quarta-feira, 6 de outubro de 2010

E o palhaço, quem é?











Que o Brasil é o país das contradições, todos sabemos. Aqui é possível encontrar do melhor e do pior que a raça humana pode oferecer. E vivemos em uma sociedade pontuada por extremos. Extremos de riqueza, extremos de pobreza. Montanhas de sabedoria, crateras de estupidez. Essas diferenças, claro, ficam ainda mais evidentes em época de eleição, quando temos uma enxurrada de candidatos supostamente buscando representar os interesses do povo. Deixando de lado a velha questão da corrupção, o que dizer do preparo dessas pessoas?

Por uma simples questão de lógica, o nível de preparo de um profissional (afinal, falamos aqui de um trabalho, para alguns, uma verdadeira carreira) deveria ser proporcional à complexidade que seu emprego exige. Um garçom não pode gerir um restaurante. Ele pode até ter o talento e o potencial para tanto, mas não foi treinado para tanto. Da mesma forma, um engenheiro nuclear não deveria tentar consertar elevadores, já que, por mais preparado que ele seja, o assunto foge de sua alçada. Dessa forma, seguindo esse raciocínio, qual o trabalho mais importante que existe? Será o médico, que salva vidas todos os dias? O policial, que se encarrega da nossa segurança? Talvez o professor, que se ocupa da nossa educação e do futuro das nossas crianças?

Não, o trabalho mais importante é o do político. Independente da posição que ocupa, suas decisões influenciam e muitas vezes decidem as vidas de milhares de pessoas. Uma má gestão pode arrasar países inteiros, destroçando suas economias e deixando sua sociedade em frangalhos. É um trabalho que exige dedicação, talento e muito, mas muito preparo. Curiosamente, é a carreira que menos exige daqueles que se candidatam. Basicamente, tudo o que é necessário, no Brasil, é ter a nacionalidade, atingir a idade mínima (18 anos até o dia da posse) e ser alfabetizado.

Com essas exigências, você não conseguiria emprego como gari ou como caixa de supermercado. 

Um currículo que permite que um cidadão se eleja para representar sua cidade, estado ou o país inteiro, seria desprezado para qualquer outra função, seja no serviço público ou privado. E ainda que o nível de educação exigida de um candidato a cargo político seja tão baixo, ainda assim tem gente que ainda tenta burlar demandas tão desprezíveis. Vide o caso do palhaço Tiririca, eleito deputado federal pelo estado de São Paulo, com o maior número de votos do maior colégio eleitoral do país. Um absurdo, sem dúvida, mas a culpa não é do iletrado que tenta pegar o trabalho para o qual ele não tem o menos preparo. Afinal, a brecha existe, ele tem mais é que aproveitar. Os culpados são aqueles que votaram, achando que assim estavam fazendo parte da piada, quando na verdade o nariz vermelho postiço sobrou para eles mesmos. E para o resto dos eleitores, quer tenham votado nele ou não, já que é possível que Tiririca, através de alguma manobra absurda da Justiça brasileira, consiga provar que, enfim, sabe ler e escrever. Bom para ele, péssimo para o país.

Mas isso é a democracia, alguém argumenta. Todos podem votar, qualquer um pode se candidatar. Uma lógica cristalina, mas que tropeça no fato ainda mais claro de que, para se colher os frutos de um trabalho bem feito, é necessário preparo. Sou Bacharel em Gastronomia pela UFRPE, professor de Inglês e estou buscando um Mestrado em História. Certamente, tenho melhores qualificações do que um palhaço analfabeto. Ainda assim, tenho certeza de que eu não estaria preparado para assumir um cargo político. Eu não estudei para isso. Eu não sou profissional da área. Eu não seria uma boa escolha.

