sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Meus momentos mais constrangedores: Top 10 - 2º e 1º lugares





2º Lugar: O bom motorista


Estava dirigindo de volta para casa, cansado e, por algum motivo que não me vem à memória agora, um tanto mal-humorado. Ao pegar a rua que levava á minha casa, cheia de carros estacionados de ambos os lados, me deparei com um veículo vindo na contramão. Não faço o tipo brigão e, como eu estava bem no começo da rua, em qualquer outro dia eu teria dado uma ré curta e deixado o outro motorista passar. Mas naquela noite, senti meu sangue ferver ao me deparar com esse evidente abuso no trânsito. Parei o carro e me recusei a movê-lo. À minha frente, o senhor de idade um tanto avançada buzinava, mandava luz alta nos meus olhos e gritava. Isso apenas fortaleceu a minha resolução. De repente, senti que era a hora de alguém representar todos aqueles cidadãos cumpridores das leis de trânsito, verdadeiros motoristas defensivos, que acabavam sendo considerados os otários das ruas das grandes cidades, justamente por respeitarem as regras e guiarem com cuidado. O pensamento de resistir à tirania dos barbeiros, ainda que de forma solitária, me enchia de uma coragem quase catártica.

O velhinho vociferava palavras sem sentido enquanto eu me imaginava sendo carregado através das avenidas congestionadas nos braços dos bons motoristas, sendo aclamado como o herói que não se rendeu aos desmandos dos domingueiros que teimavam em tornar o tráfego da minha cidade um inferno diário. Em êxtase, nem ao menos estranhei o fato de que uma fila de carros se formava atrás do velhinho, que naquele momento já exibia um tom arroxeado no rosto enrugado. Decidido a fazer valer meus direitos, exclamei para os carros á minha frente, projetando minha voz para que fosse ouvida sobre a sinfonia de buzinas enlouquecidas:

- Não adianta! Daqui não saio! Não irão me derrotar! Vocês, que estão na contramão, que deem ré!

Ao que uma voz apoplética respondeu, berrando selvagemente:

- QUEM TÁ NA CONTRAMÃO É VOCÊ, SEU FILHO DA PUTA!

De repente, tive a sensação de algo estava terrivelmente errado ali. Olhando para a minha esquerda, finalmente vi a placa que indicava que, de fato, eu estava vindo no sentido errado. Como uma tijolada, me veio à memória de que o DETRAN havia invertido a mão daquela via alguns dias atrás, evento amplamente divulgado e comentado, mas que meu cérebro obtuso, por motivos que escapam à minha compreensão, havia decidido deletar da minha memória. Humilhado, dei ré e encostei o carro na esquina, enquanto uma fila interminável de carros portando motoristas enfurecidos passava por mim, todos eles xingando a mim e toda a minha ascendência de maneiras criativas e pornográficas. 

Depois desse dia, eu nunca mais andei de carro por essa rua.



1º Lugar: Porta fechada


A vida é uma coisa injusta. Acompanhem meu raciocínio. Qual o período de nossas vidas em que mais pensamos em sexo, mais temos disposição para sexo e, provavelmente, mais temos tempo para praticar o ato? Se você respondeu “adolescência” é porque já passou por essa fase e tem todas as cicatrizes de espinhas e pôsteres de cavaleiros do Zodíaco para provar. Paradoxalmente, porém, que momento de nossa existência é mais desprovido de oportunidades para dar uma, seja por falta de local, grana, carro, infraestrutura básica ou membros do sexo oposto (ou o que quer que você prefira) com disposição para a coisa? Pois é. A maldita adolescência. Hormônios enlouquecidos, mãos cabeludas, penteados escrotos, aparelhos ortodônticos e muita vontade de transar. E a não ser que sua vida se passe em um filme de comédia teen americano, é provável que você passe por essa fase sem ter tantas histórias para contar.

