sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Texto de convidado: Morar em casa – Os vendedores




Estimulado por um texto de Fred sobre vendedores de rua, eu já falei n’O Blog da Reclamação sobre as agruras de morar em uma casa e as figuras que batem à sua porta. No comentário eu juntei tudo no mesmo saco, mas agora vejo que são duas categorias que merecem atenção individualizada. Vendedores e “Artistas”. Comecemos pela primeira. Em tempo: os vendedores de comida (macaxeira, tapioca, japonês, cuscuz, amendoim, algodão doce, cavaquinho, pirulito, sorvete, etc) estão perdoados, por se incluírem na categoria “Patrimônio Gastronômico”.

Há os vendedores de gás de cozinha, de panos de prato – tem um que bate todo sábado à minha porta, só porque há mais de UM ano eu comprei UM pano de prato dele. Ele fala como se todo dia eu adquirisse um dos pedaços de tecido pintado que ele vende. “Vai querer pano de prato de novo?”.

O carro do gás deveria ser visto como um “case” de propaganda esdrúxula.  A música diz, exatamente: “Quero Gás, Quero Gás, feito pra você. Peça gás, peça gás, pra sentir prazer”. Como assim? Se insinuando para o botijão? Pelo menos você teria um parceiro “com todo o gás”, se é que vocês me entendem. O máximo que eu vi alguém conseguir foi a personagem de Magdale Alves no curta “Eletrodoméstica”, de Kleber Mendonça Filho. E era com uma lavadora de roupa, que afinal tinha um papel ativo na história. Mas sentir prazer comprando gás... Só se seguirmos o exemplo de outra personagem, a do “homem do gás”, da banda Tanga de Sereia. E pra mim teria que ser a mulher do gás. 

Os vendedores clássicos seriam os de livros e enciclopédias. Mas, mutacionada pelos sucessivos portões e portas na cara, a espécie evoluiu. Hoje são ex-drogados (ótimo disfarce! Seriam as drogas as enciclopédias que comercializavam antes?). Vendem livros infantis e de auto-ajuda. Vendem, não, divulgam. E você não compra, contribui para obras de apoio à recuperação dos viciados em drogas e, de brinde, leva o livro. Porém o mais surpreendente, pra não dizer desconcertante e sacana, é a abordagem. Confesso que fui vítima de uma. E caí como um patinho. Na verdade acho que acabei de insultar o patinho. Mas vejam se vocês não cairiam também.

Manhã de quarta-feira. Trabalhando em casa e concentrado na redação de um texto de pesquisa, tive um sobressalto com a campainha. Ainda pensando na próxima linha, cheguei ao portão. Aqui um alerta: morando numa casa, JAMAIS chegue até o portão sem pensar pelo menos cinco vezes. É meio caminho andando pro vendedor. Mas lá estava eu, indefeso devido à minha leseira e pensamento voltado para o trabalho. “Sopa no mel”, deve ter pensado o vendedor. Embora eu jamais tenha entendido que manjar gastronômico resultaria dessa mistura, tenho a certeza de que foi isso que ele pensou. E aí atacou sem piedade, falando da instituição que abrigava jovens envolvidos com drogas em todo o Brasil e que dava esperança a várias famílias, salvando vidas e tudo o mais. Eu só queria resolver coisas. Meu texto, a pesquisa, minha vida profissional. Tinha alguém ali pra resolver o problema dos jovens drogados. Quase que automaticamente abri o portão. Outro lembrete: se for até o portão, nada de levar controle remoto ou chaves. Nunca. Eu levei o controle remoto. Estava preso à bermuda. Depois de falar um pouco mais sobre as ações da sua entidade, o rapaz – isso, era um rapaz, vinte e poucos anos – deu o golpe de misericórdia naquele morador de casa incauto. “O senhor daria um abraço em um ex-drogado?”. E você, leitor, daria? Inebriado por tanta boa vontade e fraternidade, disse que sim. Ele não perdoou. “Eu sou um ex-viciado. O senhor me daria um abraço?”. Desse jeito. E abriu os braços. Né de lascar? Ainda tive atividade cerebral suficiente pra lembrar que a minha carteira não estava no bolso, mas dei o danado do abraço. A vizinha da frente viu e até hoje deve achar que sou viado. Meu cachorro latiu ferozmente, considerando que eu estava sendo atacado, o que chamou a atenção de outro vizinho, que é viado, e deu um sorrisinho cúmplice. Mas o prejuízo maior foi financeiro, mesmo. Finalmente desperto e rendido por ter caído na armadilha, não resisti muito a comprar um livro por cinco reais. E o vendedor ainda achou pouco. Depois que foi embora, rasguei e joguei fora o livro, numa ira pra lá de atrasada. Nunca mais o  indivíduo apareceu na minha porta. E eu doido que voltasse - treinei o cachorro e tudo o mais -  pra ele ver como se trata de verdade um neovendedor de enciclopédia.

