sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Blecaute I









Cheguei em casa exausto do trabalho. Tirei a roupa, tomei banho, comi uma bobagem qualquer e fui até o computador checar meus e-mails antes de dormir. Respondia uma mensagem distraidamente quando, de repente, o computador sumiu da minha frente. Sabia que ele estava lá, pois ainda sentia as protuberâncias regulares do teclado sob meus dedos, mas não o enxergava. Também não podia ver nada ao meu redor e o quarto foi invadido por um estranho silêncio quando o ventilador parou de funcionar. Compreendendo o que estava se passando, respirei fundo e, tentando acalmar a mim mesmo, falei em voz alta:

- Putamerda! Faltar energia agora? Sério? 

A falta de luminosidade em si não me incomodava tanto, já que estava pronto para dormir mesmo. O problema era o calor. É de conhecimento público que, no Recife, em caso de blecaute noturno, existem apenas duas opções: insônia ininterrupta ou o rápido alívio do suicídio. Sem o auxílio de ao menos um ventilador, vários pernambucanos já haviam tirado as próprias vidas, não mais suportando a privação de sono combinada com a temperatura de ebulição das noites recifenses. Eu sabia que estava prestes a entrar para as estatísticas da polícia e dos programas de TV populares, então tratei de me acalmar. Disse a mim mesmo que aquela era uma situação passageira, logo a energia voltaria e o doce zumbido do ventilador voltaria a embalar meu sono perdido. Nesse momento, ouvi um barulho na garagem do prédio. Era o síndico, diligente, já se prontificando a resolver o problema. Como um cão que observa o galeto girando no forno, iniciei uma vigília na janela da sala, acompanhando de ouvido os movimentos que aconteciam no térreo. Depois do que pareceu uma eternidade, ouvi a voz distante do síndico comentando com um interlocutor invisível:

- Rapaz...sei não...acho que hoje, só amanhã.

Meu coração afundou. Nem tanto pela frase em si, que apresentava graves problemas de lógica, mas por entender que provavelmente passaria a noite sem o ventilador mantendo a temperatura a níveis humanamente suportáveis. Imediatamente, senti como se houvessem ligado um aquecedor no apartamento. Sabia que era um efeito psicológico, mas não conseguia evitar a sensação de abafamento que parecia se espalhar lenta e inexoravelmente por toda a casa.

Experimentei deitar na cama, fechar os olhos e tentar forçar o sono. Inútil. O calor me envolvia, era um embrulho ao redor do meu corpo suado, brilhante como uma vendedora de acarajé do centro da cidade. Me livrei do último vestígio de roupa que me restava, a cueca, em uma vã tentativa de diminuir a temperatura corporal. Uma gigantesca mancha de sudorese começava a se espalhar no lençol ao meu redor, ameaçando engolfar toda a cama. Sabia que não conseguiria dormir naquelas condições, então apelei para os velhos truques dos insones. O problema é que a maioria deles não funciona quando não existe nenhum tipo de luminosidade. Peguei um livro para ler, mas não podia enxergar as palavras. Tudo ao meu redor era um negror total, o calor quase uma entidade onipresente. 

Desesperado, comecei a pensar em possibilidades absurdas. Uma hora, me levantava para assistir televisão enquanto a energia não voltava e apenas ao tentar ligar o aparelho percebia a falta de lógica daquela proposta. No momento seguinte, deixava a cama para checar a Internet rapidamente, para passar o tempo enquanto não havia luz. Horrorizado, comecei a perceber que meu cérebro febril já não estava funcionando normalmente. Lembrei das estatísticas, dos suicidas suados e dos programas populares e meu terror aumentou, logo se transformando em um pânico incontrolável. 

O calor estava evaporando minha sanidade.

Continua...

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A presença




Estava chegando em casa com minha mãe e, ao abrirmos a porta da sala, escutamos barulhos estranhos dentro de casa. Coisas caindo no chão, se espatifando. Como se revirassem o apartamento furiosamente, a procura de algo ou de alguém. Assustado, mandei que minha mãe ficasse perto da porta, pronta para correr a qualquer sinal de perigo. Armado apenas de coragem e, talvez, um pouco de sentimento autodestrutivo, entrei e comecei a vasculhar os cômodos. A sala estava vazia, a cozinha e a área de serviço desertas. Intrigado, passei para os quartos. O que vi me gelou a boca do estômago.

