sábado, 20 de novembro de 2010

Turismo no Recife: o ateliê de Francisco Brennand




O Recife possui um grande número de atrações turísticas e culturais, não faltando localidades que revelam a marcante personalidade da cidade. Algumas pessoas preferem a orla da Zona Sul, com as praias de Boa Viagem e do Pina, equipadas com seus aparelhos de ginástica, quadras de tênis, ciclovias e o Parque Dona Lindu, tudo muito bem guardado por policiais, salva-vidas e tubarões treinados para atacar e comer qualquer coisa que chegue perto da água. Outros optam pelo Centro, literalmente o Marco Zero da capital pernambucana, com suas ruas de paralelepípedos, trilhos de bonde, igrejas históricas, inúmeras pontes, centros culturais, museus e o belo casario antigo ainda preservado em diversos pontos da cidade, tudo acompanhado pela batucada dos maracatus e pelo característico cheiro dos manguezais, já inodoros ao nativo recifense. Também há aqueles que não trocam a Zona Norte por nada, com seu impressionante conjunto de arranha-céus as margens do Rio Capibaribe, um sem-número de bares e restaurantes, museus, butiques chiques, um bonito conjunto de praças e o disputadíssimo parque da Jaqueira, além dos estádios dos três maiores times locais, Sport, Náutico e Santa Cruz, cujas torcidas organizadas aterrorizam a vizinhança e fazem a rapa nos transeuntes em dia de jogo, mas tudo em clima de festa e de alegria.

Pouco comentada é a Zona Oeste, mais afastada da agitação e com características mais bucólicas. É lá que ficam a Universidade Federal de Pernambuco e sua irmã mais moça, a Universidade Federal Rural de Pernambuco, ambas contando com enormes campi e áreas verdes, aliás uma das maiores características dessa região, dominada por grandes extensões de floresta, casas de diversos tamanhos e até ruas de barro. Ali se encontram o Jardim Botânico e o Zoológico da cidade do Recife, bem como o açude de Apipucos, bairro verdíssimo, lar do sociólogo Gilberto Freyre e um local que, ao menos por enquanto, continua driblando a expansão imobiliária desenfreada que se desencadeou na cidade nos últimos anos. Essa região também abriga um dos locais mais originais do Recife, o ateliê-museu do artista plástico pernambucano Francisco Brennand. É ali que o escultor se dedica a dar vida a suas obras, criando um enorme espaço dedicado quase que exclusivamente a um único assunto.

Picas.

Sim, picas. A inspiração fálica do trabalho de Brennand é bastante conhecida na capital pernambucana e no meio artístico de forma geral. Ninguém sabe bem de onde veio essa mania de ficar esculpindo bilolas a torto e a direito, mas o fato é que o artista construiu, em seu local de trabalho, uma verdadeira catedral dedicada à exaltação de caralhos de diversas formas e tamanhos, quase tudo feito de cerâmica e geralmente dentro dos contextos mais perturbadores ou alienígenas que a mente insana de Brennand possa conceber.


 Não, esse troço aí não é uma cobra. Pois é.


O ambiente é tão densamente povoado de rolas que faz medo até tocar nas paredes. Aliás, esse é um dos poucos lugares onde encostar-se ao muro é a coisa mais perigosa a se fazer quando em risco iminente de ataque sexual. No final das contas, de fato, dá tudo na mesma. Também é comum encontrar formas vagamente semelhantes a mulheres desmembradas ou órgãos sexuais femininos tendo seus espaços privativos, como direi, invadidos por maçarocas de cerâmica. É um local onde escorregar e cair de bunda no chão equivale mais ou menos a frequentar um chuveiro coletivo em uma prisão para maníacos sexuais, onde você é o novato e, por algum motivo inexplicável, só sobraram roupas de mulher para você vestir.



O novato derrubou o sabonete! Hora do show, meninas!



