quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Meus momentos mais constrangedores: Top 10 - 8º e 7º lugares






8º Lugar: Meu primeiro beijo


Meu primeiro beijo foi uma desgraça. Eu simplesmente não fazia a menor ideia do que fazer e nenhum dos milhares filmes de Sessão da Tarde que eu havia assistido serviu de tutorial para a coisa verdadeira. Sabia que, de maneira geral, o ato envolvia o encontro de bocas, no caso a minha e a dela, e já havia escutado boatos de que na hora do beijo as respectivas línguas se estapeavam em um frenesi de saliva, micróbios e, possivelmente, doenças venéreas. Do alto dos meus doze, quer dizer, catorze anos de idade, aquela perspectiva era um tanto preocupante. Mas em festinhas adolescentes quem manda mesmo não é o bom-senso, mas os seus arremedos de amigos que farão de tudo para te ver nas situações mais constrangedoras possíveis, registrando tudo e usando isso contra você anos depois. Assim que souberam que havia uma menina interessada em mim na festa, todos os meus agregados presentes fizeram de tudo para me juntar com a dita cuja, em uma espécie de ritual de acasalamento semi-infantil, onde o objetivo é deixar marcas permanentes nas almas dos envolvidos. A garota era até bonitinha, sorridente e logo me puxou para a parte de trás do prédio. Sem saber bem como proceder, encostei minha boca aberta na dela, mais ou menos como um salva-vidas tentando ressuscitar uma vítima de afogamento, e esperei a mágica acontecer.

Em vez disso, descobri que a menina tinha mau hálito.

Como ela provavelmente não tinha lá muita experiência na milenar arte do ósculo, passou a usar a língua para tentar alcançar meu fígado através do esôfago, uma manobra ousada, mas um tanto quanto desajeitada. Ter a garganta obstruída por uma língua epilética permeada por um bafo indescritível quase me fez perder o almoço naquele momento, o que, pensando bem, seria até bastante justo e poderia até melhorar a nossa química. Em vez disso eu me controlei, inventei uma desculpa e, nauseado, voltei para junto dos meus pseudo-amigos, que me olhavam como se eu fosse um experimento científico que houvesse dado horrivelmente errado. Me retirei da festa, me perguntando, afinal, qual diabos era a graça de beijar, coisa que parecia tão boa nas novelas.

Demoraria quase um ano antes que eu tentasse dar um beijo em outra menina.


7º Lugar: Aeróbica


Essa me marcou profundamente. Quando criança, naquela idade em que os meninos finalmente param de enxergar o sexo oposto como criaturas repulsivas vindas de outra galáxia, sofri minha primeira paixão. Ela tinha a pele morena, cabelos lisos e castanhos. Creio que se chamava Amanda. E ela não estava nem aí para mim. Não que eu fosse perceber, caso estivesse. Sempre fui meio tapado para esse tipo de coisa e naquela época então eu não saberia diferenciar amor verdadeiro de uma prisão de ventre. Não sabia como me aproximar dela, nem o que faria caso conseguisse, de modo que mesmo estudando na mesma turma, éramos estranhos um para o outro. Até o dia em que a escola resolveu fazer uma espécie de feira cultural envolvendo os alunos, que deveriam organizar algum tipo de apresentação para participar. Bicho do mato que eu era, nem cogitei a possibilidade de contribuir com a minha ausência de talentos naturais. Até que soube que Amanda faria uma apresentação de aeróbica e precisava de mais um menino para entrar no palco com ela e as amigas. Sem pensar muito, me ofereci para ocupar a vaga, sem ao menos saber, exatamente, o significado da palavra “aeróbica” que, descobri mais tarde, aparentemente traduzia-se como “praticar exercícios físicos sem o auxílio de qualquer coordenação motora, vestindo roupas coloridas de lycra e sendo escrotizado por toda a plateia”. Até chegamos a ensaiar os movimentos e, no dia da apresentação, ficou combinado que eu deveria entrar quando ela fizesse um sinal com a cabeça. Amanda e as amigas entraram sorridentes e pulando pelo palco. Depois de algum tempo, ela virou-se para mim, dando a minha deixa para uma viagem sem volta à terra da humilhação eterna. Vestindo um ridículo macacão colado que apertava as partes erradas do meu corpo, saltei para o palco.

E quase imediatamente saltei de volta para a coxia, assim que vi todos os meninos da sala praticamente tendo síncopes de tanto rir de mim.

