quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O sonho










Eu raramente lembro os meus sonhos. Sim, porque de acordo com os cientistas, não é uma questão de sonhar ou não. Sonhamos sempre, geralmente várias vezes em uma única noite. Mas nem sempre os devaneios ficam gravados na memória. Pode haver uma boa razão para isso, uma vez que os pesadelos acabam, assim, possuindo uma vida muito mais efêmera. E recordar, durante o dia, os terrores noturnos talvez fosse demais para as mentes normais. Reviver um trauma dia após dia, nos mínimos detalhes, vivenciando novamente um horror que jamais aconteceu. Essa pode, talvez, ser a melhor descrição que se pode imaginar para o inferno. Se tal lugar existe de fato ou se é apenas uma construção da nossa imaginação cristã-ocidental, pouco importa. Quando temos um pesadelo, vislumbramos, por um momento congelado no tempo e espaço, essa dimensão de horrores infindáveis e descobrimos, aterrorizados, que o inferno, afinal, não passa de um canto obscuro de nossas próprias almas, do qual jamais poderemos escapar.

E agora eu compartilho com vocês minha última visita a esse lugar sinistro. 


***


“E se você olhar longamente para o abismo,
o abismo também olha para dentro de você.”

Nietzsche



Sentia a areia fina sob meus pés descalços. Havia árvores ao meu redor, lançando sombras retorcidas aos meus pés, como que tentando agarra-los, prendê-los ao chão. Olhei à minha volta lentamente, tentando absorver em uma única e profunda respiração o local onde eu me encontrava. Meus ouvidos captaram um som distante, ritmado, um vai-e-vem constante que me avisava que o mar estava perto. Às minhas costas, as árvores se aproximavam umas das outras, formando uma apertada ciranda de galhos, como que a proteger algo sagrado, um conhecimento tão terrível que apenas aquelas guardiãs mudas e eternas poderiam ousar fazê-lo. Súbito, senti que era observado. 

Havia olhos acompanhando meus movimentos. Vários deles, seguindo meus passos, meus gestos, marcando o ritmo da minha respiração, que se acelerava cada vez mais. Minhas pernas, pesadas de medo, não obedeciam nem aos meus comandos, nem as minhas súplicas. Senti um movimento com o canto do olho e virei-me lentamente nessa direção.  Havia uma criança ali. Tinha, assim como eu, os pés descalços, os dedos infantis deixando leves rastros na areia. Os cabelos eram longos, escuros e cacheados, emoldurando um rosto jovem demais para que se definisse com segurança seu sexo. Olhava diretamente nos meus olhos, enquanto se aproximava vagarosamente. Senti que outras crianças chegavam mais perto, deixando as sombras das árvores, vindas de todas as direções. Seus grandes olhos negros jamais deixavam os meus e pareciam roubar a voz da minha garganta, que não produzia som algum. Chegou mais perto, permanecendo a poucos passos de mim. Estendeu sua pequena mão, alva, quase translúcida, em direção ao meu rosto. Seus lábios se abriram e foi então que eu ouvi.

O som era como o guinchar de algum animal ferido, estridente, distorcido, metálico. Olhei para aquela estranha criatura a minha frente, sem compreender, e percebi que não era dela que partia aquele terrível ruído. A criança arregalou seus olhos escuros e pude ver o medo refletido neles. Mais um guinchar vindo da floresta as minhas costas, dessa vez mais perto, e um som como grandes árvores tombando lentamente, resistindo em se entregar ao solo que é tanto sua casa quanto seu carcereiro. Senti que o chão estremecia em um ritmo cadenciado, moroso e cada vez mais próximo. Senti as sombras se adensando ao meu redor, não exatamente como se o sol se pusesse repentinamente, mas como se algo, vindo da floresta, fizesse com que a luz do dia se afastasse, fugisse, nos abandonando a uma noite não natural, povoada de coisas incompreensíveis e terríveis. Súbito, a criança agarrou minha mão com dedos que pareciam feitos de gelo. Senti que meus membros inferiores voltavam à vida através daquele toque gélido e eu pude acompanhar aquele ser estranhamente infantil, que tentava freneticamente me afastar daquilo que estava vindo pela floresta.

