quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Patetas


Bairrista como sou, preciso admitir que existe uma coisa que eu detesto no Recife: a maneira como as pessoas dirigem. O motorista nativo parece ter sido treinado na autoescola do inferno. Para o recifense médio, carros são verdadeiras armas de destruição em massa enquanto pedestres não passam de quebra-molas ambulantes e um pouco mais escandalosos. Todos sabem da sensação de poder trazida pela direção e ela é diretamente proporcional ao tamanho do carro. Donos de Fuscas e Pálios costumam ser pessoas mais tímidas, até certo ponto apegadas às leis do trânsito. Desconfie dos motoristas de grandes veículos, como Pajeros e caminhonetes tipo D-20. São maníacos ao volante, esperando apenas a oportunidade de esfregar sua pretensa superioridade na sua cara, de preferência utilizando o para-choque do veículo. Some-se a isso o agravante da regra geral da proporção inversa acerca da genitália do motorista e têm-se aí a mais perfeita receita para um desastre: agressividade, arrogância e falos de dimensões ridículas.

O conceito de direção defensiva é inexistente enquanto a faixa de pedestre não passa de uma semiesquecida lenda urbana. Sinais amarelos não significam “Diminua” e sim “Acelere antes que o urso pule pela janela do seu quarto”. O sinal de troca de faixa só é dado depois que a manobra foi realizada, uma forma de esculachar ainda mais o motorista que acabou de ser trancado, mas que faria a mesma coisa se tivesse a oportunidade. A única forma de comunicação é a buzina, ininterrupta, invasiva, seja para a velhinha que atravessa a rua penosamente, seja para o coletor de lixo fazendo seu trabalho durante as quentes madrugadas recifenses. O trânsito, por si só caótico, assume um ritmo decididamente insano graças aos motoristas locais. E a tendência é piorar.

Buscando mostrar aos leitores como funciona o tráfego da capital pernambucana, porém sem expor os mesmos aos seus perigos constantes, me deparei com um velho vídeo que mostra que o problema é antigo, muito antigo. Parece, mesmo, que não é exclusividade do Recife. E o desenho animado, sincero como todo desenho animado deve ser, mostra bem que, atrás da direção de um carro, somos todos uns patetas mesmo.









Não seja um pateta. Deixe seu carro em casa. 

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Moço...

Com o advento do celular, hoje em dia quase ninguém anda por aí com os velhos relógios de pulso. Não é que as pessoas usem o relógio para se comunicar, claro. Só quem faz isso é o Dick Tracy. 



 E com muito mais estilo do que você ou eu.



Elas utilizam o aparelho móvel como relógio mesmo. É por isso que os poucos anacrônicos que insistem em trazer as horas no punho acabam chamando uma atenção indevida. O ser humano parece possuir uma linha de comando impressa em seu DNA que o impele a perguntar as horas sempre que conseguir identificar um semelhante portando um relógio. Quando ando pelas ruas com o meu velho reloginho digital preto e laranja, comprado na Praça do Diário de um negociante de produtos escusos, costumo ser constantemente assediado por transeuntes que parecem não ter nada melhor para fazer do que perguntar “Moço, que horas são?”. Todo mundo pede as horas. O vigia da obra pede as horas. A mulher do vizinho pede as horas. O flanelinha da padaria pede as horas. O mendigo, que não tem horário para nada, pede as horas. E ainda se queda pensativo, em sua caixa de papelão de geladeira último modelo, depois de ouvir a resposta.

Dia desses, andava de bicicleta, atrasado para o trabalho quando uma velha senhora, descabelada e aflita como apenas as velhas senhoras conseguem ser, surgiu na calçada, braços abertos, berrando com voz rouca “Moço, moço!”. Desesperado, dei uma rabeada na bicicleta, capotei no meio-fio e desviei, por pouco, da panela de pamonha fervente da moça da esquina. Corri em direção à velhinha, ignorando a merda de cachorro que eu havia acabado de pisar, já preparado para prestar auxílio à pobre criatura.


- O que foi, minha senhora? É o coração? É a osteoporose? É o coração, meu Deus do céu?!

- Moço...

- Diga, mulher de Deus, diga!

- ...que horas são?

- ...


Sim, passei a defender a eutanásia de idosos depois desse dia. 



 Por esse e por outros motivos.