Saí correndo da apresentação, confuso, triste e pior, coberto de lycra. Amanda e suas amigas terminaram a apresentação com um membro a menos e ela nunca mais olhou na minha cara depois desse dia. 

Mesmo hoje em dia, meu coração se parte toda vez que assisto à uma apresentação de aeróbica.


segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Meus momentos mais constrangedores: Top 10 - 10º e 9º lugares









A ideia original era justamente fazer uma lista com meus 10 momentos mais constrangedores. Contudo, minha conhecida verborragia me impediu de fazer um relato sucinto acerca do meu titânico embate contra o peixe-boi genocida de Japaratinga, postado na semana passada. De forma que trago para vocês, agora, as situações mais vergonhosas pelas quais já tive que passar na vida. Sintam-se a vontade para incluir suas próprias listas nos comentários e aguardar o incessante e inevitável escárnio alheio. Nessa primeira parte, seguem os dois últimos momentos mais embaraçosos. Calma que a coisa piora.



***


10º Lugar: Subindo no ônibus


Passei dois anos estudando no Colégio Atual, em Boa Viagem, realizando parte do meu primeiro grau lá. Eu não gostava da escola, dos meus colegas, dos professores e, basicamente, de toda a minha existência naquele lugar. Usando camisas pretas de bandas satânicas de metal, calças com mais furos que roteiro de filme de ficção científica, ostentando um mullet inaceitável e calçando sapatos velhos que mais pareciam armas biológicas, eu não era exatamente o cara mais popular da escola. Mas é claro que nada é tão ruim que não possa piorar, com um pouco de azar e criatividade. Larguei da aula e caminhei para a parada de ônibus, sempre cheia àquela hora. Depois de algum tempo esperando sem conversar com pessoa alguma já que, basicamente, eu não gostava de ninguém e ninguém gostava de mim, meu ônibus finalmente chegou. O veículo parou com a porta aberta bem na minha frente e me preparei para dar aquele pulinho para alcançar o primeiro degrau, necessário quando a calçada é muito baixa. Nesse exato momento alguém, certamente no intuito de sacanear ainda mais minha existência atormentada, chamou o meu nome. Olhei de lado e procurei a pessoa, que havia desaparecido na multidão de alunos. Dei de ombros e concluí o pulo.

Dando com a venta bem na lateral do ônibus cujo motorista, impaciente, já havia movimentado. Quiquei no flanco metálico do coletivo e caí de costas, ridiculamente, por cima da barraca do vendedor de confeito, esparramando todo o seu produto pelo chão e ainda me perguntando o que havia dado errado. Quando finalmente entendi o que tinha acontecido, ainda tive bastante tempo para apreciar as risadas de literalmente todas as pessoas no ponto de ônibus, enquanto o barraqueiro, indignado, me perguntava se eu estava possuído. Voltei para casa andando nesse dia e passaria a evitar aquele lugar maldito a todo custo. 

Por alguns anos, até consegui, mas Deus tinha outros planos.


9º Lugar: Atropelado 


Não bastasse minha habitual má sorte, parece que alguns lugares são simplesmente amaldiçoados. Lá estava eu, às 8 da manhã de um sábado, em frente à fatídica parada de ônibus do colégio Atual, hoje desativado, tentando atravessar a Avenida Domingos Ferreira, movimentadíssima à uma hora daquelas. Quando finalmente houve uma pausa no fluxo de veículos, fiz menção de correr para o outro lado. Quase da esquina vinha um indivíduo e sua bicicleta Barra Forte, daquelas que só são produzidas em uma única cor, vermelho-pobre, feita para carregar bujões de gás, garrafões d’água e ajudantes de pedreiro. Nos encaramos em dúvida. Eu achando que ele ia diminuir. Ele pensando que eu ia esperar ele passar. Ambos concluindo que, na dúvida, é melhor jogar um “foda-se” e seguir em frente. A bicicleta me atingiu em cheio e jogou ambos no meio da pista, os veículos passando ao nosso lado e chegando preocupantemente perto da minha cabeça. O ciclista, talvez mais acostumado aos revezes da vida, e também por não ter tido uma bicicleta praticamente enfiada no peito dele, se recuperou mais rápido e, solícito, me ajudou a levantar. Contrariado, perguntei se ele não tinha me visto tentando atravessar a avenida. Prático, ele respondeu:

- Foi mal, boy. É que a bike não tem freio.

