sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Texto de convidado: Mandingas de Reveillon






O ano está acabando e meu otimismo habitual em relação ao ano seguinte, vai se transformando numa angustiante espera que o ano finalmente acabe mesmo, de verdade, e sem suspense. Todo final de ano é a mesma coisa. Eu sempre penso que no ano seguinte uma mudança drástica na minha vida vai acontecer e, aí sim, todos os meus sonhos vão ser realizados e eu vou ser a pessoa mais rica feliz do mundo e consequentemente tudo vai dar certo, e eu vou ser positiva novamente, e o mundo é cor de rosa, e uns passarinhos vão cantar na janela da minha futura mansão. Mas isso é só ano que vem tá? Enquanto o ano se arrasta e não acaba, meu humor é péssimo e a última semana do ano é quase uma TPM.

Para que tudo isso (a felicidade extrema) aconteça, eu sempre insisto em apostar algumas mandingas/superstições de final de ano que, sinceramente, nunca vi funcionar para ninguém, mas que não custa tentar dar uma ajuda ao destino, ainda que essa ajuda seja completamente baseada em lendas inventadas pelas nossas avós ou ainda aqueles deuses todos africanos que todo mundo decide acreditar quando chega o Réveillon.

Calcinha colorida: vermelha pra paixão, amarela para dinheiro, branca para paz. Cada cor de calcinha serve para um desejo pro ano seguinte e, sinceramente, eu quero uma calcinha arco-íris, com todas as cores  mesmo por que eu tô precisando de tudo e até uma mudança de opção sexual não pode ser descartada num momento destes.

Roupa branca: porquê mesmo a gente veste roupa branca? Purificação ocidental ou velório indiano? Sempre consigo perceber que duas coisas podem acontecer por vestirmos a roupa branca. Uma delas é celebrar literalmente a morte de mais um ano e por isso o início de uma nova vida e blá blá blá essa coisa toda Hare Krishna. A outra é você acabar a noite com o vestido todo cagado de mousse de maracujá e vinho tinto.

Peru: tender, chester ou até galeto, seja o que for que tenha asas e penas parece ser uma das opções culinárias mais tradicionais para se comer num Réveillon com toda a pompa e formosura, mesmo que você roa o osso. A única coisa infame que posso dizer disso tudo é que farofa no dos outros é recheio. Eu prefiro bacalhau.

Champanhe: qualquer bebida espumante que não seja fabricada na região nordeste da França, conhecida como Champagne-Ardenne não é champanhe. Você acha mesmo possível realizar algum desejo de ano novo tomando alguma coisa diferente do champanhe tradicional? Você acha mesmo que brindar com espumante Cereser vai fazer a providência divina/Iemanjá (?) achar que você é digno e merecedor de desejos de Réveillon extras, além de todos aqueles que você pede comendo uvas-passas?

Uvas-passas: são 12 uvas-passas que temos que comer no Réveillon para garantir que cada mês do ano seguinte seja repleto de coisas boas, o que me leva à conclusão de que existe uma incongruência nesse procedimento, levando em consideração que, para mim, o que estraga o arroz à grega é a uva-passa, o que estraga o bolo de frutas secas é a uva-passa e que o que estraga a uva é o fato dela se transformar em passa.

Trevo de quatro folhas: é sempre bom andar com um para garantir sua sorte o ano inteiro e quiçá a vida toda. Mas bom mesmo é você aprender a desenvolver as técnicas de cultivo necessárias para que, ao crescer sob uma temperatura média de 25º centígrados com bastante chuva e pelo menos 8 horas diárias de escuridão, o trevo desenvolva essa incrível anomalia de se dividir em quatro folíolos ao invés dos habituais três. Isso sim, é garantir sua sorte para toda a vida e uma vida de agonia para um trevo. Seguindo a máxima da lei do retorno, do “aqui se faz, aqui se paga”, dos ditados “quem com ferro fere, com ferro será ferido” ou outra qualquer filosofia de buteco que sugira que o que vai, volta, eu prefiro manter o trevo com três folhas, de preferência plantadinho na terra, em vez de trancado dentro da minha carteira. Vai que né...