Links

Clipe “O homem do gás” -
www.youtube.com/watch?v=zh1ZV2XH1TU 

Curta “Eletrodoméstica” -
http://portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=3293#

Por Alberto Penaforte, autor do blog Rádio Gastronomia

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Só mais um post roubado

Post roubado do ótimo blog de Marina, o Do Fundo do Mar. Extremamente relevante e verdadeiro. Blogueiros também tem coração e precisam de atenção!

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Breve Comentário



Sabem qual é o item que considero mais importante num blog? O post, você diria? Não; são os comentários. O post não é assim tão importante. Não precisa ser longo, não precisa ser escrito com palavras complicadas, não precisa ser escrito com orações longas. Não precisa sequer ser escrito. Não precisa fazer sentido. Um post pode ser uma frase, um pensamento, uma imagem. Uma tirinha. Uma simples palavra pode ser um post.

E os comentários? Os comentários são como posts publicados no blog de outra pessoa. São uma demonstração de que você leu o texto, gostou e tem algo a dizer sobre ele. Ou será que não tem nada a dizer? Como bem disse o Tyler no twitter, uma vez: "quando o post tem poucos comentários, você fica com a sensação de que ele não agradou". É como uma piada sem risadas. Ou um concerto sem aplausos. 

Eu acho engraçado que as pessoas tenham tanto a dizer no twitter — às vezes, uma besteira maior que a outra — e não tenham nada a dizer de textos que leem em blogs. Bons textos de excelentes blogs. Comentários são incentivos. Nem todo mundo precisa de incentivos para continuar um projeto. Mas é sempre bom.


"O autor daquele blog é alguém que, muitas vezes, passou horas escrevendo o melhor texto possível, com o objetivo de fazer você gargalhar na hora do almoço, chorar no meio da madrugada, aprender algo novo ou passar o resto do dia pensando em algo que você nunca tinha percebido antes.

E tudo o que ele quer em troca destas horas que ele usou escrevendo para você é um comentário que levará apenas um minuto para ser escrito.

Você não acha que vale a pena?"

Por Rob Gordon

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Triste História

Resolvi retornar ao curso de História como aluno especial de uma disciplina, para me preparar para um eventual mestrado e também para voltar ao ritmo de estudos. Como era de se esperar, o professor passou uma lista de livros e pediu que os alunos os resenhassem, enfocando certos aspectos das obras. Levei meu trabalho na aula seguinte e, apesar de não ter tido muito tempo para fazê-lo, estava razoavelmente orgulhoso das minhas cinco páginas de análise, onde eu dava a minha opinião sobre o que eu tinha lido. Não estava uma obra-prima, mas imaginei que os outros alunos estariam mais ou menos no mesmo nível.
Nos sentamos todos ao redor de uma mesa e o professor, grave, apontou para um dos estudantes arbitrariamente.

- Fulano. Você. Comece com seu trabalho.

O rapaz em questão pigarreou e organizou suas anotações. Prestei atenção para identificar logo o que eu poderia acrescentar ou cortar da minha resenha. Não deveria ter lá muita diferença entre os trabalhos.

- Bem, professor. Ao ler o texto, cheguei à conclusão que o discurso do autor em questão está carregado de elementos semióticos, calcados em uma visão quase rosseuniana das relações interpessoais, enfatizando práticas memorialistas que se intercalam e se auto completam, formando um todo de complexidade polissêmica, onde os signos e símbolos explorados se comunicam entre si em uma linguagem prosopográfica, cuja subjetividade oculta uma certa medida de Proust ou mesmo de Chartier, cedendo lugar à vivências registradas sob um ponto de vista anímico, enfocando, em suas entrelinhas, a perda da inocência e a incongruência vivenciada pelo autor em seu habitus pessoal, concorrendo para a formação extra historiográfica do mesmo, contudo sem jamais deixar de apresentar um discurso regionalista e, até certo ponto, puramente individualista.

