sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sexta-feira dos convidados: Recusa [ou Refusal]





Antes eu vivia em paz. Ela acabou quando o Sr. Toscano me pediu que escrevesse um texto para o seu Blog da Reclamação. Porque no início ele pediu, humildemente. Com o tempo, como se eu tivesse feito um juramento solene de que atenderia, passou a me exigir o texto com crescente intransigência.

            Serviu-se para tanto de todos os mails ao seu alcance. Não bastasse isso, atulhou-me de recados no Orkut e no Facebook, mensagens no Twitter e no MSN. Era onipresente na internet. Eu só podia pensar que dedicava o dia inteiro a me exigir o que eu não tinha prometido, o que definira singelamente como uma breve reclamação, o relato de uma situação em que eu tivesse me dado mal.

            Entretanto, só comecei a ficar preocupado de verdade quando no lugar dos anúncios pornográficos e pop-ups de promoção passei a ver a imagem de Fred, ou melhor, do Sr. Toscano com o indicador voltado na minha direção e aquele olhar de inquisidor que até seus desconhecidos conhecem, sucedida pelo relampejar das seguintes palavras na tela: “João, cadê meu texto?”

            No dia em que assisti Inception, notei que as pessoas olhavam pra mim na rua como se eu fosse um elemento exógeno, um alienígena disfarçado, o oitavo passageiro. Uma delas, ao esbarrar em meu ombro, chegou a sussurrar de forma agressiva: “João, cadê meu texto?”, depois do que piscou os olhos como quem retorna de um transe, pediu desculpas e prosseguiu.

            Ainda bem que o filme não foi Matrix, ou eu teria passado a ver em todo mundo o abominável rosto do meu próprio Mr. Smith, a saber, o Sr. Toscano – não se deixe enganar pelo ar de simpática franqueza da foto no topo do blog –, me perguntando “Onde está o meu texto, Sr. Parisio?”. Desconfiei que ele, que foi meu colega no ensino médio e ainda se passa por meu amigo, tivesse se tornado uma espécie de Big Brother, entidade supra-humana capaz de infiltrar-se em nossas intimidades e vergar nossas vontades a suas decisões, como um certo personagem da Bíblia.

            Sempre achei que a ranzinzice de Fred, digo, do Sr. Toscano – um rematado reclamão, como ele mesmo agora reconhece, mas não sem reclamar antes –, fosse o disfarce de um complexo de auto-idolatria que o faz ver tudo à sua volta como sendo pérfido, espúrio e inferior. Não é improvável que ele tenha vendido a alma ao Diabo em troca de uns parcos poderes demoníacos.

            Era possível, contudo, que eu estivesse apenas sonhando, o que me levou à óbvia conclusão de que nesse caso o Sr. Toscano estaria tentando implantar nas profundas de meu subconsciente a semente da ideia de que eu devia e precisava escrever um texto para o seu aclamado Blog da Reclamação.

            Vou comprar uma carrapeta – aquilo não é um pião, seu burro [suspeito que essa tenha sido uma inserção do próprio Sr. Toscano] – pra fazer o teste, mas se eu verificar que tudo isso não passa de um sonho do qual ainda não acordei, quero avisar ao Sr. Toscano que com respeito ao famigerado texto agora é que eu não escrevo mesmo, nem que isso me custe cair no limbo do esquecimento, o inferno que assola os pesadelos de todo escrivinhador.



Por João Paulo Parisio, sem acento, escritor e editor da revista literária Pensamento. Quando não está sendo perseguido por mim em seus sonhos, também atualiza seu blog. Bem de vez em quando.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Um dia bom





Estava contrariado. Havia chegado ao Shopping, na Zona Sul, depois de mais uma vez ter sido quase atropelado por um motorista que não considera os ciclistas como membros integrantes da raça humana. Saíra de casa após outra das frequentes brigas que costumo ter com minha mãe. Havia ido ao banco, na tentativa de sacar uma quantia muito necessária naquele momento, apenas para passar mais de uma hora na fila e descobrir que, afinal, havia algo errado com o meu cartão e eu não poderia ter acesso ao meu dinheiro naquele dia. Meu MP3 Player jazia morto no bolso da minha calça surrada, me abandonando ao convívio entre sons e ruídos que invadiam meus ouvidos e tinha, então, todos os meus sentidos agredidos pela balbúrdia civilizada dos centros de compras, a tagarelice das pessoas ao meu redor se acumulando à minha volta, substituindo o oxigênio necessário à vida e me sufocando em um mar de palavras vazias e frases desconexas.

