segunda-feira, 14 de março de 2011

Especial carnaval: e a culpa, de quem é?


Se você acessou a Internet durante as últimas semanas e especialmente durante o carnaval, já deve ter visto o vídeo abaixo.








A jornalista Rachel Sheherazade, além de ter nome de mocinha de filme de aventura árabe, também é uma observadora perspicaz da realidade à sua volta. Como, aliás, todo profissional da comunicação deveria ser. No caso de Rachel, o pau quebrou nas costas do carnaval, que por não ser um só e sim uma multidão, acabou ficando sem defesa dos comentários ácidos da paraibana. Ácidos, quase azedos, mas oportunos. O que Rachel descreve é, de fato, um lado do nosso carnaval que, manifestação cultural que é, não nasceu de um planejamento prévio ou de um pensamento lógico. O carnaval apenas é. Defeituoso, barulhento, excludente, inconveniente, perigoso, absurdo, quente, entorpecente e até mesmo vergonhoso em alguns momentos. Isso nem se discute.

Mas o discurso da jornalista acaba ficando raso ao apontar apenas um lado de uma discussão complexa e multifacetada, que envolve fatores que transcendem os problemas discutidos. O carnaval é uma expressão da cultura de um povo, povo este que é responsável por seus próprios atos e decisões. Rachel coloca ênfase demasiada no aspecto negativo da festa, esquecendo que quem faz o carnaval são as pessoas. A celebração, que possui uma história rica e relevante dentro da construção do caráter nacional, não pode ser o bode expiatório de mazelas sociais que vão além de uma festividade que dura apenas quatro dias. É como se um trabalhador brasileiro passasse a frequentar uma casa de forró depois do expediente e, após algum tempo, abandonasse esposa e filhos à própria sorte para viver uma existência desregrada e irresponsável até o fim dos seus dias. Não foram a música, a dança, a cachaça barata ou as mulheres fáceis que destruíram aquela família. Se é necessário falar de culpa, que ela seja apontada para os que merecem carregá-la. Ou seja, nós mesmos.

Nós, que nos permitimos manipular por governo, mídias de massa, marcas de cerveja. Que nos contentamos em uma vida miserável durante o resto do ano, aguardando fevereiro chegar e nos fazer esquecer os problemas, as angústias, as decepções, as dores. Esquecer de nós mesmos. Porque é bem mais fácil atribuir a culpa ao carnaval, dizer que já não é mais o mesmo, que tornou-se algo comercial, inchado e parcial. Por essa lógica distorcida, o trabalhador do parágrafo acima seria uma vítima do forró, um inocente, castigado em sua ingenuidade, arrebatado por um sincero desejo de celebrar que degenerou-se em algo vil e desprezível. Mas não. O monstro era ele, não a música que o embalava. Desgraçado era ele, não a cachaça que o embriagava. Safado era ele, não a prostituta que o consumia noite após noite. O culpado era ele, apenas ele. O carnaval, afinal de contas, não é bom nem mal. É, sim, uma festa, formada por pessoas que têm potencial para o bem ou para o mal. 

Vamos admitir nossa responsabilidade e parar de colocar a culpa de nossas desgraças no carnaval.


sexta-feira, 11 de março de 2011

Especial carnaval: multicultural




Durante o carnaval, assim como no resto do ano, as pessoas tendem a se segregar em diferentes tribos, geralmente espelhando suas preferências, preconceitos e idiossincrasias. São geralmente bem fáceis de identificar e seguem padrões tão rígidos que é possível prever que forma vão se comportar ou até mesmo que tipo de fantasia vão usar.


Os bombados

São os débeis-mentais que passaram o ano investindo mais da metade do salário em anabolizantes equinos e sessões de halterofilismo durante a madrugada. Costumam andar em hordas musculosas e cobertas de óleo, para dar aquele brilho especial. São comumente vistos embriagados no final da folia, levando ré da moça do espetinho. Podem ser facilmente identificados pela voz aguda e total ausência de genitália funcional.