Fitinhas do Nosso Senhor do Bonfim da Bahia: esse pedacinho de pano enrolado no pulso onde todos os anos, há muitos anos, eu deposito todas as minhas esperanças em relação ao meu futuro papel na sociedade. Três nós e três desejos que todos os anos eu peço exatamente a mesma coisa: me formar, casar, ter filhos. Meus desejos são bem rasos e eu nunca pedi o fim da violência ou a paz no mundo o que me leva a crer que sou meio egoísta há uns 25 anos. O problema dessas fitinhas é que você não pode tirar. Elas têm que se desgastar e arrebentar sozinhas e, acho que por isso, meus desejos nunca se realizaram completamente. Sempre rolava um casamento pra ir e a pulseira estragava minha roupa de princesa o que me fazia ter que arrancá-la ainda no primeiro trimestre do ano. Resultado: até hoje só me formei mesmo e por que fui muito teimosa e isso me dá a oportunidade de, em 2011, pedir outro desejo diferente do da formatura. Eu vou pedir riqueza já que o dólar na minha carteira não está funcionando.

Um dólar na carteira: por falar em dólar, alguém inventou que andar com um dólar na carteira atrai dinheiro. Na verdade a única coisa que faz é nos dar a sensação psicológica de que ainda tem dinheiro na carteira quando, na verdade, você tem no máximo 25 centavos pra dar pro flanelinha. O dólar na sua carteira tem a função de fazer você achar que é próspero e achando isso você está “mais próximo” de ser do que aquele que se acha um miserável. Uma linha de pensamento maravilhosa que dá certo até o momento em que você quer comer uma coxinha, ou pegar um ônibus por que seu carro quebrou e não tem 1 real sequer pra pagar. No final das contas o que faz de você rico e próspero no Brasil é ter vários reais (moeda corrente do país) na carteira, ao invés de dólar.

Flores pra Iemanjá: Réveillon no Brasil é mesmo lindo. Todo mundo reza suas orações cristãs e depois corre pra praia pra jogar algumas flores pra Iemanjá, deusa do mar, orixá do candomblé, rainha pagã dos mares, na imensidão da praia de Boa Viagem, unindo duas religiões que, em tempos de Inquisição, com certeza ia ter gente ardendo numa pira escandalosa. E o que se faz quando se jogam as flores? Se fazem pedidos de novo. Por que o Réveillon é uma grande oportunidade de encher as instâncias superiores de pedidos inatendidos. Mas ao invés de flores você pode jogar outras coisas no mar, como: latinhas de cerveja, copo plástico, rolhas do espumante Cereser que não vai te garantir pedidos, sacos plásticos de Bompreço da farofa que você levou pra praia ou pedaços do isopor que seu tio bêbado sem noção quebrou quando decidiu cair sentar em cima.

Pular 7 ondinhas: por que em Boa Viagem você pode pular ondinhas ou dejetos daquela que é a noite mais nojenta da praia em Recife e ainda fazer mais alguns desejos, de preferência pedir pra não pegar nenhuma doença depois de molhar seus lindos pezinhos de unhas feitas na imundície da água que Iemanjá vai sofrer pra limpar. Daí as ondas né, uma tentativa frustrada da rainha do mar de devolver para terra as oferendas indesejadas que mandaram pra ela.

Então o ano está acabando e eu tenho que me preparar para o ritual das mandingas que nada têm feito para mudar a minha vida a não ser a de, todos os anos, dar uma guinada de 180º na minha existência o que dá para perceber, se você alguma vez prestou atenção nas aulas de geometria, que eu sempre vou e volto pro mesmíssimo ponto. 180º. Com certeza devem existir outras simpatias de final de ano, fora aquelas de tomar banhos de várias espécies, mas este ano, só mais uma vez, pode ser que eu tome banho, corajosamente, na praia de Boa Viagem, pule 7 ondinhas, jogue flores para Iemanjá, brinde o ano novo com espumante Cereser, recoloque meu dólar na carteira, procure incansavelmente um trevo de quatro folhas, me vista de branco, compre uma calcinha amarela, coma 12 uvas-passas e amarre, de novo, aquela fitinha do Bonfim amarela fluorescente que eu sei que agora mesmo em janeiro, vou ter que desamarrar. Mais uma amiga vai casar.