Fiz diversas sugestões sobre onde ele deveria acondicionar a bicicleta dele, algumas incluindo sua família, e segui para o outro lado da via. Na parada de ônibus, as pessoas olhavam, apontavam e riam de mim. Exatamente as mesmas de quando tentei subir no ônibus anos atrás e falhei miseravelmente. 

Nunca mais na minha vida eu passo por lá.


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Meus momentos mais constrangedores: O peixe-boi


Essa é uma injustiça que a História vai me fazer, provavelmente, até o fim da minha vida. Ao visitar Japaratinga, uma praia do estado de Alagoas, com uma ex-namorada, decidimos conferir as histórias de que havia um peixe-boi rondando aquelas águas. Sem pensar muito, fomos nadando em direção a um barco de pescador ancorado a uma boa distância da areia. Quase chegando lá e já achando que o tal bicho era algum tipo de lenda local, eis que surge uma sombra gigantesca embaixo das ondas. O troço era muito, muito grande mesmo, maior que o barco que, aliás, ainda não tínhamos alcançado. Você pode até pensar “E daí? É só um peixe-boi. Eles não fazem nada com ninguém”. Mas você estaria enganado. Peixes-boi, ao contrário do que o grande público possa pensar, são animais de inteligência perversa e astúcia sobrenatural.



 Embora uns sejam mais espertos do que outros.


Essas criaturas maleficamente matreiras se aproveitam de sua aparência enganosamente estúpida para atacar banhistas desavisados, envolvendo-os em brincadeiras perigosas e, frequentemente, mortais. Gostam de arrastar suas vítimas para as profundezas onde habitam, além de possuírem o estranho hábito de desatar lacinhos de biquíni, o que pode indicar um raciocínio quase humano (e masculino) por trás de seus atos aparentemente aleatórios de terrorismo aquático. 

Foi pensando nisso que resolvi, ao perceber a coisa se aproximando cada vez mais, me adiantar à minha ex-namorada e subir logo no barco, no claro intuito de ajuda-la a sair do alcance da fera submarina, içando-a para a segurança do bote. E daí se, em minha pressa, acabei nadando por cima dela, quase afogando-a no processo? O que importa se, movido por excesso de zelo, usei a cabeça dela como plataforma para alcançar o barco? Admito que demorei um pouco para puxá-la para cima devido as minhas mãos trêmulas, evidentemente uma consequência do esforço sobre-humano em superar a velocidade vertiginosa pela qual os peixes-boi são amplamente conhecidos. E se eu ignorei os berros desesperados dela por alguns minutos, foi apenas porque eu desejava ter certeza de que o barco era perfeitamente seguro e a prova de monstros marinhos.

Meu plano, obviamente, deu certo. Entediado, o animal endemoniado eventualmente se afastou, em busca de vítimas menos perspicazes e uma maior oferta de laços de biquíni. Contudo, por motivos que até hoje desafiam minha compreensão, a grande maioria das pessoas não consegue enxergar o que aconteceu através do meu ponto de vista. A família da minha ex-namorada cortou relações comigo e a própria, depois de anos de terapia, ainda se joga no chão em posição fetal toda vez que vê um peixe em um aquário ou um boi na estrada, provando que a mente humana ainda guarda muitos desafios para os psicólogos. E ainda tem gente que tem medo de tomar banho de mar na praia de Boa Viagem.

Elas não sabem de nada.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Retro 2010






Um novo ano se inicia e 2011 promete, embora ninguém saiba exatamente o quê. Uma ocasião como essa é a oportunidade perfeita para uma retrospectiva dos textos que marcaram o Blog da Reclamação. Se você é um leitor veterano, vai se divertir novamente com histórias que já estavam meio esquecidas. Se é novato, esse é um ótimo momento para perceber que reclamar de tudo e de todos pode ser a melhor (senão a única) atitude sã da sua vida sem sentido. Os textos, 11 deles (2011, sacou?) foram escolhidos por mim mesmo e eu tentei dar uma amostra do que rolou no blog ao longo do ano de 2010, mas sintam-se livres para sugerir, nos comentários, alguma história que acabou ficando fora.

Senhoras e senhores, recordar também é viver.