Mas não foi o único susto que eu levei por causa do relógio. Estava eu dirigindo, à noite, quando parei o carro em um cruzamento pouco movimentado. A falta de ar-condicionado no veículo e o calor sobrenatural do Recife sempre levam a melhor sobre meu instinto de autopreservação, de forma que costumo dirigir de janela aberta. Surgiu um motoqueiro ao meu lado. Tenso, estava a ponto de subir o vidro da porta quando o homem se voltou em minha direção, os olhos dentro do capacete faiscando. Apoiou-se na janela do carro e foi enfiando a cabeça para dentro do veículo. A meio caminho de borrar minhas calças, já ia contabilizando as minhas perdas, ao mesmo tempo em que pensava em formas de manter minha dignidade naquela situação adversa.


- Moço...

- Pelamordedeus, leve o que o senhor quiser, só não me mate! Minha mãe tá em casa prostrada numa cama, ela só tem a mim, o que já não é muita coisa, mas é melhor do que nada e se o senhor me matar, ela também vai morrer e vai ser duplo homicídio porque...

- ...que horas são?

- ...


Passei a odiar todo aquele que me perguntasse as horas. E muitas oportunidades para odiar me foram dadas. Caminhava para casa quando fui abordado por um sujeito de aparência suspeita, trajando o uniforme de alguma das torcidas organizadas da cidade. Tinha o aspecto sinistro daqueles que já não têm mais nada a perder.


- Moço...

- MOÇO É O CARALHO! É O RELÓGIO, NÉ? É A BOSTA DO RELÓGIO!

- O que é isso, moço?! Sou bandido não! Eu só queria saber...

- ...A HORA! QUERIA SABER A MERDA DA HORA, NÉ? POIS ENTÃO TOMA! SOCA ESSA PORRA NO CU! ENTENDEU? NO CU!

- Cremdeuspai, moço...

- TE FODE!


Joguei o relógio no peito do pobre homem e saí, transtornado, pela rua. Lançava olhares furiosos para as pessoas e as únicas coisas que passavam pela minha mente eram morte e destruição, de preferência envolvendo grandes relógios de parede. Do outro lado da via, uma mulher acenou desesperadamente. Senti meu sangue pulsando nos ouvidos e, tomado por pensamentos assassinos, me voltei em sua direção. Súbito, lembrei que havia me livrado do relógio amaldiçoado alguns minutos antes. Olhei para a mulher em prantos e, aliviado, verifiquei que era apenas a sua casa pegando fogo. 

Sorri o meu melhor sorriso, acenei alegremente e segui assoviando em direção à minha casa.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Não mude





Natal é amor, paz, família, solidariedade. Natal é falsidade, hipocrisia, tristeza, desespero. O Natal é todas essas coisas e muito mais. O que dizer de uma espécie que, ao menos no lado ocidental de seu planeta de origem, precisa de um feriado oficial para que seus membros coloquem a mão na consciência e busquem pensar em outras coisas que não si próprios? E o que podemos concluir ao percebermos que, para a grande maioria das pessoas, esse é um exercício basicamente inútil, redundando em nada mais do que alegria postiça, celebrações vazias e corações partidos?

Isso porque, ao contrário dos filmes e telenovelas, não há mudança que ocorra da noite para o dia. A decência, a honestidade, a compaixão, são características que precisam ser exercitadas. Como músculos, atrofiam pela falta de uso. Você passou o ano todo alternando entre comer, dormir e se conformar e agora acha que em um final de semana caminhando na praia vai estar pronto para tirar a camisa na praia? Não vai estar. Não é assim que funciona, não com seu corpo, nem com sua mente e muito menos com seu espírito. Se você é um sedentário moral, não adianta prometer a si mesmo que o próximo ano vai ser diferente. Não vai ser.

Mas a mudança pode vir. Aos poucos, paulatina. Existe uma série de exercícios que podem te ajudar nessa tarefa. Comece flexionando sua sinceridade. Sem ela, qualquer outra atividade que você fizer só vai te deixar dolorido no dia seguinte e não apenas você. Afinal de contas, exercitar o espírito é, dificilmente, uma atividade solitária. Não se engane jamais. O seu termômetro de decência sempre será o outro. Tratar o próximo como um ser humano é apenas o primeiro passo. É o básico. Sem isso, todo o resto desmorona, flácido, sob o peso do nosso próprio egoísmo, essa gordura que se acumula em nossas almas e que, creia, é tão ou mais visível do que aquela que se encontra em nossos abdomens e cinturas.

E é preciso querer mudar, de verdade. É necessário se policiar, todos os dias e em todos os momentos, buscando sempre ser melhor, mais do que ontem, um pouco menos do que amanhã. Atletas de fim de semana não são atletas de verdade. Seu corpo e seu espírito não aguentam o esforço desacostumado e, em protesto, param. A única diferença é que um coração que desiste pode significar o fim derradeiro de todas as angústias dessa vida. Um espírito quebrado é apenas o começo de um sofrimento sem fim e o pior é que muitas vezes nem percebemos a alma fraturada. Mas ela está lá. Os seus cacos patéticos estarão para sempre dentro de você, te cortando profundamente, te causando dor, te fazendo sangrar e, ao contrário do que você pode pensar, todos poderão enxergar as cicatrizes.