Mas Brennand é um artista respeitado e, apesar do seu estranho fascínio por cacetes, muito amado pelo povo recifense. Seu trabalho pode ser encontrado em diversas galerias de arte, prédios públicos, painéis e museus, não apenas em Pernambuco, mas em todo o Brasil e fora dele. Os turistas que chegam à cidade pelo porto, vindos dos seus transatlânticos de luxo, são logo saudados pela Praça do Marco Zero, emoldurada pelo belíssimo conjunto de prédios históricos que funcionam como espaços culturais. Também dão de cara com uma jemba de cerâmica de 32 metros de altura, circundada por pitocas menores, um pouco menos assustadoras. O nome oficial é Torre de Cristal, mas o recifense carinhosamente se refere à obra como “A Pica de Brennand”, por motivos dolorosamente óbvios.



 Tamanho É documento.


Francisco Brennand é um senhor simpático com pinta de papai Noel, constantemente passeando pela sua propriedade com sua indefectível bengala e um desnecessário cachecol. Olhando para ele, fica difícil imaginar um velhinho de aparência tão doce projetando esculturas que mais parecem saídas dos pesadelos homoeróticos de algum ilustrador japonês de mangás pornô-satânicos.



 "E agora, o que vou esculpir? Hmm...já sei, uma piroca!"


Mas sua arte não é para todo mundo. Consta que um dia uma senhora dos Estados Unidos foi levada para visitar o ateliê. Por descuido ou pura sacanagem, ninguém avisou a velha que ela estava adentrando uma espécie de santuário dedicado à genitália masculina, de modo que, ao perceber o ambiente abarrotado de trolhas onde ela havia sido jogada, a coitada soltou um “The horror, the horror!”, frase que até hoje enfeita umas das obras expostas, mostrando que de bonzinho Brennand não tem nada, ele curte é tirar onda mesmo. Como a gringa provavelmente não sabia dizer “Putaquepariu, doido!” ou “Fudeu, me jogaram num museu do caralho, literalmente!”, acabou saindo essa frase em inglês mesmo. O relato das testemunhas não especifica se depois de proferir essa sentença emblemática a turista americana saiu correndo pelas matas da Zona Oeste do Recife até ser atacada por alguma onça, de modo que devemos presumir que foi exatamente isso o que aconteceu.

O ateliê de Francisco Brennand é, enfim, um local originalíssimo, daqueles que só se encontram aqui na cidade do Recife e em nenhum outro lugar, para o alívio das beatas locais. Se você estiver visitando a cidade, se certifique de conferir este que é um dos locais mais fascinantes e, em grande medida, perturbadores da capital pernambucana.

Só lembre de não dar as costas a nada nem a ninguém.


 "Se o senhor continuar sorrindo pra mim, eu encho essa sua barba de bala."



terça-feira, 16 de novembro de 2010

O rei





O Sono não reina mais. Foi destronado pela rainha Insônia. Aquela vaca. Desde que se instalou no meu quarto, lá se foi o meu descanso. Brigaram, parece. Aliás, a Insônia, fresca como é, nunca se deu bem nem com o Descanso, nem com o Sossego e até hoje não se bica com a Paz. A safada expulsou todos da minha vida, ciumenta que é, e agora não consigo mais dormir. Ainda acho que é tudo culpa do emissário da rainha Insônia, esse tal de Mestrado em História. Nunca foi um sujeito lá muito confiável. Também pode ter sido o comparsa dele que provocou essa invasão, o tal do Calor Recifense. Esse aí já atacava o Sono há anos e ambos travavam uma guerra sazonal, sem um vencedor permanente. E agora, passo as noites com a realeza, perdendo as contas dos carneirinhos e rezando pela volta do meu amado Sono, hoje exilado sei lá onde.