Mas eu não fui uma das opções na última eleição. Tiririca foi. E ganhou. O que isso diz de nós, brasileiros?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Contra o exagero (ou porque eu odeio, do fundo da minha alma, o Kid Bengala)










Sim, eu odeio o Kid Bengala. Calma, ele nunca fez nada comigo, em nível pessoal, para angariar esse ódio da minha parte. Ainda bem, porque se ele tentasse, digamos, invadir o meu espaço particular, duvido que eu sobrevivesse para contar a história. Não que eu fosse querer divulgar, claro. Mas você deve estar se perguntando o motivo dessa minha birra em relação ao nacionalmente reconhecido ator pornô. Não é por puritanismo. Gosto de um bom filme de sacanagem como qualquer outro. Também não é por motivos religiosos, embora seja difícil acreditar em um Deus que permite que um ser humano com um membro de 33 cm caminhe entre nós, impune. Não, a questão é bem outra e muito menos complexa. Se você que está lendo esse texto nesse momento pertence ao sexo masculino, já deve saber o que é. 

Uma vez que a média do tamanho do pênis nacional oscila entre 15 e 16 cm, como ficamos nós, pobres mortais medianos sabendo que existe uma criatura com uma pica de proporções bíblicas perambulando livremente pelas ruas do nosso país? Tamanho de rôla, para homem, é questão de honra. Você não precisa, como diria um amigo meu, ter um pacto com o jumento, mas ninguém gosta de ficar abaixo do padrão e se sentir humilhado pelos outros machos. Tá bom, seu amigo tem uma bilola de 17 cm. 18, dependendo do ângulo em que a luz bate. Já é bem impressionante, serve de anedota depois da pelada e não te deixa em dúvida acerca da existência de um plano divino. É aceitável.

Mas 33 cm?! 

Uma pessoa com um caralho desse tamanho é mais órgão sexual do que homem. Ele nem sequer precisa ser muito inteligente, já que uma jemba de mais de 30 cm, sabemos todos, dá ao seu dono o ganho de causa em qualquer discussão, tornando os argumentos contrários automaticamente irrelevantes. É possível imaginar como seria uma conversa envolvendo Kid Bengala e intelectuais reconhecidamente capazes na arte da argumentação:

- Eu creio, firmemente, que a atual conjuntura política e social preconiza uma evolução dos modelos econômicos iniciados na industrialização da Europa, levando-se em consideração os estudos mais recentes realizados pelas universidades de Oxford e Harvard, tendo como modelo básico a discussão historiográfica perpetuada pela escola de pensamento de Hobsbawn. O que o senhor acha, seu Bengala?

- Tu tá falando merda.

- Compreendo. Bem, sinto, mas devo discordar do senhor, uma vez que...

Tebei. O som de algo caindo pesadamente sobre a mesa.

- ...eu...bom Deus...isso...seu Bengala, isso aí na mesa é o seu...o seu...

- É a minha maçaroca sim. E tá mole ainda. Tu tava falando o quê?

- Nada, nada! O senhor tem razão, eu não sei onde eu estava com a cabeça. Posso trazer um cafezinho?

Francamente, quem seria maluco de contradizer um indivíduo capaz de te esbofetear, do outro lado da mesa, usando apenas a sua benga? Eu mesmo não. Mas a dúvida maior fica por conta da ala feminina. Sim, tamanho (e diâmetro) é documento, o resto é papo de anão genital. Mas tudo tem limite. Que tipo de prazer uma mulher pode obter de um cacete de tamanho tão absurdo? Não posso crer que seja divertido ter a pleura perfurada por uma piroca de 33 cm, então só posso enquadrar tal prática na categoria de fetiches bizarros femininos irrealizáveis. 



Vovó? Que sorriso é esse?



Ou masculinos, já que, como dizia o poeta, gosto é que nem cu, cada um tem o seu e faz o que bem entender com ele. 

E já que ter pinto grande ainda não é crime no Brasil, resta à população masculina em geral o consolo de que, afinal, são poucas as mulheres que encarariam uma noite com Kid Bengala. Na verdade, é bem possível que, caso ele não fosse ator pornô, acabasse sua vida como atração de circo e afogando o ganso com a Monga ou alguma outra aberração semelhante, dentro de uma jaula.