Fantasias: Bebê, Cupido, Adão, Banhista, Índio, Salva-vidas, Naturista, Vítima de violência sexual no presídio ou qualquer outra coisa que exija o mínimo de vestuário. 


As piriguetes

O sábio já dizia: toda mulher quer dar. Talvez não nesse exato momento e muito menos para você, seu incompetente. Mas que quer, quer. As piriguetes também, só que com muito mais urgência, afinal o carnaval dura apenas quatro dias. Como fica difícil exibir a mercadoria quando se está fantasiada de repórter da Al Jazira, as piriguetes costumam ser bem mais desinibidas em seus trajes. Podem ser vistas saindo dos becos escuros de Olinda, lançando um olhar de desapontamento para algum bombado eternamente engajado em uma luta vã contra sua própria disfunção erétil.

Fantasias: Bebê, cupido, Eva, Banhista, Índia, Miss Borracharia, BBB, ex-BBB, Chacrete, Dançarina de axé, Dorminhoca de camisola ou Bruna Surfistinha.


Os pirraias

É a meninada quase impúbere que não faz a menor ideia do significado do carnaval, não conhece nenhuma das suas músicas ou danças e acha que usar fantasia é a maior queimação. Com poucas diferenças perceptíveis, meninos e meninas basicamente competem com seus amigos no número de ficadas por dia. E quando dizemos “ficadas”, na verdade queremos dizer “beijo rápido sem língua em um indivíduos avulso e sem nome”. Dificilmente alguém come alguém, para o alívio dos pais assustados com as terríveis e infundadas histórias de orgias sexuais carnavalescas que ressurgem todo ano. Durante a folia, é normal ouvir gritos de felicidade e êxito, como “Dezessete! Ganhei!” ou “Peguei num peitinho! Peguei num peitinho!”. Costumam passar as semanas pós-carnaval padecendo de papeira, pano-branco ou alguma outra doença desagradavelmente superficial.

Fantasias: Nenhuma. É coisa de velho.


Os cafuçus

É a mundiça, a massa de desvalidos e financeiramente prejudicados que perfaz a maior parte da multidão mal-ajambrada do carnaval. Uma boa quantidade deles compareceu a festa para tirar um trocado mesmo e ver se finalmente consegue terminar de pagar aquele celular ching-ling que comprou do vizinho traficante. Estão em todo lugar, vendendo espetinho de carne felina, água mineral de torneira e cerveja Schin. Os que não demonstraram empreendorismo o suficiente para improvisar um negócio temporário qualquer costumam ser os mais animados, pulando, dançando, se esfregando uns nos outros incessantemente e misteriosamente surgindo em todos os polos de folia, aparentemente vindos de lugar nenhum.

Fantasias: Blusa do Recifolia, mortalha usada do carnaval da Bahia, camisa do Santa Cruz, A La Ursa, vendedor de qualquer coisa.


Os MESCs (Movimento Eu Sou Cabeça) 

São os intelectuais, que vão atrás do lado cultural e lírico do carnaval, fingindo que não estão nem aí se ninguém entende qual é a fantasia deles ou se chegam à quarta-feira de cinzas sem pegar nem uma gripe. Costumam encarnar na mesma esquina ano após ano, vestindo uma expressão blasé que bem poderia ser uma máscara, de tão rígida que é. Tentam demonstrar seus conhecimentos de cinema, literatura, quadrinhos, TV e música através de seus trajes.

Fantasias: David Bowie em sua fase Starman, Batman de Tim Burton, Mafalda, Clarice Lispector, Leminsky, Focault ou algum personagem de filme Indie, quanto mais obscuro melhor.