Aproveitem!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Sugestão de blog: Small Fashion Diary e Beijos e Textos

Mais uma vez o Blog da Reclamação traz aos seus leitores conteúdo de qualidade de outros autores. Dessa vez, extraordinariamente, falamos de dois blogs diferentes, o Small Fashion Diary e o Beijos e Textos, ambos de autoria de Carol Burgo.








O primeiro, como o nome indica, é realmente um pequeno diário de moda, onde a autora exibe suas composições, dá dicas para quem quer ficar estiloso e ainda facilita a vida dos preguiçosos, deixando lá o preço de cada peça e onde compra-las. Quem protagoniza a maioria das fotos é a própria Carol, então não espere ver muita coisa de moda masculina. O que para mim não é problema nenhum. Apesar de não entender muito do assunto, toda a ala masculina da equipe do Blog da Reclamação (incluímos o faxineiro e o segurança) prefere muito mais ver as belas pernas e o sorriso da Srta. Carol Burgo estampando as imagens do que um bando de machos muito mais bonitos que nós e que, pior, ainda sabem se vestir. Francamente, isso é competição desleal. Fizemos uma reunião aqui no escritório do Blog e decidimos que vamos continuar contando com nossas mães para nos vestir, de maneira que o Small Fashion Diary está perfeito do jeito que está.








Já o segundo não tem nada a ver com moda e sim com palavras, coisas com as quais possuo mais familiaridade. Nele, Carol mostra seu lado mais lírico, com textos e poemas que abordam os mais variados assuntos, como relacionamentos, esperanças, decepções, alegrias e mágoas. E algumas reclamações também. E falando nisso, Carol gentilmente permitiu que o Blog da Reclamação reproduzisse aqui um dos seus textos, apropriadamente falando do Réveillon e a absurda quantidade mandigas gerada pelas comemorações de fim de ano. Está logo aí embaixo, então aproveitem esse que provavelmente é o último post de 2010. Aproveitando o ensejo, toda a equipe do Blog (menos Clodoaldo, o estagiário, que foi demitido ontem por me servir vitamina de abacate) gostaria de desejar um excelente Ano Novo para todos os seus leitores. Foram muitos e muitos textos e, esperamos, outros mais virão. Tentamos fazer vocês rirem, esquecerem seus problemas por alguns minutos e, quem sabe, até refletir um pouco. Para aqueles que vão começar 2011 na fila dos desempregados porque foram pegos pelo chefe enquanto liam o Blog da Reclamação no trabalho, desejamos boa sorte e avisamos que a vaga de Clodoaldo continua aberta.

Mas nada de vitamina de abacate, beleza?

Texto de convidado: Mandingas de Reveillon






O ano está acabando e meu otimismo habitual em relação ao ano seguinte, vai se transformando numa angustiante espera que o ano finalmente acabe mesmo, de verdade, e sem suspense. Todo final de ano é a mesma coisa. Eu sempre penso que no ano seguinte uma mudança drástica na minha vida vai acontecer e, aí sim, todos os meus sonhos vão ser realizados e eu vou ser a pessoa mais rica feliz do mundo e consequentemente tudo vai dar certo, e eu vou ser positiva novamente, e o mundo é cor de rosa, e uns passarinhos vão cantar na janela da minha futura mansão. Mas isso é só ano que vem tá? Enquanto o ano se arrasta e não acaba, meu humor é péssimo e a última semana do ano é quase uma TPM.

Para que tudo isso (a felicidade extrema) aconteça, eu sempre insisto em apostar algumas mandingas/superstições de final de ano que, sinceramente, nunca vi funcionar para ninguém, mas que não custa tentar dar uma ajuda ao destino, ainda que essa ajuda seja completamente baseada em lendas inventadas pelas nossas avós ou ainda aqueles deuses todos africanos que todo mundo decide acreditar quando chega o Réveillon.

Calcinha colorida: vermelha pra paixão, amarela para dinheiro, branca para paz. Cada cor de calcinha serve para um desejo pro ano seguinte e, sinceramente, eu quero uma calcinha arco-íris, com todas as cores  mesmo por que eu tô precisando de tudo e até uma mudança de opção sexual não pode ser descartada num momento destes.

Roupa branca: porquê mesmo a gente veste roupa branca? Purificação ocidental ou velório indiano? Sempre consigo perceber que duas coisas podem acontecer por vestirmos a roupa branca. Uma delas é celebrar literalmente a morte de mais um ano e por isso o início de uma nova vida e blá blá blá essa coisa toda Hare Krishna. A outra é você acabar a noite com o vestido todo cagado de mousse de maracujá e vinho tinto.