Olhei para o aluno, boquiaberto. Não conhecia metade das palavras que ele havia usado e nem tinha chegado perto de arranhar a superfície do livro. O cara devia ser um gênio ou algo assim. Olhei para o professor, que cofiava sua barba grisalha da forma como apenas uma autoridade de História pode fazê-lo. Certamente, ele iria cobrir o rapaz de elogios, talvez até mesmo sugerir que ele engatasse um doutorado direto.



 Na foto: a face da simpatia.



- Superficial. Bastante superficial. Esperava mais de você. – sentenciou o mestre, seco.

- Desculpe professor. Dediquei apenas doze horas diárias à elaboração deste trabalho. Ando meio sem tempo ultimamente. – respondeu o estudante, humildemente.

- Hmm. Isso não justifica. Seu texto está primário, na melhor das hipóteses. – ao redor da mesa, os outros alunos balançavam as cabeças em concordância, não pude perceber se com sinceridade ou por puro nervosismo.

- Mas professor...este foi apenas o parágrafo introdutório! Tenho certeza de que nas próximas trinta e sete páginas o senhor vai perceber que eu consegui, até certo ponto, captar a ideia passada pelo autor. – olhei para o meu trabalho de cinco páginas e imediatamente minhas pernas começaram a tremer violentamente.

- Talvez. Francamente, eu duvido. Deixe o trabalho aí do lado que eu darei uma lida em casa, mas já vi que, infelizmente, não posso esperar demais.

- Sim, professor. Me desculpe. O próximo sairá melhor, garanto.

- Não garanta o que você não pode cumprir com absoluta certeza. Bem. Vejamos agora se temos algum trabalho digno de nota aqui.

Baixei a cabeça, o suor porejando minha testa. Depois que eu lesse minha análise, teria sorte se o professor considerasse o material digno de papel higiênico. Minha única esperança era que Deus permitisse que eu acabasse ficando por último e aí talvez não desse mais tempo de eu apresentar meu trabalho.

- Deixe-me ver aqui na chamada. Sim. Frederico, sua vez agora.

Soltei um palavrão mental e coloquei Deus de volta à minha lista negra. Um dia eu teria minha vingança, mas naquele momento eu precisava pensar em uma saída. E rápido. O professor me observava por trás dos óculos de lentes grossas. Meus colegas pareciam exibir em suas faces aquelas estranha mistura de pena e excitamento que sentimos ao acompanhar um animal sendo levado ao abate. Não podia mais postergar. Me levantei lentamente, olhei ao redor e fiz a única coisa honrada em tal situação.

- Professor, minha avó morreu!

- Como?!

- Sim! Isso mesmo! Ela morreu! Acabei de ficar sabendo! – sentados à mesa, os outros alunos trocaram olhares nervosos.

- Mas...como você sabe? Você não atendeu o celular em nenhum momento!

- Pois é...pois é professor. Mas é que eu e minha avó, a gente é muito ligado, sabe? Quer dizer, era, já que ela bateu as botas. Mas enfim, eu meio que senti, sabe como é?

- Não, não sei. – retorquiu o professor, franzindo o cenho perigosamente.

- Bom, mas então. Preciso ir. Funeral sem a minha presença não ia ser a mesma coisa. Nessas ocasiões sou eu que faço o discurso. – gaguejei, enquanto arrumava minhas cosias e jogava meu trabalho de qualquer jeito para dentro da mochila.

- Mas Frederico...

- Até a próxima, professor! Pessoal, valeu aí a força, heim? Boa sorte aí pra vocês e a gente se vê na próxima aula.

Saí da sala apressadamente e corri para o elevador, respirando aliviado.

Nunca mais voltei para a aula.

domingo, 19 de setembro de 2010

Domingo é dia de enquete!



Opa, o domingo já chegou? Confiram aí os resultados da última enquete!


Hoje foi o dia da Parada da Diversidade no Recife, maior demonstração de orgulho gay do Norte-Nordeste do Brasil, reunindo milhares de pessoas nas ruas. Sua cidade também tem uma manifestação assim? Se sim, o que você faz nessas ocasiões?