Papéis espalhados, livros e canetas jogados no chão, uma confusão de pequenos objetos atapetando o piso dos quartos, caos. Conclui que algum assaltante devia ter invadido o apartamento, causando um pandemônio doméstico enquanto procurava por nossas economias inexistentes. Chamei minha mãe e, depois de confirmar que nenhuma das trancas de ambas as portas havia sido forçada, procedemos a arrumar a bagunça e tentar descobrir o que havia sido levado.

Não demos pela falta de absolutamente nada. Haviam coisas fora do lugar, mas nada havia desaparecido. Supersticiosa, minha mãe arregalou os olhos, enquanto o sangue fugia do seu rosto, e sussurrou, trêmula:

- Poltergeist.

Olhei para ela incrédulo, pronto para abrir um sorriso de escárnio filial, quando senti uma estranha sensação na minha pele. Como um toque, leve, gentil, acariciando meu braço, passeando pelas minhas costas e suspirando em minha nuca. Minha mãe, experimentando a mesma sensação sobrenatural, estacou repentinamente, emudecida por aquela presença inexplicável. Lentamente, virei-me para a direção daquela carícia gélida, que arrepiava todos os pelos do meu corpo desavergonhadamente. Me deparei com a janela aberta e finalmente identifiquei a fonte daquele mistério.

Vento.

Boquiabertos, eu e minha mãe nos olhamos, sem conseguir acreditar no que estava acontecendo. Nosso apartamento era conhecido por jamais deixar entrar uma mísera brisa e já até tínhamos esquecido qual era a sensação de ter ar em movimento dentro de casa. O vento, agora mais forte, invadia toda a casa, empurrando para fora o ar estagnado que havia se acumulado durante os anos. Maravilhados, observávamos a corrente de ar derrubando quadros, espatifando jarros e batendo portas, como crianças que observassem a neve caindo pela primeira vez em suas vidas e sentissem dificuldade em se adequar aquele estranho fenômeno. 

Chamamos os vizinhos para ver, ligamos para familiares distantes, tiramos fotografias sorrindo ao lado de porta-retratos voadores e de redemoinhos de papéis de carta multicoloridos. Por um dia, sentimos o que era ter o frescor do ar renovado percorrendo nossa casa, como um parente abusado que se mete em todos os cômodos sem a menor cerimônia. Nos acostumamos, nos adaptamos, nos sujeitamos àquela correnteza elemental e o nosso lar, finalmente, parecia estar completo.

O vento desapareceu no dia seguinte. Como se jamais houvesse nos visitado, foi-se e deixou em seu lugar apenas um abafado, um vazio sufocante que nos envolvia como um manto, pesado, oleoso. Desconsolados, minha mãe e eu permanecemos em silêncio, lembrando de quando havia brisa e a casa sorria, aliviada. Respiramos fundo o ar viciado e fomos dormir, buscando sonhar com o vento perdido e sem conseguir cair no sono por causa do calor.

O Verão havia chegado e não permitia contestações ao seu reinado.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Verão

Sim, o Verão chegou ao Recife. Não é difícil de acreditar, basta que se observem duas condições básicas para validar a afirmação: estar vivo e existir dentro dos limites geográficos da capital pernambucana. Me encaixo em ambos os casos e sofro com o calor, que parece ter uma questão pessoal e mal resolvida com os recifenses. Sai ano, entra ano, lá vem a quentura, incandiando os olhos, fervendo as calçadas, matando os idosos, suando as crianças, encorajando o decote, derretendo os sorvetes e roubando meu sono.

Mas já reclamei demais desse Verão recifense, que não cansa de abafar as nossas vidas em uma estufa urbana anual que, se não deixa ninguém se acostumar aos seus extremos, também não desaponta aqueles que o aguardam, ansioso. E tem dessas pessoas. Gente maluca, esquisita, que gosta de calor, de sol, praia, biquíni pequeno, frescobol, cerveja ou qualquer outra coisa gelada, coco verde, caldinho, areia pelando, pegar onda, desviar de tubarão, transpirar como quem respira, óculos escuros para olhar as garotas, saia curta para chamar a atenção dos meninos e tanta coisa mais que não caberia nesse texto.

