sábado, 4 de dezembro de 2010

Turismo no Recife: Club Metrópole











Recife tem muitas opções de lazer para aqueles que curtem se jogar na balada. São casas de show, bares dançantes, clubes noturnos e tudo mais. Eu, pessoalmente, não sou um grande fã de boates. São lugares onde é quase impossível conversar, a bebida é cara, a comida é ruim e sempre me sinto aquele tipo de cara. Sabe como é, aquele tipo. O deslocado-que-não-consegue-se-divertir-e-acaba-estragando-a-noite-dos-amigos-dormindo-no-balcão-até-babar-e-aperreando-para-ir-embora-logo. Esse tipo. De modo que geralmente evito. Mas, na euforia da minha aprovação no Mestrado de História da UFPE, acabei marcando com alguns amigos para ir a uma, como diria minha mãe, danceteria. E se é para ir, melhor enfiar o pé na jaca logo. Resolvi aceitar a sugestão do pessoal e conhecer a balada gay do Recife. Aparentemente, a cidade possui inúmeros pontos de encontro GLS, mas o mais famoso (ou infame, se você for uma pessoa preconceituosa) é o clube noturno Metrópole, localizado no bairro da Boa Vista, centro.

Admito que no começo fiquei meio apreensivo. Não sabia bem o que ia encontrar lá dentro e nem qual é o comportamento adequado em um lugar assim. Acabei confirmando um velho preconceito meu: boates são todas iguais. Música alta. Gelo seco. Laser nos olhos. Gente demais. Menino beijando menino. Menina beijando menina. Tá, esses últimos já é mais incomum, mas aí que está justamente a graça. Quem vai para a balada gay já é, por definição, uma pessoa desprovida de frescuras, independente de para qual time torce. O pessoal está lá para realmente se divertir e se soltar, coisa que não acontece nas boates extrema-direita, onde as pessoas vão mais para ver e serem vistas, nunca parecendo ser realmente elas mesmas. 

Assim, lá estava eu, em uma boate gay, junto aos meus amigos gays e tentando não fazer aquela cara de turista em relação a tudo o que me cercava. E para quem é novato, uma das coisas mais divertidas é tentar descobrir quem é gay e quem não é. Não é tão simples quanto pode parecer à primeira vista, por isso é sempre bom contar com a consultoria de quem entende do assunto.


- Meu radar não falha, pode confiar. Tá vendo aquele ali, Fred? Viado. Aquele outro? Viado. Viado. Viado. Libélula ensandecida. Viado. Viado...

- A gente tá numa boate GLS, isso é meio óbvio, né?

- Nada disso. Tem que ter o sensor. Porque muita gente frequenta, mas não é. Você, por exemplo.

- Hmm. Ok. Então deixa ver se eu consigo identificar. Aquele ali. Não tem jeito de frango.

- É, aquele nunca viu um pinto...

- Há, acertei!

- ...porque tava sempre de costas.

- Putamerda!

- Pois é. E aquele ali? O que você acha?

- Gay.

- Muito bem. E aquele outro?

- Gay.

- Acertou! Menina, tu leva jeito pra coisa!

- ...

- Tá, último teste. E aquele ali?

- Aquele nem precisa de radar, né? Tá na cara que é frango.

- Errou. 

- Errei?!

- Aquele ali não é gay. Só é alvirrubro.

- Aí não vale.

- Eu sei, fica difícil, né?


Interessante também é dar de cara com gente conhecida. Como a homossexualidade ainda causa, no mínimo, estranhamento para muita gente, muitos preferem evitar ser vistos em lugares como a Metrópole. Os atores da Globo que o digam. Outros, mais ousados, ainda chegam a frequentar, mas já com uma história pronta para camuflar suas verdadeiras intenções ali. Nem sempre dá muito certo.


- Professor! O senhor por aqui?

- ...eu...Frederico? Como...como você está?

- Olha só, quem diria? Não sabia que o senhor curtia!