Os metaleiros

É somente durante o carnaval que essa sub-raça vagamente humana tem uma oportunidade de interagir com outros bípedes sem assustá-los com seu visual e opiniões extremadas. Se questionados quanto ao motivo de estarem em pleno Quatro Cantos de Olinda, cobertos de confete cor-de-rosa e pulando ao som de Alceu Valença, eles vão grunhir animalescamente e responder que só vieram para acompanhar a namorada que, aliás, saiu para comprar uma cerveja para ele já faz umas três horas e meia. Caso o interlocutor insista em pôr em dúvida a existência dessa mulher, o metaleiro fatalmente se tornará agressivo, despejando a fúria dos seus deuses pagãos sobre a cabeça do infiel.

Fantasias: Homem-das-cavernas, Mendigo, William Wallace, Guerreiro medieval ou Cavaleiro em busca da Santa Virgindade. Qualquer coisa que envolva cabelos compridos, barba desgrenhada e extrema aversão à higiene pessoal.


Os coroas

São a velha guarda da folia, já têm lá seus sessenta anos de carnaval nas costas e falam com saudade dos tempos em que lança-perfume era utilizado para perfumar mesmo. Costumam se restringir aos bailes fechados, mas ocasionalmente se juntam em bandos e saem às ruas de Olinda ou do Recife Antigo, para horror dos pirraias, que acham tudo a maior queimação. São saudados pelos outros foliões com sorrisos indulgentes e marchinhas que evoquem sua extensa experiência carnavalesca, tais como “Madeira do Rosarinho”, “Po po po po po po po po” e a imortal “A pipa do vovô não sobe mais”.

Fantasias: Somente as clássicas. Faraó, Presidiário, Pirata, Papa-angu e a mais realista de todas, múmia.


Os maloqueiros

Nem todo mundo vai ao carnaval com boas intenções. As multidões de foliões alcoolizados e distraídos são o terreno perfeito para a ação desses marginais, que se aproveitam da confusão para passar a mão nos pertences alheios. Nunca estão sozinhos e costumam trazer seus cabelos cortados estilo codorna de feira e pintados em cores aberrantes e não-naturais, como verde-limão e fúcsia.

Fantasias: Uniformes de torcidas organizadas, absolutamente qualquer coisa que envolva máscaras. 


Os turistas

Os gringos são fascinados pelo carnaval brasileiro. Olham para a massa fedorenta espremida pelas ruas a cantar e, em suas mentes primeiro mundistas se perguntam “como é que tanta gente pobre junta pode ser tão feliz?”. Encantados, se jogam na mundiça, fazendo a alegria dos maloqueiros, que triplicam suas arrecadações. Quando pertencentes ao gênero masculino, são invariavelmente encontrados nos braços de alguma mulata de medidas fartas e intenções suspeitas. Podem ser identificados pelas trancinhas rastafári e pele eternamente rosada.

Fantasias: Por motivos inescrutáveis para o nativo brasileiro, estão sempre vestindo camiseta florida, chapéu de pescador, bermuda e uma mochila incompreensivelmente grande nas costas. Costumam dançar sem mover os pés e apontando os dedos indicadores para o alto.


Pois é. O carnaval, especialmente o pernambucano, é verdadeiramente multicultural. Onde mais se poderia encontrar tanta gente diferente convivendo em harmonia?

Ao menos até a quarta-feira de cinzas.


quarta-feira, 9 de março de 2011

Especial carnaval: minha fantasia


Não é fácil achar a fantasia certa para o carnaval. Deve ser por isso que tanta gente perde a paciência e acaba comprando um colar florido e indo de havaiano. Ou se rendendo à total falta de criatividade e colocando a camisa do seu time favorito e comparecendo à festa como jogador de futebol. Outros tantos desistem de qualquer tentativa de originalidade e recorrem à manjadíssima roupa de pirata. A frustração é tanta que muita gente simplesmente prefere não embarcar na folia, migrando para alguma praia/montanha/acampamento/seita homoerótica bem longe das festividades e, principalmente, de qualquer necessidade de se fantasiar. Tudo bem que tem gente que até tem algumas boas ideias para seus trajes carnavalescos, mas acabam esbarrando na total falta de capital necessário para mandar costurar alguma coisa decente. Nesses casos, o resto é apelar para o que estiver sobrando no guarda-roupa e que, com um pouco de criatividade e cara-de-pau, possa ser adaptado em uma fantasia minimamente aceitável. Foi o que eu fiz.