Não mude. Comece uma mudança.


O Blog da Reclamação deseja um Feliz Natal a todos os leitores, pedindo a compreensão dos mesmos para o fato de que nem só de risadas pode viver um blog de comédia.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Pernambuquês II

Como eu havia falado no post anterior, é simplesmente expressão e gíria demais para um texto só. Contando com a ajuda dos amigos leitores, consegui mais alguns verbetes para este dicionário, tudo feito no espírito de cooperação de pessoas desejosas de terem seu pernambuquês melhor compreendido lá fora.


Frango – Incrível ter deixado essa passar. Pior que quem me lembrou foi a amiga e leitora Henna, lá do Ceará e que, até onde eu sei, nunca morou por aqui. Frango, além da ave, também se refere ao homossexual masculino, obviamente de maneira bastante chula. De fato, em Pernambuco não se come frango. Quer dizer, se come, mas geralmente camuflado ou depois de uma passadinha lá na Metrópole. Se você estiver em uma mesa de restaurante cheia de pessoas das mais variedades origens e, por algum motivo, quiser saber se tem algum pernambucano presente, basta chamar o garçom e pedir em voz alta “Moço, eu queria mesmo era comer um franguinho agora”. Se alguém se enfiar debaixo da mesa na tentativa de esconder uma risada estúpida e fora de controle, então ele é conterrâneo de Chico Science. Se estiver visitando o Recife, faça um favor a si mesmo e peça um galeto.

Vôte! – Também uma das minhas favoritas. Pernambucaníssima, essa interjeição é utilizada para demonstrar espanto, estranheza, desconfiança ou descontentamento. A origem, bastante peculiar, remete ao engenheiro francês Louis Lérger Vauthier, contratado, no século XIX, pelo então governador da província de Pernambuco, o Conde Francisco do Rêgo Barros, para uma série de obras que permanecem até os dias de hoje, algumas delas se tornando cartões-postais do Recife como, por exemplo, o Teatro de Santa Isabel:






O Mercado de São José:






O casario da Rua da Aurora:






Entre outras intervenções na paisagem urbana local. Depois de ter feito tanta coisa legal por aqui, você deve estar se perguntando por que diabos o sobrenome do cara é associado à tanto sentimento ruim, de uma forma quase supersticiosa, pelos recifenses. Acontece que Vauthier, fazendo jus à fama dos franceses, era considerado um pé no saco. Chato, arrogante, intratável e dado a pitis intermináveis, o cara era considerado insuportável por 95% das pessoas com as quais interagia. Os outros 5% nem falavam, já chegavam descendo o cacete mesmo. Numa dessas, ele acabou decidindo que era melhor, para a sua saúde, voltar para a França. Mas não antes de ter o desprazer de ver seu sobrenome se transformar em expressão de desgosto na boca do povão. Vôte!

Um cheiro! – Mais uma imperdoável. Pernambucano não manda beijo, manda cheiro. E se você não sabe que cheiro é melhor que beijo é porque nunca levou um, muito menos de um pernambucano ou de uma pernambucana. Além de demonstração de afeto, também pode ser uma mostra de coragem, caso a outra pessoa tenha acabado de chegar da pelada dominical ou passou o dia tratando peixe para a Caldeirada com a família. A dica veio da amiga e leitora Fátima Germana.

Pirraia – A amiga, leitora e prima Alice, dona do blog IDENTIDADE PESSOAL, foi quem lembrou essa. Corruptela de “pirralho”, serve para designar crianças. Também é demonstração de carinho e afeto, principalmente entre as camadas mais humildes da sociedade pernambucana. Se você nunca foi chamado de “Meu pirraia” é porque não é daqui ou então é um esnobe.

Massa – Mais uma enviada por Fátima Germana. O mesmo que “legal” ou “muito bom”. Também é gíria para maconha. Falar “Que massa, doido!” no meio de um show de reggae no Recife Antigo pode te render uns tragos da erva cultivada na Zona da Mata pernambucana, segundo os entendidos a melhor do Brasil. Também pode resultar num cacete por parte da polícia local, é tudo uma questão de oportunidade.

Pirangueiro – Uma instituição de Pernambuco. O pirangueiro é o famoso unha-de-fome, mão-de-vaca, amarrado, avarento, enfim, o desgraçado que atravessa o Capibaribe a nado com um Sonrisal na mão sem desmanchar. Dá origem ao verbo “pirangar” e ao substantivo “pirangagem”. 

