domingo, 31 de outubro de 2010

Moda nerd






Sim, eu sou nerd. Pronto, falei. Agora podemos passar para outros assuntos. Dá pra parar de olhar pra mim desse jeito? Eu mandei parar. Certo. Então, nerds. Criaturas estranhas, pouco sociáveis mas que, curiosamente, costumam ser encontradas em bandos. Especialmente durante feiras de ciências, convenções de quadrinhos, encontros de fã de animes, campeonatos de Starcraft e, pra quem tem mais de vinte e cinco anos de idade, iRContros. Sério, já houveram coisas assim. Me contaram, nunca fui a nenhum deles. Não, sério. Até eu tenho limites.

Já andava pensando em escrever um pouco sobre cultura nerd aqui no Blog da Reclamação, já que posso falar com conhecimento de causa. História é que não falta, tanto no mundo real quanto no virtual, onde os nerds costumam passar boa parte de suas vidas, jogando RPGs massivos, baixando séries de TV, buscando satisfação rápida e fácil através de quantidades absurdas de pornografia e, de vez em quando, lendo blogs de qualidade duvidosa. Sim, a vida do nerd é pura emoção e adrenalina.

Mas eis que surge o blog da minha amiga Eva, o Ladeira Chic, com um post sobre moda nerd e revelando uma faceta até então pouco discutida dessas estranhas criaturas. Quem diria que os caras que eram praticamente levados à infertilidade durante o ensino médio devido a sessões diárias de cuecão iam acabar criando um estilo próprio de se vestir? Ser nerd anda tão na moda hoje em dia que tem lutador de Jiu-Jitsu andando com camisa de Super-Homem e fazendo cirurgia de reconstrução auricular pra ver se pega mais mulher.

Então, caso queriam ter uma ideia do que é, afinal, essa tal moda nerd, façam uma visita ao Ladeira Chic e fiquem por dentro do mundo Fashion-Geek. Pra atiçar a curiosidade, fiquem com essa imagem, extraída diretamente do blog.









Bizarro, sem dúvida, mas tudo ficará claro no post. Se gostaram e querem mais, vão lá e deem uma olhada, bando de nerds!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Vovó e o futebol





Passar o fim de semana com minha avó nem sempre se resume à habitual maratona de novelas do sábado. Às vezes, tento assistir ao futebol com ela do lado, que não tem lá uma grande compreensão acerca do esporte mais popular do mundo. Por causa disso, diálogos como o reproduzido abaixo são bastante comuns nas tardes arrastadas de Olinda.


- Meu filho, você precisa comer direito. Vai acabar ficando doente, já tá aí o couro e o osso só...

- Vovó, veja bem, a senhora me fez comer três tapiocas, um prato de cuscuz com charque, outro de macaxeira com linguiça, um de inhame com carne moída, duas bananas cozidas, cinco fatias paridas, quatro pedaços de queijo coalho, uma cartola, uma fatia de bolo de macaxeira, outra de bolo de rolo e dois pedaços de pão Recife, fora a canja, a sopa de verdura, a vitamina de abacate, o suco de graviola e o leite com chocolate. E o resto da galinha de cabidela do almoço de hoje. E a sobra da janta de ontem.

- Só isso?

- Vovó, seja sincera, a senhora tá tentando me matar de uma forma altamente criativa?

- Meu filho, o seu problema é que você não come nada forte.

- Mais forte do que isso, só se eu enrabar o Stallone.

- É o quê, meu filho?

- Nada, vó. Olha, vai passar o jogo do Sport, bora assistir?

- Bora sim, meu filho. O Sport é esse da camisa vermelha e branca, né? Eu acho tão bonita essa roupa...

- Não, vó. Esse aí é o Náutico. O Sport é vermelho e preto, tá vendo?

- Sim, sim. É que é parecido, preto e branco a gente confunde às vezes, é normal. Eu só não gosto desse bicho que eles escolheram de mascote, uma cobra enorme, horrorosa, ave Maria, vou até me benzer aqui e...