Nada mal, você pode pensar. Essa é uma roupa de chef de cozinha de verdade, do tipo que se usa no dia-a-dia da profissão. Eu não tive tempo, grana ou saco de mandar fazer uma fantasia propriamente dita, então achei que seria uma boa ideia. O problema é que essa merda é tão real, mas tão real, que tive que passar o carnaval ouvindo os maiores absurdos. Algumas vezes, era algum desocupado bem-intencionado que se compadecia da minha situação.


- Pô, velho...que merda, heim?

- Oi? Por quê?

- Todo mundo brincando o carnaval, dançando, se pegando e tu aí, trabalhando.

- ...

- E ainda mais na cozinha.

- ...

- Foda, né? Mas então...me vê aí uma macaxeira com charque, beleza? Sem cebola, que já já eu vou me chegar na Mulher-Maravilha.


Outras vezes, era o sexo oposto que não conseguia distinguir a farda da fantasia.


- Ai, tchê! Esse carnaval do Recife tá tri-bom!

- Amiga, olha aquele chef de cozinha ali, que graça!

- Tá maluca?!

- Mas...ele é tão bonitinho...

- E daí? Vai pegar o cozinheiro? O cara que vende pastel? O pasteleiro? Quer pegar até o pasteleiro agora? Quer?!

- Hmm. Eu acho que aquilo lá é a fantasia dele...

- Tá bem feita demais pra ser fantasia. É o pasteleiro. Tu bebeu, ficou carente e agora quer dar pro pasteleiro. Sei como é, já passei por isso. Daqui a pouco, vai querer dar pro PM e pro gari também. Como sua amiga, não posso permitir que você faça isso.

- Peraí, eu não quero dar pra ning...

- Não interessa. Você não saiu lá do Sul pra dar pro pasteleiro local. E ainda por cima epilético.

- Ele não é epilético, só tá dançando frevo e...

- É epilético sim. Sei reconhecer os ataques, já peguei um pobre-coitado desses. Sabe como é. Por pura pena.

- Sei.

- Imagina, ele tem um treco enquanto frita pastel? Desastre. Já aconteceu comigo, vai por mim.


Pois é. Pense duas vezes antes de escolher sua fantasia de carnaval. Quanto mais exagerada, melhor. Afinal, essa é justamente a época do ano em que fazemos de tudo para escapar da realidade. Na dúvida, deixe o traje em casa e vá à paisana mesmo.

Seu carnaval não vai ter a menor graça, mas ao menos você não passa vergonha.



Especial carnaval: adeus





E termina o carnaval. Muita festa e tudo mais, mas é claro que teve lá seus maus momentos. E esse, afinal, é um blog de reclamações, então não é surpresa que vamos falar um pouco sobre o lado menos glamoroso da festa. Calma. A ideia aqui não é te fazer deixar de gostar do carnaval. Na verdade, é fazer com que você continue se divertindo mais um pouquinho depois da depressão da quarta-feira de cinzas, relembrando algumas das coisas mais engraçadas, ridículas, irritantes, absurdas e imbecis que acontecem no carnaval de todos nós.

E aí? Bora nessa?


quarta-feira, 2 de março de 2011

Naptime






O professor de inglês piscou os olhos mais uma vez. Sentia as veias protuberantes cobrindo toda a extensão dos seus globos oculares, como uma malha de arame farpado raspando em suas pálpebras. Devido a uma festa de formatura, duas prévias de carnaval e uma insana rotina de trabalho, encontrava-se há mais de 48 horas sem dormir. Havia emendado a farra da noite anterior com a primeira aula da manhã e sentia-se como um figurante de filme de zumbi. Tudo parecia estar em câmera lenta. Os alunos à sua frente, suas próprias mãos enquanto gesticulava algo totalmente desconectado ao assunto que estava sendo explicado naquele momento, um pequeno mosquito, provavelmente um arauto da dengue, que insistia em testar os reflexos debilitados do professor. 