Passar o xêxo – Foi Mauro, o galhofeiro, quem me lembrou dessa. Passar xêxo é o mesmo que fazer um trambique, do tipo “comprou, mas não pagou”. Se seu nome está no SPC ou no Serasa, é porque você deu o vacilo de passar o xêxo em alguma empresa, em vez de se limitar apenas aos amigos e parentes mais próximos. Dá origem ao adjetivo “xexêro”.

Pai – O amigo Chico Fagundes lembrou essa daí. Não sei a origem e não faz o menor sentido, mas algumas pessoas, geralmente um tanto mais humildes, tratam umas as outras dessa forma. Expressões como “Bora, pai” e “Te fode, pai” são bastante populares.


Sei que ainda não cheguei nem perto de cobrir todas as expressões e gírias usadas pelo povo pernambucano, mas agora já é possível, para os de fora, terem ao menos uma leve noção de pernambuquês. Pratique com seus amigos e chegue aqui fluente.

Afinal, o carnaval está chegando.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Pernambuquês




Dia desses fui tomar uma cerveja com minha amiga Eva, dona do Blog Ladeira Chic (que aliás, anda meio parado. Evinha, olha o serviço, cacete!) e os colegas do trabalho dela, um pessoal muito gente boa e quase todos de fora de Pernambuco. Na misturada tinha carioca, gaúcho, paulista, baiano e outras nacionalidades que não lembro agora. Como é natural, em uma mesa onde há ao menos um pernambucano e pessoas de qualquer outro lugar que não seja Pernambuco, o tema da conversa logo passou para bairrismo, no caso, o do tipo extremado que se pratica por aqui. 

Deus me defenda de tentar mudar a imagem do pernambucano que, aliás, deve ser o único no Brasil que se sente totalmente confortável com seus estereótipos. Chame um baiano de preguiçoso, um paulista de chato ou um carioca de folgado e eles vão bater na mesa e berrar, cada um com seu sotaque particular “Peraí, meu rei/mano/maluco, não é assim não!”. Chame um pernambucano de bairrista extremado, chato e megalomaníaco e um sorriso insano de satisfação vai se espalhar pelo rosto dele, o que vai te forçar a acrescentar “doido de pedra” na sua lista de pré-conceitos. E com razão. 

Para mostrar que o pernambucano, apesar da má fama acima justificada, também pode ser legal, simpático, acolhedor, contido e, até certo ponto, mentalmente são, resolvi aproveitar a nova onda de desenvolvimento do estado, que vem atraindo cada vez mais gente de fora (“gente de fora”, olha o preconceito!) e bolar um pequeno dicionário de expressões de uso corrente em Pernambuco, tendo em vista facilitar a comunicação entre os daqui e os de lá (mais preconceito), evitando assim mal-entendidos, confusões, bate-bocas, confrontos físicos, desespero, morte. 

Lembrando que todas as expressões devem ser pensadas e praticadas com o sotaque típico daqui, então nada de “dji” ou “tchi”. Pernambuco é um dos poucos estados do Brasil que ainda resiste à sanha homogeneizante das novelas da Rede Globo (desculpem Bahia e Ceará), então por aqui ninguém fala “Você assistchiu o últchimo capítulo de Tchi Tchi Tchi?” e nem usa artigo definido antes de nome próprio. Com a parte fonética acertada, vamos às expressões. Não estão em ordem alfabética, deixe de ser chato e leia mesmo assim.


Tabacudo – Uma das minhas expressões locais favoritas. Tabacudo é aquele ser que fala besteira com uma frequência preocupante, mas geralmente não chega a ser muito ofensivo. Todos podemos ser tabacudos de tempos em tempos, especialmente quando o nível alcoólico no organismo começa a atingir níveis alarmantes.

Mamão – No caso, não é a fruta. Mamão equivale a tabacudo, sendo um pouco mais condescendente e, portanto, ofensivo. Geralmente vem com acompanhamento. Por exemplo “Cala a boca, mamão!”.

Zé – Versátil, equivale ao mané dos cariocas. É o otário, o ingênuo, o cara despreparado para a vida. Permite diversas complementações diferentes, com variados níveis de ofensa pessoal. Exemplos: Zé Mané, Zé Culé, Zézo e, preferido entre as massas, Zé Buceta. Esse último faz referência, claro, ao homem virgem, que por nunca ter comido ninguém, acaba sendo esculachado com um apelido que junta o Zé com aquilo que, supõe-se, ele nunca experimentou na vida. O maior sociólogo que o Brasil conheceu, o pernambucano (lógico) Gilberto Freyre, explica que na patriarcal sociedade açucareira de Pernambuco, só era homem quem conhecia as delícias dos favores femininos e quanto antes melhor. Daí os garotos dos seus doze ou onze anos, ainda na época da escravidão, já começarem a se esfregar nas mucamas e, pouco mais tarde, exibirem as cicatrizes da sífilis aos amigos, como uma espécie de medalha de honra e atestado de masculinidade.

