como de costume, cheguei faltando minutinhos para o self-service fechar.
Enquanto lavava as mãos aparece uma senhora, com aproximadamente 70 anos, paradinha ao meu lado, só aguardando eu terminar.
Mesmo havendo outras três pias livres, limpinhas, com água corrente e sabão líquido. … ela fica ao meu lado. E puxa assunto.

- Quase não dá tempo hoje, né, meu filho?

(Antes de continuar é importante dizer que tive uma ótima educação doméstica. Respeitar e tratar bem os idosos tornou-se uma ação natural para mim.)

Respondo com um sorriso e um leve balançar positivo de cabeça.

- Quase mesmo.

Ela, metralhadoramente, continua:

- Eu quase que não chego. Tive que acompanhar minha sobrinha num exame de vesícula. Aí sabe que atrasa sempre, né? Eles dizem pra chegar numa hora, mas nunca adianta. Nunca é na hora. A gente devia nem ir por causa disso. Mas precisa, né?

Nesse momento me arrependi de ter respondido. Deveria ter dado uma de surdo, fazendo gestos que simulassem libras. Certeza que ela iria embora.
Mas dirigindo-me aos pratos, falei:

- É verdade.

Ela, com bandeja e prato em mãos e já nas saladas, continua:

- Outra vez foi o menino dela. Ficou doente e ela não tinha com quem deixar. Deixou lá em casa, né? Porque a vó mora longe. Lá em Abreu e Lima. Aí sobra pra tia. Bem dizer que eu é quem crio o filho dela. Só vive lá em casa. Olha! Beterraba! Você bota um pouquinho aqui, meu filho?

Bom. Eu já estava colocando pra mim mesmo. Fiz o que ela pediu e ainda continuei a conversa.

- Claro. Beterraba faz bem, num é verdade?

Putaquepariu! Por qual diabo de motivo eu quis continuar a conversa? Essa era a hora certa pra eu cair fora. Mas não consegui. E já esperei a continuação dela.

- É. Deixa o sangue forte. Os meninos de hoje em dia não comem mais isso não. Por isso ficam tudo doente. Comida tem que ter fibra. Tem que comer arroz, feijão, cuscuz, ovo. Brigada, meu filho. Olha aí no seu prato … tomate, beterraba, verdurinha. Isso é que é bom. Mas os menino jovem num querem isso não. Só quer comer doce, hambúrguer … tudo que não presta.

Caminhando para os acompanhamentos ela não para.

- Tinha uma época que eu não tava comendo carne. Porque dizem que faz mal, né? Mas agora eu como. Porque se eu não comer dá logo fome. Mas num é toda carne não. Porco me dá uma azia danada. Uma queimação aqui dentro quando arrota. Sabe?

Pensei em dizer "Não, minha senhora. Como caralhos vou saber?", mas não. Respirei e respondi.

- Humrum.

- Repare se eu tenho idade pra tá me preocupando com comida. Tem que comer o que gosta. Você que é jovem, não. Tem que se preocupar com essas coisas.Veja se eu, com 68 anos vou me preocupar com isso. Eu gosto é de feijoada. … Hoje nem tem, né? … Você tá vendo feijoada ali?

- Não, senhora.

- Mas tem na sexta. É bom chegar mais cedo, viu? Aqui fica cheio demais quando tem feijoada e dobradinha. Porque não tem um lugar que preste pra comer aqui por perto … Você gosta? … Eita! Eu nem peguei garfo e faca. Onde você pegou?

Esse foi um momento tenso. Normalmente a minha reação seria ir até o lugar dos talheres e pegar um pra ela. Mas não consegui. Sem pensar muito respondi.

- Logo ali. Cuidado pra senhora não esquecer, viu?

Pronto. Feito. Em seguida, quando ela começou a se virar pra buscar o talher, tive que agir. Coloquei pimenta do reino em todas as carnes, no peixe, no frango, nas almôndegas … em todas as outras comidas que ela poderia colocar no prato e … brincadeira. Não fiz isso. Apenas passei rapidamente por tudo, pesei e achei o melhor lugar pra sentar.

A única cadeira vazia de uma mesa bem distante.