Até aquele momento, tinha quase certeza de que os estudantes não haviam percebido o estado deprimente em que se encontrava. O cansaço era de tal magnitude, contudo, que o instrutor não estava tão certo de que continuava falando inglês na aula. Como era uma turma de nível básico, era bastante provável que não fossem entender absolutamente nada do que ele falasse de qualquer forma. Assim, seguiu balbuciando sílabas desconexas em algum idioma fictício e possivelmente profano enquanto os alunos anotavam tudo, atentamente.
Piscou os olhos mais uma vez.

Seu campo visual permaneceu em total negror pelo que pareceu ser um tempo ligeiramente mais longo do que o necessário para uma simples piscadela. Olhou ao redor, para os alunos que o observavam um tanto apreensivos.


- Teacher...tá tudo bem?

- Oi? Me? Ok, no problema, guys. Problema nenhum, alright? Why do you pergunta?

- Bom...é que o senhor tá aí parado, olhando pro nada, já faz quase uns 5 minutos. A gente tava começando a ficar preocupado, sabe?

- Ah, yes. Eu estava...hmm...me concentrando. Yes. No próximo exercício.

- O senhor babou e roncou também.

- ...I see. Veja bem, é que...lunchtime. Yes. Hora do almoço. Vai chegando perto, o teacher fica hungry. Os roncos foram meu estômago. Isso é normal.

- São 9 da manhã, teacher.

- FOR CHRIST SAKE, SHUT UP FOR A SECOND, MOTHERFUCKER!

- Teacher?! O que foi isso?

- Nada! Nada. Hmm. Uma expressão nova. Significa...ahn... “Como vai você e sua mãe, aquela linda?”. Muito comum no sudoeste da Austrália. Podem anotar.


Os estudantes começaram a escrever diligentemente em seus cadernos e o professor chegou a pensar que iria sobreviver aquele dia. Checou o relógio. Nove e cinco. Só precisava aguentar mais duas horas. Tudo ficaria bem. Foi então que ele piscou novamente. E mais uma vez.

Abriu os olhos, alarmado. Conseguiu focalizar seu pulso. Nove e dezessete. Havia apagado por cerca de doze minutos. Em pé. Olhou para os alunos, que o encaravam boquiabertos. Horrorizado, voltou seu olhar para baixo e constatou que sua mão direita encontrava-se dentro da sua roupa de baixo. Suas calças, por algum motivo, estavam arriadas na altura dos calcanhares. Rapidamente chegou à conclusão de que havia caído no sono e, em um estado de semi-sonambulismo, tentado urinar sem remover a cueca antes. Ou se dirigir a um banheiro.

Silêncio total. Uma aluna de idade avançada parecia a ponto de sofrer um ataque apoplético. Um estudante alto e musculoso tirava fotos com a câmera de seu celular, com um sorriso afetado no canto dos lábios. O professor estremeceu. Precisava pensar rápido. Respirou fundo. Pigarreou e, ainda com o braço enfiado dentro das ceroulas, começou a falar em tom explicativo.


- ...e é assim que se elogia a comida de alguém na região de Saskatchewan, no Canadá. Alguma dúvida? Doubts? No? Anotem e...e...pratiquem em casa. Isso. Em casa.


Lentamente, os alunos começaram a escrever em seus cadernos. Esgotado, mas bastante satisfeito consigo próprio, o professor sentou-se em sua cadeira e se permitiu relaxar um pouco. Acordou à noite, do lado de fora da escola, aninhado no colo de Lourival, o mendigo local. Ficaria sabendo depois que havia sido carregado para fora pelo coordenador e mais dois colegas. Lourival o informou, pesaroso, que ele havia sido demitido. O professor levantou-se, se espreguiçou, sorriu para o homem maltrapilho aos seus pés e lhe deixou uma nota de dez reais, antes de sair caminhando alegremente pela rua em direção à sua casa.