A não ser que você faça como eu fiz e arrume uma namorada. Claro, acabei perdendo algumas noitadas de Doom II regado a vinho Carreteiro e ouvindo Offspring com os amigos, mas em compensação eu possuía acesso a uma fêmea verdadeira, que nem aquelas das revistas, anatomicamente correta e, o que era mais incrível, disposta a fazer sexo comigo. Como sobrava vontade, mas faltava transporte, geralmente ficávamos no quarto dela mesmo. O fato de a minha sogra estar sempre em casa não era detrimento para a nossa lascívia juvenil. Ousados, tínhamos apenas duas medidas de segurança naquela época: camisinha e porta fechada. Mas não trancada, porque o trinco estava com defeito. Para que a porta não se abrisse na primeira ventania, usávamos um pedaço de pano para fazer pressão e manter no lugar a única coisa que nos separava do resto da casa. Funcionava, desde que ninguém tentasse, de verdade, abrir a porta. Foi então que Deus, decidindo que aquela mamata já durava tempo demais, decidiu me ensinar uma lição de humildade, com formação completa em trauma inesquecível e pós-graduação em cicatrizes mentais. Estávamos eu e ela na cama, pelados, já em ritmo acelerado, quando ouvimos uma batida na porta. Suspense.


Minha namorada: ...oi...?

Minha sogra: Minha filha, abra que eu preciso pegar uma roupa aí no seu quarto.

Eu: ...

Minha namorada: Mãe, agora não dá.

Minha sogra: Não dá por quê?

Minha namorada: Porque não dá.

Eu: Melhor a gente parar por aq...

Minha namorada: Não! Nada disso!

Minha sogra: O quê? Como assim?

Eu: Mas tua mãe...

Minha namorada: Relaxa. Ela não é doida de entrar assim, sem permissão.

Minha sogra: Tô entrando.

Minha namorada: NÃO!

Eu: GAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!


E então ela abriu a porta. Não toda, apenas o suficiente para observar todos os detalhes morfológicos da minha bunda, nesse momento compreensivelmente tensa, em cima de sua filhinha. 


Minha sogra: Filha!

Minha namorada: Mãe!

Minha sogra: Fred!

Eu: Hmm. Oi. Tudo bem com a senhora?


Lívida, a mãe da menina tornou a fechar a porta, tendo a consideração de recolocar o pedaço de pano no lugar. E assim, aos 17 anos de idade, finalmente entendi o significado da expressão “broxada”. Naquele dia, só tive coragem de sair daquele quarto depois que minha sogra havia se retirado para dormir. Voltei para casa cabisbaixo, sem saber bem como lidar com a situação e imaginando que tipo de relação pode sobreviver quando tanto sua namorada quanto a mãe dela conhecem em detalhes a sua geografia íntima. No dia seguinte, recebi uma ligação dela. Da filha, não da mãe, querendo me encontrar em sua casa para conversarmos. Já tinha ideia do teor da discussão e já havia me resignado ao retorno de uma vida povoada apenas por amigos cabeludos, gibis de super-heróis e revista de mulher pelada. Quando cheguei, ela me pegou pela mão, me levou até seu quarto e, sorridente, apontou para a porta do seu quarto. Ela havia mandado consertar o trinco de forma que a porta, um tanto tarde demais, já podia ser trancada de chave. Ainda ficamos meses juntos e durante todo esse tempo, nem uma única vez a mãe dela sequer bateu na porta do quarto.

Foi a única vez na minha vida em que dividi minha bunda com mais de uma mulher.



quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Meus momentos mais constrangedores: Top 10 - 4º e 3º lugares





4º lugar: Cinema com minha mãe


Eu dificilmente vou ao cinema com a minha mãe, mas quando isso acontece, tento escolher um filme que eu acho que ambos vão gostar. Nesses casos, um bom filme de terror ou uma comédia são as melhores alternativas. Como na época a primeira opção andava escassa, resolvi, sem raciocinar direito, convidar a coroa para uma exibição de O Anticristo, de Lars Von Trier. Ingênuo, pensei que se tratava de um filme de terror comum, envolvendo um tanto de sangue, talvez alguns desmembramentos e, por que não, um ou outro peitinho, no máximo, só para quebrar a rotina de mutilações e gritos adolescentes. Sabe como é, entretenimento para toda a família.




 Na foto: entretenimento para toda a família.




Acontece que Von Trier não parece ter lá muita noção do que é diversão familiar. Ou talvez tenha e estava simplesmente a fim de me sacanear. O filme é uma das coisas mais doentias e absurdas que já vi na minha vida, com imagens que ficarão gravadas para sempre na minha mente. Claro que você poderia argumentar que eu deveria ter prestado mais atenção antes de levar minha progenitora para ver um filme desse calibre, mas assistindo ao trailer ninguém poderia adivinhar o nível de bizarrices aos quais seríamos expostos.