Olhava ao redor em uma fúria muda, um câncer que crescia a partir da boca do estômago e forçava minhas artérias, fazendo com que meu coração batesse louco, espalhando os tentáculos da ira por todo o meu corpo. Crispei as mãos, enfiando as unhas na carne das palmas, sentindo a dor aguda ser abafada pela revolta. Queria gritar. Queria avançar nas pessoas, ensandecido, cuspindo impropérios, agredindo, causando dor. Queria tirar a raiva de dentro de mim e entrega-la às pessoas que falavam e falavam sem parar dentro do Shopping.

- Psiu.

Virei-me, raivoso, disposto a descontar em quer que fosse os sentimentos que me tomavam o raciocínio naquele momento. Na minha frente, segura atrás de um cercado colorido, uma menininha se agarrava à grade que separava a creche das pessoas que passavam pelo corredor, apressadas. 

- Psiu. Moço! Ei, moço!

Me aproximei, carrancudo, da garotinha trepada na cerca, ignorando as outras crianças e sendo por elas ignorada, concentradas que estavam em suas brincadeiras infantis.

- O que é? – Perguntei, grosseiro. Devia ter cerca de seis ou sete anos de díade. Tinha longos cabelos castanhos e enormes olhos amendoados. O narizinho era marcado por manchas de sardas. Ela me olhou compenetrada, quase adulta e respondeu:

- Moço. Se o senhor quiser, quando eu crescer, eu namoro com o senhor.

Ela sorriu um sorriso banguela e me soprou um beijo através da grade de metal. E então, como se já tivesse descartado do pensamento aquele homem rude e mal-educado à sua frente, virou-se e correu a brincar entre as outras crianças, perdendo-se em uma floresta de brinquedos coloridos e risadas agudas.

E subitamente, a raiva que crescia dentro de mim parou seu avanço. Retrocedeu e resumiu-se em nada, como se jamais houvesse existido e nunca pudesse retornar. Retornou, muitas e muitas vezes depois, mas naquele momento, aquela oferta inocente feita pela garotinha desconhecida pareceu anular todos os absurdos, todas as injustiças mesquinhas as quais me sentia submetido todos os dias e naquele mais do que todos os outros. Atordoado por aquele beijo efêmero, soprado à minha bochecha através do cercado da creche, me dirigi à saída, não mais preocupado com os motoristas homicidas ou com os caixas eletrônicos reticentes. A vida, afinal, devia ter lá o seu sentido. Não sabia bem qual, mas devia ter. Em um instante, fugidio, cheguei muito perto de descobrir. 

Sorri. Um sorriso besta, atarantado, ilógico. Sorri para mim mesmo, sorri para quem precisava e sorri até para quem não merecia. Sorri apenas. Aquilo me bastava e bastava ao mundo.

Uma semana depois, voltei ao Shopping e procurei a creche, buscando ouvir a zoada das crianças e suas risadas infantis. Mas não havia mais nada. O cercado colorido havia desaparecido e se retirado do espaço que anteriormente ocupava, levando consigo a alegria das crianças e um pedaço do meu sorriso.

Esse pedaço eu nunca mais recuperei.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Especial Dia do Sexo: O limite de um homem




Essa história, acredite se puder, é verdadeira. Ou quase.

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O casal cheio de tesão consegue chegar até o quarto com as roupas mais ou menos intactas. O homem sussurra algo no ouvido da companheira, que sorri e se ajoelha. O rapaz fecha os olhos em expectativa enquanto a garota se aproxima, abre a boca e nela coloca uma pastilha. Havia lido, em algum lugar, que aquele procedimento causaria um frêmito de prazer inédito no parceiro e logo procedeu a uma sessão de sexo oral. Enquanto labutava, lançava olhares de esguelha ao rosto do homem, bem acima de sua cabeça, tentando adivinhar-lhe a disposição. 

Ele mantinha os olhos cerrados, mordia os lábios e gemia suave e constantemente. Seu rosto começou a se contrair mais e mais, em uma careta mais ou menos cômica à qual ela já estava acostumada. A garota aumentou o ritmo, igualando-o ao dos murmúrios do seu par, que já começava a apresentar um tom avermelhado no rosto, transpirando abundantemente. Finalmente, ele estremeceu de maneira quase convulsiva e gritou, afastando a cabeça da garota:

- TÁ QUEIMANDO!