Mas o verdadeiro rei um dia há de retornar.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Vida de N3rd: a Lan House, parte final


Ele chamou atenção logo ao entrar na loja. Trazia os cabelos em caracóis despenteados, uma barba que não se decidia entre a maturidade ou a adolescência, um olhar que denotava uma estupidez quase bovina e vestia camisas verde-limão, laranja fluorescente ou qualquer outra cor ofensiva ao nervo ótico, desde que exibisse a propaganda de qualquer micareta realizada em alguma cidade esquecida por Deus. Aquele homem parecia ser o subproduto dos movimentos intestinais do próprio satanás depois de uma rodada de sarapatel em algum mercado público da cidade. Deixou sua Kombi, mantida inteira por uma combinação de Durepox e uma profunda fé no divino, no estacionamento em frente à Lan House, destacando-se dos demais veículos nem tanto por seu caráter de transporte coletivo, mas sim pela profusão de adesivos que declaravam, em letras garrafais e ortografia inaceitável, frases tais como “Não mim inveje, trabalhe” ou “Na subida paciênçia, na descida dá licenssa”. Ao entrar no recinto, fez várias cabeças se voltarem em sua direção, nenhuma delas atraídas por sua beleza, que de fato não existia. Ao menos não dentro do conceito atualmente válido de ser humano.



 Mas conceitos mudam.



Nas primeiras semanas, aparecia esporadicamente, mais observando do que utilizando algum serviço. Estudava as partidas travadas entre os meninos e parecia ensaiar mentalmente os movimentos praticados pelos garotos mais experientes. Começou a jogar aos poucos, uma meia hora de cada vez, surgindo entre um trabalho e outro. Logo já se tornaria conhecido dos funcionários e dos outros clientes, construindo sólidas amizades com o vigia da galeria e com o flanelinha da esquina. Aumentou a frequência de visitas até chegar um momento em que parecia jogar mais do que trabalhar, a Kombi servindo meramente como meio de transporte entre sua casa e a Lan House. Até que finalmente chegou o dia em que ele decidiu levar seu vício para o próximo nível de loucura.

Passou o dia alternando entre jogar e discutir com crianças que tinham um terço da idade dele, ocasionalmente relaxando com algumas sessões de MSN, nas quais conversava com pessoas de apelidos suspeitos, tais como Dengosa_Kom_Pinto ou 30cm_DiMorenici. Seguiu sentado na poltrona até o final do meu turno e não levantou mais, renovando suas horas sem parar e já acumulando um débito considerável. Passei o turno para o próximo funcionário, alertando para a criatura que parecia ter se fundido à poltrona e larguei do serviço. Na manhã seguinte, fui trabalhar como outro dia qualquer e constatei que, sim, o desgraçado continuava no mesmo lugar. Havia passado o dia anterior e a madrugada toda colado ao mesmo lugar, jogando sem parar. Chequei o programa que administrava os usuários e vi horrorizado a conta acumulada que logo entraria na casa dos dígitos triplos. Liguei para René explicando a situação e ele, ingênuo, estava certo de que o kombeiro pagaria tudo no final. Com a gerência autorizando aquele show de horrores, fiz as pazes com meu Deus e fui trabalhar.

Passou-se um dia. Outro. E depois mais outro. Ele apenas se levantava da poltrona para realizar coisas inomináveis no sanitário e se encher das porcarias vendidas para alimentar os clientes mais corajosos. Engordava como um porco em época de abate, transpirando um suor amarelo que pingava pelo assoalho, acumulando-se nos braços da cadeira, que já exibia sinais de corrosão avançada. Crescia a olhos vistos, como um tumor maligno alimentado por doses maciças de raios-X e fast-food. Aquele ser grotesco já estava começando a se tornar uma atração turística local, atraindo pessoas que compareciam apenas para ver aquela aberração de perto. Os funcionários apostavam entre si em qual turno o corpo dele finalmente iria se render e buscar o doce alívio da morte. Eu rezava para que não fosse no meu.



 Não posso morrer agora, ainda tenho muito o que realizar!