Sem contar, claro, com a bunda de Willian Dafoe.




De forma que, por cerca de duas horas e meia, tive que testemunhar, ao lado de uma mãe horrorizada, esse tipo de cena:


- Bebês suicidas se espatifando em calçadas cobertas de neve.

- Fodelança em câmera lenta no banheiro, com close das genitálias, enquanto o bebê acima mencionado brinca de super-homem pela primeira e última vez na vida.

- Atos de felação, sodomia e, de maneira geral, putaria, praticamente a cada quinze minutos.

- Masturbação com ejaculação de sangue.

- Mutilação de membros e genitálias em detalhes grotescos e altamente realistas.


Entre outras coisas. Ao final da sessão, eu choramingava em um canto, agarrando meus joelhos, enquanto algumas poucas pessoas permaneciam em suas poltronas paralisadas pelo trauma, tendo que ser encaminhadas para alguma emergência psiquiátrica logo depois. Minha mãe permaneceu em silêncio ao sairmos do cinema e, sem olhar para mim, declarou “Filme doido da muléstia. Gostei muito não”. Morto de vergonha, só me restou o consolo de que podia ter sido bem pior.

Podia ter sido em 3D.



3º lugar: Alistamento


A não ser que você more em um país como Israel, o serviço militar só será obrigatório para a parcela masculina da população. Aos dezoito anos, todo brasileiro precisa se apresentar no quartel mais próximo e torcer para que os oficiais encontrem algum defeito físico ou mental em você. Caso contrário, vai ser necessário se preparar para passar pelo menos um ano vestindo roupas camufladas e limpando as latrinas dos oficiais. Como quase ninguém quer ficar na corporação, o pessoal inventa qualquer negócio para escapar à convocação. É gente que aparece mancando por causa da unha encravada e alegando que não pode servir à pátria graças a um infeliz câncer nos ovários. Vale tudo para escapar.

É por isso que existe o exame médico. Como os militares não têm muito tempo, espaço e paciência para acomodar as milhares de pessoas que precisam se apresentar todos os anos, o exame costuma primar pela praticidade. Em outras palavras, os candidatos são largados em algum galpão esquecido por Deus e obrigados a tirar a roupa, sob os olhares sádicos dos sargentos de plantão. Tudo bem, não é a roupa toda. Só a calça e a cueca. Camisa e sapatos ficam, afinal o Exército Brasileiro não quer ninguém pegando um resfriado. É nesses momentos que se observa com mais clareza o comportamento humano, mais especificamente do gênero masculino, em sua forma mais primária. O instinto do homem faz com que ele, automaticamente, procure dar as costas para alguma superfície inerte, como um muro de concreto ou uma cerca eletrificada. Com a retaguarda mais ou menos protegida, chega a hora de lutar contra tudo aquilo que lhe foi ensinado desde os tempos de criança e baixar suas defesas, junto com suas calças, em uma enorme sala cheia de outros homens, também com a bilola de fora. Muitos se desesperam nesse momento e saem correndo, eventualmente tropeçando nos próprios cintos e sendo levados aos gritos para uma sala secreta onde exames mais aprofundados e um tanto mais ríspidos tomam lugar.




 Correu porque sabia que isso ia acontecer, né safadinho?




Os sobreviventes se encontram em um estado de tensão absoluta. Músculos latejam sob a pressão insuportável que é uma sala cheia de machos sem roupa, desde que, claro, não seja algum tipo de sauna. O mais difícil, aqui, é decidir para onde dirigir o olhar. Você sabe que as pessoas ao seu lado estão tão constrangidas quanto você e que, afinal, um caralho é um caralho, o que muda é apenas o tamanho e a cor. E o formato, caso você tenha nascido com problemas. Mas esse conhecimento em nada alivia o nervosismo, fazendo com que a maioria dos homens decida que a melhor estratégia é olhar para cima, livre da visão de genitálias alheias e, aproveitando a postura, muitos acabam rezando aos céus para aquilo terminar logo. É então que os médicos do exército, brutos que só eles mesmos, começam sua ronda pelo patético círculo de homens despidos, tecendo os mais variados comentários.


- Meu filho, não lava não, é?

- Tem certeza de que você é homem?

- Desliga o ar-condicionado que o desse aqui tá quase virando pra dentro!