Melhor nem tentar. E já que o verão chega para todos, é inevitável, inescapável e implacável, melhor deixar a reclamação de lado dessa vez e se juntar ao time dos doidos. O Blog da Reclamação dá oficialmente as boas-vindas à estação mais quente do ano, num lugar quente que só o Recife. E para comemorar, nada melhor do que uma música que expressa, com clareza do sol da praia de Boa Viagem, o sentimento do pernambucano nesse Verão verdadeiramente tropical que temos aqui no nosso pedaço de terra espremido entre o Equador e o trópico de Capricórnio. 

Com vocês, a banda Mombojó:












Como cantado acima, “se o inverno não vem, espere o sol iluminar o seu lar”. O meu já se iluminou. E o de vocês?

O Verão chegou, hora de dançar.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Dia das Crianças III

Tá, eu sei que o Dia das crianças já passou e esse post está meio atrasado. Mas eu precisava compartilhar mais algumas histórias de infância com vocês, por isso, aproveitem a parte final desse especial e lembrem-se: trauma de infância não existe, você que inventou de fazer terapia.



Uma vez, eu estava assistindo TV com meus dois irmãos, na sala, quando eles começaram a brigar por nenhum motivo em particular. Estavam eles rolando pelo chão, enquanto eu via Uni fuder a vida do pessoal de Caverna do Dragão pela centésima vez, quando meu pai apareceu, irado com a gritaria. Bateu no meu irmão mais velho e depois no caçula. 

E depois em mim, só porque eu estava por perto. Depois de fofar os três meninos no pau, inclusive o inocente, saiu da sala muito digno, declarando que havia batido nos três “para não ser injusto com ninguém”.

Valeu, pai.

***

Por algum motivo, talvez por ser o filho do meio, eu acabava ganhando as porcarias usadas dos meus irmãos, mesmo do mais novo. Quando isso não acontecia, meu pai comprava as porcarias usadas de outras crianças e me dava, como se fosse um presentão. Como não ganhar nada é ainda pior do que ganhar trastes de segunda mão eu aceitava, até porque era muito pequeno e não tinha lá muita escolha. 



  Mas esse balão é meu! E os suspensórios também!




Um exemplo disso foi quando ganhei uma bicicleta resgatada de algum lixão de Paulista. Ela era velha, feia e o simples ato de olhar para ela exigia uma antitetânica. 




 Eu estava muito mais seguro no meu velocípede.
 E mais estiloso também



Mas era minha e era com ela que eu desbravava as ruas enlameadas do Janga, geralmente acompanhado dos outros moleques do bairro, ao menos aqueles que não tinham vergonha de ser vistos com um menino que pilotava uma bicicleta que mais parecia um esqueleto de camelo composto quase que inteiramente de ferrugem. Lógico que um veículo nessas condições não suportaria o eterno off-road das vias não-pavimentadas do Janga, de modo que um dia a bicicleta simplesmente partiu ao meio. Enquanto eu estava em cima dela, claro. O que fez com que eu me esborrachasse no chão, caindo mais ou menos de dente no cascalho e me esfolando quase que completamente. Devolvi a magrela para o meu pai que, muito sério, disse que ia dar um jeito de vez nesse problema. No outro dia, acordo cedo e ele avisa que tem uma surpresa me esperando na garagem. Feliz da vida, saio correndo esperando encontrar uma Caloi Cross novinha em folha.

Ao chegar na garagem, percebo que fui cruelmente enganado.

Lá está a velha bicicleta, recém-soldada, zombando das minhas expectativas infantis. Coagido a dar uma volta de teste, embarco meio receoso e saio mais uma vez pelas ruas, testando os limites da bicicleta e de minha própria integridade física. Depois de alguns minutos, começo a pegar confiança e imprimir mais velocidade, achando que, afinal, talvez não fosse uma bike tão ruim assim.

Até que ela se partiu de novo. Em dois pontos diferentes.

Caí na lama feito um boneco de pano, tão retorcido quanto a bicicleta ao meu lado. Ela estava tão desconjuntada que a única coisa que impedia que ela se separasse em três pedaços independentes era a corrente do pedal. Indignado, decidi que havia chegado ao limite da minha paciência infantil, dobrei a bicicleta como se fosse uma peça de roupa, coloquei embaixo do braço e a entreguei de volta ao meu pai. 