Havia sido o melhor cochilo da sua vida.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Natureza desumana






E a mania, agora, é ser verde. Sustentável. Reciclável. Reaproveitável. E, algumas vezes, execrável. Não me entendam mal. Sou super a favor do meio-ambiente, até porque eu estou inserido nele. No calor, no barulho e no aperto, mas ainda assim faço parte. Acontece que tem gente que exagera. Na ânsia de salvar a mãe-natureza (e, se der tempo, os seus filhos, esses babuínos falantes chamados seres humanos), tem pessoas por aí cometendo algumas loucuras básicas. Tipo, fuçar resto de comida no lixo alheio. Tudo em nome da sustentabilidade e visando diminuir o desperdício, claro. Tenho certeza que deve existir um lugar no céu só para esse povo, conhecidos como Freegans. Sabe, com muitas árvores centenárias, ursos panda e baleias jubarte discutindo Foucault animadamente, além de fileiras e mais fileiras de latas de lixo transbordando de comida vegetariana. Nada disso é para mim e tenho uma cota reservada de maldades para garantir que eu jamais passe a eternidade convivendo com esses malucos no mesmo pedaço de nuvem.

Por outro lado, boa parte da sociedade não está nem aí para o planeta Terra e sua continuidade em condições mais ou menos salubres. É gente que até tem alguma ideia dos problemas ecológicos que o mundo, como um todo, enfrenta atualmente, mas não se importa o suficiente ou simplesmente não sabe o que fazer para ajudar. No meio dessa confusão toda ficam os equivocados, que acham que estão dando uma força para o meio-ambiente, mas na verdade estão simplesmente seguindo a modinha verde, sem muita noção do que está fazendo ou do impacto real de suas ações. É o cara que quer entrar em contato com a natureza e vai acampar com o seu jipe 4X4 a diesel, usando GPS ching-ling fabricado por criancinhas chinesas e uma barraca de camping mais confortável (e mais cara) do que todo um conjunto de casas populares.

Aliás, um dos grandes problemas de se incutir o instinto de sustentabilidade na maioria das pessoas é que muita gente associa essa mudança de atitude com mais trabalho e/ou maior custo. A verdade é que o bolso continua sendo o órgão mais sensível do homo sapiens, e qualquer ameaça de golpes nessa área sensível do corpo faz com que o indivíduo automaticamente se torne resistente a mudanças. Na encruzilhada entre fazer o certo ou o barato, advinha o que o cidadão médio escolhe?


- Pizzaria Verde, boa noite.

- Boa noite. Amiga, me veja aí uma pizza metade bacon, metade calabresa. Quer dizer, metade bacon, metade marguerita. É mais saudável e ecológico, né?

- Perfeitamente. O senhor gostaria que a entrega fosse feita por um ciclista, sem impacto para o meio-ambiente, ao custo de R3,00 e mais quinze minutos de tempo de espera? Ou prefere que seja feita por um caminhão movido a lixo radioativo, filhotes de labrador e lágrimas de órfãos escravizados a R$ 2,50?

- Segunda opção. Aproveita e muda o sabor pra metade bacon, metade bacon. Com uma porção de bacon por cima. E pau nesse órfãos, que eu tô morto de fome.


Pois é. Não dá para salvar o planeta antes de resolvermos o problema da natureza. A humana. Até lá, o mundo vai continuar indo ladeira abaixo. E vai chegar um momento em que estaremos todos na mesma situação.

Procurando comida em lata de lixo.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Pobreza e auto-imagem, parte final

Continuação...


Se livre dessa tatuagem queimação.