O som novamente, como o grito de dor de um deus assassinado por suas criaturas, crescendo cada vez mais, dilacerando meus tímpanos, buscando meu coração. Naquela estranha penumbra, podia discernir vultos pálidos correndo por entre as árvores. Eu me movimentava cegamente, sem saber para onde ir e do que eu fugia, sentindo a vibração atrás de mim, escutando o barulho horripilante de árvores sendo derrubadas e arrancadas do solo. A algazarra era agora ensurdecedora, tão próxima que parecia nos envolver completamente, abafando o ruído das ondas distantes. Paramos em frente a uma árvore alta, antiga, com vários galhos grossos se projetando do seu tronco retorcido. Subimos. A vibração agora fazia com que o chão tremesse, os galhos balançassem, a árvore inteira ameaçasse ser atirada por terra, enquanto subíamos sem parar. Exausto, sentei-me em um galho, oculto por uma densa folhagem e coloquei os dedos nos ouvidos, tentando isolar aquele som infernal, cerrando os olhos e sentindo a vibração atingir seu ápice, quase me derrubando em sua violência. Havia chegado.

Súbito, apenas o silêncio. O único som era da minha pulsação latejando em meus tímpanos e a minha respiração ofegante. Lentamente, retirei os dedos dos ouvidos e abri os olhos. A criança que me havia guiado até ali estava em um outro galho, mais baixo. Ela tinha uma expressão de terror inimaginável em seu rosto andrógino, mal parecendo capaz de respirar. Meu coração bateu furiosamente e meu cérebro gritava para que eu fugisse, corresse, abandonasse tudo, morresse, qualquer coisa, menos permanecer naquele lugar. Segui a direção do seu olhar e foi apenas então que eu vi. 

Entre árvores caídas e galhos partidos, eu pude enxergar o primeiro deles. Havia outros, parados em cada um dos lados do que estava mais próximo. Havia algo perturbadoramente familiar em suas silhuetas, como um terror antigo, jamais esquecido, que desperta com o correr dos anos, selvagem, incompreensível. O primeiro deles deu um passo para frente, em um movimento mecânico, lento, não natural, depois imitado pelos companheiros. Eram mais altos que as árvores e tinham o copo volumoso coberto por um pelo curto, castanho claro. Mais um passo, custoso, deliberado, fazendo o chão tremer e os galhos das árvores balançarem suavemente. Tinham orelhas grandes, projetando-se do alto de suas cabeças arredondadas. Estas se mexiam muito lentamente para a esquerda e para a direita, com um estranho zumbido, como que buscando algo ou alguém. Mais um passo. Agora eu podia ver claramente o que eram. 

Memórias da minha infância fluíram até minha mente. Eu já os tinha visto antes, muitas e muitas vezes. Reconheci o focinho curto, imóvel e pálido. Os olhos eram dois poços negros, nada refletindo. Eram ursos, como os de pelúcia com os quais as crianças costumam brincar, conversar, confiar segredos, levarem para as suas camas antes de dormir. Mas tudo naquelas criaturas parecia errado. O tamanho absurdo, os movimentos lentos, artificiais, a expressão vazia, os olhos mortos, as mãos peludas terminando em garras. Garras. Ao olhar para elas senti que meu corpo tremia incontrolavelmente e senti que o bater do meu coração seria capaz de denunciar minha presença. Os ursos seguiram em seus passos lentos, as cabeças agora fixadas em um ponto à frente, fazendo o solo estremecer à sua passagem. O primeiro deles seguiu na dianteira, acompanhado pelo que se encontrava a sua direita. O da esquerda, mais próximo á arvore que servia de refúgio para mim e para a criança, continuou caminhando, parando subitamente ao alcançar nossa posição.