Nunca mais ganhei outra depois dessa, meu pai certamente achando que era muita frescura querer uma bicicleta que estivesse tipo assim, inteira, com tanta criancinha passando fome na África.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Dia das Crianças II

Quem não tem história para contar é porque não viveu. E talvez também porque não passou por traumas horríveis que desfiguraram a mente e deixaram marcas na alma, mas tudo é uma questão de opinião. Para o deleite dos leitores mais sádicos, segue abaixo algumas pequenas histórias da minha infância, do tamanho do seu protagonista na época em que aconteceram. Mas fica um aviso: são contos cheios de violência, terror, morte, nudez, sexo e insinuações de sodomia envolvendo animais relutantes, ferramentas de corte e costura e anões albinos. Sempre eles.



Venham todos!


***

Lembro como se fosse ontem. Estava voltando da praia com meus pais e atravessando uma avenida bastante movimentada. Quase do outro lado da via, percebi que havia deixado cair um brinquedo, talvez um indefeso patinho de borracha, logo no início da travessia. Com a confiança que apenas as crianças possuem, me soltei das mãos dos meus pais e saí correndo, entre os carros, atrás do brinquedo. Por sorte, intervenção divina ou simples acaso matemático, consegui chegar incólume ao outro lado da pista, enquanto os carros zuniam velozmente ao meu lado. Meus pais saíram correndo atrás de mim, gritando cosas que na hora não entendi muito bem. Depois de se certificarem de que eu estava bem, foram batendo em mim até chegar em casa.

Só para ter certeza de que eu estava vivo mesmo.

***

Uma vez, na casa dos meus avós, na mística terra do Janga, na cidade de Paulista, inventei de ir brincar com uma bomba. Não das que explodem, claro, meus avós não eram terroristas. Eu acho. Mas uma bomba mecânica, dessas de puxar água de poço e trazer para as torneiras de casa. Ficava numa casinha que possuía uma grade, geralmente trancada no cadeado pelo meu avô. Usando a lógica das crianças, devo ter pensado que devia ter algum cachorro lá (sempre adorei bichos) e no dia em que vovô esqueceu a grade aberta, fui lá ver o que tinha dentro. Um tanto decepcionado de encontrar um troço de ferro, bastante empoeirado, comecei logo a bulir nele. Sem saber que o neto estava acariciando a bomba d’água como se fosse um cão, meu avô ligou o aparelho, justo no momento em que meu polegar direito se encontrava enfiado no mecanismo de bombear (devo ter achado que era a orelha do bicho). A ponta do meu dedinho virou farofa na mesma hora, jogando sangue para todos os lados, numa daquelas cenas de filme de terror que seriam super legais se eu já fosse adolescente e o dedo esmigalhado não fosse meu. Correram a me levar ao pronto-socorro e os médicos de lá fizeram um bom trabalho salvando meu polegar, que ficou com uma cicatriz em forma de bunda até hoje.

Mas nada disso me impediu de aproveitar a festa de Natal, ao lado do meu irmão mais velho e não-deformado, como se pode ver abaixo.




***

Olhando para mim, ninguém diria, mas já fui campeão de caratê. Infantil, tá, mas fui. Naquele tempo, a arte marcial andava muito em voga, de forma que praticamente todo final de semana rolava algum campeonato. Meu pai, empolgadíssimo, nos obrigava a participar de todos. Modéstia a parte, eu e meus irmãos erámos bastante bons, especialmente na categoria de luta. Provavelmente porque passávamos os dias treinando uns com os outros, de forma um tanto mais informal e bem menos pacífica. 




Na época, tínhamos até ajudantes.

Apesar de tudo isso, detestávamos lutar com os faixas-branca. Eles eram, invariavelmente, incompetentes, desastrados, descoordenados e descontrolados. Enquanto nós mirávamos cuidadosamente em algum ponto específico do corpo do adversário e desferíamos o golpe controlando nossa força, os iniciantes simplesmente agitavam seus membros como embuás epiléticos até acertarem alguma coisa, geralmente só parando ao primeiro respingo de sangue. Tive que enfrentar um desses, na primeira luta do campeonato que aconteceu no Geraldão, ginásio localizado na Zona Sul do Recife, quando o lugar ainda abrigava eventos esportivos. Meu adversário era um menino gordinho, meio míope e que, francamente, parecia sofrer de um leve retardo. Mas era bastante agressivo. O árbitro autorizou o início do combate e eu, querendo acabar logo com aquilo e minimizar as chances de sofrer algum ferimento incapacitante, desferi um chute na cabeça do gordinho. Errei. E por não controlar bem a minha força, aterrissei de costas para o adversário, de pernas abertas. O cérebro do maldito rolha de poço, percebendo a oportunidade, gritou: “Chuta!”.