- Oi?

- AHHHHHHHH, TÁ QUEIMANDO!! QUE PORRA É ESSA?! – Berrou o rapaz transtornado, dobrando-se sobre o órgão afogueado.

- Opa...será que...será que foi o Halls preto? – Perguntou sua companheira, inocentemente.

- HALLS? TU CHUPOU UM HALLS ANTES? E PRETO?! QUE PORRA DE IDÉIA FOI ESSA? – O homem agora corria enlouquecidamente pelo quarto, a face adquirindo um estranho tom violáceo. Cego pelas lágrimas de agonia, esbarrava em todos os móveis do ambiente.

- Meu amor, calma! Pera que eu vou ajudar! – Dizendo isso, a mulher saltou agilmente por cima da cama e correu até o banheiro, retornando de lá com as mãos em concha e cheias d’água da torneira. Quando o namorado, ensandecido de dor, passou pela sua frente, ela atirou o líquido sobre o membro inflamado.

- AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH! PIOROU! PIOROU! – Urrou o rapaz, ao ter a região genital encharcada em umidade gélida. 

- Olha amor, tá caindo a pele toda! Eca!

Aquela visão foi demais para o rapaz. Sentiu as pernas fraquejarem e tombou no chão frio do quarto, inconsciente. Despertou na manhã seguinte, sobre sua cama e vestindo seu roupão. Súbito, a memória da noite anterior lhe veio à mente e ele tateou cuidadosamente entre as pernas. A sensação de ardor havia desaparecido, mas a área continuava sensível. Nem sinal da namorada. Tentava decidir o que fazer, quando a empregada, que possuía a chave do apartamento, entrou em seu quarto.

- O senhor tá bem?

- Hmm? Oi, tô, Zefinha...tô melhor.

- Graças a Deus. Sua namorada foi embora logo cedo, toda apressada. Mas ela me explicou o que aconteceu, viu?

- Ela...ela explicou, foi?

- Ela falou da cobra que apareceu.

- Oi, cobra?

- Por isso que tava essa bagunça o quarto. O senhor revirou tudo tentando matar a bicha! 

- Ah...foi. Foi. Isso mesmo, Zefinha. Uma cobra. Daquelas bem...daquelas bem grandes, sabe?

- Ah, o senhor não me engana não! Eu achei o couro dela no chão do quarto! Era uma cobrinha pequenininha, desde tamanhinho. Parecia mais uma minhoca, fazia até pena, rapaz.

- ...

- O senhor tá bem?


Naquele mesmo dia, acabou o namoro e demitiu a empregada. 


Afinal de contas, todo homem tem seu limite.


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Uma homenagem do Blog da Reclamação ao Dia do Sexo que, como quase tudo hoje em dia, tem até seu próprio site, patrocinado, compreensivelmente, pela marca de camisinhas Olla.

E você, gostou do texto? Pois então vá comemorar esse dia tão especial, saia da frente do computador e vá transar.

domingo, 5 de setembro de 2010

Domingo é dia de enquete!


Encerrando mais uma votação para escolher o melhor escritor convidado! Os resultados seguem abaixo:



1- O almoço e a não moça, por @Lucas_Emanuel. (20%)
 
 
2- O self-service que quase acabou em Buffet, por Mariana D'Emery (0%)
 
 
3- Cearês, por Saulo Toscano (70%)
 
 
4- Dízimo com quem andas e te direi se pago, por @Gustavo_C (10%)
 
 
 
Uma vitória esmagadora de Saulo Toscano, portanto. Sei não, algo me diz que ele teve uma pequena ajuda de, tipo, o estado do Ceará inteiro! Já ando pensando até em abrir um filial do Blog da Reclamação lá em Fortaleza, mas como dizem que não há muito o que reclamar da cidade, a sucursal ia acabar falindo.
 
Então é isso, já já sai a nova enquete e amanhã tem texto novo, não deixem de acompanhar!
 
 

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sexta-feira dos convidados: Texto roubado é mais gostoso!