Depois de uma semana dessa existência não natural, René finalmente juntou coragem para se aproximar da besta-fera criada por nós mesmos e propor um desconto em sua já extensa milhagem de computador, desde que ele quitasse sua dívida imediatamente. O monstro ruminou a ideia por alguns momentos e prontificou-se a pagar. Tinha apenas que ir buscar seu dinheiro em casa, onde havia esquecido sua carteira, provavelmente ao lado de sua humanidade. Para meu espanto, meu gerente e amigo aceitou a proposta e todos observamos assombrados a coisa erguer-se da poltrona, encerrando uma semana de imunda simbiose, e partir em sua Kombi caindo aos pedaços. A cadeira, que depois dessa provação apresentava uma silhueta de suor de formato vagamente humano em seu estofamento, já não podia mais ser utilizada devido ao terrível odor impregnado nela, misturando o cheiro de axilas rançosas, pedaços decompostos de salsichas empanadas e uma semana de peidos praticamente ininterruptos. Foi confiscada pela Saúde Pública para ser incinerada ou doada para alguma faculdade de Biologia, já não lembro mais.

Quando questionei René sobre a decisão de deixar o cara ir embora quando o mesmo, obviamente, não tinha a menor intenção de voltar e saldar sua dívida, meu amigo deu um longo trago em seu cigarro, com os olhos perdidos no horizonte de arranha-céus de Boa Viagem e sentenciou:

- Fred, ruim mesmo era se ele continuasse aqui. Antes uma semana de débitos perdida do que aquele encosto por aqui mais tempo.

Reconheci a sabedoria contida naquelas palavras e me consolei com o pensamento de que, algumas vezes, vencer não é uma opção. Nunca mais vimos o kombeiro e esse fato trouxe alegria e esperança aos nossos corações. O futuro, agora, parecia mais promissor e nos permitíamos até fazer planos, livres daquela presença horrenda em nosso ambiente de trabalho.

A Lan House faliu pouco tempo depois desse episódio.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Vida de N3rd: a Lan House, parte II


Ao menos eu trabalhava nos períodos da manhã e começo da tarde. Era muito pior para quem trabalhava à noite e um verdadeiro pesadelo para os folguistas, que eram obrigados a comparecer aos domingos e feriados. Mas o fumo maior ficava reservado para o funcionário da madrugada. Pois é, a Lan House funcionava 24 horas por dia, a primeira do Recife a oferecer esse serviço na época. No período diurno de funcionamento a clientela era composta, em sua maioria, de crianças e adolescentes mal educados, enquanto que no noturno compareciam os pais dessas mesmas crianças e adolescentes, também mal educados, mas com muito mais dinheiro para gastar. Já as madrugadas eram reservadas para os párias sociais, criaturas desprovidas dos conceitos mais básicos de civilização e cujos fetiches inomináveis, aliados a uma total falta de noção de regras de convívio humano os levavam a se reunir na Lan House. Como animais selvagens, reconheciam a própria espécie e se aglomeravam entre os seus, fugindo da luz e das outras pessoas, que tentavam lhe incutir, muitas vezes a força, ideias inaceitáveis acerca de educação, estética e higiene corporal. 



 Eu, ahh...só ia dar uma limpada no cooler.



A vida do funcionário madrugador se resumia, basicamente, a lidar com essa escória maldita, lutar contra o próprio sono e tentar achar algum filme pornô que ele ainda não houvesse baixado. Como o horário era praticamente desprovido das leis dos homens e de Deus, era comum que clientes e empregados se juntassem em sessões de cinema que se estendiam até a manhã do dia seguinte, exibindo as películas mais grotescas e imundas do cinema erótico mundial. A sacanagem só parava quando as primeiras crianças começavam a bater na porta de vidro na manhã seguinte, que era quando eu rendia o funcionário do turno anterior e assistia, enojado, o desfile de seres peludos, suados e trêmulos, os olhos avermelhados e um sorriso horrendo lhes deformando a cara, finalmente seguindo para suas casas, tocas, caixas de papelão ou onde quer que se escondessem dos raios solares ao raiar de cada dia. Como se pode perceber, a clientela era bastante diversificada e, como tudo o que era necessário para usar as máquinas era um cadastro e, claro, dinheiro, praticamente qualquer tipo de pessoa aparecia por lá.