Por Carol Burgo

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Patetas


Bairrista como sou, preciso admitir que existe uma coisa que eu detesto no Recife: a maneira como as pessoas dirigem. O motorista nativo parece ter sido treinado na autoescola do inferno. Para o recifense médio, carros são verdadeiras armas de destruição em massa enquanto pedestres não passam de quebra-molas ambulantes e um pouco mais escandalosos. Todos sabem da sensação de poder trazida pela direção e ela é diretamente proporcional ao tamanho do carro. Donos de Fuscas e Pálios costumam ser pessoas mais tímidas, até certo ponto apegadas às leis do trânsito. Desconfie dos motoristas de grandes veículos, como Pajeros e caminhonetes tipo D-20. São maníacos ao volante, esperando apenas a oportunidade de esfregar sua pretensa superioridade na sua cara, de preferência utilizando o para-choque do veículo. Some-se a isso o agravante da regra geral da proporção inversa acerca da genitália do motorista e têm-se aí a mais perfeita receita para um desastre: agressividade, arrogância e falos de dimensões ridículas.

O conceito de direção defensiva é inexistente enquanto a faixa de pedestre não passa de uma semiesquecida lenda urbana. Sinais amarelos não significam “Diminua” e sim “Acelere antes que o urso pule pela janela do seu quarto”. O sinal de troca de faixa só é dado depois que a manobra foi realizada, uma forma de esculachar ainda mais o motorista que acabou de ser trancado, mas que faria a mesma coisa se tivesse a oportunidade. A única forma de comunicação é a buzina, ininterrupta, invasiva, seja para a velhinha que atravessa a rua penosamente, seja para o coletor de lixo fazendo seu trabalho durante as quentes madrugadas recifenses. O trânsito, por si só caótico, assume um ritmo decididamente insano graças aos motoristas locais. E a tendência é piorar.

Buscando mostrar aos leitores como funciona o tráfego da capital pernambucana, porém sem expor os mesmos aos seus perigos constantes, me deparei com um velho vídeo que mostra que o problema é antigo, muito antigo. Parece, mesmo, que não é exclusividade do Recife. E o desenho animado, sincero como todo desenho animado deve ser, mostra bem que, atrás da direção de um carro, somos todos uns patetas mesmo.









Não seja um pateta. Deixe seu carro em casa. 

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Moço...

Com o advento do celular, hoje em dia quase ninguém anda por aí com os velhos relógios de pulso. Não é que as pessoas usem o relógio para se comunicar, claro. Só quem faz isso é o Dick Tracy. 



 E com muito mais estilo do que você ou eu.



Elas utilizam o aparelho móvel como relógio mesmo. É por isso que os poucos anacrônicos que insistem em trazer as horas no punho acabam chamando uma atenção indevida. O ser humano parece possuir uma linha de comando impressa em seu DNA que o impele a perguntar as horas sempre que conseguir identificar um semelhante portando um relógio. Quando ando pelas ruas com o meu velho reloginho digital preto e laranja, comprado na Praça do Diário de um negociante de produtos escusos, costumo ser constantemente assediado por transeuntes que parecem não ter nada melhor para fazer do que perguntar “Moço, que horas são?”. Todo mundo pede as horas. O vigia da obra pede as horas. A mulher do vizinho pede as horas. O flanelinha da padaria pede as horas. O mendigo, que não tem horário para nada, pede as horas. E ainda se queda pensativo, em sua caixa de papelão de geladeira último modelo, depois de ouvir a resposta.