- Em formato de C? Sério? É de família, é?

- Posso tirar uma foto?

- Corre e chama o Dr. Fragoso! Apareceu mais um daqueles anormais!

- Baixa essa porra agora ou eu mando te prenderem.

- Assim, tatuado, eu nunca tinha visto. Quem é “Clemys”?

- Eita, esse aqui tem um ovo só também, ó!

- Você já trabalhou no circo?

- Marca de batom? Noite boa, heim?

- O que importa não é o comprimento e sim o diâmetro. O que, no seu caso, não faz a menor diferença.


E por aí vai. No final, os doutores decidem quem está apto a servir e quem pode ir para casa tentar restaurar um pouco da dignidade perdida. Por sorte, consegui ser dispensado por “excesso de contingente” e nunca mais na vida botei o pé em um quartel.

Pelo menos não sem as minhas roupas.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Meus momentos mais constrangedores: Top 10 - 5º lugar










Detesto fazer cirurgias. Além do risco do estagiário trocar os prontuários e você acabar com um par de próteses de silicone quando na verdade você só queria operar a fimose, ainda existe a chance de o anestesista errar a dosagem e te colocar em coma ou de você sofrer um choque anafilático devido à intolerância relacionada a alguma substância desconhecida, te transformando no equivalente intelectual de um repolho cozido. Isso sem falar naqueles objetos estanhos que os cirurgiões insistem em esquecer dentro das pessoas, causando transtornos físicos e cicatrizes mentais.




 Eu juro que não sei como isso foi parar aí.




Mas antes que isso tudo aconteça, é necessário se preparar para a cirurgia, um procedimento que parece ter sido criado com o único intuito de obliterar a dignidade do paciente. E foi o que aconteceu comigo quando precisei remover os sisos. Sabem, aqueles dentes desnecessários, que só servem para causar dor, inflamações e para mostrar ao mundo que você é um troglodita tão estúpido que chegou atrasado ao trem da evolução, saindo por aí com órgãos absolutamente supérfluos, como o apêndice, as amígdalas e o dedo mindinho do pé.




 Mas alguma pessoas são menos evoluídas do que outras.




Cheguei no hospital e me colocaram em um quarto, onde uma enfermeira com expressão bovina me mostrou as roupas que eu deveria vestir para a intervenção cirúrgica: meias descartáveis que me faziam escorregar, uma touca muito semelhante à que minha avó usa para dormir e uma espécie de avental semitransparente atado nas costas, deixando à mostra minha bunda visivelmente tensa. Quando protestei contra aqueles trajes ridículos, a enfermeira sorriu maniacamente, se aproximou e começou a baixar minhas calças. Horrorizado, perguntei o que ela pensava que estava fazendo. Eficiente, ela informou que eu tinha cirurgia marcada, que só se podia entrar na sala de cirurgia com aquelas roupas e que, já que eu me recusava a cooperar, ela me iria me despir à força mesmo. Era de uma lógica cristalina e irrefutável. Depois de uma curta negociação, concordei em trocar de roupa no banheiro. Voltei me sentindo pronto para sofrer, e talvez até mesmo estimular, qualquer tipo de abuso sexual. 

Tímido, me deitei na cama enquanto a enfermeira aplicava o soro na minha veia, junto com o primeiro analgésico. Não sei se a intenção era essa, mas assim que o medicamento entrou no meu sistema, eu caí em um estado de semiconsciência, incapaz das mínimas funções motoras. Tenho apenas uma enevoada lembrança de ser atirado em uma maca, implorando pelas minhas calças. A sala de operações devia ser bem longe do quarto, ou talvez a enfermeira tenha se perdido várias vezes, mas me recordo que a viagem até o bloco cirúrgico durou várias horas, nas quais eu era exibido pelos corredores como aqueles carrinhos de sobremesa dos rodízios de carne. Alucinado, eu tentava de alguma forma cobrir a bilola, exposta ao vento frio e aos olhares críticos de médicos, auxiliares, visitantes e outros pacientes, enquanto a enfermeira debilóide me empurrava sorridente até o meu destino. Com um estrondo, passamos por uma porta dupla e tudo ficou escuro. Acordei dolorido, inchado e enjoado. Em um vidrinho na cabeceira da cama estavam os meus dentes, a razão de toda aquela desgraça. 