Os outros ursos, silenciosamente, também se detiveram em seu percurso. Estava bem próximo de nós agora, ainda voltado para algum ponto onde deveria estar o mar. Podia sentir uma vibração profunda, grave, que parecia emanar do corpo da criatura mais próxima de mim, tão perto que eu poderia estender a mão e tocar seu pelo macio, se me atrevesse. Fiquei completamente imóvel, sem ousar ao menos respirar, sentindo uma gota de suor brotar da minha testa e viajar pelo meu rosto, descendo pelo canto do nariz, desviando dos meus lábios e pendendo do meu queixo trêmulo. O urso moveu uma de suas pernas, monocórdico, prestes a seguir em sua caminhada. Foi então que sua enorme cabeça virou em minha direção, rapidamente, os buracos negros que eram seus olhos fixados nos meus. De dentro dele, partiu um grito medonho, um urro de ódio e dor que não poderiam jamais ser compreendidos pela mente humana. Minhas forças me abandonaram e eu caí do galho. Os outros ursos responderam ao chamado, todos guinchando de forma ensurdecedora, a vibração aumentando, atravessando meu corpo. Corri. 

Corri na direção oposta a daquelas coisas medonhas. Corri em direção ao mar. De alguma forma, sabia que estaria seguro, se ao menos conseguisse alcançar a praia. Não olhei para trás. Pelo canto do olho, vi as outras crianças fugindo e gritando. Não parei para lutar, para ajuda-las. Nem ao menos pensei nisso. O terror abjeto, incontrolável, guiava meus passos. O chão tremia violentamente, os terríveis urros emitidos pelos ursos reverberando pela floresta, roubando a força das minhas pernas. Caí. Deitado na areia fria, tive coragem de olhar para trás. Um dos ursos carregava em sua garra uma das crianças, que se debatia inutilmente. Era a que havia me tomado pela mão e guiado para segurança temporária das árvores. Vi o desespero em seus olhos infantis, que pareciam desejar a morte, o esquecimento, a não existência, qualquer coisa, menos o destino que lhe aguardava. O urso aproximou lentamente a criança do seu focinho. Ela me avistou e seu olhar implorava por ajuda. Virei as costas e recomecei a correr, ouvindo o terrível berro da criança, misturando-se a outros gritos infantis, aos urros de dor, fúria e desespero que formavam uma sinfonia medonha e espectral.

Corri. Sentia que o mar estava bem a minha frente, podia discernir o barulho das ondas quebrando suavemente na praia. Um a um, as vozes das crianças silenciaram e tudo o que eu ouvia então era o marulho da água e minha respiração ofegante. O mar se encontrava à minha frente, eu ia conseguir. Foi então que senti garras se fechando em torno de mim, erguendo-me do chão e senti que estava perdido. O urso virou-me em sua direção, aproximando-me cada vez mais de seu rosto vazio, destituído de expressão. A vibração trovejava pelo meu corpo, enquanto os olhos opacos da criatura me estudavam, frios, inumanos. Parou. Tudo era silêncio. Então, subitamente, eu compreendi o que me esperava e gritei, meu berro se confundindo com o guinchar do urso, cujos olhos se aproximavam mais e mais de mim. E então, escuridão.

E então, mais nada.


***

Esse texto é dedicado a todos aqueles que, em algum ponto de suas vidas, tiveram medo do que o sono poderia lhes trazer. Os sonhos, dizem, nada mais são do que um reflexo distorcido de nós mesmos. Distorcido, mas não menos verdadeiro.


sábado, 4 de dezembro de 2010

Turismo no Recife: Club Metrópole











Recife tem muitas opções de lazer para aqueles que curtem se jogar na balada. São casas de show, bares dançantes, clubes noturnos e tudo mais. Eu, pessoalmente, não sou um grande fã de boates. São lugares onde é quase impossível conversar, a bebida é cara, a comida é ruim e sempre me sinto aquele tipo de cara. Sabe como é, aquele tipo. O deslocado-que-não-consegue-se-divertir-e-acaba-estragando-a-noite-dos-amigos-dormindo-no-balcão-até-babar-e-aperreando-para-ir-embora-logo. Esse tipo. De modo que geralmente evito. Mas, na euforia da minha aprovação no Mestrado de História da UFPE, acabei marcando com alguns amigos para ir a uma, como diria minha mãe, danceteria. E se é para ir, melhor enfiar o pé na jaca logo. Resolvi aceitar a sugestão do pessoal e conhecer a balada gay do Recife. Aparentemente, a cidade possui inúmeros pontos de encontro GLS, mas o mais famoso (ou infame, se você for uma pessoa preconceituosa) é o clube noturno Metrópole, localizado no bairro da Boa Vista, centro.