- Não, eu...veja bem...isso aqui é um...isso aqui é um estudo de campo na área de História Social. Sim. História Social. Meu objetivo é analisar a evolução de certos grupos urbanos dentro de um sistema de interação social plural e culturalmente polissêmico sob a uma perspectiva natur...

- Professor, aquele boy com quem o senhor tava dançando Banda Lapada agorinha tá chamando o senhor.

- ...boy? Que boy? Estou aqui desacompanhado, Frederico! Vim para realizar estudos acadêmicos importantíssimos in loco e não sei a que “boy” você se refere.

- Me refiro aquele ali atrás, de blusinha roxa acochada e que nesse exato momento tá apontando pro senhor e estendendo as mãos pra frente, na altura da cintura e fazendo movimentos pélvicos de vai e vem.

- Ora, é evidente que não é comig...

- ...e que acabou de passar a mão na sua bunda. Esse boy aí.

- ...

- Bem novinho ele, né?

- Frederico, eu já lhe dei as notas da sua última prova?


Meu futuro acadêmico está garantido, sem a menor dúvida. Mas nem todos são assim, enrustidos. Ao contrário, o povo vai mesmo é para se jogar. E era o que estava fazendo um dos frequentadores, dançando freneticamente sobre o queijo em um dos pavimentos da boate. Ele era alto, magérrimo, mostrava sinais de calvície precoce ao mesmo tempo em que exibia um penteado inaceitável, estilo Playmobil, composto dos restos de cabelos crespos que partiam do meio da cabeça e chegavam quase aos ombros, “estirados a pulso”, como diria minha mãe. Vestia camisa e calça apertadíssimas, valorizando seu corpo esquelético e evidenciando o terrível fato de não estar usando cueca. Enfim, parecia o avesso do cu do cão. Mas como dançava. Dançava como se ninguém estivesse ali, ninguém que pudesse julgá-lo ou achar graça de uma figura tão exótica. Dançava para todos e para pessoa alguma. Dançava para si próprio, como se estivesse na sala de sua casa. Dançava do jeito que se deve dançar, sem dever nada a ninguém.

E por falar em dever, a Metrópole possui uma espécie de moeda própria, composta por cédulas rosa de valores variados, criativamente batizadas de “Pink”. Tem gente que comparece tanto ao local que acaba trocando todo o dinheiro de verdade pela grana gay. Uma amiga minha confessou que chegou a passar uma semana se deslocando a pé porque a única coisa que encontrava quando abria a carteira na catraca do ônibus era Pink. Real que é bom, nada. Além do câmbio diferenciado, existe também um sem número de expressões próprias do mundo gay, de uso cada vez mais corrente. Gírias como “beijo, me liga”, “arrasou, amiga” e “abafa” já são de uso geral, inclusive por muito homófobo por aí que não faz ideia do que está falando. Outras são bem mais específicas e um tanto quanto restritas.


- O que ele tem que tá tão morgado, heim?

- Ah, Fred...esse deve tá com CRO.

- Fudeu. Que porra é CRO?

- Carência de Rola no Organismo.

- Putaquepariu, por que eu ainda pergunto essas coisas?!


Problemas de comunicação à parte, posso dizer que minha noite na balada gay foi bastante divertida. As pessoas são animadas, muito respeitadoras e a música do ambiente, se não é exatamente do meu tipo favorito, ao menos é bem melhor do que o que se ouve nas boates hetero da vida. E se você não se animou para ir, não se preocupe. A night vai bombar com ou sem você, nêga. E na próxima vez que vier ao Recife, lembre-se de dar uma passadinha na Metrópole, conheça a proprietária e madrinha GLS da cidade, Maria do Céu, gaste alguns Pinks no bar, suba no queijo e desça até o chão. 