E assim ele o fez.

O débil-mental me aplicou um pontapé de baixo para cima, bem entre as pernas. Lembro que senti uma moleza que se espalhava pelo corpo e minha visão escureceu de repente. Minha vida passou diante dos meus olhos e, como eu era muito novinho, nem demorou tanto tempo assim. Tudo ficou lento ao meu redor, enquanto meu corpo se erguia no ar com a força do golpe e meu saco infantil era esmagado pelo pé do gordo desgraçado. Quando dei por mim, estava deitado de costas no chão, com uma roda de caras adultas e preocupadas nas laterais do meu campo de visão. Fui examinado e perceberam que eu não havia sofrido nenhum dano permanente. O gordo foi desclassificado por aplicar o proverbial golpe baixo e eu venci a luta, embora tenha perdido boa parte da minha fertilidade naquele dia.

Até hoje, quando vejo um gordinho de quimono, minha voz afina e meu saco se contrai para dentro do abdome.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Dia das Crianças I

Sim, é bom ser criança. Quem não lembra com saudade de uma época em que a única preocupação que se tinha era vencer o vizinho no campeonato de bola de gude e a maior dúvida existencial que passava pelas nossas cabeças era o porquê de meninas não terem pitoca? A vida se resumia a brincar com os amigos, evitar o sexo oposto, assistir TV, buscar novas e criativas formas de se machucar e, de vez em quando, estudar. As ruas eram enormes, especialmente as antigas, de barro. E os bairros eram do tamanho de um país, exibindo fronteiras invisíveis e misteriosas que só cruzaríamos anos depois. Toda descoberta era mágica e as decepções da vida ficavam para sempre marcadas em nossos pequenos corações. Estes eventualmente cresceriam, junto com seus donos, mas a cicatriz permaneceria lá, nos acompanhando mesmo quando nos tornamos adultos, eterno lembrete de uma fase da vida que não volta jamais.

E, para alguns, é até bom que não volte. Francamente, vocês eu não sei, mas já me arrombei muito quando criança. A falta de experiência, a total dependência aos pais, os amigos cruéis, os irmãos malas, tudo isso fez parte da minha infância. Sim, sou um adulto traumatizado. O que sou, hoje, devo ao que passei quando criança. Exagero? Nem um pouco. Como lidar, por exemplo, com a empolgação materna quando a escola organizava as temidas e implacáveis apresentações nas datas cívicas? Francamente, existe algo mais cruel do que vestir seu filho de índio, com sunga e pintura de guerra feita de esparadrapo, e fazer a pobre e confusa criança desfilar pela quadra do colégio, enquanto os alunos mais velhos apontam, riem e marcam sua cara para te usar de pano de chão no dia seguinte?






Sério, mãe? Plumas rosas? Foi na intenção, né?




Pois é. Esse aí em cima sou eu. Pela minha expressão, eu devia ter acabado de perceber as terríveis implicações de sair por aí fantasiado de futuro integrante do YMCA. É provável que, atrás da pessoa que bateu a foto, houvesse algum garoto mais velho, descrevendo com gestos entusiasmados de quantas formas eu seria surrado, humilhado e, de maneira geral, escrotizado no dia seguinte e pelo resto do ano letivo, enquanto eu permanecesse naquela escola ou mesmo naquele bairro. Felizmente, minha mente infantil se retraiu e não reteve memórias desses acontecimentos. 

Mas lembro de muitos outros. O que não falta é história e amanhã, Dia das Crianças, vou compartilhar com você, leitor, alguns dos traumas infantis que a terapia não conseguiu resolver. E quem quiser aproveitar para deixar alguma história constrangedora de infância, nos comentários, sinta-se a vontade.

Afinal, recordar é viver. E, algumas vezes, também é se jogar no chão e chorar em posição fetal.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

E o palhaço, quem é?











Que o Brasil é o país das contradições, todos sabemos. Aqui é possível encontrar do melhor e do pior que a raça humana pode oferecer. E vivemos em uma sociedade pontuada por extremos. Extremos de riqueza, extremos de pobreza. Montanhas de sabedoria, crateras de estupidez. Essas diferenças, claro, ficam ainda mais evidentes em época de eleição, quando temos uma enxurrada de candidatos supostamente buscando representar os interesses do povo. Deixando de lado a velha questão da corrupção, o que dizer do preparo dessas pessoas?