Por @Lucas_Emanuel

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Vida de estagiário: o abatedouro clandestino, parte II


O Coque. Uma favela encrustada no meio do caminho entre as Zona Sul, Norte e o Centro do Recife. Barracos caindo aos pedaços, ruas sem asfalto, prostituição, tráfico de drogas, violência e Testemunhas de Jeová. Não satisfeito, Deus quis que a comunidade existisse em uma ilha, a de Joana Bezerra, provavelmente para dificultar a fuga de qualquer um que tenha a infelicidade de ir parar lá dentro. E tem quem diga que o inferno não existe.
Seguíamos a viatura em alta velocidade, passando por rua e vielas que eu jamais havia visto antes. Era como se uma parte totalmente nova e absolutamente horrenda da cidade fosse brotando do asfalto debaixo dos pneus gastos da Kombi onde estávamos. À medida que nos aproximávamos do nosso local de destino, Biu, o motorista, aparentava mais e mais nervosismo. Meu colega de equipe descansava a cabeça grisalha na mão esquerda, tinha os olhos fechados e parecia murmurar consigo mesmo, como se rezasse. Eu considerava seriamente a possibilidade de pedir para descer do veículo e enviar minha demissão no dia seguinte, alegando angústia mental extrema e total ausência de coragem.
Subimos uma ponte, descemos um viaduto, desviamos de vários buracos, entramos em todos os becos e, meio que de repente, chegamos à Comunidade do Coque. As ruas estreitas eram, em sua maioria, de barro e coalhadas de poças de lama. As calçadas inexistentes eram os alpendres dos barracos horríveis, formados por uma colcha de retalhos de folhas de compensado e umas poucas paredes de tijolos quebrados, nus, sem reboco. Eram essas habitações miseráveis que projetavam sombras anãs pelas via, uma vez que não havia árvores ou qualquer coisa que filtrasse o sol abrasador do Recife. Cachorros mancos buscavam alimento em pilhas de imundície nas esquinas, espalhando a porcaria pelas ruas, fazendo com que o povo transitasse no meio do lixo. O povo. Nos olhavam com expressões indecifráveis, observando pelas janelas semicobertas o movimento. Cochichavam uns com os outros e apontavam com a cabeça a escandalosa viatura que abria caminho. O que se comentava ninguém sabia, mas parecia claro que não éramos bem-vindos naquele local.



 
- Putamerda... – balbuciei, olhando ao redor impressionado. Recife possui um sem-número de favelas, mas eu jamais havia entrado em uma, muito menos acompanhado de um carro de polícia que só faltava apresentar um “META BALA” pintado em letras garrafais no capô. Para que o leitor possa fazer uma ideia aproximada da situação em que nos encontrávamos, requisitei ao Departamento de Arte uma imagem aérea com legendas explicativas.

  Clique na imagem para ampliar
Abatedouro clandestino
Viatura
Nós
Pontos de perigo extremo que podem resultar em morte, desmembramento e violência sexual bizarra, não necessariamente nessa ordem.
Rotas de fuga

Talvez você tenha percebido que as rotas de fuga não estão representadas na imagem. É porque não existia nenhuma. O estagiário do Departamento de Arte deve ter se confundido e adicionado a legenda. Pode-se perceber que a nossa situação era, no mínimo, delicada. Olhei para Biu, que arranhava as marchas da Kombi, devido ao tremor incontrolável de suas mãos.
- Será que...será que tem algum ex-vizinho seu por aqui, Biu? – perguntei, buscando uma referência local, caso o pior acontecesse e fosse necessário nos entrincheirarmos até a chegada das forças armadas.
- Tomara que não... – respondeu Biu, que tinha fama de gostar da mulher dos outros, afundando no banco do veículo e fazendo o possível para esconder o rosto.
Ao meu lado, o tutor da Vigilância Sanitária pareceu ter saído do seu transe e consegui discernir a palavra “amém” da sua ladainha em voz baixa.
- Mas tu não era ateu?
- Frederico, não existem ateus no Coque. – retorquiu o homem mais velho, recém-convertido em fanático religioso por força da necessidade. Benzeu-se e depois pegou do bolso do motorista, sem pedir permissão, a imagem de Nossa Senhora, beijando-a fervorosamente.
O carro de polícia parou em uma rua perto do rio e Biu, suspirando, estacionou a uma distância respeitosa da viatura. Olhei para meu superior, que parecia perdido em pensamentos.
- E aí?
- Oi? Ah, sim. Agora a gente...a gente vai lá e faz a...faz a inspeção.
Respirei fundo, abri a porta e saí da condução.

Continua...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Show da banda Golou o Ovo

Para os que perderam o show da super banda Golou o Ovo, lá no Uk Pub, dia 18, aí vai uma amostra da performance dos caras. Atentem para minha participação no vídeo, espontaneamente decorando o microfone do vocalista Bizú com um lenço de gosto duvidoso, que minha mãe já pediu de volta:








Quem ficou de fora, não se desespere! Haverão outros shows e, claro, outras promoções.