Já se foi o tempo em que fazer uma tatuagem era uma demonstração de rebeldia perante pais e sociedade. Elas estão aí para que as pessoas expressem seus sentimentos de forma permanente, gravando em suas peles imagens que possuam algum significado em suas vidas. Mas os lisos não fazem a menor ideia do que isso significa. Para eles, a tatuagem é só mais uma forma de copiar aquele famoso que venceu o Big Brother Brasil ou então a última gostosa a estampar a capa da Playboy. Pobre adora imitar gente rica e sair por aí com tattoos que não possuem a menor relevância sentimental ou que não passam de meros acessórios estéticos, como um brinco ou uma pulseira. E esquecem que é para sempre. É mais ou menos como vestir uma calcinha fio-dental que você nunca mais vai poder tirar. Não me levem a mal. Sou totalmente a favor das calcinhas fio-dental. Em mulheres. Desde que não sejam eternas, até porque não seria lá muito higiênico. Se você está encontrando dificuldades para visualizar a metáfora em toda a sua sutileza, imagine a sua avó com uma calçola socada no rabo. E que essa calçola está lá desde que ela tinha seus 20 anos de idade, quando ela decidiu colocar só porque achou bonitinha. Pode ir ao banheiro vomitar, nós esperamos. E não é questão de preconceito de idade, mas sim de caráter mesmo. Tatuagens originais, pensadas e significativas simplesmente não envelhecem. E seguem como parte integrante da pessoa, uma pequena parte da alma exposta ao mundo. Uma tribal colorida brotando do rêgo não tem o mesmo efeito e a coisa só piora com a idade. Mas pobre não pensa no futuro, só no agora.

E é também sem pensar que acabam tatuando as coisas mais bizarras, praticamente marcando a ferro e a fogo a palavra “FUDIDO” em seus corpos já maltratados. Francamente, tem coisa mais amundiçada do que fazer uma tatuagem em ideogramas japoneses, letras árabes ou caracteres russos? Acham mesmo que escrever em outra língua vai tornar especial aquela frase manjada tirada de alguma corrente de e-mail? E quem garante que a tal frase está correta ou que o tatuador vai acertar fazer os símbolos corretamente?




 Tradução: Me coma sem pena nem cuspe. Pode ser à força.



Pior que isso só desenhar na pele a bandeira do seu time do coração. Pobre, pobre, inescapavelmente pobre. E se a figura escolhida for o símbolo de alguma torcida organizada, o sujeito, além de miserável, é um ótimo candidato a levar um baculejo da polícia, mesmo que não esteja fazendo nada de errado. Quer dizer, nada além de sair por aí exibindo uma tatuagem que se traduz em “SOU MARGINAL, ME PRENDA”. E na cadeia, claro, o pobretão acaba fazendo novos amigos, especialmente durante as duchas coletivas, momentos em que os desgraçados trocarão divertidas histórias acerca de suas respectivas tatuagens, entre outras coisas inomináveis que não serão comentadas aqui.




 Sério, qualquer desculpa serve para usarmos essa foto de novo.




Não tente compensar sua pobreza de forma material.

É bastante simples. Por incrível que pareça, uma casa enorme, um carro importado e sapatos da moda não fazem de você uma pessoa rica. Essas coisas são objetos. Elas quebram, desaparecem, perdem o valor. Quer parecer uma pessoa rica, mesmo com conta bancária zerada e roupas esburacadas? Seja educado. Respeite o espaço das outras pessoas. Entenda que o seu direito termina quando começa o do seu vizinho. E não tente compensar sua burrice, seus preconceitos, seu mal gosto e sua insegurança através de nomes esdrúxulos, celulares desnecessários, bigodes inaceitáveis e tatuagens absurdas. O tiro sai pela culatra e você termina pior do que quando começou. 

Contra a pobreza de espírito, meu amigo, não existe bolsa-família.



quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Pobreza e auto-imagem, parte II

Continuação...




Raspe esse bigode.