Por uma simples questão de lógica, o nível de preparo de um profissional (afinal, falamos aqui de um trabalho, para alguns, uma verdadeira carreira) deveria ser proporcional à complexidade que seu emprego exige. Um garçom não pode gerir um restaurante. Ele pode até ter o talento e o potencial para tanto, mas não foi treinado para tanto. Da mesma forma, um engenheiro nuclear não deveria tentar consertar elevadores, já que, por mais preparado que ele seja, o assunto foge de sua alçada. Dessa forma, seguindo esse raciocínio, qual o trabalho mais importante que existe? Será o médico, que salva vidas todos os dias? O policial, que se encarrega da nossa segurança? Talvez o professor, que se ocupa da nossa educação e do futuro das nossas crianças?

Não, o trabalho mais importante é o do político. Independente da posição que ocupa, suas decisões influenciam e muitas vezes decidem as vidas de milhares de pessoas. Uma má gestão pode arrasar países inteiros, destroçando suas economias e deixando sua sociedade em frangalhos. É um trabalho que exige dedicação, talento e muito, mas muito preparo. Curiosamente, é a carreira que menos exige daqueles que se candidatam. Basicamente, tudo o que é necessário, no Brasil, é ter a nacionalidade, atingir a idade mínima (18 anos até o dia da posse) e ser alfabetizado.

Com essas exigências, você não conseguiria emprego como gari ou como caixa de supermercado. 

Um currículo que permite que um cidadão se eleja para representar sua cidade, estado ou o país inteiro, seria desprezado para qualquer outra função, seja no serviço público ou privado. E ainda que o nível de educação exigida de um candidato a cargo político seja tão baixo, ainda assim tem gente que ainda tenta burlar demandas tão desprezíveis. Vide o caso do palhaço Tiririca, eleito deputado federal pelo estado de São Paulo, com o maior número de votos do maior colégio eleitoral do país. Um absurdo, sem dúvida, mas a culpa não é do iletrado que tenta pegar o trabalho para o qual ele não tem o menos preparo. Afinal, a brecha existe, ele tem mais é que aproveitar. Os culpados são aqueles que votaram, achando que assim estavam fazendo parte da piada, quando na verdade o nariz vermelho postiço sobrou para eles mesmos. E para o resto dos eleitores, quer tenham votado nele ou não, já que é possível que Tiririca, através de alguma manobra absurda da Justiça brasileira, consiga provar que, enfim, sabe ler e escrever. Bom para ele, péssimo para o país.

Mas isso é a democracia, alguém argumenta. Todos podem votar, qualquer um pode se candidatar. Uma lógica cristalina, mas que tropeça no fato ainda mais claro de que, para se colher os frutos de um trabalho bem feito, é necessário preparo. Sou Bacharel em Gastronomia pela UFRPE, professor de Inglês e estou buscando um Mestrado em História. Certamente, tenho melhores qualificações do que um palhaço analfabeto. Ainda assim, tenho certeza de que eu não estaria preparado para assumir um cargo político. Eu não estudei para isso. Eu não sou profissional da área. Eu não seria uma boa escolha.

Mas eu não fui uma das opções na última eleição. Tiririca foi. E ganhou. O que isso diz de nós, brasileiros?

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Contra o exagero (ou porque eu odeio, do fundo da minha alma, o Kid Bengala)










Sim, eu odeio o Kid Bengala. Calma, ele nunca fez nada comigo, em nível pessoal, para angariar esse ódio da minha parte. Ainda bem, porque se ele tentasse, digamos, invadir o meu espaço particular, duvido que eu sobrevivesse para contar a história. Não que eu fosse querer divulgar, claro. Mas você deve estar se perguntando o motivo dessa minha birra em relação ao nacionalmente reconhecido ator pornô. Não é por puritanismo. Gosto de um bom filme de sacanagem como qualquer outro. Também não é por motivos religiosos, embora seja difícil acreditar em um Deus que permite que um ser humano com um membro de 33 cm caminhe entre nós, impune. Não, a questão é bem outra e muito menos complexa. Se você que está lendo esse texto nesse momento pertence ao sexo masculino, já deve saber o que é. 