1- Boto minha roupa de Lady Gaga e AR-RA-SO na avenida, baby! Te vejo por lá! (36%)
 
2- Me escondo debaixo da cama até acabar. Prefiro não arriscar, vai que eu me animo. (0%)
 
3- Distribuo panfleto. Ser cabo eleitoral é uma merda, viu? (18%)
 
4- Não faço nada. Eles é que fazem comigo. Que foi, tá olhando o quê? (45%)
 
E os resultados mostram que os leitores do Blog da Reclamação são pessoas inteligentes, modernas, tolerantes e que permitem que totaias estranhos façam coisas inomináveis com elas no meio da Parada Gay. Gosto não se discute.
 
Obrigado a todos os que votaram e se liguem já na próxima enquete!
 

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sexta-feira dos convidados: O fim (?)

Calma, os textos dos convidados não vão deixar de acontecer! Mas a obrigatoriedade das sextas-feiras já era. Os convidados vão aparecer ao longo do mês, sem dia específico, quando vocês menos esperarem! Não fiquem chateados e, se sentirem que o ódeio e o desapontamento estão prestes a tomar o coração de vocês, olhem para a imagem dos cachorrinhos se pegando, contem até 10 e fiquem calmos.








E por hoje, divirtam-se com a queixa em vídeo do sr. Dodson aí embaixo.

O intruso

Sim, esse é um blog dedicado à reclamação, mas como já se falou anteriormente, tem gente por aí fazendo isso com muito mais competência do que a nossa equipe. Que o diga o senhor Antoine Dodson, estadunidense, pessoa séria, que paga seus tributos em dia e se viu horrorizado ao encontrar, em seu apartamento, um indivíduo tentando violentar sua irmã.









E, como no território sem lei da Internet a escrotice humana não conhece limites, aí vai a versão musicada da peculiar queixa do sr. Dodson, com direito à remix.










Como eu sempre digo, se é pra reclamar, tem que fazer a coisa com classe.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Horror

Fui até a cozinha verificar as opções de almoço. Abri a geladeira, fucei as prateleiras, cutuquei o congelador, buli nas gavetas e finalmente encontrei a carne que minha mãe havia deixado temperada para que eu cozinhasse. Ao abrir a tampa do vasilhame plástico, contive uma exclamação de horror ancestral e por pouco não derrubo o conteúdo no chão. Lá estava ele. Vermelho. Brilhante. Ensanguentado. Medonho.

Fígado.

Sim, dentro da vasilha manchada estavam fatias do órgão abjeto, prontos para irem para a panela e depois, presume-se, para o estômago de algum pobre coitado incauto. No caso, eu. Indiferente ao meu asco e à uma possível retribuição divina, minha mãe ainda havia coberto tudo com sal, pimenta e colorífico, talvez visando mascarar o horror adormecido sob aquela absurda camada de temperos. Se você já viu um fígado, então vou poupar-lhe de uma descrição mais aprofundada. Ciente de que este é um blog de família, também não colocarei uma foto dessa coisa, de modo a não ofender os corações mais vacilantes.













 Há, te peguei!


Sim, isso aí em cima é a foto de um fígado. Ou seja, eu menti para você. A vida é assim mesmo, paciência. Não reclame comigo, e sim com Deus, que permite que tais aberrações gastronômicas coexistam conosco no mesmo plano físico. Francamente, não sei onde Ele estava com a cabeça. Ao observar aqueles horrendos pedaços de carne, me perguntei o que havia feito para que minha mãe me punisse daquela forma. Dar fígado para uma criança comer, sabemos todos, é um dos castigos mais antigos exercidos pelas progenitoras impacientes e com certas tendências sádicas. Nada original, mas altamente eficiente. Tanto que deixei de ser menino faz tempo, mas ainda sinto uma fraqueza nas pernas quando ouço falar de fígado. De fato, não gosto nem de pronunciar a palavra. Fígado. Pronto, agora me sinto sujo. Hora de escovar os dentes na tentativa de me livrar do palavrão. Em um nível puramente científico, porém, não deixa de ser interessante tentar descobrir quais razões levam um ser humano sadio e razoavelmente civilizado a se alimentar de um órgão cujas funções incluem a produção de gordura, purificação de toxinas (que acabam se acumulando nele) e transformação de amônia em ureia. Isso mesmo, ureia. Ou seja, a primeira etapa do mijo começa no fígado. Já bateu a fome?