Ao lado, acondicionada em um recipiente bem menor, encontrava-se o que restava da minha dignidade.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Meus momentos mais constrangedores: Top 10 - 6º lugar





6º lugar: Imprensadinho









O constrangimento, dessa vez, nem foi assim tão público. Mas foi dentro do seio familiar, o que é ainda pior. Nunca fui de beber muito, mas tenho lá minhas histórias de embaraços causados pela cachaça. Um dia, adolescente e imberbe, brincava com meus amigos de um jogo chamado “Imprensadinho”. Basicamente, consiste de adivinhação de números. Em um círculo, um dos jogadores escolhe um número qualquer e o escreve em um pedaço de papel, enquanto os outros participantes fazem lances entre 0 e 100. Supondo que o número escrito seja 37 e alguma pessoa do círculo chute, digamos, 50, o indivíduo que escreveu no papel vai ter que dizer dentro de que margem se encontra seu número, levando em consideração a tentativa do outro jogador. Em outras palavras, ele vai falar “meu número (37) se encontra entre 0 e 50”. O resto da roda vai dando lances até que alguém acaba chutando o número que está no papel ou então o jogador que escreveu acabe imprensado, ou seja, sejam cantados os números 36 e 38, deixando-o sem saída. Em qualquer uma das possibilidades quem fez a merda bebe. 

E bebe o que estiver disponível, seja um copo de cerveja, uma lapada de cana, um vidro de maionese sabor limão ou três dedinhos de Pinho Sol. Se você achou minha explicação complicada, tente lembrar delas depois da sexta dose de Bacardi, aquela bebida que, nas horas vagas, faz bico de laxante, e você vai entender que quanto mais se erra, maiores as chances de continuar errando. Ao final da sétima rodada já tem gente chutando 147, menos 28 e o cacete da hipotenusa. E acabam bebendo mais ainda. Eu fui um desses infelizes, ingerindo líquidos que jamais deveriam adentrar o organismo de um ser humano que não estivesse no corredor da morte. De alguma forma, consegui chegar em casa, encaixar a chave no buraco da fechadura, girá-la no sentido correto e seguir para o meu quarto, que nessa época era dividido com meu irmão caçula. Tínhamos um beliche e o pobre coitado costumava dormir na cama de puxar, essas que ficam embaixo da principal. Ele me viu entrar cambaleando no quarto, cheirando a metanol e, preocupado, expressou algumas recomendações.


- Fred, tás fudido, vai pro banheiro logo.

- Eu tô bem.

- Fred, tu tá passando mal, vai logo pro banheiro, cacete.

- Já falei que tô bem, porra, me deixa quieto.

- Tu não vai aguentar, corre logo pro banheiro, caralho!

- Eu...eu tô...humm...tô...hmmgggrrr...hhhmmgggrrrllllll...

- ...Fred...?

-BLEEEEEEAAAAAUUUURRRRRGGGGGGHHHHHH!!

- NÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!

Sim, incapaz de conter a mistura alcoólica que fermentava em meu estômago, despejei tudo sobre meu irmão mais novo. Transtornado, ele berrava alucinadamente enquanto jatos e mais jatos de vômito o atingiam ininterruptamente, passando através dos dedos de suas mãos espalmadas, tentando inutilmente conter a avalanche que o atingia bem na cara, estilo O Exorcista. Entre uma golfada e outra, eu tentava balbuciar um patético pedido de desculpas, sempre interrompido por mais um acesso, enquanto meu irmão exibia o olhar daqueles que já decidiram que, em algumas situações, é perfeitamente aceitável e até louvável tirar uma vida humana. Coberto por uma mistura de bile e lágrimas, meu irmão correu para o banheiro enquanto eu me permitia cair em um torpor etílico, meu cérebro semiadormecido buscando apreender a gravidade do que eu havia acabado de fazer.

Nunca mais dividi um quarto de dormir com meu irmão.