Vocês eu não sei, mas eu me sentiria muito mais seguro em ter uma grade de ferro me separando de uma trolha tão descomunal.

Fim das enquetes (por enquanto)



Pessoal, a última enquete, acerca das eleições, foi a última do Blog da Reclamação, ao menos por algum tempo. Ando muito sem tempo ultimamente, devido aos estudos e ao trabalho. De maneira que vou procurar me concentrar em atualizar o blog com novos textos sempre que possivel. Fiquem ligados e não desistam do Blog da Reclamação! Um dia as enquetes vão voltar!

Enquanto isso, vejam o resultado da última:


Falta uma semana para as eleições e o Blog da Reclamação quer saber o que você vai fazer com o resto do seu domingo, já que vai ter que acordar cedo pra ir votar mesmo.

1-Quem disse que eu vou acordar cedo? Vou é pra praia e depois vou ser um dos últimos a votar, só pra causar suspense!   (16%)

2- Pretendo passar o resto do dia alternando entre fazer boca de urna e correr da polícia.  (33%)

3- Pretendo passar o resto do dia me divetindo horrores com meus colegas de sessão e discutindo de que formas eu vou aproveitar os dias de folga que eu não poderei utilizar, já que meu patrão me demitiria. Adoro ser mesário.  (8%)

4- Oi, as eleições são domingo?   (41%)

 

A conclusão, portanto, é que a maioria dos leitores estava totalmente despreparada para praticar seu exercício de cidadania. Compreensível, já que a amioria dos políticos está totalmente despreparada para o cargo mesmo. Falando nisso, o Blog da Reclamação gostaria de dar um alô todo especial ao povo do maior e mais importante colégio eleitoral do país, São Paulo, por elegerem o palhaço analfabeto semi-retardado Tiririca. Realmente, é uma cidade onde acontece de tudo!

E um agradecimento a todos os que sempre acompanharam as enquetes do blog. Elas vão voltar, estão apenas dando um tempo!

 

 

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O pior da doença










A não ser em casos comprovadamente insanos, ninguém gosta de ficar doente. Além do fato de te fazer perder compromissos de trabalho, estudo e, se você der azar de verdade, sexuais, a doença ainda pode ter consequências bastante desagradáveis, dependendo de qual seja. A maioria de nós está fadado a pegar ao menos algumas das moléstias menos sérias que estão sempre por aí, atrapalhando nossas vidas, mas que não são graves o suficiente para te fazer começar a escolher a cor do caixão. Pode ser uma gripe ou um resfriado. Talvez uma conjuntivite, de leve. Até enxaqueca conta. Já vi gente que deixou de ir trabalhar por conta de unha encravada depois da pelada do domingo ou cãibras fortíssimas em músculos que eles nem sabia que existiam, depois de uma noite de paixão particularmente intensa.

Mas, de vez em quando, aparece alguém com alguma doença um pouco mais séria do que o normal. O ser humano, mórbido que é, parece adorar a oportunidade de comentar a enfermidade alheia, dando palpites abalizados sobre tratamentos milagrosos e, o que é mais comum, aproveitando para falar daquele primo da tio do cunhado da amiga da amante do frentista do posto perto de casa, que apresentava exatamente os mesmos sintomas que você, só que com consequências desastrosas e quase sempre fatais para o infeliz em questão.

- Fred, meu filho, que cara é essa?

- Ando meio doente, mas já tô melh...

- Tá sentindo o quê?

- Ah, dor no corpo...um pouco de febre, enxaqueca...

- É dengue!

- Hmm. Eu fui no médico e ele disse que não er...

- E médico lá sabe de alguma coisa? Meu filho, isso aí é dengue, na certa. Minha tia tava assim mesmo. Cheia de dor, com febre. Acabada, igualzinha a você.

- Peraí, também não é assim! Eu não tô acab...

- Tá, meu filho, só de olhar, dá pra ver que você tá arrombado.

- Arrombado? Putamerda, que exag...