Arrasou!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O país dos carros queimados




Isso que você aí em cima é um carro queimado. Não, não sou carioca, nem morador do Rio de Janeiro. A rua onde essa carcaça se encontrava até pouco tempo atrás é uma via tranquila do bairro residencial de Setúbal, zona sul do Recife, Pernambuco, Nordeste do Brasil, para os que sofrem de dislexia geográfica. Quando saí de casa de manhã cedo para trabalhar e dei de cara com esses destroços fumegantes, fiquei assustado. Não sabia o que havia acontecido, não tinha como descobrir naquele momento e, resignado, montei na minha bicicleta e segui para dar minhas aulas de inglês.

Quando voltei, à noite, ele continuava lá. Parecia ainda mais triste no escuro, a falta de luz enfatizando mais do que escondendo os destroços retorcidos, uma mancha de fuligem embaixo do veículo se misturando com a noite em volta. Imaginei as piores coisas. Talvez algum bandido houvesse promovido um assalto fazendo uso daquele carro, certamente roubado de alguma vítima infeliz, e ao final da ação o meliante teria decidido apagar com fogo a memória dos seus atos. Também era possível que fosse um crime passional, uma amante enlouquecida de ciúmes que, na falta do corpo do amado, havia se contentado em atear chamas ao seu veículo, pobre substituto de uma paixão obsessiva. A minha mente criava mil explicações para a presença daquele cadáver de metal e vidro, jazendo ali, bem na porta do meu prédio.

O mistério se resolveu rapidamente e era bem mais desinteressante do que os cenários hiperbólicos criados pela minha imaginação desenfreada. Uma vizinha havia tido um problema de aquecimento com o radiador, que entrou em combustão e reduziu o veículo ao estado no qual eu o havia encontrado de manhã cedo. Nada de marginais audaciosos ou paixões piromaníacas, portanto. Agora seria apenas uma questão de aguardar a retirada dos restos carbonizados e a rua voltaria à sua tranquilidade habitual.

Isso não aconteceu no dia seguinte. Nem no dia depois desse. Passou-se uma semana e o carro continuou lá. A cada manhã eu imaginava que sairia para trabalhar sem ter que olhar aquele entulho queimado na minha rua e sempre me frustrava. Imagino que os vizinhos também se horrorizavam com aquela paisagem e desejavam ter aquele traste removido o quanto antes. Mas ninguém fazia nada. Acometidos por aquele sentimento coletivo muito comum do “Deixa pra lá, não é problema meu”, as pessoas iam esperando que a proprietária do veículo resolvesse a situação e ninguém tomava uma atitude. Em poucas noites, a carcaça foi saqueada, mãos invisíveis levando tudo e qualquer coisa que pudesse ser vendida. O esqueleto de metal, agora com um aspecto ainda mais deprimente, se tornava um depósito de lixo para todos os que passavam por aquela via. Também se tornou ponto de referência, mas para aquele que querem evitar certos lugares estranhos ou suspeitos. “É depois daquela rua do carro queimado”, diziam as pessoas, “mas é melhor ir por outro lugar. Ali é meio esquisito.” A área foi ficando cada vez mais vazia, a coleta de lixo simplesmente não dava mais conta do acúmulo irregular e diário de detritos e agora o local começava a atrair a presença de pessoas que passavam as madrugadas junto aos restos de metal, os rostos sujos iluminados pela chama constante dos seus cachimbos de crack. A rua rapidamente se transformava em algo diferente, pior, as pessoas aceitando tudo de maneira bovina, apenas ocasionalmente balando as cabeças e sussurrando entre si “Meu Deus, que absurdo...e ninguém faz nada!”

Um dia, liguei para a prefeitura e expliquei o acontecido. Um guincho foi enviado na manhã seguinte e o carro queimado foi retirado sem maiores problemas. A coleta de lixo conseguiu remover as porcarias acumuladas por dias de complacência e uma chuva de verão lavou a horrível cicatriz de fuligem que marcava o asfalto. Os estranhos personagens noturnos, privados do seu habitat, deixaram de frequentar a rua, que passou a receber bicicletas, carros, pedestres, mães levando seus filhos para a escola, cães levando seus donos para passear. Vida, novamente. E tudo com uma simples ligação, que já poderia ter resolvido a situação há muito tempo, caso as pessoas conseguissem romper mais facilmente o gesso da conformidade coletiva. E eu me incluo entre elas.