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Meus momentos mais constrangedores: Top 10 - 8º e 7º lugares






8º Lugar: Meu primeiro beijo


Meu primeiro beijo foi uma desgraça. Eu simplesmente não fazia a menor ideia do que fazer e nenhum dos milhares filmes de Sessão da Tarde que eu havia assistido serviu de tutorial para a coisa verdadeira. Sabia que, de maneira geral, o ato envolvia o encontro de bocas, no caso a minha e a dela, e já havia escutado boatos de que na hora do beijo as respectivas línguas se estapeavam em um frenesi de saliva, micróbios e, possivelmente, doenças venéreas. Do alto dos meus doze, quer dizer, catorze anos de idade, aquela perspectiva era um tanto preocupante. Mas em festinhas adolescentes quem manda mesmo não é o bom-senso, mas os seus arremedos de amigos que farão de tudo para te ver nas situações mais constrangedoras possíveis, registrando tudo e usando isso contra você anos depois. Assim que souberam que havia uma menina interessada em mim na festa, todos os meus agregados presentes fizeram de tudo para me juntar com a dita cuja, em uma espécie de ritual de acasalamento semi-infantil, onde o objetivo é deixar marcas permanentes nas almas dos envolvidos. A garota era até bonitinha, sorridente e logo me puxou para a parte de trás do prédio. Sem saber bem como proceder, encostei minha boca aberta na dela, mais ou menos como um salva-vidas tentando ressuscitar uma vítima de afogamento, e esperei a mágica acontecer.

Em vez disso, descobri que a menina tinha mau hálito.

Como ela provavelmente não tinha lá muita experiência na milenar arte do ósculo, passou a usar a língua para tentar alcançar meu fígado através do esôfago, uma manobra ousada, mas um tanto quanto desajeitada. Ter a garganta obstruída por uma língua epilética permeada por um bafo indescritível quase me fez perder o almoço naquele momento, o que, pensando bem, seria até bastante justo e poderia até melhorar a nossa química. Em vez disso eu me controlei, inventei uma desculpa e, nauseado, voltei para junto dos meus pseudo-amigos, que me olhavam como se eu fosse um experimento científico que houvesse dado horrivelmente errado. Me retirei da festa, me perguntando, afinal, qual diabos era a graça de beijar, coisa que parecia tão boa nas novelas.

Demoraria quase um ano antes que eu tentasse dar um beijo em outra menina.


7º Lugar: Aeróbica


Essa me marcou profundamente. Quando criança, naquela idade em que os meninos finalmente param de enxergar o sexo oposto como criaturas repulsivas vindas de outra galáxia, sofri minha primeira paixão. Ela tinha a pele morena, cabelos lisos e castanhos. Creio que se chamava Amanda. E ela não estava nem aí para mim. Não que eu fosse perceber, caso estivesse. Sempre fui meio tapado para esse tipo de coisa e naquela época então eu não saberia diferenciar amor verdadeiro de uma prisão de ventre. Não sabia como me aproximar dela, nem o que faria caso conseguisse, de modo que mesmo estudando na mesma turma, éramos estranhos um para o outro. Até o dia em que a escola resolveu fazer uma espécie de feira cultural envolvendo os alunos, que deveriam organizar algum tipo de apresentação para participar. Bicho do mato que eu era, nem cogitei a possibilidade de contribuir com a minha ausência de talentos naturais. Até que soube que Amanda faria uma apresentação de aeróbica e precisava de mais um menino para entrar no palco com ela e as amigas. Sem pensar muito, me ofereci para ocupar a vaga, sem ao menos saber, exatamente, o significado da palavra “aeróbica” que, descobri mais tarde, aparentemente traduzia-se como “praticar exercícios físicos sem o auxílio de qualquer coordenação motora, vestindo roupas coloridas de lycra e sendo escrotizado por toda a plateia”. Até chegamos a ensaiar os movimentos e, no dia da apresentação, ficou combinado que eu deveria entrar quando ela fizesse um sinal com a cabeça. Amanda e as amigas entraram sorridentes e pulando pelo palco. Depois de algum tempo, ela virou-se para mim, dando a minha deixa para uma viagem sem volta à terra da humilhação eterna. Vestindo um ridículo macacão colado que apertava as partes erradas do meu corpo, saltei para o palco.

E quase imediatamente saltei de volta para a coxia, assim que vi todos os meninos da sala praticamente tendo síncopes de tanto rir de mim.

Saí correndo da apresentação, confuso, triste e pior, coberto de lycra. Amanda e suas amigas terminaram a apresentação com um membro a menos e ela nunca mais olhou na minha cara depois desse dia. 

Mesmo hoje em dia, meu coração se parte toda vez que assisto à uma apresentação de aeróbica.