Donzelo – Ver Zé Buceta.

Besta, abestalhado e alesado – Ver Tabacudo.

Véi – Corruptela de “velho”. Pronome de tratamento altamente informal e massificado, especialmente na capital, Recife. Costuma vir acompanhado de outra expressão, também muito popular, criando o absurdo, porém bastante difundido, "Meu irmão, véi”. 

Tás onde? – Essa é bem óbvia. Contudo, até onde eu sei, apenas por aqui se procura saber a localização de uma pessoa, geralmente ao celular, utilizando-se essa expressão. “Cadê tu, véi?” é uma variação completamente aceitável.

Doido – Ver Véi.

Carai – Corruptela de “caralho”. Serve para se referir ao órgão sexual masculino ou, como é mais comumente usado, para enfatizar uma colocação ou indicar intensidade. Por exemplo: “Meu irmão, véi, bicha feia do carai!”.

Visse? – Usado para se confirmar a compreensão de uma informação. Pode ser usado em praticamente qualquer situação e possui uma variação famosa, o “Tá ligado?”, que costuma irritar pais e pessoas mais velhas em geral. Muita gente simplesmente não consegue terminar uma frase sem disparar um “Tá ligado?” no final.

Virado – Significa transformado em algo, dando a entender que a pessoa em questão encontra-se, momentaneamente, fora do seu juízo perfeito. Variações comuns são “Virado na porra”, “Virado no carai” e o enigmático “Virado no mói de coentro”.

Te fode! – Variação local do popular “Foda-se”, praticado no resto do Brasil. Admite complementos, como “Te fode, doido” ou “Te fode, véi”.

Se garante – Alguém que é competente em alguma coisa, mesmo que seja uma coisa ruim. Por exemplo: “Ela se garante na chatice, visse?”.

Acochar – Significa, literalmente, apertar. Serve para descrever, em termos grosseiros, uma relação física entre duas pessoas, quando uma acocha a outra e, se tudo der certo, é acochado de volta.

Amolegar – Significar mexer em algo ou, dependendo do contexto, passar a mão no órgão sexual alheio, preferencialmente com concordância previamente estipulada.

Balaio-de-gato – Uma situação confusa. Não se sabe quem está certo e quem está errado, muito menos que é o dono dos gatos ou como eles foram parar naquele balaio, para início de conversa.

Pegar bigu – O mesmo que pegar carona, mais utilizado no interior do estado. Não há conotações sexuais nessa expressão.

Couro-de-pica – Algo que não se resolve, vai e volta, lembrando o movimento do órgão sexual masculino durante o ato.

Pegar ar – Ficar nervoso, perder a calma ou a paciência em relação a alguma coisa.

Fuleiro – Significa algo de baixa qualidade, inclusive amizades. O fuleiro é a pessoa com a qual não se pode contar para nada, seja para dar uma ajuda no trabalho ou mesmo para aparecer para uma cervejinha com os amigos. Dá origem ao verbo “fuleirar”.

Farrapar – Ver fuleirar.

Cair um baque – Tropeçar e cair no chão, geralmente de forma patética e com pessoas apontando e rindo de você.

Arrancar o samboque – Tropeçar e, no processo, perder a pontinha do dedo do pé.

Vou chegar – Vou embora. Ninguém sabe muito bem qual a origem dessa expressão, mas até eu admito que não faz o menor sentido. Aceita variações como “Vou chegar nessa” e “Vou lavrar”.


Além dessas existem muitas outras. Lembrando que há também aquelas que são comuns ao Nordeste como um todo, como "Eita", “Oxente”, “Ôxe”, “Vixe Maria”, “Galego” e outras mais. Muitas delas, apesar da resistência das mayaras da vida, se popularizaram por todo o Brasil. Difícil é encontrar alguém hoje em dia, mesmo na lonjura das fronteiras gaúchas ou no coração de São Paulo, que não fale o seu “Vish” ou “Afe”, corruptelas dos originais nordestinos. Seria impossível acrescentar todas em um único post e muitas não me vêm à cabeça no momento, por isso peço aos leitores, de Pernambuco ou não, que deixem na seção de comentários suas contribuições para esse dicionário, visando assim melhorar a comunicação entre o pernambucano e o resto do Brasil. E você, que é de fora, vá praticando. Pernambuco está de portas abertas para você.