Dia desses, andava de bicicleta, atrasado para o trabalho quando uma velha senhora, descabelada e aflita como apenas as velhas senhoras conseguem ser, surgiu na calçada, braços abertos, berrando com voz rouca “Moço, moço!”. Desesperado, dei uma rabeada na bicicleta, capotei no meio-fio e desviei, por pouco, da panela de pamonha fervente da moça da esquina. Corri em direção à velhinha, ignorando a merda de cachorro que eu havia acabado de pisar, já preparado para prestar auxílio à pobre criatura.


- O que foi, minha senhora? É o coração? É a osteoporose? É o coração, meu Deus do céu?!

- Moço...

- Diga, mulher de Deus, diga!

- ...que horas são?

- ...


Sim, passei a defender a eutanásia de idosos depois desse dia. 



 Por esse e por outros motivos.



Mas não foi o único susto que eu levei por causa do relógio. Estava eu dirigindo, à noite, quando parei o carro em um cruzamento pouco movimentado. A falta de ar-condicionado no veículo e o calor sobrenatural do Recife sempre levam a melhor sobre meu instinto de autopreservação, de forma que costumo dirigir de janela aberta. Surgiu um motoqueiro ao meu lado. Tenso, estava a ponto de subir o vidro da porta quando o homem se voltou em minha direção, os olhos dentro do capacete faiscando. Apoiou-se na janela do carro e foi enfiando a cabeça para dentro do veículo. A meio caminho de borrar minhas calças, já ia contabilizando as minhas perdas, ao mesmo tempo em que pensava em formas de manter minha dignidade naquela situação adversa.


- Moço...

- Pelamordedeus, leve o que o senhor quiser, só não me mate! Minha mãe tá em casa prostrada numa cama, ela só tem a mim, o que já não é muita coisa, mas é melhor do que nada e se o senhor me matar, ela também vai morrer e vai ser duplo homicídio porque...

- ...que horas são?

- ...


Passei a odiar todo aquele que me perguntasse as horas. E muitas oportunidades para odiar me foram dadas. Caminhava para casa quando fui abordado por um sujeito de aparência suspeita, trajando o uniforme de alguma das torcidas organizadas da cidade. Tinha o aspecto sinistro daqueles que já não têm mais nada a perder.


- Moço...

- MOÇO É O CARALHO! É O RELÓGIO, NÉ? É A BOSTA DO RELÓGIO!

- O que é isso, moço?! Sou bandido não! Eu só queria saber...

- ...A HORA! QUERIA SABER A MERDA DA HORA, NÉ? POIS ENTÃO TOMA! SOCA ESSA PORRA NO CU! ENTENDEU? NO CU!

- Cremdeuspai, moço...

- TE FODE!


Joguei o relógio no peito do pobre homem e saí, transtornado, pela rua. Lançava olhares furiosos para as pessoas e as únicas coisas que passavam pela minha mente eram morte e destruição, de preferência envolvendo grandes relógios de parede. Do outro lado da via, uma mulher acenou desesperadamente. Senti meu sangue pulsando nos ouvidos e, tomado por pensamentos assassinos, me voltei em sua direção. Súbito, lembrei que havia me livrado do relógio amaldiçoado alguns minutos antes. Olhei para a mulher em prantos e, aliviado, verifiquei que era apenas a sua casa pegando fogo. 

Sorri o meu melhor sorriso, acenei alegremente e segui assoviando em direção à minha casa.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Não mude





Natal é amor, paz, família, solidariedade. Natal é falsidade, hipocrisia, tristeza, desespero. O Natal é todas essas coisas e muito mais. O que dizer de uma espécie que, ao menos no lado ocidental de seu planeta de origem, precisa de um feriado oficial para que seus membros coloquem a mão na consciência e busquem pensar em outras coisas que não si próprios? E o que podemos concluir ao percebermos que, para a grande maioria das pessoas, esse é um exercício basicamente inútil, redundando em nada mais do que alegria postiça, celebrações vazias e corações partidos?