- E olhe, tem que se cuidar viu? Lembra da prima de segundo grau da minha nora? Pois o caso dela foi ainda mais grave. Teve dengue hemorrágica. Lascou-se. Quase morre e ainda ficou manca, coitada.

- Manca?! O que tem a ver com a dengue?

- Nada. Levou um baque indo pro hospital e nunca mais ficou boa. Mas veja você, se não fosse pela dengue hemorrágica, tinha ficado em casa e tava até hoje boazinha.

- Bom, eu mesmo já tô me sentindo melhor. Brigado pela preocupação, viu?

- ...e ainda teve a amiga da prima de Jurema, lá da Farmácia.

- ...

- Bichinha. Essa daí foi que levou fumo mesmo. Um dia boazinha, só uma dor de cabeça de leve, uma quentura passageira. No outro...

- No outro...?

- Tava morta! Mortinha, assim, estirada no chão. Começou que nem você, não se cuidou, lascou-se.

- Caralho, ela morreu fulminada de dengue hemorrágica?!

- Teve um AVC, coitada. Também, 87 anos no lombo não é brincadeira, né?

- ...

- E também teve o caso do...

E por aí vai. O limite é sua paciência ou a morbidez da sua curiosidade. E é por isso que eu, quando estou doente, faço de tudo para que ninguém descubra e tento cumprir minhas obrigações na maior normalidade possível. Afinal de contas, ruim não é ficar de cama por causa de alguma enfermidade.

Bem pior é ter que escutar das pessoas todas as formas pelas quais você vai, inevitavelmente, morrer.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Eu queria que o mundo fosse um shopping center









Eu queria que o mundo fosse um shopping center. 

Não, esse não é um libelo pró-capitalismo, uma epifania repentina causada por um excesso de BigMacs e Coca-Cola em uma mente delirante.

Eu realmente gostaria muito que o mundo fosse um shopping center.

Se você não entende o porquê disso, das duas uma: ou sua cidade anda ótima ou os shoppings que nela existem são todos uma porcaria. Afinal de contas, convenhamos. Se o mundo fosse um shopping center, teríamos climatização eterna, em todos os lugares. Dá pra imaginar isso, no ápice do calor de uma cidade como, digamos, Recife? Além disso, haveria garagens (cobertas ou não) para a maior parte dos veículos e segurança o tempo todo, com profissionais bem pagos e devidamente treinados. Todas as lojas e banheiros possuiriam acesso a pessoas com dificuldade de locomoção, tudo muito organizado e sinalizado. Todos os orelhões iriam funcionar e seria seguro usá-los mesmo de madrugada. Haveriam creches para os filhos enquanto seus pais trabalham, fazem compras ou se divertem, talvez em algumas das praças de alimentação que se espalhariam de maneira ciclópica pelas ruas limpas e ordenadas. Funcionários engravatados da administração desse shopping monstruoso estariam sempre vigilantes para nossas necessidades, deslizando silenciosamente em seus segways elegantes. E as cabines de informações seriam os locais mais procurados, com funcionários prontos a responder qualquer questão concernente a qualquer coisa, do número exato de MMs vermelhos em um pacote, até dúvidas existenciais acerca da vida após a morte, sexo na terceira idade, a mente feminina e se Deus possui senso de humor. Seriam os templos definitivos, suplantando todas as religiões atuais, sem conflito nem violência.

Um mundo-shopping seria uma utopia.

Mas o melhor de tudo seria a mudança de comportamento das pessoas. Já percebeu o quanto o nosso comportamento muda quando entra em um shopping? Muda, sim. Você talvez não note, por ser uma postura já demasiadamente enraizada em seu ser, mas muda. Pessoas que minutos atrás jogavam lixo porcamente pelas ruas, passam a zelar pelo piso lustroso como se fosse o de suas próprias casas. Não se corre e até se evita caminhar apressadamente. Os motoristas respeitam a faixa de pedestre nos estacionamentos. Um verniz civilizatório parece ser passado em todos á entrada de um shopping, inibindo comportamentos praticados descaradamente todos os dias nas ruas. Mas é só sair novamente que a tinta descasca e as pessoas voltam a exibir sues verdadeiras personalidades. Parecendo até certo ponto aliviadas, sentem-se no direito de voltar a jogar lixo no chão ou urinar nos postes, acompanhando seus animais de estimação na tarefa de emporcalhar as vias públicas. Coisa impensável dentro de um shopping, corriqueiro fora dele.