Admito que no começo fiquei meio apreensivo. Não sabia bem o que ia encontrar lá dentro e nem qual é o comportamento adequado em um lugar assim. Acabei confirmando um velho preconceito meu: boates são todas iguais. Música alta. Gelo seco. Laser nos olhos. Gente demais. Menino beijando menino. Menina beijando menina. Tá, esses últimos já é mais incomum, mas aí que está justamente a graça. Quem vai para a balada gay já é, por definição, uma pessoa desprovida de frescuras, independente de para qual time torce. O pessoal está lá para realmente se divertir e se soltar, coisa que não acontece nas boates extrema-direita, onde as pessoas vão mais para ver e serem vistas, nunca parecendo ser realmente elas mesmas. 

Assim, lá estava eu, em uma boate gay, junto aos meus amigos gays e tentando não fazer aquela cara de turista em relação a tudo o que me cercava. E para quem é novato, uma das coisas mais divertidas é tentar descobrir quem é gay e quem não é. Não é tão simples quanto pode parecer à primeira vista, por isso é sempre bom contar com a consultoria de quem entende do assunto.


- Meu radar não falha, pode confiar. Tá vendo aquele ali, Fred? Viado. Aquele outro? Viado. Viado. Viado. Libélula ensandecida. Viado. Viado...

- A gente tá numa boate GLS, isso é meio óbvio, né?

- Nada disso. Tem que ter o sensor. Porque muita gente frequenta, mas não é. Você, por exemplo.

- Hmm. Ok. Então deixa ver se eu consigo identificar. Aquele ali. Não tem jeito de frango.

- É, aquele nunca viu um pinto...

- Há, acertei!

- ...porque tava sempre de costas.

- Putamerda!

- Pois é. E aquele ali? O que você acha?

- Gay.

- Muito bem. E aquele outro?

- Gay.

- Acertou! Menina, tu leva jeito pra coisa!

- ...

- Tá, último teste. E aquele ali?

- Aquele nem precisa de radar, né? Tá na cara que é frango.

- Errou. 

- Errei?!

- Aquele ali não é gay. Só é alvirrubro.

- Aí não vale.

- Eu sei, fica difícil, né?


Interessante também é dar de cara com gente conhecida. Como a homossexualidade ainda causa, no mínimo, estranhamento para muita gente, muitos preferem evitar ser vistos em lugares como a Metrópole. Os atores da Globo que o digam. Outros, mais ousados, ainda chegam a frequentar, mas já com uma história pronta para camuflar suas verdadeiras intenções ali. Nem sempre dá muito certo.


- Professor! O senhor por aqui?

- ...eu...Frederico? Como...como você está?

- Olha só, quem diria? Não sabia que o senhor curtia!

- Não, eu...veja bem...isso aqui é um...isso aqui é um estudo de campo na área de História Social. Sim. História Social. Meu objetivo é analisar a evolução de certos grupos urbanos dentro de um sistema de interação social plural e culturalmente polissêmico sob a uma perspectiva natur...

- Professor, aquele boy com quem o senhor tava dançando Banda Lapada agorinha tá chamando o senhor.

- ...boy? Que boy? Estou aqui desacompanhado, Frederico! Vim para realizar estudos acadêmicos importantíssimos in loco e não sei a que “boy” você se refere.

- Me refiro aquele ali atrás, de blusinha roxa acochada e que nesse exato momento tá apontando pro senhor e estendendo as mãos pra frente, na altura da cintura e fazendo movimentos pélvicos de vai e vem.

- Ora, é evidente que não é comig...

- ...e que acabou de passar a mão na sua bunda. Esse boy aí.

- ...

- Bem novinho ele, né?

- Frederico, eu já lhe dei as notas da sua última prova?