Isso porque, ao contrário dos filmes e telenovelas, não há mudança que ocorra da noite para o dia. A decência, a honestidade, a compaixão, são características que precisam ser exercitadas. Como músculos, atrofiam pela falta de uso. Você passou o ano todo alternando entre comer, dormir e se conformar e agora acha que em um final de semana caminhando na praia vai estar pronto para tirar a camisa na praia? Não vai estar. Não é assim que funciona, não com seu corpo, nem com sua mente e muito menos com seu espírito. Se você é um sedentário moral, não adianta prometer a si mesmo que o próximo ano vai ser diferente. Não vai ser.

Mas a mudança pode vir. Aos poucos, paulatina. Existe uma série de exercícios que podem te ajudar nessa tarefa. Comece flexionando sua sinceridade. Sem ela, qualquer outra atividade que você fizer só vai te deixar dolorido no dia seguinte e não apenas você. Afinal de contas, exercitar o espírito é, dificilmente, uma atividade solitária. Não se engane jamais. O seu termômetro de decência sempre será o outro. Tratar o próximo como um ser humano é apenas o primeiro passo. É o básico. Sem isso, todo o resto desmorona, flácido, sob o peso do nosso próprio egoísmo, essa gordura que se acumula em nossas almas e que, creia, é tão ou mais visível do que aquela que se encontra em nossos abdomens e cinturas.

E é preciso querer mudar, de verdade. É necessário se policiar, todos os dias e em todos os momentos, buscando sempre ser melhor, mais do que ontem, um pouco menos do que amanhã. Atletas de fim de semana não são atletas de verdade. Seu corpo e seu espírito não aguentam o esforço desacostumado e, em protesto, param. A única diferença é que um coração que desiste pode significar o fim derradeiro de todas as angústias dessa vida. Um espírito quebrado é apenas o começo de um sofrimento sem fim e o pior é que muitas vezes nem percebemos a alma fraturada. Mas ela está lá. Os seus cacos patéticos estarão para sempre dentro de você, te cortando profundamente, te causando dor, te fazendo sangrar e, ao contrário do que você pode pensar, todos poderão enxergar as cicatrizes.

Não mude. Comece uma mudança.


O Blog da Reclamação deseja um Feliz Natal a todos os leitores, pedindo a compreensão dos mesmos para o fato de que nem só de risadas pode viver um blog de comédia.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Pernambuquês II

Como eu havia falado no post anterior, é simplesmente expressão e gíria demais para um texto só. Contando com a ajuda dos amigos leitores, consegui mais alguns verbetes para este dicionário, tudo feito no espírito de cooperação de pessoas desejosas de terem seu pernambuquês melhor compreendido lá fora.


Frango – Incrível ter deixado essa passar. Pior que quem me lembrou foi a amiga e leitora Henna, lá do Ceará e que, até onde eu sei, nunca morou por aqui. Frango, além da ave, também se refere ao homossexual masculino, obviamente de maneira bastante chula. De fato, em Pernambuco não se come frango. Quer dizer, se come, mas geralmente camuflado ou depois de uma passadinha lá na Metrópole. Se você estiver em uma mesa de restaurante cheia de pessoas das mais variedades origens e, por algum motivo, quiser saber se tem algum pernambucano presente, basta chamar o garçom e pedir em voz alta “Moço, eu queria mesmo era comer um franguinho agora”. Se alguém se enfiar debaixo da mesa na tentativa de esconder uma risada estúpida e fora de controle, então ele é conterrâneo de Chico Science. Se estiver visitando o Recife, faça um favor a si mesmo e peça um galeto.