Não tínhamos escrúpulos. Nem beleza.


A Lan House, de cuja abertura eu havia participado, já funcionava há alguns meses e tínhamos tido nossa cota de desajustados e aberrações sociais. Os problemas, quando surgiam, eram geralmente causados por disputas que aconteciam no mundo virtual de Age of Empires ou de Counter Strike, raramente evoluindo para lutas no mundo real. Contribuía para isso a ojeriza que a maioria dos clientes parecia sentir do contato físico com outros seres humanos, além de uma generalizada falta de disposição de se levantar da poltrona. De maneira que tudo prosseguia de forma mais ou menos tranquila até a chegada dele.

O kombeiro do inferno.

Depois dele, as coisas nunca mais fora as mesmas na Lan House.

Continua...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Vida de N3rd: a Lan House, parte I

Meu primeiro emprego selou de vez o meu destino nérdico: atendente de Lan House. Isso foi no começo do século, no bairro de Boa Viagem, zona sul do Recife, lá pelos lados do colégio Contato, que hoje já nem existe mais. Eu era jovem, inexperiente e muito mais mal-humorado do que sou hoje em dia. Enxergando aí as habilidades necessárias para o cargo, meu amigo René, o gerente, me ofereceu a vaga, a qual eu aceitei feliz da vida, já que imaginava ser a ocupação perfeita para mim. Na minha cabeça, meus dias iriam se resumir a surfar na Internet utilizando a vertiginosa conexão de 128k a que tínhamos acesso, jogar todos os games do mercado e descansar na enorme poltrona que ficava atrás do balcão, dominando todo o ambiente devidamente climatizado.




 Naquela época, tudo era mais diversificado.




Pois é. Além de ingênuo, nessa época eu era também um pouco bobo. Trabalhar em uma Lan House estava longe de ser o sonho de qualquer garoto nerd, por uma infinidade de motivos. Um deles era os clientes, já que lidávamos com crianças que se inseriam em uma faixa etária que variava entre 10 e 55 anos de idade. A meninada era mal-educada, fedorenta, feia e juro que a maior parte deles sofria de alguma deficiência mental e/ou desvio moral. Nos dias de hoje, a maior parte deles pode ser encontrada nos noticiários policialescos estilo Cardinot, protagonizando atos criminosos dos mais vis, mas ao menos estão todos com boa saúde. 


 Fred, rapaz, quanto tempo!
 

Os garotos costumavam passar as manhãs gazeando aula, jogando e gastando o dinheiro do lanche na Lan House, de forma mais ou menos impune, o que sem dúvida diz alguma coisa do nosso sistema educacional. De vez em quando, algum pai descobria a pilantragem e ia bater na Lan atrás do filho. Dependendo da raiva, baixava o cacete no menino ali mesmo, fato que era acompanhado pelos estressados funcionários com sinais afirmativos de cabeça, sorrisos sádicos e ocasionais gritos de “Chuta o ovo!”.