Mas faz aí um esforçozinho para aprender a falar nossa língua antes de vir, vai.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Não assista esse vídeo

Recentemente, escrevi um texto de terror descrevendo em detalhes um sonho horripilante que eu tive. Quem teve coragem (e paciência) de ler tudo, deve ter percebido que, por se tratar do relato de um pesadelo, tudo o que acontece é muito estranho e surreal e quase nada tem explicação. Assim são os sonhos. Eu queria encontrar alguma forma de passar para os leitores do blog essa sensação de estar em um pesadelo, algo que extrapolasse as palavras do meu texto. Nas minhas andanças pelo lado obscuro da internet, acabei dando de cara com um clipe que traduz bem os meus horrores noturnos. O nome da música é “Come to Daddy”, do artista eletrônico Aphex Twin, codinome de Richard D. James, um britânico com sérios problemas mentais, que possui um tanque de guerra no jardim e dorme nos cofres de um antigo banco da HSBC convertido em residência. Não, sério.

O estilo musical de Aphex é quase sempre agressivo e sombrio, embora ocasionalmente ele crie espaço para intervenções mais melodiosas, até mesmo fazendo uso de um piano. Mas o que chama atenção mesmo são os clipes. Não sei bem como foi a infância do pequeno James, mas se os vídeos que ele cria para as suas músicas são alguma indicação do que ele passou, é um milagre que ele tenha se tornado músico em vez de, digamos, assassino serial em massa. “Come to Daddy” é um perfeito exemplo de como uma canção pode fazer um ser humano sadio sujar as calças em menos de cinco minutos. No refrão, Aphex solta gritos medonhos e sussurra para ou ouvintes “Eu quero sua alma\ Eu vou comer a sua alma”. Olhando a cara do rapaz, fica difícil duvidar de que ele é capaz de fazer exatamente isso.





Haha, agora você também nunca mais vai dormir!





O clipe inteiro é extremamente assustador e o músico britânico não poupa seu público das imagens mais bizarras que poderiam brotar de sua mente claramente insana. Mas é lá pelos 3:54 de vídeo que Aphex decide que você já conviveu tempo demais com a sua própria alma e que chegou a hora de separá-la de vez do seu corpo, fazendo com que ela se enrole em um canto do quarto e fique lá chorando até desaparecer para sempre. Em torno de 4:57 você vai se dar conta de que Deus não existe, ou jamais teria permitido que algo assim fosse filmado e que você pudesse ser exposto a tamanha abominação audiovisual.

Esse é um vídeo assustador, doentio e degenerado. Estamos avisando, NÃO ASSISTA ESSA COISA. O Blog da Reclamação não se responsabiliza por cicatrizes mentais, espíritos destroçados ou tentativas de suicídio.

Desligue o computador agora e vá ler um livro.











Nós avisamos.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Texto de convidado: Dezoito dias


Me deparo com um poste, e a seguinte proposta:






Tem idéia do que isso significa? Se eu soubesse que um dia eu poderia fazer o primeiro e segundo graus, JUNTOS, em menos de três semanas, teria esperado, na boa, somente pela certeza de que em dezoito dias jamais daria tempo de:

Levar três pontos na cabeça por paquerar a boyzinha do grandalhão da sala (ela que olhava pra mim...), pegar piolho com o cdf da turma, passar mal com o achocolatado da merenda (pense num chicotinho coletivo...), ir pra secretaria por cumprimentar minha amiga Graça (Diz, Graça!), pagar mico apresentando uma peça teatral em que éramos índios e vestíamos saias de tiras feitas de sacos de farinha trigo, ir pra secretaria por cantar o hino da escola errado (de propósito), ter que ouvir as piadas sem graça da menina que queria namorar comigo, ver se agarrando com outro a menina com quem eu queria namorar, querer namorar sério, ter que responder durante a apresentação de um trabalho se a mulher podia transar durante a gravidez (e eu é que sei?), cursar a disciplina de “Práticas do lar” (obrigatória), fazer os bolos e não comer nenhum pedaço,  passar batido e não pegar a gostosa do turno da noite, ir pra secretaria por ser um dos líderes de um movimento anti-aula (todo mundo pro Alto da Sé!), pegar papeira em pleno São João e deixar de dançar na quadrilha da escola (com a gostosa do turno da noite), entoar músicas de Djavan, Milton, Caetano e Gil (sem comer ninguém por isso), andar pra caramba pra chegar no Estadual de Olinda, ir pra secretaria pra diretora dizer que eu ia desfilar no sete de setembro, desfilar no sete de setembro, desfilar no 14 de setembro, pegar carona em caminhão de lixo pra ir aos jogos estudantis, ganhar uma torção por tentar uma vaga no time de handebol, ter que fazer a merenda à noite porque não tinha quem fizesse,  fazer poesia e ver um amigo(!) pegar as boyzinhas com elas, cair na gandaia com a galera barra pesada da escola e não ir pra formatura por falta de grana pra pagar o uniforme obrigatório.