É fácil botar a culpa no governo, no estado, pelas injustiças e contrariedades que enfrentamos todos os dias. Muito mais difícil é admitir que é a sociedade que legitima essa situação, quando assume uma atitude passiva perante aquilo que reconhece como errado. Se as coisas estão como estão, é simplesmente porque permitimos que assim fosse. Baixamos a cabeça, fingimos que não é conosco, pensamos que poderia ser pior. Assim, questões se tornam problemas, problemas se transformam em mazelas sociais e logo a situação assume o status de insolúvel. Como enxergar uma solução para um problema tão antigo que já foi incorporado ao cotidiano? Como podemos nos queixar da estrutura podre de uma casa, se as pessoas fingem que não enxergam os cupins a roer-lhe a base e varrem a serragem para debaixo do tapete? O mais grave mal social do Brasil é o conformismo coletivo, uma doença congênita e crônica, transformando cidadãos em cínicos, que apenas reclamam da atual conjuntura e nada fazem para melhorá-la. 

Ou  a sociedade muda, ou nos tornaremos o país dos carros queimados.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sugestão de blog: Música na Bagagem









E você, o que leva na bagagem?

Seguindo a tradição de recomendar bons blogs aqui no Reclamação, trago a vocês o Música na Bagagem, de autoria do professor, roqueiro e irmão Pablo Vilela. Apaixonado por Rock n’ Roll desde a pré-adolescência, Pablo traz um blog voltado para o público que aprecia uma sonoridade mais pesada, sem jamais deixar de lado outras vertentes musicais de bom gosto. Também é possível ficar sabendo das novidades do mundo da música no blog, que ainda traz resenhas de discos e shows que rolam no Recife, o último deles sendo o da banda Angra, acontecido ainda esse mês. Ainda rolam entrevistas, backstage e muitas fotos, mostrando que o cara entende do assunto e sabe bem o que o público gosta.

Então é isso. Deem uma conferida no Música na Bagagem e fiquem por dentro do que anda acontecendo na cena roqueira da capital pernambucana!



terça-feira, 23 de novembro de 2010

Promessa










- Vó, passei no Mestrado de História da UFRPE!

- Que bom, meu filho.

- E também no da UFPE!

- Parabéns, meu filho.

- E aí? Bora comemorar? Cadê aquele bolo de chocolate eu que gosto tanto e...

- Você vai é pagar sua promessa.

- ...oi?

- Isso mesmo. Eu prometi que se você passasse, ia ter que assistir pelo menos uma missa. E descalço, que é pra Deus ver que você é humilde.

- Peraí, peraí...que história é essa? A senhora promete e eu que pago? Tá certo isso?

- Meu filho, quem se beneficiou da promessa? Eu ou você?

- ...

- Pois é. Vá se arrumar pra ir e nem leve a sandália.

- ...mas pra que santo que a senhora fez a promessa?

- Santo? E eu lá sou mulher de lidar com subalterno? O acordo foi direto com Jesus.

- Ah, tá. O esquema é mais seguro, né, vó?

- Meu filho, você acha que passou por quê? Porque estudou? Me poupe.

- ...

- Na volta você vai ganhar uma jarra de vitamina de abacate, tá bom assim?