Uma vez que a média do tamanho do pênis nacional oscila entre 15 e 16 cm, como ficamos nós, pobres mortais medianos sabendo que existe uma criatura com uma pica de proporções bíblicas perambulando livremente pelas ruas do nosso país? Tamanho de rôla, para homem, é questão de honra. Você não precisa, como diria um amigo meu, ter um pacto com o jumento, mas ninguém gosta de ficar abaixo do padrão e se sentir humilhado pelos outros machos. Tá bom, seu amigo tem uma bilola de 17 cm. 18, dependendo do ângulo em que a luz bate. Já é bem impressionante, serve de anedota depois da pelada e não te deixa em dúvida acerca da existência de um plano divino. É aceitável.

Mas 33 cm?! 

Uma pessoa com um caralho desse tamanho é mais órgão sexual do que homem. Ele nem sequer precisa ser muito inteligente, já que uma jemba de mais de 30 cm, sabemos todos, dá ao seu dono o ganho de causa em qualquer discussão, tornando os argumentos contrários automaticamente irrelevantes. É possível imaginar como seria uma conversa envolvendo Kid Bengala e intelectuais reconhecidamente capazes na arte da argumentação:

- Eu creio, firmemente, que a atual conjuntura política e social preconiza uma evolução dos modelos econômicos iniciados na industrialização da Europa, levando-se em consideração os estudos mais recentes realizados pelas universidades de Oxford e Harvard, tendo como modelo básico a discussão historiográfica perpetuada pela escola de pensamento de Hobsbawn. O que o senhor acha, seu Bengala?

- Tu tá falando merda.

- Compreendo. Bem, sinto, mas devo discordar do senhor, uma vez que...

Tebei. O som de algo caindo pesadamente sobre a mesa.

- ...eu...bom Deus...isso...seu Bengala, isso aí na mesa é o seu...o seu...

- É a minha maçaroca sim. E tá mole ainda. Tu tava falando o quê?

- Nada, nada! O senhor tem razão, eu não sei onde eu estava com a cabeça. Posso trazer um cafezinho?

Francamente, quem seria maluco de contradizer um indivíduo capaz de te esbofetear, do outro lado da mesa, usando apenas a sua benga? Eu mesmo não. Mas a dúvida maior fica por conta da ala feminina. Sim, tamanho (e diâmetro) é documento, o resto é papo de anão genital. Mas tudo tem limite. Que tipo de prazer uma mulher pode obter de um cacete de tamanho tão absurdo? Não posso crer que seja divertido ter a pleura perfurada por uma piroca de 33 cm, então só posso enquadrar tal prática na categoria de fetiches bizarros femininos irrealizáveis. 



Vovó? Que sorriso é esse?



Ou masculinos, já que, como dizia o poeta, gosto é que nem cu, cada um tem o seu e faz o que bem entender com ele. 

E já que ter pinto grande ainda não é crime no Brasil, resta à população masculina em geral o consolo de que, afinal, são poucas as mulheres que encarariam uma noite com Kid Bengala. Na verdade, é bem possível que, caso ele não fosse ator pornô, acabasse sua vida como atração de circo e afogando o ganso com a Monga ou alguma outra aberração semelhante, dentro de uma jaula.

Vocês eu não sei, mas eu me sentiria muito mais seguro em ter uma grade de ferro me separando de uma trolha tão descomunal.

Fim das enquetes (por enquanto)



Pessoal, a última enquete, acerca das eleições, foi a última do Blog da Reclamação, ao menos por algum tempo. Ando muito sem tempo ultimamente, devido aos estudos e ao trabalho. De maneira que vou procurar me concentrar em atualizar o blog com novos textos sempre que possivel. Fiquem ligados e não desistam do Blog da Reclamação! Um dia as enquetes vão voltar!

Enquanto isso, vejam o resultado da última:


Falta uma semana para as eleições e o Blog da Reclamação quer saber o que você vai fazer com o resto do seu domingo, já que vai ter que acordar cedo pra ir votar mesmo.