Dezoito dias? No máximo, só daria tempo de:

Contar vantagem por ter dado um tebêi no grandalhão da sala (cara, ele tentou roubar meu papagaio!), saber que minha experiência como ator evitou sofrimento às platéias de hoje, dar a resposta certa à menina grávida, descobrir que talvez ter cursado “Práticas do lar” me ajudou na Gastronomia, ver nos meus exames que as caminhadas ajudaram no meu condicionamento físico, ter uma francesa como professora de francês (não, ela não era gostosa), ficar de castigo com a professora gostosa de Ciências (u-hu!), ver a galera bem alimentada com a merenda do turno da noite, saber que algumas poesias que eu fiz estão guardadas até hoje.

E você, de que estaria a salvo em dezoito dias?


Por Alberto Penaforte

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Prendado Parte II










- Limpar a geladeira é uma tarefa penosa ao extremo. É preciso retirar tudo o que está dentro dela, arrumar um lugar para guardar essas coisas temporariamente, desligar da tomada, esperar o degelo, limpar todas as superfícies, religar a energia, pôr tudo de volta e ter que refazer todo o processo porque você, energúmeno, acabou de derramar a coalhada dentro da gaveta de vegetais. Ao fim do processo, você percebe que já casou, teve filhos, sua mulher te largou pelo técnico de instalação de Internet e você desenvolveu câncer de próstata. Provavelmente de tanto levar fumo tentando higienizar a porcaria da geladeira. Seja esperto e, para evitar o retrabalho de arrumar todos os itens do refrigerador, simplesmente vá consumindo tudo o que estiver lá dentro até que seu eletrodoméstico se torne um coco: dentro, só água. Aí sim, pode-se desplugar o aparelho, até porque não vai ter mais nada para gelar mesmo. Para evitar o esforço de limpar prateleiras, gavetas e paredes, simplesmente jogue um balde de creolina dentro da geladeira, evitando assim o aparecimento de quaisquer formas de vida nocivas à saúde, inclusive aquele seu cunhado mala, que já chega na cozinha alheia abrindo tudo e metendo a mão na sua cerveja. Para tirar o cheiro, acenda uma vela de sete dias dentro do aparelho, reze três pais-nossos e vá tirar um cochilo. Seja econômico e use os pedaços amarelados de gelo acumulado nas paredes do seu congelador para abastecer as caipirinhas da confraternização do trabalho. Se alguém passar mal, bote a culpa no sarapatel feito pela mãe do novo estagiário e saia de fininho.

- Poucas coisas são piores do que fazer a limpeza de um banheiro. Se ele for única e exclusivamente seu, menos mal, mas é provável que você precise, em algum momento, compartilhar esse espaço íntimo com alguém. E quando falo de espaço íntimo, me refiro ao toalete, não às suas genitálias, bando de degenerados. O sanitário, na cultura ocidental em quase sua totalidade, possui um caráter místico, quase sagrado, que desencoraja a intromissão de terceiros em seu exíguo território. Em outras palavras, ninguém quer saber o que você faz lá dentro, ao passo que você evita pensar no mundo exterior enquanto realiza atos indizíveis, ainda que perfeitamente normais, segundo o ponto de vista de alguns cientistas. Se você mora sozinho e os anos de convívio com sua própria imundice já o anestesiaram aos horrores olfativos perpetrados pelos seus dejetos, é possível postergar a limpeza da privada quase que indefinidamente. Quando a louça da privada começar a mudar de cor ou você se tornar a pauta da próxima reunião de condomínio, é provável que a hora da higienização tenha chegado. Ninguém quer se cansar esfregando os restos imundos que a descarga não conseguiu levar embora, por mais que você torcesse por esse desfecho. Nesse caso, recomendo uma abordagem pirotécnica para o problema. Feche o registro, dê descarga até sua privada ficar vazia, jogue querosene, álcool ou a cachaça da sua tia solteira lá dentro e depois taque fogo. Se estiver no clima, entoe cânticos pagãos e dance em volta do assento. Seu sanitário estará purificado pelo fogo divino e pela aguardente barata que, você sabe, um dia vai ser seu fim. Espere as chamas se apagarem espontaneamente e aproveite sua privada esterilizada por, no mínimo, mais uns seis meses.