Sim, eu gostaria que o mundo fosse mesmo um shopping center. Perderíamos em originalidade, cor e beleza. Não haveria mais diferença nenhuma entre lá e cá. E viveríamos para sempre enclausurados em um templo de consumo e de aparências onde, sabemos, quem manda mesmo é o dinheiro.

Mas ao menos nos portaríamos como gente, o tempo todo.

domingo, 26 de setembro de 2010

Domingo é dia de enquete!

Opa, o Domingo chegou! E com ele, o resultado da última enquete, claro. Olhaí:


E a Sexta-Feira dos Convidados foi pro buraco! O que você pensa acerca disso? E o que você gostaria de ver aqui no Blog no lugar dela?

1- Não! A única coisa que salvava esse blog eram os textos de convidados! TRAGA DE VOLTA, JÁ! 0%
 
2- Foi e não deixou saudade. Prefiro os textos de Fred mesmo e, além do mais, ele é mais gostosinho, vai. 9%
 
3- Eu acho que no lugar da Sexta dos Convidados, deveria rolar uma Twitcam com Fred utilizando roupas mínimas e interagindo com anões albinos, enguias elétricas e alicates enferrujados. Isso sim é entretenimento!
54%
 
4- Sexta-feira é dia de encher a cara, não de ficar lendo blog. Deixa sem nada. 36%
 
 
E é isso. Os anões já estão sendo contratados, as enguias devidamente treinadas e os alicates daqui de casa já estão enferrujados. Se isso não aumentar a interatividade aqui nesse blog, eu não sei mais o que poderia fazê-lo!

Como sempre, agradecimentos a todos os que votaram e fiquem ligados na enquete dessa semana!

 

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Texto de convidado: Morar em casa – Os vendedores




Estimulado por um texto de Fred sobre vendedores de rua, eu já falei n’O Blog da Reclamação sobre as agruras de morar em uma casa e as figuras que batem à sua porta. No comentário eu juntei tudo no mesmo saco, mas agora vejo que são duas categorias que merecem atenção individualizada. Vendedores e “Artistas”. Comecemos pela primeira. Em tempo: os vendedores de comida (macaxeira, tapioca, japonês, cuscuz, amendoim, algodão doce, cavaquinho, pirulito, sorvete, etc) estão perdoados, por se incluírem na categoria “Patrimônio Gastronômico”.

Há os vendedores de gás de cozinha, de panos de prato – tem um que bate todo sábado à minha porta, só porque há mais de UM ano eu comprei UM pano de prato dele. Ele fala como se todo dia eu adquirisse um dos pedaços de tecido pintado que ele vende. “Vai querer pano de prato de novo?”.

O carro do gás deveria ser visto como um “case” de propaganda esdrúxula.  A música diz, exatamente: “Quero Gás, Quero Gás, feito pra você. Peça gás, peça gás, pra sentir prazer”. Como assim? Se insinuando para o botijão? Pelo menos você teria um parceiro “com todo o gás”, se é que vocês me entendem. O máximo que eu vi alguém conseguir foi a personagem de Magdale Alves no curta “Eletrodoméstica”, de Kleber Mendonça Filho. E era com uma lavadora de roupa, que afinal tinha um papel ativo na história. Mas sentir prazer comprando gás... Só se seguirmos o exemplo de outra personagem, a do “homem do gás”, da banda Tanga de Sereia. E pra mim teria que ser a mulher do gás. 