Desconfio de quem come fígado sem ter uma arma apontada para as cabeças de toda a sua família. Se gosta, então, pode ter certeza: é psicopata. Sabe o Hannibal Lecter, o assassino do filme Silêncio dos Inocentes? Foi preso depois de degustar o fígado de um colega com favas e vinho Chianti. Daí se tem uma ideia do tipo de pervertido que consome esse órgão horroroso. 




 Jantar lá em casa? Eu compro o vinho, você traz o fígado.


Mas tenho fé em Deus e na genética, que um dia há de criar animais desprovidos de fígados, privando as mães de cerca de 74% do seu poder de ameaça. E se você ainda tem alguma dúvida sobre os malefícios do consumo desse troço, saiba que o foi gras, também conhecido como patê de fígado de ganso, é obtido ao se alimentar forçadamente o animal até que seu órgão atinja proporções bíblicas. E quando falo “órgão”, não me refiro ao pênis dele e sim ao fígado. Já falei que isso aqui é um blog de família, cacete. Embora passar o dia sendo alimentado e não fazendo mais nada seja o sonho de aproximadamente 93,87% dos leitores desse blog, no caso dos gansos isso leva a uma existência infeliz e sofrida, tudo para alimentar as sanhas de alguns tarados que não sabem mais em quê gastar seu dinheiro.




 Acha que ele está feliz? Acha?!


Tanto asco pode parecer estranho, especialmente partindo de alguém que adora buchada, sarapatel e tripa de bode torrada, além de já ter sido flagrado comendo tanajura em mais de uma ocasião, mas insisto no meu argumento de que é preciso ter alguma espécie de desordem mental e moral para ter coragem de encarar uma coisa tão nojenta. E lá estava eu, prestes a preparar o almoço. Fígado acebolado. 

Mais ou menos como mandar o condenado dar o nó da corda na qual ele vai ser enforcado.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Queixas rápidas

Dignidade






Duas amigas conversam animadamente no sofá da sala em um domingo de manhã, quando o marido de uma delas surge do quarto, trajando pijamas e sonolento. Cruza para a cozinha, murmura um “bom-dia” cheio de remela e se dirige de volta para o quarto com um copo d’água na mão. Uma das mulheres aponta para o homem desgrenhado e comenta:

- Menina! Mas não é que teu marido não tem bunda nenhuma?

Ambas as mulheres caem na risada. O homem interrompe sua marcha para a cama, gira sobre os calcanhares e sentencia, muito digno:

- Minha filha, homem tem que ter é rola, não bunda.

E volta para o quarto, pisando duro. Sentindo que sua honra havia sido satisfatoriamente defendida, adormece imediatamente, ignorando as duas mulheres horrorizadas na sala.



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Punk de butique





Os meninos se divertem contando histórias de transgressão, tendo em vista impressionar os amigos. Um fala da suspensão após soltar uma bomba no banheiro do colégio, outro da surra que levou ao chegar em casa com um brinco na orelha e por aí vai. Chega a vez do que tinha o visual mais alternativo, cabeludo, cheio de piercings, tatuagens, camisa de Che Guevara e calças cuidadosamente rasgadas. 

- Então, velho. Uma vez fui numa festa na casa de uma galera aí. Tava lá, fazendo nada e vi um quadro na parede. Meu irmão, você via que era quadro caro, cosia de capitalista mesmo, sabe? Fiquei indignado com aquilo, daí não tive dúvida. Fui lá e escarrei no quadro. Botei pra fuder.

Os amigos ficaram devidamente impressionados, menos um, que questionou:

- Tá e depois?

- Depois o quê?

- Tu foi lá, cuspiu, destruiu o quadro caro da família do doido lá. E aí?

- Aí...aí, nada, porra.

- E depois, quando encontraram o quadro? Tu fez o quê? Arrancou ele da parede? Mandou todo mundo tomar no cu? Bateu no peito e disse que foi tu mesmo que cuspiu e queria que tudo quanto era capitalista e riquinho se fudesse? Tu fez isso?

Pressionado pelas perguntas e pelos olhares inquisitivos dos colegas, o garoto cedeu, gaguejando a conclusão da história.

- Não, eu...descobriram que fui eu. E aí...aí...

- Fala.

- Aí painho foi lá e pagou outro quadro.

Depois desse dia, perdeu o respeito dos amigos. Cortou o cabelo, livrou-se dos piercings e virou pagodeiro.

domingo, 12 de setembro de 2010

Domingo é dia de enquete!