Meu futuro acadêmico está garantido, sem a menor dúvida. Mas nem todos são assim, enrustidos. Ao contrário, o povo vai mesmo é para se jogar. E era o que estava fazendo um dos frequentadores, dançando freneticamente sobre o queijo em um dos pavimentos da boate. Ele era alto, magérrimo, mostrava sinais de calvície precoce ao mesmo tempo em que exibia um penteado inaceitável, estilo Playmobil, composto dos restos de cabelos crespos que partiam do meio da cabeça e chegavam quase aos ombros, “estirados a pulso”, como diria minha mãe. Vestia camisa e calça apertadíssimas, valorizando seu corpo esquelético e evidenciando o terrível fato de não estar usando cueca. Enfim, parecia o avesso do cu do cão. Mas como dançava. Dançava como se ninguém estivesse ali, ninguém que pudesse julgá-lo ou achar graça de uma figura tão exótica. Dançava para todos e para pessoa alguma. Dançava para si próprio, como se estivesse na sala de sua casa. Dançava do jeito que se deve dançar, sem dever nada a ninguém.

E por falar em dever, a Metrópole possui uma espécie de moeda própria, composta por cédulas rosa de valores variados, criativamente batizadas de “Pink”. Tem gente que comparece tanto ao local que acaba trocando todo o dinheiro de verdade pela grana gay. Uma amiga minha confessou que chegou a passar uma semana se deslocando a pé porque a única coisa que encontrava quando abria a carteira na catraca do ônibus era Pink. Real que é bom, nada. Além do câmbio diferenciado, existe também um sem número de expressões próprias do mundo gay, de uso cada vez mais corrente. Gírias como “beijo, me liga”, “arrasou, amiga” e “abafa” já são de uso geral, inclusive por muito homófobo por aí que não faz ideia do que está falando. Outras são bem mais específicas e um tanto quanto restritas.


- O que ele tem que tá tão morgado, heim?

- Ah, Fred...esse deve tá com CRO.

- Fudeu. Que porra é CRO?

- Carência de Rola no Organismo.

- Putaquepariu, por que eu ainda pergunto essas coisas?!


Problemas de comunicação à parte, posso dizer que minha noite na balada gay foi bastante divertida. As pessoas são animadas, muito respeitadoras e a música do ambiente, se não é exatamente do meu tipo favorito, ao menos é bem melhor do que o que se ouve nas boates hetero da vida. E se você não se animou para ir, não se preocupe. A night vai bombar com ou sem você, nêga. E na próxima vez que vier ao Recife, lembre-se de dar uma passadinha na Metrópole, conheça a proprietária e madrinha GLS da cidade, Maria do Céu, gaste alguns Pinks no bar, suba no queijo e desça até o chão. 

Arrasou!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O país dos carros queimados




Isso que você aí em cima é um carro queimado. Não, não sou carioca, nem morador do Rio de Janeiro. A rua onde essa carcaça se encontrava até pouco tempo atrás é uma via tranquila do bairro residencial de Setúbal, zona sul do Recife, Pernambuco, Nordeste do Brasil, para os que sofrem de dislexia geográfica. Quando saí de casa de manhã cedo para trabalhar e dei de cara com esses destroços fumegantes, fiquei assustado. Não sabia o que havia acontecido, não tinha como descobrir naquele momento e, resignado, montei na minha bicicleta e segui para dar minhas aulas de inglês.

Quando voltei, à noite, ele continuava lá. Parecia ainda mais triste no escuro, a falta de luz enfatizando mais do que escondendo os destroços retorcidos, uma mancha de fuligem embaixo do veículo se misturando com a noite em volta. Imaginei as piores coisas. Talvez algum bandido houvesse promovido um assalto fazendo uso daquele carro, certamente roubado de alguma vítima infeliz, e ao final da ação o meliante teria decidido apagar com fogo a memória dos seus atos. Também era possível que fosse um crime passional, uma amante enlouquecida de ciúmes que, na falta do corpo do amado, havia se contentado em atear chamas ao seu veículo, pobre substituto de uma paixão obsessiva. A minha mente criava mil explicações para a presença daquele cadáver de metal e vidro, jazendo ali, bem na porta do meu prédio.