Acompanhem o Blog e aguardem.

PS - Alguém aí sabe que música eles estão tocando?

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Vida de estagiário: o abatedouro clandestino, parte I




A supervisora do primeiro setor da Vigilância Sanitária entrou de supetão na sala onde se reuniam os inspetores e declarou, esbaforida:

- Gente! Denúncia de emergência! Quero vocês prontos pra sair em dois minutos!

- O que foi que aconteceu chefa? Denúncia de quê? E onde? – questionou um dos inspetores.

- Abatedouro clandestino. Lá no Coque. – acrescentou ela à meia-voz. Os colegas que não haviam sido selecionados para a missão suspiraram de alívio. Virei para meu tutor, que exibia uma expressão preocupada e indaguei, sem muitos rodeios:

- Caralho, no Coque?

- Se fudemos. – declarou meu companheiro, placidamente.

- Não foi lá que teve um tiroteio esses dias? – comentou um dos técnicos. Logo, todos começaram a relembrar casos escabrosos ocorridos na região. 

- Esses dias não. Todo dia. Minha empregada mora lá perto e falou que acorda e vai dormir com o pipoco de bala.

- Ontem mesmo mataram um. Meteram tanta bala no barraco que até o gato morreu. O gato, doido. Fuleiragem...

- Meu cunhado é tenente da Choque. Aquele que é acostumado a separar os cacetes que rolam entre a Torcida Jovem e a Inferno Coral. Pois ele disse que no dia que mandarem ele entrar no Coque, pede exoneração da corporação.

- Semana passada um tarado, aquele lá do mangue, resolveu se esconder por lá. Pois pegaram o homem e deram fim nele ali mesmo. Dizem que primeiro deram uma pisa no desgraçado, daí arrancaram as unhas com alicate e depois cortaram a bilola e socaram no...

- Chega! Quero vocês na Kombi, já! E não se preocupem, que vocês vão receber escolta. Uma viatura da polícia vai acompanhar a Vigilância. – acrescentou a supervisora, sem muita convicção.

Nos levantamos, recolhemos nosso material dos armários e seguimos para o pátio. No caminho, virei-me para meu colega e dei voz as minhas apreensões.

- A gente vai entrar no Coque com uma viatura do lado? Né pior não?

- Geralmente, eles não abrem fogo contra a polícia assim, sem provocação. Não de dia, pelo menos.

- Geralmente?
 
- Frederico, você prefere entrar lá sozinho?

- Eu prefiro não entrar!

- Isso aí não pode. Somos inspetores da Vigilância Sanitária do Recife...

- Eu mesmo não, sou só o estagiário, cacete!

- ...e temos um dever a cumprir. E, por Deus e por Nossa Senhora, nós vamos cumpri-lo! – declarou meu companheiro, tomado por um orgulho profissional incomum. Talvez já pressentisse um final trágico para aquela missão e desejasse emprestar uma maior gravidade aquele momento. Continuamos em um silêncio funéreo até chegar á condução, onde o motorista nos aguardava cochilando no banco de trás. Dei uma pancadinha na lataria do automóvel para acordá-lo e o homem ergueu-se preguiçosamente.

- Bom-dia. – fez ele, esfregando os olhos avermelhados e sorrindo debilmente. Encarei meu companheiro.

- Ele não tá sabendo.

- Não tô sabendo do quê?

- Biu, fique calmo. Veja bem, recebemos uma denúncia de emergência e temos que investigar. Hmm. Lá no Coque.

- Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! Onde?!

- No Coque, Biu. Que frescura é essa? Você não disse que já morou lá perto? 

- Morei sim senhor. Por isso que tenho medo.

- Não se preocupe, ninguém tá pedindo pra você se mudar de volta pra lá. É pra levar a gente, aguardar a inspeção e trazer de volta. Só isso. E vê se não perde a viatura da polícia de vista. – acrescentou meu tutor enquanto afivelávamos o cinto de segurança.

- Viatura? Cremdeuspai! – Biu, que era evangélico, beijou discretamente uma pequena imagem de Nossa Senhora que levava no bolso da camisa.

Os policiais já aguardavam em seu veículo do lado de fora da sede da Vigilância. Arrancaram pela rua assim que nos viram e Biu fez o que pôde para acompanhar o outro carro. Suspirei fundo e me preparei para adentrar um dos locais mais perigosos da cidade do Recife.

A Comunidade do Coque.


Continua...