- Não, vó, esse aí é o Santa Cruz. O símbolo do Sport é o leão, o mesmo do estado de Pernambuco. O mascote é aquele infeliz ali fantasiado de Leo, correndo pra cima e pra baixo e se jogando na grama toda vez que tem um lance perigoso.

- Vixe Maria, meu filho, imagine o calor que esse coitado tá sentido!

- Azar dele, vó. Quem mandou não estudar? Tem mais é que se arrombar mesmo.

- Meu filho!

- Opa, na trave!

- Isso vale quantos pontos?

- Oi?

- Quando bate na trave, vale quantos pontos?

- Quando bat...não, vó. Trave é trave. Não vale nada.

- Ah, que pena, né meu filho?

- Hmm...é. Devia valer meio ponto. Mas aí o outro time ia estar na frente, a defesa do Sport tá uma droga.

- Mas também, eles botam uns meninos muito novos pra jogar, né? Olha esse aí que pegou a bola com a mão, sabia nem que podia...

- Vó, esse aí é o gandula. O trabalho dele é devolver a bola pros jogadores quando ela sai.

- Mas ele deu outra bola! Que absurdo!

- Vó, ele entrega a bola que tiver mais perto. Não faz diferença, bola é tudo igual.

- Faz diferença sim! Eu lembro da Jabulani, era totalmente diferente!

- Mas vó, a Jab...hmm...tá, ok. A senhora tá certa, é diferente mesmo.

- Eu entendo das coisas meu filho.

- É verdade.  Opa, pênalti! Pênalti a favor do Sport!

- Isso é bom, meu filho?

- É sim, vó. O Sport pode dar um chute direto, só com o goleiro do outro time tentando defender. Quase sempre sai gol.

- Oxe...e isso tá certo? 

- Depende. Quando é a favor do nosso time, tá certíssimo.

- Entendi.

- ...quepariu! Não acredito!

- Que foi, meu filho?

- O viado do jogador do Sport perdeu o pênalti!

- Mas bateu na trave, é mais meio ponto!

- ...é, vó, tinha esquecido desse detalhe. Mesmo assim, o time adversário tá ganhando com uma vantagem de uns...sete pontos e meio, no mínimo.

- Aquele rapaz ali de amarelo, é de qual time?

- Vó, aquele ali é o juiz.

- Sim, o moço do apito! Tinha esquecido dele.

- Esse mesmo. Tem a mãe mais famosa do brasil.

- A mãe dele é artista?

- Não, vó, é que...ahn...deixa pra lá. Opa, tão se aproximando da área do Sport, ai meu Deus...

- GOOOOOOL!

- Caralho, vó! Foi gol do time adversário!

- Eita e foi?

- Pronto, agora é que não ganha mesmo. Quer saber? Cansei desse jogo, vó. Vou dormir.

- Mas já? Tava tão divertido!

- ...

- Quer vitamina de abacate?



E assim terminava mais uma peleja do Sport, dessa vez com os comentários sempre oportunos da minha avó. Queria poder dizer que, no final, meu time do coração acabou virando o jogo e venceu o adversário, mas não foi o que aconteceu. Perdemos, e nem o novo sistema de pontuação criado pela minha avó poderia ter salvado o time.

E foi ela que, sem entender metade do que se passava, mais se divertiu durante toda a partida.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Blecaute II




Meus ouvidos começavam a captar sons que não poderiam existir. Aquele borbulhar era a água do filtro fervendo na cozinha ou meus neurônios estalando devido ao calor? Será que minha massa encefálica entrava em ebulição dentro da minha caixa craniana ou aquele líquido escorrendo pelos meus ouvidos era simplesmente o suor acumulado nos meus cabelos empapados? Sentia que pisava em brasas e que o ar, imóvel, ficava cada vez mais denso, gelificando-se ao meu redor e impossibilitando a minha respiração. Meus olhos injetados de sangue não conseguiam fixar em um ponto só enquanto eu buscava uma saída para aquele pesadelo. Até que vi a janela.