E olhaí o resultado da enquete do Dia da Independência!


O feriado de Dia da Independência do Brasil se aproxima. Conte de que forma você pretende passar essa importante data cívica:

1- Vou tirar aquela velha calça camuflada do gaurda-roupa e sair atrás do desfile até o fim ou até eu entrar em colapso pelo calor e pela fome! O que vier primeiro!   (6%)
 
2- Um monte de gente armada, uniformizada, fazendo cara feira e se aglomerando nas principais vias de acesso da cidade? Já dei de cara com a Torcida Jovem essa semana, valeu. Beijo e não me liga. (26%)
 
3- Pretendo comprar uma daquelas micro-bandeiras do Brasil e assistir as comemorações pela TV. Prefiro ser patriota de longe, que nem em dia de jogo da seleção.  (0%)
 
4- Sou contra comemorar a Independência do Brasil. Agora, Dia do Índio, sim! Todo mundo pra rua, pelado! (66%)
 
 
 
E assim, fica claro o que todo mundo já sabia: brasileiro gosta mesmo é de zona. E por falar em zona, fique ligado na próxima enquete que já está no ar. E como sempre, obrigado a todos que votaram!

 

 

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Sexta-feira dos convidados: Recusa [ou Refusal]





Antes eu vivia em paz. Ela acabou quando o Sr. Toscano me pediu que escrevesse um texto para o seu Blog da Reclamação. Porque no início ele pediu, humildemente. Com o tempo, como se eu tivesse feito um juramento solene de que atenderia, passou a me exigir o texto com crescente intransigência.

            Serviu-se para tanto de todos os mails ao seu alcance. Não bastasse isso, atulhou-me de recados no Orkut e no Facebook, mensagens no Twitter e no MSN. Era onipresente na internet. Eu só podia pensar que dedicava o dia inteiro a me exigir o que eu não tinha prometido, o que definira singelamente como uma breve reclamação, o relato de uma situação em que eu tivesse me dado mal.

            Entretanto, só comecei a ficar preocupado de verdade quando no lugar dos anúncios pornográficos e pop-ups de promoção passei a ver a imagem de Fred, ou melhor, do Sr. Toscano com o indicador voltado na minha direção e aquele olhar de inquisidor que até seus desconhecidos conhecem, sucedida pelo relampejar das seguintes palavras na tela: “João, cadê meu texto?”

            No dia em que assisti Inception, notei que as pessoas olhavam pra mim na rua como se eu fosse um elemento exógeno, um alienígena disfarçado, o oitavo passageiro. Uma delas, ao esbarrar em meu ombro, chegou a sussurrar de forma agressiva: “João, cadê meu texto?”, depois do que piscou os olhos como quem retorna de um transe, pediu desculpas e prosseguiu.

            Ainda bem que o filme não foi Matrix, ou eu teria passado a ver em todo mundo o abominável rosto do meu próprio Mr. Smith, a saber, o Sr. Toscano – não se deixe enganar pelo ar de simpática franqueza da foto no topo do blog –, me perguntando “Onde está o meu texto, Sr. Parisio?”. Desconfiei que ele, que foi meu colega no ensino médio e ainda se passa por meu amigo, tivesse se tornado uma espécie de Big Brother, entidade supra-humana capaz de infiltrar-se em nossas intimidades e vergar nossas vontades a suas decisões, como um certo personagem da Bíblia.

            Sempre achei que a ranzinzice de Fred, digo, do Sr. Toscano – um rematado reclamão, como ele mesmo agora reconhece, mas não sem reclamar antes –, fosse o disfarce de um complexo de auto-idolatria que o faz ver tudo à sua volta como sendo pérfido, espúrio e inferior. Não é improvável que ele tenha vendido a alma ao Diabo em troca de uns parcos poderes demoníacos.

            Era possível, contudo, que eu estivesse apenas sonhando, o que me levou à óbvia conclusão de que nesse caso o Sr. Toscano estaria tentando implantar nas profundas de meu subconsciente a semente da ideia de que eu devia e precisava escrever um texto para o seu aclamado Blog da Reclamação.