Os vendedores clássicos seriam os de livros e enciclopédias. Mas, mutacionada pelos sucessivos portões e portas na cara, a espécie evoluiu. Hoje são ex-drogados (ótimo disfarce! Seriam as drogas as enciclopédias que comercializavam antes?). Vendem livros infantis e de auto-ajuda. Vendem, não, divulgam. E você não compra, contribui para obras de apoio à recuperação dos viciados em drogas e, de brinde, leva o livro. Porém o mais surpreendente, pra não dizer desconcertante e sacana, é a abordagem. Confesso que fui vítima de uma. E caí como um patinho. Na verdade acho que acabei de insultar o patinho. Mas vejam se vocês não cairiam também.

Manhã de quarta-feira. Trabalhando em casa e concentrado na redação de um texto de pesquisa, tive um sobressalto com a campainha. Ainda pensando na próxima linha, cheguei ao portão. Aqui um alerta: morando numa casa, JAMAIS chegue até o portão sem pensar pelo menos cinco vezes. É meio caminho andando pro vendedor. Mas lá estava eu, indefeso devido à minha leseira e pensamento voltado para o trabalho. “Sopa no mel”, deve ter pensado o vendedor. Embora eu jamais tenha entendido que manjar gastronômico resultaria dessa mistura, tenho a certeza de que foi isso que ele pensou. E aí atacou sem piedade, falando da instituição que abrigava jovens envolvidos com drogas em todo o Brasil e que dava esperança a várias famílias, salvando vidas e tudo o mais. Eu só queria resolver coisas. Meu texto, a pesquisa, minha vida profissional. Tinha alguém ali pra resolver o problema dos jovens drogados. Quase que automaticamente abri o portão. Outro lembrete: se for até o portão, nada de levar controle remoto ou chaves. Nunca. Eu levei o controle remoto. Estava preso à bermuda. Depois de falar um pouco mais sobre as ações da sua entidade, o rapaz – isso, era um rapaz, vinte e poucos anos – deu o golpe de misericórdia naquele morador de casa incauto. “O senhor daria um abraço em um ex-drogado?”. E você, leitor, daria? Inebriado por tanta boa vontade e fraternidade, disse que sim. Ele não perdoou. “Eu sou um ex-viciado. O senhor me daria um abraço?”. Desse jeito. E abriu os braços. Né de lascar? Ainda tive atividade cerebral suficiente pra lembrar que a minha carteira não estava no bolso, mas dei o danado do abraço. A vizinha da frente viu e até hoje deve achar que sou viado. Meu cachorro latiu ferozmente, considerando que eu estava sendo atacado, o que chamou a atenção de outro vizinho, que é viado, e deu um sorrisinho cúmplice. Mas o prejuízo maior foi financeiro, mesmo. Finalmente desperto e rendido por ter caído na armadilha, não resisti muito a comprar um livro por cinco reais. E o vendedor ainda achou pouco. Depois que foi embora, rasguei e joguei fora o livro, numa ira pra lá de atrasada. Nunca mais o  indivíduo apareceu na minha porta. E eu doido que voltasse - treinei o cachorro e tudo o mais -  pra ele ver como se trata de verdade um neovendedor de enciclopédia.

Links

Clipe “O homem do gás” -
www.youtube.com/watch?v=zh1ZV2XH1TU 

Curta “Eletrodoméstica” -
http://portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=3293#

Por Alberto Penaforte, autor do blog Rádio Gastronomia

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Só mais um post roubado

Post roubado do ótimo blog de Marina, o Do Fundo do Mar. Extremamente relevante e verdadeiro. Blogueiros também tem coração e precisam de atenção!

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Breve Comentário



Sabem qual é o item que considero mais importante num blog? O post, você diria? Não; são os comentários. O post não é assim tão importante. Não precisa ser longo, não precisa ser escrito com palavras complicadas, não precisa ser escrito com orações longas. Não precisa sequer ser escrito. Não precisa fazer sentido. Um post pode ser uma frase, um pensamento, uma imagem. Uma tirinha. Uma simples palavra pode ser um post.