Se você está lendo esse tópico e já passou pelo título, pare o que quer que você esteja fazendo e vá raspar seu bigode. Agora. Depois você pode continuar a leitura e entender o porquê. Confie em mim. Bigode é coisa de pobre. Não existe justificativa moral que explique a ocorrência desse estilo de cabelo facial. Quem tem grana raspa a cara toda ou cultiva uma barba de respeito. Não existem meios-termos. E nem circunstâncias atenuantes. Bonito não é, mas sempre há a possibilidade de que você mantenha o seu ridículo bigode na esperança de ocultar alguma terrível deformação no lábio superior. Ou talvez você simplesmente seja banguelo e achou que andar por aí com um preá morto na boca era a melhor maneira de esconder sua falta de higiene bucal. Pense de novo. E, enquanto pensa, trate de escovar os dentes. Os que ainda restam. Quanto ao bigode, podemos dizer, com absoluta certeza, que ele envelhece, enfeia e, pior de tudo, empobrece. Se você for jovem, fica parecendo um pré-adolescente que tenta, sem sucesso, se desvincular de sua imagem de punheteiro zoófilo. Se você estiver mais avançado em idade, vai parecer um PM em fim de carreira. Em ambos os casos, você sempre vai ter cara de vendedor de aspirador de pó e/ou pedófilo. E de liso, claro. O bigode parece ter um sinistro poder de deturpação mental, afetando a parte do cérebro responsável pelo bom-senso e pela estética, fazendo com que os homens que insistem nesse maldito amontoado de pelos se enxerguem dessa forma:






Quando o resto do mundo os vê assim:






Nem deveria ser necessário comentar, mas lá vai. Mulheres, caso vocês tenham sido sacaneadas pela genética e carreguem a maldição do buço feminino, LIVREM-SE DESSA COISA. 



 Não há exceções.



Não existem mulheres ricas de bigode. Por Deus, não deveriam existir mulheres de bigode e ponto final. Mas não vivemos em um mundo perfeito e temos que nos virar com o que temos. Então, a não ser que você seja uma Frida Kahlo da vida, raspe, depile, arranque, use um sabre de luz, qualquer coisa, mas não saia por aí parecendo que engoliu uma andorinha e deixou o rabo da coitada de fora.



 No Maranhão, por exemplo, as andorinhas estão em extinção.



Pare de chamar atenção.

Pobre é uma desgraça mesmo. Por algum motivo, adora chamar atenção. Talvez seja por se sentir invisível nas grandes cidades, em meio ao caos urbano diário. Também pode ser uma maneira de compensar a falta de atenção por parte do governo e do resto da sociedade. Não importa, quem é liso adora aparecer. É o povo que fica gritando na traseira do ônibus, a mulher que vai bater boca com a vizinha no meio da rua, o imbecil que não tem grana para pagar uma boa escola para a filha, mas investe 2/3 do seu salário mínimo pagando cachaça para as putas desdentadas do boteco da esquina. E ainda dança forró com elas em cima da mesa de sinuca. É o desgraçado que, em vez de trabalhar ou estudar, vai para o meio de uma praça do centro, ao meio-dia, vestindo o terno roubado de algum mendigo e começa a pregar a palavra de Jisui com uma bíblia que ele nunca compreendeu, um microfone, um alto-falante e total falta de consideração pelas pessoas ao redor. É o retardado que bota o som do seu caro no último volume, não importando o estilo musical, e estaciona na rua ou em alguma praia, achando que lugar público se traduz em bagunça coletiva. Enfim, é todo aquele que não sabe ser discreto, que não entende que as pessoas possuem uma coisa chamada “espaço pessoal”, que é invadido toda vez que você, em toda a sua pobreza saliente, resolve se manifestar descontroladamente, ofendendo as pessoas com sua pseudo-espontaneidade e pretensas demonstrações de alegria. Se você é uma dessas pessoas, repense sua vida. Na melhor das hipóteses, você é um largado na sarjeta da vida. Na pior, pode acabar ofendendo alguém e levando um tiro. O que, francamente, seria uma benção para o resto do mundo.


 Continua...