O mistério se resolveu rapidamente e era bem mais desinteressante do que os cenários hiperbólicos criados pela minha imaginação desenfreada. Uma vizinha havia tido um problema de aquecimento com o radiador, que entrou em combustão e reduziu o veículo ao estado no qual eu o havia encontrado de manhã cedo. Nada de marginais audaciosos ou paixões piromaníacas, portanto. Agora seria apenas uma questão de aguardar a retirada dos restos carbonizados e a rua voltaria à sua tranquilidade habitual.

Isso não aconteceu no dia seguinte. Nem no dia depois desse. Passou-se uma semana e o carro continuou lá. A cada manhã eu imaginava que sairia para trabalhar sem ter que olhar aquele entulho queimado na minha rua e sempre me frustrava. Imagino que os vizinhos também se horrorizavam com aquela paisagem e desejavam ter aquele traste removido o quanto antes. Mas ninguém fazia nada. Acometidos por aquele sentimento coletivo muito comum do “Deixa pra lá, não é problema meu”, as pessoas iam esperando que a proprietária do veículo resolvesse a situação e ninguém tomava uma atitude. Em poucas noites, a carcaça foi saqueada, mãos invisíveis levando tudo e qualquer coisa que pudesse ser vendida. O esqueleto de metal, agora com um aspecto ainda mais deprimente, se tornava um depósito de lixo para todos os que passavam por aquela via. Também se tornou ponto de referência, mas para aquele que querem evitar certos lugares estranhos ou suspeitos. “É depois daquela rua do carro queimado”, diziam as pessoas, “mas é melhor ir por outro lugar. Ali é meio esquisito.” A área foi ficando cada vez mais vazia, a coleta de lixo simplesmente não dava mais conta do acúmulo irregular e diário de detritos e agora o local começava a atrair a presença de pessoas que passavam as madrugadas junto aos restos de metal, os rostos sujos iluminados pela chama constante dos seus cachimbos de crack. A rua rapidamente se transformava em algo diferente, pior, as pessoas aceitando tudo de maneira bovina, apenas ocasionalmente balando as cabeças e sussurrando entre si “Meu Deus, que absurdo...e ninguém faz nada!”

Um dia, liguei para a prefeitura e expliquei o acontecido. Um guincho foi enviado na manhã seguinte e o carro queimado foi retirado sem maiores problemas. A coleta de lixo conseguiu remover as porcarias acumuladas por dias de complacência e uma chuva de verão lavou a horrível cicatriz de fuligem que marcava o asfalto. Os estranhos personagens noturnos, privados do seu habitat, deixaram de frequentar a rua, que passou a receber bicicletas, carros, pedestres, mães levando seus filhos para a escola, cães levando seus donos para passear. Vida, novamente. E tudo com uma simples ligação, que já poderia ter resolvido a situação há muito tempo, caso as pessoas conseguissem romper mais facilmente o gesso da conformidade coletiva. E eu me incluo entre elas.

É fácil botar a culpa no governo, no estado, pelas injustiças e contrariedades que enfrentamos todos os dias. Muito mais difícil é admitir que é a sociedade que legitima essa situação, quando assume uma atitude passiva perante aquilo que reconhece como errado. Se as coisas estão como estão, é simplesmente porque permitimos que assim fosse. Baixamos a cabeça, fingimos que não é conosco, pensamos que poderia ser pior. Assim, questões se tornam problemas, problemas se transformam em mazelas sociais e logo a situação assume o status de insolúvel. Como enxergar uma solução para um problema tão antigo que já foi incorporado ao cotidiano? Como podemos nos queixar da estrutura podre de uma casa, se as pessoas fingem que não enxergam os cupins a roer-lhe a base e varrem a serragem para debaixo do tapete? O mais grave mal social do Brasil é o conformismo coletivo, uma doença congênita e crônica, transformando cidadãos em cínicos, que apenas reclamam da atual conjuntura e nada fazem para melhorá-la. 

Ou  a sociedade muda, ou nos tornaremos o país dos carros queimados.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sugestão de blog: Música na Bagagem









E você, o que leva na bagagem?