Me aproximei devagar da grande abertura retangular na parede da sala. Sentia minha pele pegajosa e lustrosa de transpiração. Usei o sofá manchado como escada e me cheguei à janela. Olhei para baixo. Ao menos, enquanto caísse, sentiria o ar se movendo e o vento zunindo em meus ouvidos por uma última vez. Não ia durar muito tempo, já que eu morava no terceiro andar, mas seria o suficiente para algum sentimento de libertação derradeira daquele calor horrendo durante os poucos microssegundos que durasse a queda. Não cheguei a pensar na família e amigos que deixaria para trás. Qual o sentido de uma existência sem brisa, mesmo que seja uma artificial, gerada por um ventilador? Se até essa condição básica para a sobrevivência humana no Verão do Recife me havia sido negado, não me custava terminar aquela farsa de vida da forma mais apoteótica possível.

Abri os braços, tentando abraçar a maresia inexistente e fechei os olhos, em preparação à minha passagem para um mundo melhor e, esperava, cheio de correntes de ar. Voltei meu rosto para baixo mais uma vez, sentindo as gotas de suor escorrerem pela minha face. Respirei fundo e me movi para frente.












Apenas para ser arremessado para trás por uma explosão de luz que atravessava as minhas pálpebras apertadas. Me segurei às laterais da janela, me equilibrando precariamente no peitoril. Abri os olhos lentamente, tentando apreender o panorama, agora iluminado, que se descortinava à minha frente. A energia havia voltado e, com ela, todas as lâmpadas do prédio e da maioria dos apartamentos. Inclusive o dos vizinhos da frente, que viam um homem de braços abertos, lambuzado pelo que parecia ser uma mistura de azeite e óleo de dendê, completamente nu. A bilola estaria ao vento, caso houvesse algum. Horrorizada, a família olhava para mim, incluindo a bisavó cadeirante e as sobrinhas gêmeas de seis anos de idade. Todos precisariam se submeter, pelo resto das suas vidas, à terapia intensiva para tentarem extrair dos seus cérebros a terrível imagem que eu havia imprimido neles. Provavelmente seria inútil, mas eles certamente tentariam.

Resignado, desci da janela, após acenar para os espectadores da forma mais natural possível. Apenas a bisavó respondeu, com um sorriso sem dentes. O apartamento se enchia de luz e do som do ventilador voltando ao funcionamento. Busquei o relógio do computador, que acabava de reiniciar seu sistema, esperando um lapso de tempo de, no mínimo, umas sete horas.

O blecaute havia durado 27 minutos.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Blecaute I









Cheguei em casa exausto do trabalho. Tirei a roupa, tomei banho, comi uma bobagem qualquer e fui até o computador checar meus e-mails antes de dormir. Respondia uma mensagem distraidamente quando, de repente, o computador sumiu da minha frente. Sabia que ele estava lá, pois ainda sentia as protuberâncias regulares do teclado sob meus dedos, mas não o enxergava. Também não podia ver nada ao meu redor e o quarto foi invadido por um estranho silêncio quando o ventilador parou de funcionar. Compreendendo o que estava se passando, respirei fundo e, tentando acalmar a mim mesmo, falei em voz alta:

- Putamerda! Faltar energia agora? Sério? 