Mas a clientela, apesar de jovem, era bem esperta e esses episódios eram infrequentes. Muitos preferiam não arriscar a pisa e iam jogar antes ou depois das suas aulas, à noite ou nos finais de semana e feriados. Passavam horas competindo e berrando ensandecidamente uns com os outros, comendo porcarias (vendidas por nós mesmos) e tornando o banheiro um lugar inóspito para formas de vida humanas. Os meninos eram tão boca-suja que eu aprendi mais palavrões trabalhando na Lan House do que em toda a minha infância no Janga, um lugar onde cumprimentávamos nossos amigos mais queridos xingando as mães uns dos outros. Era necessário cadastrar os clientes para liberar o acesso à máquina, de maneira que a meninada aproveitava para criar os nomes de usuário mais pornográficos possíveis. Os logins geralmente consistiam em uma combinação de uma referência bélica qualquer, um palavrão e um grande número de absurdos e desnecessários símbolos comumente associados à tipografia encontrada na Internet. Nosso banco de dados estava abarrotado de usuários como Bucet@_eXplosiv@, Tiro%ne$$e%Karai ou Bilol@deBazuK@. Bala_nufuriku era um dos nossos melhores clientes. Como todos se tratavam pelos apelidos, os próprios funcionários acabavam esquecendo os nomes de batismo da criançada e passava a se referir a eles usando os de guerra mesmo. De vez em quando, algum moleque pedia para ligar para os pais, para que o fossem buscar na Lan House. Quando o funcionário de distraía, esse tipo de diálogo podia acontecer:


- Alô? Dona Fulana? Aqui é Frederico, da Lan House. Isso, da Lan House. Lan-Rau-Si. Pronto. É que #minh@rol@ tá aqui em pé na minha frente, chamando pela senhora.

- Como é que é?!

- Putamerda! Não, quer dizer, putaquepariu! Quer dizer...ah, deixa pra lá. Tu, tu, tu...

- Alô?


Sim, era costumeiramente constrangedor, frequentemente insalubre e era tudo feito por um salário mínimo. 8 horas por dia. Mas nada é tão ruim que não possa fica pior.

Muito, mas muito pior.


Continua...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Intolerável intolerância





Não é fácil se esquivar das polêmicas que surgem na Internet, por mais que se tente. Essa característica de terra de ninguém, de anonimato, de espaço livre para se dizer o que pensa, não importa o tamanho da bobagem que seja, acaba fazendo com que o mundo virtual se torne um reduto para aqueles que, provavelmente, terias suas ideias e ideais rechaçados por seres humanos de carne e osso. E aí a Internet vira uma bagunça, com gente falando o que quer e muito mais pessoas escutando o que não quer, sem nenhuma consequência, regulamentação ou punição.

Pois é. Lá pelos idos dos anos 90 do século passado. Hoje as coisas estão bem diferentes.

Terra de ninguém? Mais para terra de todos. A inclusão digital já é uma realidade, inclusive no brasil. Cada vez mais a população menos favorecida consegue acessar a rede mundial, com todos os benefícios e também, claro, prejuízos que tal exposição pode trazer. Anonimato? Dificilmente. Com uma infinidade de redes sociais disponíveis e uma obsessão crescente entre os internautas, especialmente os mais jovens, de expor a própria vida na web, fica muito difícil ser um cidadão virtual invisível nos dias de hoje. Espaço livre para se dizer o que pensa? Aí é que as coisas começam a se complicar. A Internet é, de fato, um ambiente altamente democrático, com pessoas de diversas origens, defendendo suas opiniões com unhas e dentes, escudadas pela sensação de segurança criada pelo cenário virtual e a aparente distância física entre os interlocutores. Contudo, nos dias de hoje, é cada vez mais difícil lançar opiniões impensadas, infundadas, intolerantes, preconceituosas ou simplesmente estúpidas na rede sem que haja consequências. E elas chegam com cada vez mais rapidez.

Agora existem leis regulamentando o uso da Internet e, com as leis, vêm as punições para os que as desrespeitam. Que fique claro que legislação nenhuma pode mudar a mentalidade um individuo. As regras existem para coibir o comportamento daqueles que tencionem ferir os direitos do próximo. Mas não alteram a cabeça de ninguém. Racistas continuarão racistas, homóbos seguirão homófobos e todo aquele que trouxer, marcado em seu coração ou em sua alma, a mancha do preconceito, qualquer que seja ele, continuará a nutrir as mesmas opiniões pré-concebidas, independente da legislação vigente, seja no Brasil ou em qualquer outro país. Os intolerantes jamais perderão o direito de ter pensamentos intolerantes.