Seguindo a tradição de recomendar bons blogs aqui no Reclamação, trago a vocês o Música na Bagagem, de autoria do professor, roqueiro e irmão Pablo Vilela. Apaixonado por Rock n’ Roll desde a pré-adolescência, Pablo traz um blog voltado para o público que aprecia uma sonoridade mais pesada, sem jamais deixar de lado outras vertentes musicais de bom gosto. Também é possível ficar sabendo das novidades do mundo da música no blog, que ainda traz resenhas de discos e shows que rolam no Recife, o último deles sendo o da banda Angra, acontecido ainda esse mês. Ainda rolam entrevistas, backstage e muitas fotos, mostrando que o cara entende do assunto e sabe bem o que o público gosta.

Então é isso. Deem uma conferida no Música na Bagagem e fiquem por dentro do que anda acontecendo na cena roqueira da capital pernambucana!



terça-feira, 23 de novembro de 2010

Promessa










- Vó, passei no Mestrado de História da UFRPE!

- Que bom, meu filho.

- E também no da UFPE!

- Parabéns, meu filho.

- E aí? Bora comemorar? Cadê aquele bolo de chocolate eu que gosto tanto e...

- Você vai é pagar sua promessa.

- ...oi?

- Isso mesmo. Eu prometi que se você passasse, ia ter que assistir pelo menos uma missa. E descalço, que é pra Deus ver que você é humilde.

- Peraí, peraí...que história é essa? A senhora promete e eu que pago? Tá certo isso?

- Meu filho, quem se beneficiou da promessa? Eu ou você?

- ...

- Pois é. Vá se arrumar pra ir e nem leve a sandália.

- ...mas pra que santo que a senhora fez a promessa?

- Santo? E eu lá sou mulher de lidar com subalterno? O acordo foi direto com Jesus.

- Ah, tá. O esquema é mais seguro, né, vó?

- Meu filho, você acha que passou por quê? Porque estudou? Me poupe.

- ...

- Na volta você vai ganhar uma jarra de vitamina de abacate, tá bom assim?


Podia ser pior. Ao menos não era uma coisa trabalhosa, como subir o Morro da Conceição com um tijolo na cabeça ou algo indigno, tipo sair correndo pelado pela Avenida Conde da Boa Vista gritando “Jesus entrou em mim!”. O problema mesmo era minha falta de traquejo religioso, já que quando fui à minha última missa sem ser casamento ou funeral eu nem tinha pelo no sovaco ainda. Arrastando desajeitadamente os pés nus sobre o assoalho de uma das incontáveis igrejas centenárias da Cidade Alta em Olinda, eu pensava enojado na quantidade de micróbios mumificados que estavam entrando em contato comigo naquele momento. Não deixava de ser uma experiência histórica. Sem sapatos, barba por fazer, cabelos desgrenhados e vestindo uma camisa preta da banda de metal alemã Blind Guardian, banida do meu guarda-roupa por minha mãe e algumas ex-namoradas, eu mais parecia um mendigo de ar visivelmente constrangido.

Como nunca me interessei muito pela liturgia católica, fiquei sem saber o que fazer durante a missa. Na dúvida, dava uma de jogador de futebol na hora do hino e ia dublando o povo ao meu redor, repetindo as palavras do padre posicionado no altar. Mas o mais complicado era a coreografia seguida pelos fiéis, e que não vinha explicitada naquele jornalzinho que sempre distribuem na porta da igreja. Aparentemente, não aparecem muitos leigos, turistas de outras religiões, ateus ou mestrandos de História por ali. De maneira que acompanhar a missa era mais ou menos como brincar de morto\vivo, sendo que eu sempre errava as instruções e a punição pela falta de jeito na hora de jogar eu só vou saber depois que partir dessa pra glória. Quando o velhinho de andador ao meu lado quase sofria uma síncope tentando ficar de pé, eu sentava. No que eu levantava, tapava a visão das beatas que ficavam atrás de mim e amaldiçoavam a mim e a minha família pela falta de respeito. De vez em quando, eu soltava um “Aleluia” na hora errada, quando estavam todos em silêncio. Duvido que os Toscanos ainda sejam bem-vindos naquela igreja. Com os joelhos doendo do exercício desacostumado, consegui sobreviver ao serviço religioso com minha honra mais ou menos intacta. Voltei para casa com a sensação de dever cumprido e, mais importante, dívida paga.

Eu estava livre do Serasa divino.