            Vou comprar uma carrapeta – aquilo não é um pião, seu burro [suspeito que essa tenha sido uma inserção do próprio Sr. Toscano] – pra fazer o teste, mas se eu verificar que tudo isso não passa de um sonho do qual ainda não acordei, quero avisar ao Sr. Toscano que com respeito ao famigerado texto agora é que eu não escrevo mesmo, nem que isso me custe cair no limbo do esquecimento, o inferno que assola os pesadelos de todo escrivinhador.



Por João Paulo Parisio, sem acento, escritor e editor da revista literária Pensamento. Quando não está sendo perseguido por mim em seus sonhos, também atualiza seu blog. Bem de vez em quando.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Um dia bom





Estava contrariado. Havia chegado ao Shopping, na Zona Sul, depois de mais uma vez ter sido quase atropelado por um motorista que não considera os ciclistas como membros integrantes da raça humana. Saíra de casa após outra das frequentes brigas que costumo ter com minha mãe. Havia ido ao banco, na tentativa de sacar uma quantia muito necessária naquele momento, apenas para passar mais de uma hora na fila e descobrir que, afinal, havia algo errado com o meu cartão e eu não poderia ter acesso ao meu dinheiro naquele dia. Meu MP3 Player jazia morto no bolso da minha calça surrada, me abandonando ao convívio entre sons e ruídos que invadiam meus ouvidos e tinha, então, todos os meus sentidos agredidos pela balbúrdia civilizada dos centros de compras, a tagarelice das pessoas ao meu redor se acumulando à minha volta, substituindo o oxigênio necessário à vida e me sufocando em um mar de palavras vazias e frases desconexas.

Olhava ao redor em uma fúria muda, um câncer que crescia a partir da boca do estômago e forçava minhas artérias, fazendo com que meu coração batesse louco, espalhando os tentáculos da ira por todo o meu corpo. Crispei as mãos, enfiando as unhas na carne das palmas, sentindo a dor aguda ser abafada pela revolta. Queria gritar. Queria avançar nas pessoas, ensandecido, cuspindo impropérios, agredindo, causando dor. Queria tirar a raiva de dentro de mim e entrega-la às pessoas que falavam e falavam sem parar dentro do Shopping.

- Psiu.

Virei-me, raivoso, disposto a descontar em quer que fosse os sentimentos que me tomavam o raciocínio naquele momento. Na minha frente, segura atrás de um cercado colorido, uma menininha se agarrava à grade que separava a creche das pessoas que passavam pelo corredor, apressadas. 

- Psiu. Moço! Ei, moço!

Me aproximei, carrancudo, da garotinha trepada na cerca, ignorando as outras crianças e sendo por elas ignorada, concentradas que estavam em suas brincadeiras infantis.

- O que é? – Perguntei, grosseiro. Devia ter cerca de seis ou sete anos de díade. Tinha longos cabelos castanhos e enormes olhos amendoados. O narizinho era marcado por manchas de sardas. Ela me olhou compenetrada, quase adulta e respondeu:

- Moço. Se o senhor quiser, quando eu crescer, eu namoro com o senhor.

Ela sorriu um sorriso banguela e me soprou um beijo através da grade de metal. E então, como se já tivesse descartado do pensamento aquele homem rude e mal-educado à sua frente, virou-se e correu a brincar entre as outras crianças, perdendo-se em uma floresta de brinquedos coloridos e risadas agudas.

E subitamente, a raiva que crescia dentro de mim parou seu avanço. Retrocedeu e resumiu-se em nada, como se jamais houvesse existido e nunca pudesse retornar. Retornou, muitas e muitas vezes depois, mas naquele momento, aquela oferta inocente feita pela garotinha desconhecida pareceu anular todos os absurdos, todas as injustiças mesquinhas as quais me sentia submetido todos os dias e naquele mais do que todos os outros. Atordoado por aquele beijo efêmero, soprado à minha bochecha através do cercado da creche, me dirigi à saída, não mais preocupado com os motoristas homicidas ou com os caixas eletrônicos reticentes. A vida, afinal, devia ter lá o seu sentido. Não sabia bem qual, mas devia ter. Em um instante, fugidio, cheguei muito perto de descobrir. 

Sorri. Um sorriso besta, atarantado, ilógico. Sorri para mim mesmo, sorri para quem precisava e sorri até para quem não merecia. Sorri apenas. Aquilo me bastava e bastava ao mundo.