Podia ser pior. Ao menos não era uma coisa trabalhosa, como subir o Morro da Conceição com um tijolo na cabeça ou algo indigno, tipo sair correndo pelado pela Avenida Conde da Boa Vista gritando “Jesus entrou em mim!”. O problema mesmo era minha falta de traquejo religioso, já que quando fui à minha última missa sem ser casamento ou funeral eu nem tinha pelo no sovaco ainda. Arrastando desajeitadamente os pés nus sobre o assoalho de uma das incontáveis igrejas centenárias da Cidade Alta em Olinda, eu pensava enojado na quantidade de micróbios mumificados que estavam entrando em contato comigo naquele momento. Não deixava de ser uma experiência histórica. Sem sapatos, barba por fazer, cabelos desgrenhados e vestindo uma camisa preta da banda de metal alemã Blind Guardian, banida do meu guarda-roupa por minha mãe e algumas ex-namoradas, eu mais parecia um mendigo de ar visivelmente constrangido.

Como nunca me interessei muito pela liturgia católica, fiquei sem saber o que fazer durante a missa. Na dúvida, dava uma de jogador de futebol na hora do hino e ia dublando o povo ao meu redor, repetindo as palavras do padre posicionado no altar. Mas o mais complicado era a coreografia seguida pelos fiéis, e que não vinha explicitada naquele jornalzinho que sempre distribuem na porta da igreja. Aparentemente, não aparecem muitos leigos, turistas de outras religiões, ateus ou mestrandos de História por ali. De maneira que acompanhar a missa era mais ou menos como brincar de morto\vivo, sendo que eu sempre errava as instruções e a punição pela falta de jeito na hora de jogar eu só vou saber depois que partir dessa pra glória. Quando o velhinho de andador ao meu lado quase sofria uma síncope tentando ficar de pé, eu sentava. No que eu levantava, tapava a visão das beatas que ficavam atrás de mim e amaldiçoavam a mim e a minha família pela falta de respeito. De vez em quando, eu soltava um “Aleluia” na hora errada, quando estavam todos em silêncio. Duvido que os Toscanos ainda sejam bem-vindos naquela igreja. Com os joelhos doendo do exercício desacostumado, consegui sobreviver ao serviço religioso com minha honra mais ou menos intacta. Voltei para casa com a sensação de dever cumprido e, mais importante, dívida paga.

Eu estava livre do Serasa divino.

sábado, 20 de novembro de 2010

Turismo no Recife: o ateliê de Francisco Brennand




O Recife possui um grande número de atrações turísticas e culturais, não faltando localidades que revelam a marcante personalidade da cidade. Algumas pessoas preferem a orla da Zona Sul, com as praias de Boa Viagem e do Pina, equipadas com seus aparelhos de ginástica, quadras de tênis, ciclovias e o Parque Dona Lindu, tudo muito bem guardado por policiais, salva-vidas e tubarões treinados para atacar e comer qualquer coisa que chegue perto da água. Outros optam pelo Centro, literalmente o Marco Zero da capital pernambucana, com suas ruas de paralelepípedos, trilhos de bonde, igrejas históricas, inúmeras pontes, centros culturais, museus e o belo casario antigo ainda preservado em diversos pontos da cidade, tudo acompanhado pela batucada dos maracatus e pelo característico cheiro dos manguezais, já inodoros ao nativo recifense. Também há aqueles que não trocam a Zona Norte por nada, com seu impressionante conjunto de arranha-céus as margens do Rio Capibaribe, um sem-número de bares e restaurantes, museus, butiques chiques, um bonito conjunto de praças e o disputadíssimo parque da Jaqueira, além dos estádios dos três maiores times locais, Sport, Náutico e Santa Cruz, cujas torcidas organizadas aterrorizam a vizinhança e fazem a rapa nos transeuntes em dia de jogo, mas tudo em clima de festa e de alegria.