Vôte! – Também uma das minhas favoritas. Pernambucaníssima, essa interjeição é utilizada para demonstrar espanto, estranheza, desconfiança ou descontentamento. A origem, bastante peculiar, remete ao engenheiro francês Louis Lérger Vauthier, contratado, no século XIX, pelo então governador da província de Pernambuco, o Conde Francisco do Rêgo Barros, para uma série de obras que permanecem até os dias de hoje, algumas delas se tornando cartões-postais do Recife como, por exemplo, o Teatro de Santa Isabel:






O Mercado de São José:






O casario da Rua da Aurora:






Entre outras intervenções na paisagem urbana local. Depois de ter feito tanta coisa legal por aqui, você deve estar se perguntando por que diabos o sobrenome do cara é associado à tanto sentimento ruim, de uma forma quase supersticiosa, pelos recifenses. Acontece que Vauthier, fazendo jus à fama dos franceses, era considerado um pé no saco. Chato, arrogante, intratável e dado a pitis intermináveis, o cara era considerado insuportável por 95% das pessoas com as quais interagia. Os outros 5% nem falavam, já chegavam descendo o cacete mesmo. Numa dessas, ele acabou decidindo que era melhor, para a sua saúde, voltar para a França. Mas não antes de ter o desprazer de ver seu sobrenome se transformar em expressão de desgosto na boca do povão. Vôte!

Um cheiro! – Mais uma imperdoável. Pernambucano não manda beijo, manda cheiro. E se você não sabe que cheiro é melhor que beijo é porque nunca levou um, muito menos de um pernambucano ou de uma pernambucana. Além de demonstração de afeto, também pode ser uma mostra de coragem, caso a outra pessoa tenha acabado de chegar da pelada dominical ou passou o dia tratando peixe para a Caldeirada com a família. A dica veio da amiga e leitora Fátima Germana.

Pirraia – A amiga, leitora e prima Alice, dona do blog IDENTIDADE PESSOAL, foi quem lembrou essa. Corruptela de “pirralho”, serve para designar crianças. Também é demonstração de carinho e afeto, principalmente entre as camadas mais humildes da sociedade pernambucana. Se você nunca foi chamado de “Meu pirraia” é porque não é daqui ou então é um esnobe.

Massa – Mais uma enviada por Fátima Germana. O mesmo que “legal” ou “muito bom”. Também é gíria para maconha. Falar “Que massa, doido!” no meio de um show de reggae no Recife Antigo pode te render uns tragos da erva cultivada na Zona da Mata pernambucana, segundo os entendidos a melhor do Brasil. Também pode resultar num cacete por parte da polícia local, é tudo uma questão de oportunidade.

Pirangueiro – Uma instituição de Pernambuco. O pirangueiro é o famoso unha-de-fome, mão-de-vaca, amarrado, avarento, enfim, o desgraçado que atravessa o Capibaribe a nado com um Sonrisal na mão sem desmanchar. Dá origem ao verbo “pirangar” e ao substantivo “pirangagem”. 

Passar o xêxo – Foi Mauro, o galhofeiro, quem me lembrou dessa. Passar xêxo é o mesmo que fazer um trambique, do tipo “comprou, mas não pagou”. Se seu nome está no SPC ou no Serasa, é porque você deu o vacilo de passar o xêxo em alguma empresa, em vez de se limitar apenas aos amigos e parentes mais próximos. Dá origem ao adjetivo “xexêro”.

Pai – O amigo Chico Fagundes lembrou essa daí. Não sei a origem e não faz o menor sentido, mas algumas pessoas, geralmente um tanto mais humildes, tratam umas as outras dessa forma. Expressões como “Bora, pai” e “Te fode, pai” são bastante populares.


Sei que ainda não cheguei nem perto de cobrir todas as expressões e gírias usadas pelo povo pernambucano, mas agora já é possível, para os de fora, terem ao menos uma leve noção de pernambuquês. Pratique com seus amigos e chegue aqui fluente.

Afinal, o carnaval está chegando.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Pernambuquês




Dia desses fui tomar uma cerveja com minha amiga Eva, dona do Blog Ladeira Chic (que aliás, anda meio parado. Evinha, olha o serviço, cacete!) e os colegas do trabalho dela, um pessoal muito gente boa e quase todos de fora de Pernambuco. Na misturada tinha carioca, gaúcho, paulista, baiano e outras nacionalidades que não lembro agora. Como é natural, em uma mesa onde há ao menos um pernambucano e pessoas de qualquer outro lugar que não seja Pernambuco, o tema da conversa logo passou para bairrismo, no caso, o do tipo extremado que se pratica por aqui. 