Uma semana depois, voltei ao Shopping e procurei a creche, buscando ouvir a zoada das crianças e suas risadas infantis. Mas não havia mais nada. O cercado colorido havia desaparecido e se retirado do espaço que anteriormente ocupava, levando consigo a alegria das crianças e um pedaço do meu sorriso.

Esse pedaço eu nunca mais recuperei.


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Especial Dia do Sexo: O limite de um homem




Essa história, acredite se puder, é verdadeira. Ou quase.

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O casal cheio de tesão consegue chegar até o quarto com as roupas mais ou menos intactas. O homem sussurra algo no ouvido da companheira, que sorri e se ajoelha. O rapaz fecha os olhos em expectativa enquanto a garota se aproxima, abre a boca e nela coloca uma pastilha. Havia lido, em algum lugar, que aquele procedimento causaria um frêmito de prazer inédito no parceiro e logo procedeu a uma sessão de sexo oral. Enquanto labutava, lançava olhares de esguelha ao rosto do homem, bem acima de sua cabeça, tentando adivinhar-lhe a disposição. 

Ele mantinha os olhos cerrados, mordia os lábios e gemia suave e constantemente. Seu rosto começou a se contrair mais e mais, em uma careta mais ou menos cômica à qual ela já estava acostumada. A garota aumentou o ritmo, igualando-o ao dos murmúrios do seu par, que já começava a apresentar um tom avermelhado no rosto, transpirando abundantemente. Finalmente, ele estremeceu de maneira quase convulsiva e gritou, afastando a cabeça da garota:

- TÁ QUEIMANDO!

- Oi?

- AHHHHHHHH, TÁ QUEIMANDO!! QUE PORRA É ESSA?! – Berrou o rapaz transtornado, dobrando-se sobre o órgão afogueado.

- Opa...será que...será que foi o Halls preto? – Perguntou sua companheira, inocentemente.

- HALLS? TU CHUPOU UM HALLS ANTES? E PRETO?! QUE PORRA DE IDÉIA FOI ESSA? – O homem agora corria enlouquecidamente pelo quarto, a face adquirindo um estranho tom violáceo. Cego pelas lágrimas de agonia, esbarrava em todos os móveis do ambiente.

- Meu amor, calma! Pera que eu vou ajudar! – Dizendo isso, a mulher saltou agilmente por cima da cama e correu até o banheiro, retornando de lá com as mãos em concha e cheias d’água da torneira. Quando o namorado, ensandecido de dor, passou pela sua frente, ela atirou o líquido sobre o membro inflamado.

- AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH! PIOROU! PIOROU! – Urrou o rapaz, ao ter a região genital encharcada em umidade gélida. 

- Olha amor, tá caindo a pele toda! Eca!

Aquela visão foi demais para o rapaz. Sentiu as pernas fraquejarem e tombou no chão frio do quarto, inconsciente. Despertou na manhã seguinte, sobre sua cama e vestindo seu roupão. Súbito, a memória da noite anterior lhe veio à mente e ele tateou cuidadosamente entre as pernas. A sensação de ardor havia desaparecido, mas a área continuava sensível. Nem sinal da namorada. Tentava decidir o que fazer, quando a empregada, que possuía a chave do apartamento, entrou em seu quarto.

- O senhor tá bem?

- Hmm? Oi, tô, Zefinha...tô melhor.

- Graças a Deus. Sua namorada foi embora logo cedo, toda apressada. Mas ela me explicou o que aconteceu, viu?

- Ela...ela explicou, foi?

- Ela falou da cobra que apareceu.

- Oi, cobra?

- Por isso que tava essa bagunça o quarto. O senhor revirou tudo tentando matar a bicha! 

- Ah...foi. Foi. Isso mesmo, Zefinha. Uma cobra. Daquelas bem...daquelas bem grandes, sabe?

- Ah, o senhor não me engana não! Eu achei o couro dela no chão do quarto! Era uma cobrinha pequenininha, desde tamanhinho. Parecia mais uma minhoca, fazia até pena, rapaz.

- ...

- O senhor tá bem?


Naquele mesmo dia, acabou o namoro e demitiu a empregada. 


Afinal de contas, todo homem tem seu limite.


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Uma homenagem do Blog da Reclamação ao Dia do Sexo que, como quase tudo hoje em dia, tem até seu próprio site, patrocinado, compreensivelmente, pela marca de camisinhas Olla.

E você, gostou do texto? Pois então vá comemorar esse dia tão especial, saia da frente do computador e vá transar.