Pouco comentada é a Zona Oeste, mais afastada da agitação e com características mais bucólicas. É lá que ficam a Universidade Federal de Pernambuco e sua irmã mais moça, a Universidade Federal Rural de Pernambuco, ambas contando com enormes campi e áreas verdes, aliás uma das maiores características dessa região, dominada por grandes extensões de floresta, casas de diversos tamanhos e até ruas de barro. Ali se encontram o Jardim Botânico e o Zoológico da cidade do Recife, bem como o açude de Apipucos, bairro verdíssimo, lar do sociólogo Gilberto Freyre e um local que, ao menos por enquanto, continua driblando a expansão imobiliária desenfreada que se desencadeou na cidade nos últimos anos. Essa região também abriga um dos locais mais originais do Recife, o ateliê-museu do artista plástico pernambucano Francisco Brennand. É ali que o escultor se dedica a dar vida a suas obras, criando um enorme espaço dedicado quase que exclusivamente a um único assunto.

Picas.

Sim, picas. A inspiração fálica do trabalho de Brennand é bastante conhecida na capital pernambucana e no meio artístico de forma geral. Ninguém sabe bem de onde veio essa mania de ficar esculpindo bilolas a torto e a direito, mas o fato é que o artista construiu, em seu local de trabalho, uma verdadeira catedral dedicada à exaltação de caralhos de diversas formas e tamanhos, quase tudo feito de cerâmica e geralmente dentro dos contextos mais perturbadores ou alienígenas que a mente insana de Brennand possa conceber.


 Não, esse troço aí não é uma cobra. Pois é.


O ambiente é tão densamente povoado de rolas que faz medo até tocar nas paredes. Aliás, esse é um dos poucos lugares onde encostar-se ao muro é a coisa mais perigosa a se fazer quando em risco iminente de ataque sexual. No final das contas, de fato, dá tudo na mesma. Também é comum encontrar formas vagamente semelhantes a mulheres desmembradas ou órgãos sexuais femininos tendo seus espaços privativos, como direi, invadidos por maçarocas de cerâmica. É um local onde escorregar e cair de bunda no chão equivale mais ou menos a frequentar um chuveiro coletivo em uma prisão para maníacos sexuais, onde você é o novato e, por algum motivo inexplicável, só sobraram roupas de mulher para você vestir.



O novato derrubou o sabonete! Hora do show, meninas!



Mas Brennand é um artista respeitado e, apesar do seu estranho fascínio por cacetes, muito amado pelo povo recifense. Seu trabalho pode ser encontrado em diversas galerias de arte, prédios públicos, painéis e museus, não apenas em Pernambuco, mas em todo o Brasil e fora dele. Os turistas que chegam à cidade pelo porto, vindos dos seus transatlânticos de luxo, são logo saudados pela Praça do Marco Zero, emoldurada pelo belíssimo conjunto de prédios históricos que funcionam como espaços culturais. Também dão de cara com uma jemba de cerâmica de 32 metros de altura, circundada por pitocas menores, um pouco menos assustadoras. O nome oficial é Torre de Cristal, mas o recifense carinhosamente se refere à obra como “A Pica de Brennand”, por motivos dolorosamente óbvios.



 Tamanho É documento.


Francisco Brennand é um senhor simpático com pinta de papai Noel, constantemente passeando pela sua propriedade com sua indefectível bengala e um desnecessário cachecol. Olhando para ele, fica difícil imaginar um velhinho de aparência tão doce projetando esculturas que mais parecem saídas dos pesadelos homoeróticos de algum ilustrador japonês de mangás pornô-satânicos.



 "E agora, o que vou esculpir? Hmm...já sei, uma piroca!"


Mas sua arte não é para todo mundo. Consta que um dia uma senhora dos Estados Unidos foi levada para visitar o ateliê. Por descuido ou pura sacanagem, ninguém avisou a velha que ela estava adentrando uma espécie de santuário dedicado à genitália masculina, de modo que, ao perceber o ambiente abarrotado de trolhas onde ela havia sido jogada, a coitada soltou um “The horror, the horror!”, frase que até hoje enfeita umas das obras expostas, mostrando que de bonzinho Brennand não tem nada, ele curte é tirar onda mesmo. Como a gringa provavelmente não sabia dizer “Putaquepariu, doido!” ou “Fudeu, me jogaram num museu do caralho, literalmente!”, acabou saindo essa frase em inglês mesmo. O relato das testemunhas não especifica se depois de proferir essa sentença emblemática a turista americana saiu correndo pelas matas da Zona Oeste do Recife até ser atacada por alguma onça, de modo que devemos presumir que foi exatamente isso o que aconteceu.