Cabe aqui uma explicação para o texto de convidado dessa sexta-feira. É que ele vem do blog Vai faltar ventilador, da amiga e publicitária Karina Nobre. Se algum de vocês resolver visitar o link, vai logo perceber que não há atualizações desse Novembro do ano passado, uma vez que a autora encontra-se atolada até os cachos loiros em trabalho. Pelo mesmo motivo, meus pedidos de um texto original foram ignorados, o que me motivaram à uma ação drástica: roubar uma história de Karina e publicar à revelia, mas tendo sua irmã, Déa, como cúmplice. É, aquela da história do cachorro cagão. Sim, é cosia de família mesmo. Assim sendo, deixo vocês com não um, mas dois pequenos textos da Lôra, como é conhecida entre os amigos, onde ela demonstra com bom-humor a experiência de ir morar fora do seu estado de origem.
PS – Os textos vão em seu formato original, exatamente como foram publicados pela autora em seu blog.




no mundo inteiro, deve haver pouquíssimos lugares com fauna tão rica quanto são paulo. basta andar na rua e você nota que por aqui trafegam livremente seres das mais variadas espécies, ou como diria minha amiga dayana, pessoas humanas de todos os tipos. é fantástico. desde que amarrei meu jegue aqui em sampa, posso dizer que já vi de um tudo. já vi cearense descendente de alemão, filho humilde de carioca com argentino, judeu desapegado de bens materiais, casal careta de pernambucana com jamaicano, maranhense que nasceu na Itália (hein?), trabalha no amazonas e vive em dubai, bahiano workaholic, japonês com sotaque de gaúcho, e até acreano dizendo que existe. digaí que muderno.

essa cidade tem de tudo. ou melhor, quase tudo. porque tem um espécime raro, bem dizer extinto dos núcleos sociais vulgares, que ao vivo, assim de pertinho mesmo, eu nunca vi não. você por acaso conhece algum paulistano puro? sim... paulistano puro, ariano, daquele que nasceu, cresceu, estudou e passou férias em são Paulo. tem não truta. e se tem, alguém por favor me diga onde essas pessoas foram parar. fico achando que todos eles estão presos num engarrafamento qualquer na marginal tietê, buzinando loucamente. nos fins de semana, eles devem ficar todos entulhados nas arquibancadas do pacaembu, ou correndo em círculos no ibirapuera. ou nas filas de restaurantes caros. aliás, em qualquer fila. dizem que paulistano adora uma fila... eu, como boa pernambucana que sou, morro de medo de fila. e, cá entre nós, também temo pelo dia em que cruzarei o caminho de um paulistano puro. sei não... não se pode esperar atitudes equilibradas de alguém que nunca apanhou brincando de cuzcuz, nunca catou tatuí na areia da praia, nunca chamou a mãe do melhor amigo de puta velha e nunca saiu pra brincar e voltou com o pedaço de pixe colado na orelha. sabe o que eles fazem no verão? põem uma bermuda, um tênis e saem por aí com a meia esticada na canela.


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os apelidos que os paulistanos dão aos seus queridíssimos amigos e colegas de trabalho, definitivamente, não funcionam como ferramenta facilitadora da comunicação. a fá, a rê, a la, o ma, o ri, a ju, o gu... são sempre monossílabos, sempre uma redução simples do seu primeiro nome. prático né? não. o problema é que, infelizmente, só existem 26 letras no alfabeto e, dentre elas, algumas tem fonética igual ou muito parecida. você tem que ter ouvido de tuberculoso pra saber se estão chamando a na ou a ma. e quando acontece a situação altamente improvável, a terrível coincidência, de haver duas pessoas com o início no nome igual? aí complica.

imagina só você, que se chama marieta, e trabalha com uma moça chamada maria. é ma pra cá, ma pra lá, e você para o tempo todo pra ver quem está te chamando e, lógico, nunca é com você. sua vida vira um verdadeiro inferno, sua produtividade cai, seu chefe pergunta se você está com problemas em casa. tudo porque aqui, na capital mundial da criatividade para apelidos, não interessa se você se chama carolina, camila, kátia, cassandra ou caceta, você sempre (eu disse sempre) será reduzida a uma sílaba. ca. ou ka, dá no mesmo. pois bem.. acontece que, por uma desgraça do destino, a recepcionista aqui da agência foi embora. a fê. e adivinha só quem entrou no lugar dela? a ca. eu adoro a ca, ela é muito melhor que a fê, só que a desgraçada fudeu com minha vida. eu era feliz e não sabia.