A falta de luminosidade em si não me incomodava tanto, já que estava pronto para dormir mesmo. O problema era o calor. É de conhecimento público que, no Recife, em caso de blecaute noturno, existem apenas duas opções: insônia ininterrupta ou o rápido alívio do suicídio. Sem o auxílio de ao menos um ventilador, vários pernambucanos já haviam tirado as próprias vidas, não mais suportando a privação de sono combinada com a temperatura de ebulição das noites recifenses. Eu sabia que estava prestes a entrar para as estatísticas da polícia e dos programas de TV populares, então tratei de me acalmar. Disse a mim mesmo que aquela era uma situação passageira, logo a energia voltaria e o doce zumbido do ventilador voltaria a embalar meu sono perdido. Nesse momento, ouvi um barulho na garagem do prédio. Era o síndico, diligente, já se prontificando a resolver o problema. Como um cão que observa o galeto girando no forno, iniciei uma vigília na janela da sala, acompanhando de ouvido os movimentos que aconteciam no térreo. Depois do que pareceu uma eternidade, ouvi a voz distante do síndico comentando com um interlocutor invisível:

- Rapaz...sei não...acho que hoje, só amanhã.

Meu coração afundou. Nem tanto pela frase em si, que apresentava graves problemas de lógica, mas por entender que provavelmente passaria a noite sem o ventilador mantendo a temperatura a níveis humanamente suportáveis. Imediatamente, senti como se houvessem ligado um aquecedor no apartamento. Sabia que era um efeito psicológico, mas não conseguia evitar a sensação de abafamento que parecia se espalhar lenta e inexoravelmente por toda a casa.

Experimentei deitar na cama, fechar os olhos e tentar forçar o sono. Inútil. O calor me envolvia, era um embrulho ao redor do meu corpo suado, brilhante como uma vendedora de acarajé do centro da cidade. Me livrei do último vestígio de roupa que me restava, a cueca, em uma vã tentativa de diminuir a temperatura corporal. Uma gigantesca mancha de sudorese começava a se espalhar no lençol ao meu redor, ameaçando engolfar toda a cama. Sabia que não conseguiria dormir naquelas condições, então apelei para os velhos truques dos insones. O problema é que a maioria deles não funciona quando não existe nenhum tipo de luminosidade. Peguei um livro para ler, mas não podia enxergar as palavras. Tudo ao meu redor era um negror total, o calor quase uma entidade onipresente. 

Desesperado, comecei a pensar em possibilidades absurdas. Uma hora, me levantava para assistir televisão enquanto a energia não voltava e apenas ao tentar ligar o aparelho percebia a falta de lógica daquela proposta. No momento seguinte, deixava a cama para checar a Internet rapidamente, para passar o tempo enquanto não havia luz. Horrorizado, comecei a perceber que meu cérebro febril já não estava funcionando normalmente. Lembrei das estatísticas, dos suicidas suados e dos programas populares e meu terror aumentou, logo se transformando em um pânico incontrolável. 

O calor estava evaporando minha sanidade.

Continua...

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A presença




Estava chegando em casa com minha mãe e, ao abrirmos a porta da sala, escutamos barulhos estranhos dentro de casa. Coisas caindo no chão, se espatifando. Como se revirassem o apartamento furiosamente, a procura de algo ou de alguém. Assustado, mandei que minha mãe ficasse perto da porta, pronta para correr a qualquer sinal de perigo. Armado apenas de coragem e, talvez, um pouco de sentimento autodestrutivo, entrei e comecei a vasculhar os cômodos. A sala estava vazia, a cozinha e a área de serviço desertas. Intrigado, passei para os quartos. O que vi me gelou a boca do estômago.

Papéis espalhados, livros e canetas jogados no chão, uma confusão de pequenos objetos atapetando o piso dos quartos, caos. Conclui que algum assaltante devia ter invadido o apartamento, causando um pandemônio doméstico enquanto procurava por nossas economias inexistentes. Chamei minha mãe e, depois de confirmar que nenhuma das trancas de ambas as portas havia sido forçada, procedemos a arrumar a bagunça e tentar descobrir o que havia sido levado.

Não demos pela falta de absolutamente nada. Haviam coisas fora do lugar, mas nada havia desaparecido. Supersticiosa, minha mãe arregalou os olhos, enquanto o sangue fugia do seu rosto, e sussurrou, trêmula:

- Poltergeist.