E assim, encerramos nossas dicas domésticas aqui no blog. Esperamos que os leitores utilizem essas informações para melhorar sua qualidade de vida e de suas famílias, se dedicando a outras atividades bem menos chatas do que arrumar a casa.

O Blog da Reclamação não se responsabiliza por incêndios, pedidos de divórcio ou notas de despejo que possam, por ventura, decorrer das sugestões acima postadas

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Prendado Parte I









Eu detesto o trabalho doméstico. Pronto, falei. Sei que para muita gente é tolerável, enquanto alguns, pervertidos, juram de pé junto que até curtem. Sei que é mentira. Que curtem, não que são pervertidos. Isso eu sei que são. Enfim, o que quero dizer é que o serviço de casa é umas das obrigações mais chatas que um ser humano pode ter. Eu mesmo evito a todo custo. De fato, é apenas quando o estado de decadência do meu quarto e adjacências começa a pôr em risco minha integridade física e a de terceiros que começo a me preocupar com algum tipo de arrumação. E daí que a poeira se acumulou tanto que chega aos tornozelos? O chão acaba ficando fofinho, causando uma agradável sensação de massagem nas solas dos pés. Recomendo. Também não entendo todos esses conceitos de “organização”, “decoração” ou “higiene em níveis humanamente aceitáveis” que andam em voga por aí. Feng Shui, para mim, é um prato chinês que eu ainda não comi por pura timidez. Acho que a arrumação do lar é um conceito superestimado e, ouso dizer, até certo ponto desnecessário.

Lógico, é preciso algum tipo de ordem em casa, esse não é um blog que incita a anarquia e a total degeneração da sociedade como a conhecemos. A não ser nos finais de semana, claro. E dias de Cosme e Damião, mas aí já é outra história. De modo que deixo aqui algumas dicas para otimizar e/ou tornar algumas tarefas domésticas, senão agradáveis, ao menos toleráveis por aqueles que acham essa obsessão por limpeza e organização um dos males modernos mais danosos ao espírito humano.


- Passar roupa é um pé no saco e se você conhecer alguém que diz que gosta, mate esse psicopata antes que ele faça o mesmo com você. Procure usar apenas roupas de nylon, que não amassam, mesmo em ocasiões formais, como o casamento da sua irmã ou o funeral da sua tia predileta. Os olhares de reprovação que você receberá de amigos e familiares não são nada comparados ao libertador sentimento de paz ao se dar conta que aquela roupa não precisará ser passada. Caso você insista em vestir roupas de outros materiais, procure estender as peças pelas costuras e torça para que o vento não as movimente demais. De resto, não deixe de andar por aí com suas vestimentas engilhadas e bote a culpa do estado lamentável da sua camisa no movimento do ônibus. Se continuarem reparando na roupa enrugada, sorria placidamente e mande tomar no cu.

- Via de regra, eu só limpo o teclado do meu computador quando os pedaços de Doritos começam a prender as teclas, prejudicando meu desempenho no Call of Duty. Tem gente que realiza a profilaxia retirando as teclas e limpando uma por uma. Recomendado para penitentes e autistas em geral. Eu prefiro o método de virar o teclado de cabeça para baixo e bater no fundo, geralmente por cima do prato do almoço, para não desperdiçar a farofa de Doritos cuidadosamente acumulada por meses a fio. A única parte do monitor que eu limpo é a tela, por motivos óbvios. O resto costuma adquirir uma saudável tonalidade amarela-catarro, entrevista de relance entre as rachaduras ocasionais na crosta de poeira. A limpeza aqui pode ser feita com uma cueca velha e um pouco de água, mas o uso de saliva é não apenas aceitável, mas também recomendado, devido a questões ambientais. Aconselha-se utilizar apenas o seu próprio cuspe. Ao fim da atividade, pode-se vestir a cueca sem constrangimentos. 

- Lavar pratos e talheres é uma tarefa desagradável, enfadonha e absolutamente desnecessária. Siga o exemplo do seu bichinho de estimação e coma direto da panela, utilizando suas mãos. Fuçar a comida feito um porco é considerado rude em algumas culturas, de forma que é recomendável evitar tal prática fora de casa. Não tenha pressa em lavar as panelas. Reutilize-as, aproveitando os restos de gordura e fragmentos irreconhecíveis grudados no fundo, cada um deles adicionando um sabor próprio à sua receita. Esses detalhes vão garantir que cada refeição seja uma aventura diária e seus amigos e convidados vão se surpreender, imaginando o que, afinal de contas, eles acabaram de comer na sua casa e por que, Deus, eles têm essa inexplicável sensação de que é melhor não descobrir jamais.


Continua...