Por Ana Danos Morais

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

ENGLISH, MOTHERFUCKER!






O professor de Inglês, cansado e ainda sofrendo sintomas de embriaguez da noite anterior, se senta em uma das bancas e aguarda o seu único aluno daquela manhã. Fecha os olhos e pede a Deus para que o estudante seja vítima de algum desastre horrível e não apareça, para que ele consiga passar uma hora e meia cochilando no ar-condicionado e sendo pago por isso.

- Não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem, não vem,nãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovemnãovem...

- Hello, Teacher!

- PUTAQUEPARIU!

- Ai, teacher, que é isso?!

- NO PORTUGUESE! SPEAK ENGLISH, MOTHERFUCKER!

- …

- OPEN THE GODDAMNED BOOK AND READ THE FUCKING TEXT, BEFORE I SHOVE THIS MARKER UP YOUR SKINNY WHITE ASSHOLE!


O professor, que levava muito a sério a regra de jamais falar português em sala de aula, só se arrependia mesmo do “putaquepariu”.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Dia do Blog!





E hoje, pra quem não sabe, é o Dia do Blog. Pois é, também acabei de descobrir. Deus abençoe o Twitter. Como não fazia idéia de que existia tal coisa, nem muito menos como se comemora, fui atrás de informações. E como hoje em dia tudo é altamente especializado, existe, claro, um blog dedicado ao Dia do Blog, mas que funciona o ano todo, por mais estranho que isso pareça. De qualquer forma, o blogday dá umas sugestões interessantes para os blogueiros de plantão paritciparem mais ativamente desse dia. Vão em forma de manual: 


BlogDay instruções:

  1. Liste cinco novos Blogs que você ache interessantes.
  2. Notifique por email esses cinco bloggers de que serão recomendados por você no BlogDay 2010.
  3. Publique no BlogDay (no dia 31 de Agosto) esse post.
  4. Junte a tag do BlogDay usando este link:
    http://technorati.com/tag/blogday2010 um link para o site do BlogDay: http://www.blogday.org 




Quem acompanha o Blog da Reclamação, sabe que sempre estamos sugerindo blogs legais por aí. Mas, em respeito ao espírito solidário do Dia do Blog, vamos deixar aqui uma lista com 5 blogs que curtimos:



1- Adorável Psicose

2- Danosse.COM - Humor, Entretenimento e Publieditorial

3- Cleycianne - Deus é Mas

4- Cacimba de Letras

5- ladeira chic



Então é isso! Aproveitem a leitura desses blogs, altamente recomendados e comemore seu blogday da melhor maneira possível: lendo e comentando! Especialmente aqui, no Blog da Reclamação, claro!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Vida de estagiário: o abatedouro clandestino, parte final


Fui o primeiro a descer e fui seguido pelo supervisor da Vigilância. O homem mais velho fez um gesto com a cabeça em direção a viatura mais a frente e caminhamos na direção do veículo. Eram dois policiais apenas e começaram a sair do carro, quando ouvimos um estampido.
PÁ!
Meu coração parou e por alguns segundos meu sangue circulou apenas por uma combinação fortuita de inércia e força da gravidade. Minha vida passou rapidamente diante dos meus olhos, em uma edição que, curiosamente, privilegiava os fatos mais constrangedores. Por algum motivo, lembrei que jamais havia experimentado pipoca doce e aquilo me deprimiu momentaneamente. Consegui focalizar minha visão na viatura na minha frente. Parecia vazia. Teriam os policiais sido abatidos, de uma só vez, pelo disparo que eu havia escutado? Respirando fundo, movi a cabeça para a esquerda. O supervisor estava de joelhos, dois passos atrás de mim. Trazia os braços caídos ao lado do corpo e apresentava uma expressão resignada no rosto, como um mártir que entende que sua hora havia finalmente chegado e percebia perfeitamente o motivo do seu sacrifício. Não parecia estar ferido. Com o canto do olho, consegui ver que a Kombi continuava no mesmo lugar, mas não me virei para confirmar a presença de Biu.
Silêncio. Nem o ar, imóvel, fazia qualquer ruído que anunciasse sua presença naquele lugar esquecido por Deus. Me enchendo de coragem, estava prestes a abrir a boca para me dirigir ao meu companheiro, quando ouvi uma risada infantil vindo mais ou menos da minha direita. Um menininho usando apenas uma camisa do Santa Cruz, que mais parecia um vestido cobrindo seu corpo franzino, olhava para nós e ria maldosamente. Debaixo do seu pé direito, uma caixa de Toddynho estourada.