O ateliê de Francisco Brennand é, enfim, um local originalíssimo, daqueles que só se encontram aqui na cidade do Recife e em nenhum outro lugar, para o alívio das beatas locais. Se você estiver visitando a cidade, se certifique de conferir este que é um dos locais mais fascinantes e, em grande medida, perturbadores da capital pernambucana.

Só lembre de não dar as costas a nada nem a ninguém.


 "Se o senhor continuar sorrindo pra mim, eu encho essa sua barba de bala."



terça-feira, 16 de novembro de 2010

O rei





O Sono não reina mais. Foi destronado pela rainha Insônia. Aquela vaca. Desde que se instalou no meu quarto, lá se foi o meu descanso. Brigaram, parece. Aliás, a Insônia, fresca como é, nunca se deu bem nem com o Descanso, nem com o Sossego e até hoje não se bica com a Paz. A safada expulsou todos da minha vida, ciumenta que é, e agora não consigo mais dormir. Ainda acho que é tudo culpa do emissário da rainha Insônia, esse tal de Mestrado em História. Nunca foi um sujeito lá muito confiável. Também pode ter sido o comparsa dele que provocou essa invasão, o tal do Calor Recifense. Esse aí já atacava o Sono há anos e ambos travavam uma guerra sazonal, sem um vencedor permanente. E agora, passo as noites com a realeza, perdendo as contas dos carneirinhos e rezando pela volta do meu amado Sono, hoje exilado sei lá onde.

Mas o verdadeiro rei um dia há de retornar.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Vida de N3rd: a Lan House, parte final


Ele chamou atenção logo ao entrar na loja. Trazia os cabelos em caracóis despenteados, uma barba que não se decidia entre a maturidade ou a adolescência, um olhar que denotava uma estupidez quase bovina e vestia camisas verde-limão, laranja fluorescente ou qualquer outra cor ofensiva ao nervo ótico, desde que exibisse a propaganda de qualquer micareta realizada em alguma cidade esquecida por Deus. Aquele homem parecia ser o subproduto dos movimentos intestinais do próprio satanás depois de uma rodada de sarapatel em algum mercado público da cidade. Deixou sua Kombi, mantida inteira por uma combinação de Durepox e uma profunda fé no divino, no estacionamento em frente à Lan House, destacando-se dos demais veículos nem tanto por seu caráter de transporte coletivo, mas sim pela profusão de adesivos que declaravam, em letras garrafais e ortografia inaceitável, frases tais como “Não mim inveje, trabalhe” ou “Na subida paciênçia, na descida dá licenssa”. Ao entrar no recinto, fez várias cabeças se voltarem em sua direção, nenhuma delas atraídas por sua beleza, que de fato não existia. Ao menos não dentro do conceito atualmente válido de ser humano.



 Mas conceitos mudam.



Nas primeiras semanas, aparecia esporadicamente, mais observando do que utilizando algum serviço. Estudava as partidas travadas entre os meninos e parecia ensaiar mentalmente os movimentos praticados pelos garotos mais experientes. Começou a jogar aos poucos, uma meia hora de cada vez, surgindo entre um trabalho e outro. Logo já se tornaria conhecido dos funcionários e dos outros clientes, construindo sólidas amizades com o vigia da galeria e com o flanelinha da esquina. Aumentou a frequência de visitas até chegar um momento em que parecia jogar mais do que trabalhar, a Kombi servindo meramente como meio de transporte entre sua casa e a Lan House. Até que finalmente chegou o dia em que ele decidiu levar seu vício para o próximo nível de loucura.