Olhei para ela incrédulo, pronto para abrir um sorriso de escárnio filial, quando senti uma estranha sensação na minha pele. Como um toque, leve, gentil, acariciando meu braço, passeando pelas minhas costas e suspirando em minha nuca. Minha mãe, experimentando a mesma sensação sobrenatural, estacou repentinamente, emudecida por aquela presença inexplicável. Lentamente, virei-me para a direção daquela carícia gélida, que arrepiava todos os pelos do meu corpo desavergonhadamente. Me deparei com a janela aberta e finalmente identifiquei a fonte daquele mistério.

Vento.

Boquiabertos, eu e minha mãe nos olhamos, sem conseguir acreditar no que estava acontecendo. Nosso apartamento era conhecido por jamais deixar entrar uma mísera brisa e já até tínhamos esquecido qual era a sensação de ter ar em movimento dentro de casa. O vento, agora mais forte, invadia toda a casa, empurrando para fora o ar estagnado que havia se acumulado durante os anos. Maravilhados, observávamos a corrente de ar derrubando quadros, espatifando jarros e batendo portas, como crianças que observassem a neve caindo pela primeira vez em suas vidas e sentissem dificuldade em se adequar aquele estranho fenômeno. 

Chamamos os vizinhos para ver, ligamos para familiares distantes, tiramos fotografias sorrindo ao lado de porta-retratos voadores e de redemoinhos de papéis de carta multicoloridos. Por um dia, sentimos o que era ter o frescor do ar renovado percorrendo nossa casa, como um parente abusado que se mete em todos os cômodos sem a menor cerimônia. Nos acostumamos, nos adaptamos, nos sujeitamos àquela correnteza elemental e o nosso lar, finalmente, parecia estar completo.

O vento desapareceu no dia seguinte. Como se jamais houvesse nos visitado, foi-se e deixou em seu lugar apenas um abafado, um vazio sufocante que nos envolvia como um manto, pesado, oleoso. Desconsolados, minha mãe e eu permanecemos em silêncio, lembrando de quando havia brisa e a casa sorria, aliviada. Respiramos fundo o ar viciado e fomos dormir, buscando sonhar com o vento perdido e sem conseguir cair no sono por causa do calor.

O Verão havia chegado e não permitia contestações ao seu reinado.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Verão

Sim, o Verão chegou ao Recife. Não é difícil de acreditar, basta que se observem duas condições básicas para validar a afirmação: estar vivo e existir dentro dos limites geográficos da capital pernambucana. Me encaixo em ambos os casos e sofro com o calor, que parece ter uma questão pessoal e mal resolvida com os recifenses. Sai ano, entra ano, lá vem a quentura, incandiando os olhos, fervendo as calçadas, matando os idosos, suando as crianças, encorajando o decote, derretendo os sorvetes e roubando meu sono.

Mas já reclamei demais desse Verão recifense, que não cansa de abafar as nossas vidas em uma estufa urbana anual que, se não deixa ninguém se acostumar aos seus extremos, também não desaponta aqueles que o aguardam, ansioso. E tem dessas pessoas. Gente maluca, esquisita, que gosta de calor, de sol, praia, biquíni pequeno, frescobol, cerveja ou qualquer outra coisa gelada, coco verde, caldinho, areia pelando, pegar onda, desviar de tubarão, transpirar como quem respira, óculos escuros para olhar as garotas, saia curta para chamar a atenção dos meninos e tanta coisa mais que não caberia nesse texto.

Melhor nem tentar. E já que o verão chega para todos, é inevitável, inescapável e implacável, melhor deixar a reclamação de lado dessa vez e se juntar ao time dos doidos. O Blog da Reclamação dá oficialmente as boas-vindas à estação mais quente do ano, num lugar quente que só o Recife. E para comemorar, nada melhor do que uma música que expressa, com clareza do sol da praia de Boa Viagem, o sentimento do pernambucano nesse Verão verdadeiramente tropical que temos aqui no nosso pedaço de terra espremido entre o Equador e o trópico de Capricórnio. 