 Toddynho: Há anos destruindo a vida de pessoas inocentes.


- Há, se fudero! – E saiu correndo por entre os barracos.
Boquiaberto, observei enquanto ele se afastava e só então me dei conta do que tinha acontecido.
- Pirraiafeladaputa! Se eu te pegar, tu tá fudido! – Berrei, impelido pelo excesso de adrenalina no sangue.
- Frederico! Se acalme! Você por acaso sabe quem é pai desse menino? – grunhiu o tutor ao meu lado, aparentemente recuperado de sua experiência de quase morte.
- Hmm. Não, não sei. Quem é? – Perguntei, olhando para os lados, amedrontado.
- E eu lá sei? Mas se mora aqui no Coque, eu que não quero conversa com ele. E você, quer?
Convencido por aquela lógica cristalina, me acalmei e olhei para trás. Biu estava em seu posto, atrás do volante. Ao me ver, ergueu a mão trêmula em um sinal de OK. Nos voltamos para a viatura, onde os policiais haviam miraculosamente reaparecido, erguendo-se lentamente do chão do carro e olhando ao redor desconfiados.
- Esses são os caras que vieram proteger a gente? – Perguntei com desprezo.
- Podia ser pior. Vai que eles pegavam a viatura e iam embora?
- Mas também não vão servir de nada se der merda aqui.
- Claro que vão servir. Servem de alvo. Quem tem farda leva bala primeiro. Na dúvida, jogue o jaleco fora e bote tudo nas mãos de Deus.
Os policiais finalmente deixaram a proteção do veículo e vieram nos saudar.
- Estávamos prontos para dar assistência. Por sorte, não passou de um alarme falso.
- Assistência? De lá do chão da viatura? – Perguntei, indignado.
- Positivo. Estávamos planejando um curso de ação a partir de uma posição mais taticamente favorável. Felizmente, nossa intervenção não foi necessária. – Respondeu o sargento sem se abalar.
- É aqui o abatedouro? – Perguntou meu supervisor, apontando para um casebre miserável na beira do rio, com um pequeno terreno mais a frente. O policial confirmou com a cabeça.
- Mas e aí, qual é a bronca por aqui? Tá faltando a licença da Vigilância? Autorização dos bombeiros? – Perguntei, em dúvida.
- A informação que nos chegou – Respondeu o policial, impassível – era que o estabelecimento estava comercializando carne de cavalo.
- Oi? Carne de quê?
- De cavalo. Às vezes de jumento, mas geralmente de cavalo. Forneciam pra toda a região da Ilha de Joana Bezerra.
- Putamerda!
Já tinha visto coisas estranhas na Vigilância Sanitária antes, mas abatedouro de cavalo, no coração do Recife, era novidade. Depois fiquei sabendo que, de fato, a maioria das carnes comercializadas na região provinha do açougue equino. De forma que quem frequentava a estação de metrô de Joana Bezerra, simplesmente a mais movimentada da cidade e houvesse cometido a imprudência de buscar uma refeição proteica na área, tinha grandes chances de ter consumido um espetinho de cavalo ou um McHorse. 


 Opa, pode escolher? Me vê o mais gordinho, mal passado, beleza?


- Você que de vez em quando faz um lanche lá na estação antes de voltar pra casa, né? – Perguntei ao tutor, já com o estômago meio embrulhado.
- Faço, mas sempre frequento dona Zeza, aquela do sarapatel. Pessoa simples, mas dos mais altos padrões de higiene. – Respondeu o meu companheiro, muito digno.
- Segundo denúncias, dona Zeza é tia do dono do abatedouro e principal distribuidora da carne de cavalo produzida aqui. – Informou o policial, eficiente.
- Putamerda! Véia safada!
- Calma, agora já foi. Dizem que lá no Cazaquistão carne de cavalo é iguaria. É tudo questão de cultura. Melhor a gente ir lá, inspecionar logo e sair daqui. – Falei, apertando o passo para que o veterano não pudesse perceber meu riso frouxo.
Nos aproximamos do abatedouro e vimos movimento no terreno contíguo. Cheguei mais para perto da cerca composta de pedaços de paus podres e vi um pangaré, magro, maltratado e trêmulo. Estava amarrado pela pata traseira em uma tora de madeira e exibiu uma expressão aliviada ao nos ver.