Passou o dia alternando entre jogar e discutir com crianças que tinham um terço da idade dele, ocasionalmente relaxando com algumas sessões de MSN, nas quais conversava com pessoas de apelidos suspeitos, tais como Dengosa_Kom_Pinto ou 30cm_DiMorenici. Seguiu sentado na poltrona até o final do meu turno e não levantou mais, renovando suas horas sem parar e já acumulando um débito considerável. Passei o turno para o próximo funcionário, alertando para a criatura que parecia ter se fundido à poltrona e larguei do serviço. Na manhã seguinte, fui trabalhar como outro dia qualquer e constatei que, sim, o desgraçado continuava no mesmo lugar. Havia passado o dia anterior e a madrugada toda colado ao mesmo lugar, jogando sem parar. Chequei o programa que administrava os usuários e vi horrorizado a conta acumulada que logo entraria na casa dos dígitos triplos. Liguei para René explicando a situação e ele, ingênuo, estava certo de que o kombeiro pagaria tudo no final. Com a gerência autorizando aquele show de horrores, fiz as pazes com meu Deus e fui trabalhar.

Passou-se um dia. Outro. E depois mais outro. Ele apenas se levantava da poltrona para realizar coisas inomináveis no sanitário e se encher das porcarias vendidas para alimentar os clientes mais corajosos. Engordava como um porco em época de abate, transpirando um suor amarelo que pingava pelo assoalho, acumulando-se nos braços da cadeira, que já exibia sinais de corrosão avançada. Crescia a olhos vistos, como um tumor maligno alimentado por doses maciças de raios-X e fast-food. Aquele ser grotesco já estava começando a se tornar uma atração turística local, atraindo pessoas que compareciam apenas para ver aquela aberração de perto. Os funcionários apostavam entre si em qual turno o corpo dele finalmente iria se render e buscar o doce alívio da morte. Eu rezava para que não fosse no meu.



 Não posso morrer agora, ainda tenho muito o que realizar!



Depois de uma semana dessa existência não natural, René finalmente juntou coragem para se aproximar da besta-fera criada por nós mesmos e propor um desconto em sua já extensa milhagem de computador, desde que ele quitasse sua dívida imediatamente. O monstro ruminou a ideia por alguns momentos e prontificou-se a pagar. Tinha apenas que ir buscar seu dinheiro em casa, onde havia esquecido sua carteira, provavelmente ao lado de sua humanidade. Para meu espanto, meu gerente e amigo aceitou a proposta e todos observamos assombrados a coisa erguer-se da poltrona, encerrando uma semana de imunda simbiose, e partir em sua Kombi caindo aos pedaços. A cadeira, que depois dessa provação apresentava uma silhueta de suor de formato vagamente humano em seu estofamento, já não podia mais ser utilizada devido ao terrível odor impregnado nela, misturando o cheiro de axilas rançosas, pedaços decompostos de salsichas empanadas e uma semana de peidos praticamente ininterruptos. Foi confiscada pela Saúde Pública para ser incinerada ou doada para alguma faculdade de Biologia, já não lembro mais.

Quando questionei René sobre a decisão de deixar o cara ir embora quando o mesmo, obviamente, não tinha a menor intenção de voltar e saldar sua dívida, meu amigo deu um longo trago em seu cigarro, com os olhos perdidos no horizonte de arranha-céus de Boa Viagem e sentenciou:

- Fred, ruim mesmo era se ele continuasse aqui. Antes uma semana de débitos perdida do que aquele encosto por aqui mais tempo.

Reconheci a sabedoria contida naquelas palavras e me consolei com o pensamento de que, algumas vezes, vencer não é uma opção. Nunca mais vimos o kombeiro e esse fato trouxe alegria e esperança aos nossos corações. O futuro, agora, parecia mais promissor e nos permitíamos até fazer planos, livres daquela presença horrenda em nosso ambiente de trabalho.

A Lan House faliu pouco tempo depois desse episódio.