E os comentários? Os comentários são como posts publicados no blog de outra pessoa. São uma demonstração de que você leu o texto, gostou e tem algo a dizer sobre ele. Ou será que não tem nada a dizer? Como bem disse o Tyler no twitter, uma vez: "quando o post tem poucos comentários, você fica com a sensação de que ele não agradou". É como uma piada sem risadas. Ou um concerto sem aplausos. 

Eu acho engraçado que as pessoas tenham tanto a dizer no twitter — às vezes, uma besteira maior que a outra — e não tenham nada a dizer de textos que leem em blogs. Bons textos de excelentes blogs. Comentários são incentivos. Nem todo mundo precisa de incentivos para continuar um projeto. Mas é sempre bom.


"O autor daquele blog é alguém que, muitas vezes, passou horas escrevendo o melhor texto possível, com o objetivo de fazer você gargalhar na hora do almoço, chorar no meio da madrugada, aprender algo novo ou passar o resto do dia pensando em algo que você nunca tinha percebido antes.

E tudo o que ele quer em troca destas horas que ele usou escrevendo para você é um comentário que levará apenas um minuto para ser escrito.

Você não acha que vale a pena?"

Por Rob Gordon

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Triste História

Resolvi retornar ao curso de História como aluno especial de uma disciplina, para me preparar para um eventual mestrado e também para voltar ao ritmo de estudos. Como era de se esperar, o professor passou uma lista de livros e pediu que os alunos os resenhassem, enfocando certos aspectos das obras. Levei meu trabalho na aula seguinte e, apesar de não ter tido muito tempo para fazê-lo, estava razoavelmente orgulhoso das minhas cinco páginas de análise, onde eu dava a minha opinião sobre o que eu tinha lido. Não estava uma obra-prima, mas imaginei que os outros alunos estariam mais ou menos no mesmo nível.
Nos sentamos todos ao redor de uma mesa e o professor, grave, apontou para um dos estudantes arbitrariamente.

- Fulano. Você. Comece com seu trabalho.

O rapaz em questão pigarreou e organizou suas anotações. Prestei atenção para identificar logo o que eu poderia acrescentar ou cortar da minha resenha. Não deveria ter lá muita diferença entre os trabalhos.

- Bem, professor. Ao ler o texto, cheguei à conclusão que o discurso do autor em questão está carregado de elementos semióticos, calcados em uma visão quase rosseuniana das relações interpessoais, enfatizando práticas memorialistas que se intercalam e se auto completam, formando um todo de complexidade polissêmica, onde os signos e símbolos explorados se comunicam entre si em uma linguagem prosopográfica, cuja subjetividade oculta uma certa medida de Proust ou mesmo de Chartier, cedendo lugar à vivências registradas sob um ponto de vista anímico, enfocando, em suas entrelinhas, a perda da inocência e a incongruência vivenciada pelo autor em seu habitus pessoal, concorrendo para a formação extra historiográfica do mesmo, contudo sem jamais deixar de apresentar um discurso regionalista e, até certo ponto, puramente individualista.

Olhei para o aluno, boquiaberto. Não conhecia metade das palavras que ele havia usado e nem tinha chegado perto de arranhar a superfície do livro. O cara devia ser um gênio ou algo assim. Olhei para o professor, que cofiava sua barba grisalha da forma como apenas uma autoridade de História pode fazê-lo. Certamente, ele iria cobrir o rapaz de elogios, talvez até mesmo sugerir que ele engatasse um doutorado direto.



 Na foto: a face da simpatia.



- Superficial. Bastante superficial. Esperava mais de você. – sentenciou o mestre, seco.

- Desculpe professor. Dediquei apenas doze horas diárias à elaboração deste trabalho. Ando meio sem tempo ultimamente. – respondeu o estudante, humildemente.

- Hmm. Isso não justifica. Seu texto está primário, na melhor das hipóteses. – ao redor da mesa, os outros alunos balançavam as cabeças em concordância, não pude perceber se com sinceridade ou por puro nervosismo.