Mas não podem expô-los. Jamais. É feio. É desprezível. É crime. Sim, crime. E sim, você, eu e todas as pessoas perdemos o direito de expressarmos nossa intolerância, nossa estupidez e nossa ignorância. Aos preconceituosos resta apenas o ostracismo, a lepra social, esconder a própria imbecilidade em guetos pseudo-intelectuais, como ratos chafurdando em uma lama viscosa, viciada, um lodo formado pela burrice e pela recusa em aceitar o que é diferente. E que não se use a divergência de opiniões para se justificar atitudes preconceituosas. Existe uma maneira muito fácil de descobrir se a sua opinião sobre determinado assunto é simplesmente polêmica ou definitivamente preconceituosa. Declare-a em voz alta em praça pública, que é o espaço mais democrático pertencente ao povo. Se as pessoas olharem para você com ódio, te agredirem com palavras e atos e você acabar indo parar na delegacia mais próxima, é muito provável que você esteja professando uma opinião intolerante e, portanto, inaceitável. Faça o teste. Vá até o centro da sua cidade e grite que detesta nazistas. Berre que odeia políticos corruptos. Esbraveje contra os pedófilos e molestadores de mulheres. Ninguém vai te olhar feio e muita gente pode até se juntar à sua arenga.

Agora experimente fazer o mesmo em relação a negros. Ou a idosos. Ou mulheres. Ou nordestinos. É muito provável que você acabe em uma situação de linchamento e talvez só a intervenção da polícia possa salvar a sua vida. Isso porque sua opinião feriu o bom-senso geral, aquela homogeneidade de ideias que permeia a mentalidade do coletivo e que nos permite viver em sociedade, com regras e civilidade, onde as pessoas possuem, ainda que de forma rudimentar, uma noção de certo e errado. Em inglês, isso se chama common sense, ou senso comum, o que faz ainda mais sentido do que a expressão em português. Comum porque pertence a todos. Existe alguma lei que me impeça de contar piadas em um funeral? Não faço ideia, mas não preciso realmente saber, pois o meu bom-senso, construído através das minhas interações no meio social ao qual estou inserido me dizem que essa não é uma boa ideia.

Ninguém é preconceituoso por ingenuidade ou pura falta de traquejo social. A intolerância tem o propósito muito específico de ferir, de destruir, de humilhar, de deixar cicatrizes. E quem a perpetua sabe bem o que está fazendo. Pode até não acreditar naquilo que está falando, por saber que são absurdos infundados. Mas teve a intenção, que se transformou em ato e que acabou repercutindo, talvez muito mais do que o autor imaginou que fosse possível, esquecendo-se da abrangência da Internet e da vigilância cada vez maior daqueles que decidiram não mais tolerar esse tipo de atitude. E que o vigilantismo continue. 

Que não haja espaço na Internet ou e qualquer outro ambiente, real ou virtual, para aqueles que sofrem das doenças do racismo, da homofobia e da xenofobia. Que tais indivíduos sejam separados da sociedade, por não a merecerem, e que aqueles que escaparem dessa quarentena sejam obrigados a ocultarem seus pensamentos para todo o sempre, vivendo uma mentira e vestindo uma máscara de civilidade, até que aprendam a amá-la e não saibam mais viver sem ela. Que se curem desses males ou sofram os horríveis sintomas dessas enfermidades sociais, destruindo suas próprias vidas, mas jamais ferindo a dignidade do próximo. Que o ódio irracional que sentem se renove em amor ou que se destile em veneno, apodrecendo suas almas além de qualquer salvação. Que se arrependam de seus pecados ou aceitem as consequências dos seus atos. 

Chega de tolerar a intolerância.