Deus me defenda de tentar mudar a imagem do pernambucano que, aliás, deve ser o único no Brasil que se sente totalmente confortável com seus estereótipos. Chame um baiano de preguiçoso, um paulista de chato ou um carioca de folgado e eles vão bater na mesa e berrar, cada um com seu sotaque particular “Peraí, meu rei/mano/maluco, não é assim não!”. Chame um pernambucano de bairrista extremado, chato e megalomaníaco e um sorriso insano de satisfação vai se espalhar pelo rosto dele, o que vai te forçar a acrescentar “doido de pedra” na sua lista de pré-conceitos. E com razão. 

Para mostrar que o pernambucano, apesar da má fama acima justificada, também pode ser legal, simpático, acolhedor, contido e, até certo ponto, mentalmente são, resolvi aproveitar a nova onda de desenvolvimento do estado, que vem atraindo cada vez mais gente de fora (“gente de fora”, olha o preconceito!) e bolar um pequeno dicionário de expressões de uso corrente em Pernambuco, tendo em vista facilitar a comunicação entre os daqui e os de lá (mais preconceito), evitando assim mal-entendidos, confusões, bate-bocas, confrontos físicos, desespero, morte. 

Lembrando que todas as expressões devem ser pensadas e praticadas com o sotaque típico daqui, então nada de “dji” ou “tchi”. Pernambuco é um dos poucos estados do Brasil que ainda resiste à sanha homogeneizante das novelas da Rede Globo (desculpem Bahia e Ceará), então por aqui ninguém fala “Você assistchiu o últchimo capítulo de Tchi Tchi Tchi?” e nem usa artigo definido antes de nome próprio. Com a parte fonética acertada, vamos às expressões. Não estão em ordem alfabética, deixe de ser chato e leia mesmo assim.


Tabacudo – Uma das minhas expressões locais favoritas. Tabacudo é aquele ser que fala besteira com uma frequência preocupante, mas geralmente não chega a ser muito ofensivo. Todos podemos ser tabacudos de tempos em tempos, especialmente quando o nível alcoólico no organismo começa a atingir níveis alarmantes.

Mamão – No caso, não é a fruta. Mamão equivale a tabacudo, sendo um pouco mais condescendente e, portanto, ofensivo. Geralmente vem com acompanhamento. Por exemplo “Cala a boca, mamão!”.

Zé – Versátil, equivale ao mané dos cariocas. É o otário, o ingênuo, o cara despreparado para a vida. Permite diversas complementações diferentes, com variados níveis de ofensa pessoal. Exemplos: Zé Mané, Zé Culé, Zézo e, preferido entre as massas, Zé Buceta. Esse último faz referência, claro, ao homem virgem, que por nunca ter comido ninguém, acaba sendo esculachado com um apelido que junta o Zé com aquilo que, supõe-se, ele nunca experimentou na vida. O maior sociólogo que o Brasil conheceu, o pernambucano (lógico) Gilberto Freyre, explica que na patriarcal sociedade açucareira de Pernambuco, só era homem quem conhecia as delícias dos favores femininos e quanto antes melhor. Daí os garotos dos seus doze ou onze anos, ainda na época da escravidão, já começarem a se esfregar nas mucamas e, pouco mais tarde, exibirem as cicatrizes da sífilis aos amigos, como uma espécie de medalha de honra e atestado de masculinidade.

Donzelo – Ver Zé Buceta.

Besta, abestalhado e alesado – Ver Tabacudo.

Véi – Corruptela de “velho”. Pronome de tratamento altamente informal e massificado, especialmente na capital, Recife. Costuma vir acompanhado de outra expressão, também muito popular, criando o absurdo, porém bastante difundido, "Meu irmão, véi”. 