Com vocês, a banda Mombojó:












Como cantado acima, “se o inverno não vem, espere o sol iluminar o seu lar”. O meu já se iluminou. E o de vocês?

O Verão chegou, hora de dançar.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Dia das Crianças III

Tá, eu sei que o Dia das crianças já passou e esse post está meio atrasado. Mas eu precisava compartilhar mais algumas histórias de infância com vocês, por isso, aproveitem a parte final desse especial e lembrem-se: trauma de infância não existe, você que inventou de fazer terapia.



Uma vez, eu estava assistindo TV com meus dois irmãos, na sala, quando eles começaram a brigar por nenhum motivo em particular. Estavam eles rolando pelo chão, enquanto eu via Uni fuder a vida do pessoal de Caverna do Dragão pela centésima vez, quando meu pai apareceu, irado com a gritaria. Bateu no meu irmão mais velho e depois no caçula. 

E depois em mim, só porque eu estava por perto. Depois de fofar os três meninos no pau, inclusive o inocente, saiu da sala muito digno, declarando que havia batido nos três “para não ser injusto com ninguém”.

Valeu, pai.

***

Por algum motivo, talvez por ser o filho do meio, eu acabava ganhando as porcarias usadas dos meus irmãos, mesmo do mais novo. Quando isso não acontecia, meu pai comprava as porcarias usadas de outras crianças e me dava, como se fosse um presentão. Como não ganhar nada é ainda pior do que ganhar trastes de segunda mão eu aceitava, até porque era muito pequeno e não tinha lá muita escolha. 



  Mas esse balão é meu! E os suspensórios também!




Um exemplo disso foi quando ganhei uma bicicleta resgatada de algum lixão de Paulista. Ela era velha, feia e o simples ato de olhar para ela exigia uma antitetânica. 




 Eu estava muito mais seguro no meu velocípede.
 E mais estiloso também



Mas era minha e era com ela que eu desbravava as ruas enlameadas do Janga, geralmente acompanhado dos outros moleques do bairro, ao menos aqueles que não tinham vergonha de ser vistos com um menino que pilotava uma bicicleta que mais parecia um esqueleto de camelo composto quase que inteiramente de ferrugem. Lógico que um veículo nessas condições não suportaria o eterno off-road das vias não-pavimentadas do Janga, de modo que um dia a bicicleta simplesmente partiu ao meio. Enquanto eu estava em cima dela, claro. O que fez com que eu me esborrachasse no chão, caindo mais ou menos de dente no cascalho e me esfolando quase que completamente. Devolvi a magrela para o meu pai que, muito sério, disse que ia dar um jeito de vez nesse problema. No outro dia, acordo cedo e ele avisa que tem uma surpresa me esperando na garagem. Feliz da vida, saio correndo esperando encontrar uma Caloi Cross novinha em folha.

Ao chegar na garagem, percebo que fui cruelmente enganado.

Lá está a velha bicicleta, recém-soldada, zombando das minhas expectativas infantis. Coagido a dar uma volta de teste, embarco meio receoso e saio mais uma vez pelas ruas, testando os limites da bicicleta e de minha própria integridade física. Depois de alguns minutos, começo a pegar confiança e imprimir mais velocidade, achando que, afinal, talvez não fosse uma bike tão ruim assim.

Até que ela se partiu de novo. Em dois pontos diferentes.

Caí na lama feito um boneco de pano, tão retorcido quanto a bicicleta ao meu lado. Ela estava tão desconjuntada que a única coisa que impedia que ela se separasse em três pedaços independentes era a corrente do pedal. Indignado, decidi que havia chegado ao limite da minha paciência infantil, dobrei a bicicleta como se fosse uma peça de roupa, coloquei embaixo do braço e a entreguei de volta ao meu pai. 

Nunca mais ganhei outra depois dessa, meu pai certamente achando que era muita frescura querer uma bicicleta que estivesse tipo assim, inteira, com tanta criancinha passando fome na África.