 Ah, meu Deus, ainda bem que vocês chegaram! Cadê o exército?


- Ah, bichinho do cavalo! Acho que esse aí ia ser o próximo. E aí, bora entrar e soltar ele logo? – Perguntei ao sargento, comovido.
- Não podemos. – Respondeu o policial.
- Como assim, não podemos? Não foi pra isso que a gente veio?
- Não, Frederico, ele tem razão. Isso aí é com o Controle de Animais. A gente só veio olhar o abatedouro. – Anuiu meu colega.
- Mas o coitado tá preso e sofrendo maus tratos! E vai virar bife ou espetinho ou o sarapatel de dona Zeza, que algum infeliz vai comer lá no metrô! – Exclamei, indignado.
- Eu sei – Respondeu o supervisor, fazendo uma careta a menção da iguaria equina. – Mas a gente não tem como fazer nada. Se soltar e deixar ele aí, vai acabar sendo pego de novo. Ou então vai pra pista e vai causar um acidente. Você quer tentar levar ele na Kombi?
Olhei para o abatido animal com o coração partido e vi que minha proposta era, de fato, irreal. Cabisbaixo, me afastei da cerca improvisada, sem ousar encarar os olhos tristes do cavalinho.


 Ei, ei! Onde vocês tão indo? Já sei, é brincadeira, né? Ha Ha, vocês voltam, né? Né?! Oi?


E no final das contas, nossa presença no Coque se revelou totalmente inútil. O açougue , cujo dono havia fugido muito antes da nossa chegada, estava trancado com uma grossa e enferrujada corrente. Os despreparados policiais, que sequer possuíam mandato de busca, não poderiam adentrar o local mesmo que estivessem equipados ou dispostos a tanto. Voltamos para a condução em silêncio e fomos escoltados para fora da comunidade, com a sensação de dever não realizado e de um dia de trabalho perdido. No caminho de volta, já nas imediações da sede da Vigilância Sanitária, passamos em frente a uma barraca de espetinhos. Senti um calafrio ao observar as pessoas consumindo vorazmente suas refeições de origem suspeita, alheias ao que estavam ingerindo.
Me despedi dos meus colegas e voltei para casa, com os olhos tristes do pobre cavalinho gravados na minha memória, me acompanhando por todo o trajeto.


domingo, 29 de agosto de 2010

Domingo é dia de enquete!


Podem parar de votar, a enquete chegou ao fim! Eu mandei parar, cacete!

Agora sim. E aqui vão os resultados da última pesquisa, que questionava a participação (ou não) dos leitores na primeira promoção do Blog, que premiava o vencedor com um par de convites para o show da Banda golou o ovo, no Uk Pub:



1- Não participei, porque faltou criatividade na hora de esoclher as imagens e escrever as legendas. (12%)

2- Não participei, porque moro fora do estado. Mas tava doido(a) pra ir! (25%)

3- Não participei, porque tinha certeza que ia rolar alguma mutreta. E Fred tem muita cara de safado. (62%)

4- Não participei, porque um prêmio desses eu não aceitava nem de graça! (0%)

E como pode ser observado, grande parte dos leitores não participou devido ao semblante intrinsecamente safado de Fred, ou seja, eu. Não dá pra discutir com quem votou nesse sentido, já que eu concordo com eles. Tenho cara de safado mesmo, fazer o quê?
Mas hoje é domingo, o último do mês, o que significa que chegou a hora de votar no texto dos convidados do Blog, publicados todas as sextas-feiras! Para refrescar a memória de vocês (adoro esse verbo, "refrescar") segue abaixo a lista com os links para os textos para você ler, reler e votar!






E é isso. Divirtam-se e fiquem tranquilos, que a saga do estagiário no Coque termina amanhã, com vocês descobrindo, finalmente, a terrível verdade sobre os abatedourous clandestinos!

Ah, e não esqueçam de seguir o Blog no Twitter, para ficarem sabendo imediatamente de novos textos, promoções ou ouvir reclamações em geral:  @blogreclamacao

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Sexta-feira dos convidados: O almoço e a não moça



[Não sou de reclamar muito. Por isso entendo que para equilibrar o universo algumas pessoas façam isso demasiadamente.]