Tás onde? – Essa é bem óbvia. Contudo, até onde eu sei, apenas por aqui se procura saber a localização de uma pessoa, geralmente ao celular, utilizando-se essa expressão. “Cadê tu, véi?” é uma variação completamente aceitável.

Doido – Ver Véi.

Carai – Corruptela de “caralho”. Serve para se referir ao órgão sexual masculino ou, como é mais comumente usado, para enfatizar uma colocação ou indicar intensidade. Por exemplo: “Meu irmão, véi, bicha feia do carai!”.

Visse? – Usado para se confirmar a compreensão de uma informação. Pode ser usado em praticamente qualquer situação e possui uma variação famosa, o “Tá ligado?”, que costuma irritar pais e pessoas mais velhas em geral. Muita gente simplesmente não consegue terminar uma frase sem disparar um “Tá ligado?” no final.

Virado – Significa transformado em algo, dando a entender que a pessoa em questão encontra-se, momentaneamente, fora do seu juízo perfeito. Variações comuns são “Virado na porra”, “Virado no carai” e o enigmático “Virado no mói de coentro”.

Te fode! – Variação local do popular “Foda-se”, praticado no resto do Brasil. Admite complementos, como “Te fode, doido” ou “Te fode, véi”.

Se garante – Alguém que é competente em alguma coisa, mesmo que seja uma coisa ruim. Por exemplo: “Ela se garante na chatice, visse?”.

Acochar – Significa, literalmente, apertar. Serve para descrever, em termos grosseiros, uma relação física entre duas pessoas, quando uma acocha a outra e, se tudo der certo, é acochado de volta.

Amolegar – Significar mexer em algo ou, dependendo do contexto, passar a mão no órgão sexual alheio, preferencialmente com concordância previamente estipulada.

Balaio-de-gato – Uma situação confusa. Não se sabe quem está certo e quem está errado, muito menos que é o dono dos gatos ou como eles foram parar naquele balaio, para início de conversa.

Pegar bigu – O mesmo que pegar carona, mais utilizado no interior do estado. Não há conotações sexuais nessa expressão.

Couro-de-pica – Algo que não se resolve, vai e volta, lembrando o movimento do órgão sexual masculino durante o ato.

Pegar ar – Ficar nervoso, perder a calma ou a paciência em relação a alguma coisa.

Fuleiro – Significa algo de baixa qualidade, inclusive amizades. O fuleiro é a pessoa com a qual não se pode contar para nada, seja para dar uma ajuda no trabalho ou mesmo para aparecer para uma cervejinha com os amigos. Dá origem ao verbo “fuleirar”.

Farrapar – Ver fuleirar.

Cair um baque – Tropeçar e cair no chão, geralmente de forma patética e com pessoas apontando e rindo de você.

Arrancar o samboque – Tropeçar e, no processo, perder a pontinha do dedo do pé.

Vou chegar – Vou embora. Ninguém sabe muito bem qual a origem dessa expressão, mas até eu admito que não faz o menor sentido. Aceita variações como “Vou chegar nessa” e “Vou lavrar”.


Além dessas existem muitas outras. Lembrando que há também aquelas que são comuns ao Nordeste como um todo, como "Eita", “Oxente”, “Ôxe”, “Vixe Maria”, “Galego” e outras mais. Muitas delas, apesar da resistência das mayaras da vida, se popularizaram por todo o Brasil. Difícil é encontrar alguém hoje em dia, mesmo na lonjura das fronteiras gaúchas ou no coração de São Paulo, que não fale o seu “Vish” ou “Afe”, corruptelas dos originais nordestinos. Seria impossível acrescentar todas em um único post e muitas não me vêm à cabeça no momento, por isso peço aos leitores, de Pernambuco ou não, que deixem na seção de comentários suas contribuições para esse dicionário, visando assim melhorar a comunicação entre o pernambucano e o resto do Brasil. E você, que é de fora, vá praticando. Pernambuco está de portas abertas para você.

Mas faz aí um esforçozinho para aprender a falar nossa língua antes de vir, vai.