Peru: tender, chester ou até galeto, seja o que for que tenha asas e penas parece ser uma das opções culinárias mais tradicionais para se comer num Réveillon com toda a pompa e formosura, mesmo que você roa o osso. A única coisa infame que posso dizer disso tudo é que farofa no dos outros é recheio. Eu prefiro bacalhau.

Champanhe: qualquer bebida espumante que não seja fabricada na região nordeste da França, conhecida como Champagne-Ardenne não é champanhe. Você acha mesmo possível realizar algum desejo de ano novo tomando alguma coisa diferente do champanhe tradicional? Você acha mesmo que brindar com espumante Cereser vai fazer a providência divina/Iemanjá (?) achar que você é digno e merecedor de desejos de Réveillon extras, além de todos aqueles que você pede comendo uvas-passas?

Uvas-passas: são 12 uvas-passas que temos que comer no Réveillon para garantir que cada mês do ano seguinte seja repleto de coisas boas, o que me leva à conclusão de que existe uma incongruência nesse procedimento, levando em consideração que, para mim, o que estraga o arroz à grega é a uva-passa, o que estraga o bolo de frutas secas é a uva-passa e que o que estraga a uva é o fato dela se transformar em passa.

Trevo de quatro folhas: é sempre bom andar com um para garantir sua sorte o ano inteiro e quiçá a vida toda. Mas bom mesmo é você aprender a desenvolver as técnicas de cultivo necessárias para que, ao crescer sob uma temperatura média de 25º centígrados com bastante chuva e pelo menos 8 horas diárias de escuridão, o trevo desenvolva essa incrível anomalia de se dividir em quatro folíolos ao invés dos habituais três. Isso sim, é garantir sua sorte para toda a vida e uma vida de agonia para um trevo. Seguindo a máxima da lei do retorno, do “aqui se faz, aqui se paga”, dos ditados “quem com ferro fere, com ferro será ferido” ou outra qualquer filosofia de buteco que sugira que o que vai, volta, eu prefiro manter o trevo com três folhas, de preferência plantadinho na terra, em vez de trancado dentro da minha carteira. Vai que né...

Fitinhas do Nosso Senhor do Bonfim da Bahia: esse pedacinho de pano enrolado no pulso onde todos os anos, há muitos anos, eu deposito todas as minhas esperanças em relação ao meu futuro papel na sociedade. Três nós e três desejos que todos os anos eu peço exatamente a mesma coisa: me formar, casar, ter filhos. Meus desejos são bem rasos e eu nunca pedi o fim da violência ou a paz no mundo o que me leva a crer que sou meio egoísta há uns 25 anos. O problema dessas fitinhas é que você não pode tirar. Elas têm que se desgastar e arrebentar sozinhas e, acho que por isso, meus desejos nunca se realizaram completamente. Sempre rolava um casamento pra ir e a pulseira estragava minha roupa de princesa o que me fazia ter que arrancá-la ainda no primeiro trimestre do ano. Resultado: até hoje só me formei mesmo e por que fui muito teimosa e isso me dá a oportunidade de, em 2011, pedir outro desejo diferente do da formatura. Eu vou pedir riqueza já que o dólar na minha carteira não está funcionando.

Um dólar na carteira: por falar em dólar, alguém inventou que andar com um dólar na carteira atrai dinheiro. Na verdade a única coisa que faz é nos dar a sensação psicológica de que ainda tem dinheiro na carteira quando, na verdade, você tem no máximo 25 centavos pra dar pro flanelinha. O dólar na sua carteira tem a função de fazer você achar que é próspero e achando isso você está “mais próximo” de ser do que aquele que se acha um miserável. Uma linha de pensamento maravilhosa que dá certo até o momento em que você quer comer uma coxinha, ou pegar um ônibus por que seu carro quebrou e não tem 1 real sequer pra pagar. No final das contas o que faz de você rico e próspero no Brasil é ter vários reais (moeda corrente do país) na carteira, ao invés de dólar.