Dia desses fui almoçar e, como de costume, cheguei faltando minutinhos para o self-service fechar.
Enquanto lavava as mãos aparece uma senhora, com aproximadamente 70 anos, paradinha ao meu lado, só aguardando eu terminar.
Mesmo havendo outras três pias livres, limpinhas, com água corrente e sabão líquido. … ela fica ao meu lado. E puxa assunto.

- Quase não dá tempo hoje, né, meu filho?

(Antes de continuar é importante dizer que tive uma ótima educação doméstica. Respeitar e tratar bem os idosos tornou-se uma ação natural para mim.)

Respondo com um sorriso e um leve balançar positivo de cabeça.

- Quase mesmo.

Ela, metralhadoramente, continua:

- Eu quase que não chego. Tive que acompanhar minha sobrinha num exame de vesícula. Aí sabe que atrasa sempre, né? Eles dizem pra chegar numa hora, mas nunca adianta. Nunca é na hora. A gente devia nem ir por causa disso. Mas precisa, né?

Nesse momento me arrependi de ter respondido. Deveria ter dado uma de surdo, fazendo gestos que simulassem libras. Certeza que ela iria embora.
Mas dirigindo-me aos pratos, falei:

- É verdade.

Ela, com bandeja e prato em mãos e já nas saladas, continua:

- Outra vez foi o menino dela. Ficou doente e ela não tinha com quem deixar. Deixou lá em casa, né? Porque a vó mora longe. Lá em Abreu e Lima. Aí sobra pra tia. Bem dizer que eu é quem crio o filho dela. Só vive lá em casa. Olha! Beterraba! Você bota um pouquinho aqui, meu filho?

Bom. Eu já estava colocando pra mim mesmo. Fiz o que ela pediu e ainda continuei a conversa.

- Claro. Beterraba faz bem, num é verdade?

Putaquepariu! Por qual diabo de motivo eu quis continuar a conversa? Essa era a hora certa pra eu cair fora. Mas não consegui. E já esperei a continuação dela.

- É. Deixa o sangue forte. Os meninos de hoje em dia não comem mais isso não. Por isso ficam tudo doente. Comida tem que ter fibra. Tem que comer arroz, feijão, cuscuz, ovo. Brigada, meu filho. Olha aí no seu prato … tomate, beterraba, verdurinha. Isso é que é bom. Mas os menino jovem num querem isso não. Só quer comer doce, hambúrguer … tudo que não presta.

Caminhando para os acompanhamentos ela não para.

- Tinha uma época que eu não tava comendo carne. Porque dizem que faz mal, né? Mas agora eu como. Porque se eu não comer dá logo fome. Mas num é toda carne não. Porco me dá uma azia danada. Uma queimação aqui dentro quando arrota. Sabe?

Pensei em dizer "Não, minha senhora. Como caralhos vou saber?", mas não. Respirei e respondi.

- Humrum.

- Repare se eu tenho idade pra tá me preocupando com comida. Tem que comer o que gosta. Você que é jovem, não. Tem que se preocupar com essas coisas.Veja se eu, com 68 anos vou me preocupar com isso. Eu gosto é de feijoada. … Hoje nem tem, né? … Você tá vendo feijoada ali?

- Não, senhora.

- Mas tem na sexta. É bom chegar mais cedo, viu? Aqui fica cheio demais quando tem feijoada e dobradinha. Porque não tem um lugar que preste pra comer aqui por perto … Você gosta? … Eita! Eu nem peguei garfo e faca. Onde você pegou?

Esse foi um momento tenso. Normalmente a minha reação seria ir até o lugar dos talheres e pegar um pra ela. Mas não consegui. Sem pensar muito respondi.

- Logo ali. Cuidado pra senhora não esquecer, viu?

Pronto. Feito. Em seguida, quando ela começou a se virar pra buscar o talher, tive que agir. Coloquei pimenta do reino em todas as carnes, no peixe, no frango, nas almôndegas … em todas as outras comidas que ela poderia colocar no prato e … brincadeira. Não fiz isso. Apenas passei rapidamente por tudo, pesei e achei o melhor lugar pra sentar.

A única cadeira vazia de uma mesa bem distante.


Por @Lucas_Emanuel