1-Quem disse que eu vou acordar cedo? Vou é pra praia e depois vou ser um dos últimos a votar, só pra causar suspense!   (16%)

2- Pretendo passar o resto do dia alternando entre fazer boca de urna e correr da polícia.  (33%)

3- Pretendo passar o resto do dia me divetindo horrores com meus colegas de sessão e discutindo de que formas eu vou aproveitar os dias de folga que eu não poderei utilizar, já que meu patrão me demitiria. Adoro ser mesário.  (8%)

4- Oi, as eleições são domingo?   (41%)

 

A conclusão, portanto, é que a maioria dos leitores estava totalmente despreparada para praticar seu exercício de cidadania. Compreensível, já que a amioria dos políticos está totalmente despreparada para o cargo mesmo. Falando nisso, o Blog da Reclamação gostaria de dar um alô todo especial ao povo do maior e mais importante colégio eleitoral do país, São Paulo, por elegerem o palhaço analfabeto semi-retardado Tiririca. Realmente, é uma cidade onde acontece de tudo!

E um agradecimento a todos os que sempre acompanharam as enquetes do blog. Elas vão voltar, estão apenas dando um tempo!

 

 

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O pior da doença










A não ser em casos comprovadamente insanos, ninguém gosta de ficar doente. Além do fato de te fazer perder compromissos de trabalho, estudo e, se você der azar de verdade, sexuais, a doença ainda pode ter consequências bastante desagradáveis, dependendo de qual seja. A maioria de nós está fadado a pegar ao menos algumas das moléstias menos sérias que estão sempre por aí, atrapalhando nossas vidas, mas que não são graves o suficiente para te fazer começar a escolher a cor do caixão. Pode ser uma gripe ou um resfriado. Talvez uma conjuntivite, de leve. Até enxaqueca conta. Já vi gente que deixou de ir trabalhar por conta de unha encravada depois da pelada do domingo ou cãibras fortíssimas em músculos que eles nem sabia que existiam, depois de uma noite de paixão particularmente intensa.

Mas, de vez em quando, aparece alguém com alguma doença um pouco mais séria do que o normal. O ser humano, mórbido que é, parece adorar a oportunidade de comentar a enfermidade alheia, dando palpites abalizados sobre tratamentos milagrosos e, o que é mais comum, aproveitando para falar daquele primo da tio do cunhado da amiga da amante do frentista do posto perto de casa, que apresentava exatamente os mesmos sintomas que você, só que com consequências desastrosas e quase sempre fatais para o infeliz em questão.

- Fred, meu filho, que cara é essa?

- Ando meio doente, mas já tô melh...

- Tá sentindo o quê?

- Ah, dor no corpo...um pouco de febre, enxaqueca...

- É dengue!

- Hmm. Eu fui no médico e ele disse que não er...

- E médico lá sabe de alguma coisa? Meu filho, isso aí é dengue, na certa. Minha tia tava assim mesmo. Cheia de dor, com febre. Acabada, igualzinha a você.

- Peraí, também não é assim! Eu não tô acab...

- Tá, meu filho, só de olhar, dá pra ver que você tá arrombado.

- Arrombado? Putamerda, que exag...

- E olhe, tem que se cuidar viu? Lembra da prima de segundo grau da minha nora? Pois o caso dela foi ainda mais grave. Teve dengue hemorrágica. Lascou-se. Quase morre e ainda ficou manca, coitada.

- Manca?! O que tem a ver com a dengue?

- Nada. Levou um baque indo pro hospital e nunca mais ficou boa. Mas veja você, se não fosse pela dengue hemorrágica, tinha ficado em casa e tava até hoje boazinha.

- Bom, eu mesmo já tô me sentindo melhor. Brigado pela preocupação, viu?

- ...e ainda teve a amiga da prima de Jurema, lá da Farmácia.

- ...

- Bichinha. Essa daí foi que levou fumo mesmo. Um dia boazinha, só uma dor de cabeça de leve, uma quentura passageira. No outro...

- No outro...?

- Tava morta! Mortinha, assim, estirada no chão. Começou que nem você, não se cuidou, lascou-se.

- Caralho, ela morreu fulminada de dengue hemorrágica?!

- Teve um AVC, coitada. Também, 87 anos no lombo não é brincadeira, né?

- ...

- E também teve o caso do...

E por aí vai. O limite é sua paciência ou a morbidez da sua curiosidade. E é por isso que eu, quando estou doente, faço de tudo para que ninguém descubra e tento cumprir minhas obrigações na maior normalidade possível. Afinal de contas, ruim não é ficar de cama por causa de alguma enfermidade.

Bem pior é ter que escutar das pessoas todas as formas pelas quais você vai, inevitavelmente, morrer.