- Mas professor...este foi apenas o parágrafo introdutório! Tenho certeza de que nas próximas trinta e sete páginas o senhor vai perceber que eu consegui, até certo ponto, captar a ideia passada pelo autor. – olhei para o meu trabalho de cinco páginas e imediatamente minhas pernas começaram a tremer violentamente.

- Talvez. Francamente, eu duvido. Deixe o trabalho aí do lado que eu darei uma lida em casa, mas já vi que, infelizmente, não posso esperar demais.

- Sim, professor. Me desculpe. O próximo sairá melhor, garanto.

- Não garanta o que você não pode cumprir com absoluta certeza. Bem. Vejamos agora se temos algum trabalho digno de nota aqui.

Baixei a cabeça, o suor porejando minha testa. Depois que eu lesse minha análise, teria sorte se o professor considerasse o material digno de papel higiênico. Minha única esperança era que Deus permitisse que eu acabasse ficando por último e aí talvez não desse mais tempo de eu apresentar meu trabalho.

- Deixe-me ver aqui na chamada. Sim. Frederico, sua vez agora.

Soltei um palavrão mental e coloquei Deus de volta à minha lista negra. Um dia eu teria minha vingança, mas naquele momento eu precisava pensar em uma saída. E rápido. O professor me observava por trás dos óculos de lentes grossas. Meus colegas pareciam exibir em suas faces aquelas estranha mistura de pena e excitamento que sentimos ao acompanhar um animal sendo levado ao abate. Não podia mais postergar. Me levantei lentamente, olhei ao redor e fiz a única coisa honrada em tal situação.

- Professor, minha avó morreu!

- Como?!

- Sim! Isso mesmo! Ela morreu! Acabei de ficar sabendo! – sentados à mesa, os outros alunos trocaram olhares nervosos.

- Mas...como você sabe? Você não atendeu o celular em nenhum momento!

- Pois é...pois é professor. Mas é que eu e minha avó, a gente é muito ligado, sabe? Quer dizer, era, já que ela bateu as botas. Mas enfim, eu meio que senti, sabe como é?

- Não, não sei. – retorquiu o professor, franzindo o cenho perigosamente.

- Bom, mas então. Preciso ir. Funeral sem a minha presença não ia ser a mesma coisa. Nessas ocasiões sou eu que faço o discurso. – gaguejei, enquanto arrumava minhas cosias e jogava meu trabalho de qualquer jeito para dentro da mochila.

- Mas Frederico...

- Até a próxima, professor! Pessoal, valeu aí a força, heim? Boa sorte aí pra vocês e a gente se vê na próxima aula.

Saí da sala apressadamente e corri para o elevador, respirando aliviado.

Nunca mais voltei para a aula.

domingo, 19 de setembro de 2010

Domingo é dia de enquete!



Opa, o domingo já chegou? Confiram aí os resultados da última enquete!


Hoje foi o dia da Parada da Diversidade no Recife, maior demonstração de orgulho gay do Norte-Nordeste do Brasil, reunindo milhares de pessoas nas ruas. Sua cidade também tem uma manifestação assim? Se sim, o que você faz nessas ocasiões?

1- Boto minha roupa de Lady Gaga e AR-RA-SO na avenida, baby! Te vejo por lá! (36%)
 
2- Me escondo debaixo da cama até acabar. Prefiro não arriscar, vai que eu me animo. (0%)
 
3- Distribuo panfleto. Ser cabo eleitoral é uma merda, viu? (18%)
 
4- Não faço nada. Eles é que fazem comigo. Que foi, tá olhando o quê? (45%)
 
E os resultados mostram que os leitores do Blog da Reclamação são pessoas inteligentes, modernas, tolerantes e que permitem que totaias estranhos façam coisas inomináveis com elas no meio da Parada Gay. Gosto não se discute.
 
Obrigado a todos os que votaram e se liguem já na próxima enquete!