Flores pra Iemanjá: Réveillon no Brasil é mesmo lindo. Todo mundo reza suas orações cristãs e depois corre pra praia pra jogar algumas flores pra Iemanjá, deusa do mar, orixá do candomblé, rainha pagã dos mares, na imensidão da praia de Boa Viagem, unindo duas religiões que, em tempos de Inquisição, com certeza ia ter gente ardendo numa pira escandalosa. E o que se faz quando se jogam as flores? Se fazem pedidos de novo. Por que o Réveillon é uma grande oportunidade de encher as instâncias superiores de pedidos inatendidos. Mas ao invés de flores você pode jogar outras coisas no mar, como: latinhas de cerveja, copo plástico, rolhas do espumante Cereser que não vai te garantir pedidos, sacos plásticos de Bompreço da farofa que você levou pra praia ou pedaços do isopor que seu tio bêbado sem noção quebrou quando decidiu cair sentar em cima.

Pular 7 ondinhas: por que em Boa Viagem você pode pular ondinhas ou dejetos daquela que é a noite mais nojenta da praia em Recife e ainda fazer mais alguns desejos, de preferência pedir pra não pegar nenhuma doença depois de molhar seus lindos pezinhos de unhas feitas na imundície da água que Iemanjá vai sofrer pra limpar. Daí as ondas né, uma tentativa frustrada da rainha do mar de devolver para terra as oferendas indesejadas que mandaram pra ela.

Então o ano está acabando e eu tenho que me preparar para o ritual das mandingas que nada têm feito para mudar a minha vida a não ser a de, todos os anos, dar uma guinada de 180º na minha existência o que dá para perceber, se você alguma vez prestou atenção nas aulas de geometria, que eu sempre vou e volto pro mesmíssimo ponto. 180º. Com certeza devem existir outras simpatias de final de ano, fora aquelas de tomar banhos de várias espécies, mas este ano, só mais uma vez, pode ser que eu tome banho, corajosamente, na praia de Boa Viagem, pule 7 ondinhas, jogue flores para Iemanjá, brinde o ano novo com espumante Cereser, recoloque meu dólar na carteira, procure incansavelmente um trevo de quatro folhas, me vista de branco, compre uma calcinha amarela, coma 12 uvas-passas e amarre, de novo, aquela fitinha do Bonfim amarela fluorescente que eu sei que agora mesmo em janeiro, vou ter que desamarrar. Mais uma amiga vai casar.


Por Carol Burgo

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Patetas


Bairrista como sou, preciso admitir que existe uma coisa que eu detesto no Recife: a maneira como as pessoas dirigem. O motorista nativo parece ter sido treinado na autoescola do inferno. Para o recifense médio, carros são verdadeiras armas de destruição em massa enquanto pedestres não passam de quebra-molas ambulantes e um pouco mais escandalosos. Todos sabem da sensação de poder trazida pela direção e ela é diretamente proporcional ao tamanho do carro. Donos de Fuscas e Pálios costumam ser pessoas mais tímidas, até certo ponto apegadas às leis do trânsito. Desconfie dos motoristas de grandes veículos, como Pajeros e caminhonetes tipo D-20. São maníacos ao volante, esperando apenas a oportunidade de esfregar sua pretensa superioridade na sua cara, de preferência utilizando o para-choque do veículo. Some-se a isso o agravante da regra geral da proporção inversa acerca da genitália do motorista e têm-se aí a mais perfeita receita para um desastre: agressividade, arrogância e falos de dimensões ridículas.

O conceito de direção defensiva é inexistente enquanto a faixa de pedestre não passa de uma semiesquecida lenda urbana. Sinais amarelos não significam “Diminua” e sim “Acelere antes que o urso pule pela janela do seu quarto”. O sinal de troca de faixa só é dado depois que a manobra foi realizada, uma forma de esculachar ainda mais o motorista que acabou de ser trancado, mas que faria a mesma coisa se tivesse a oportunidade. A única forma de comunicação é a buzina, ininterrupta, invasiva, seja para a velhinha que atravessa a rua penosamente, seja para o coletor de lixo fazendo seu trabalho durante as quentes madrugadas recifenses. O trânsito, por si só caótico, assume um ritmo decididamente insano graças aos motoristas locais. E a tendência é piorar.

Buscando mostrar aos leitores como funciona o tráfego da capital pernambucana, porém sem expor os mesmos aos seus perigos constantes, me deparei com um velho vídeo que mostra que o problema é antigo, muito antigo. Parece, mesmo, que não é exclusividade do Recife. E o desenho animado, sincero como todo desenho animado deve ser, mostra bem que, atrás da direção de um carro, somos todos uns patetas mesmo.









Não seja um pateta. Deixe seu carro em casa.