quarta-feira, 27 de julho de 2011

Gripe






Ninguém gosta de ficar doente. Mas entre as moléstias cotidianas, essas que não são graves o suficiente para provocar a simpatia alheia, mas ao mesmo tempo conseguem transformar seu corpo em um inútil saco de geleia, a gripe é a pior. Todos estão sujeitos, a qualquer momento, a ficar gripados. E o fato de todos saberem que é uma doença transmitida pelo ar faz com que os afetados sejam sutil, porém firmemente ostracizados pelo resto da sociedade mais ou menos sadia. E não tem muito como esconder. Você espirra e o velhinho simpático, esperando a vez dele no jogo de dominó, sai correndo desabalado, cobrindo a boca e o nariz. Ao passar por você, justifica, constrangido:

- Estou perto de me aposentar, não posso correr riscos.

Ao subir no ônibus, nota que um policial encara com suspeita os seus olhos vermelhos. Você os fecha e pede para chegar logo em casa, enquanto se pergunta de onde vem aquele assovio constante e ritmado, bem ao lado do seu ouvido. Horrorizado, percebe que é o seu próprio nariz, semi-entupido de muco esverdeado, formando uma bolha de catarro a cada respiração. Sente a gosma iniciando sua derradeira descida em direção aos seus lábios trêmulos. Por instinto, inspira profundamente, revertendo o movimento da meleca e fazendo um barulho semelhante ao de um aspirador de pó enguiçado. Em pânico, percebe que engoliu toda aquela nojeira, que lentamente escorre pelo seu esôfago, sob os olhos incrédulos dos passageiros ao seu redor. Ao seu lado, uma jovem mãe não se contem e descarrega seu café da manhã pela janela. O bebê em seu colo acorda e, por reflexo, dá uma golfada na cabeça do senhor calvo sentado na poltrona da frente. Com a voz embargada de catarro, você se desculpa aos passageiros pelo transtorno e a humanidade em geral por ter nascido.

De repente, sente uma explosão partindo da altura dos pulmões e se movimentando rapidamente em direção ao seu nariz. Pode ser mais um espirro ou o encosto de exu caveira finalmente abandonando seu corpo devastado. Na dúvida, cobre o rosto com as mãos e tenta, pateticamente, proteger a civilização da patologia que transformou você em mero veículo de suas disseminações. O escandaloso espirro é respondido por esperançosas exclamações de “saúde” por estranhos até mesmo do lado de fora do ônibus em movimento. Você olha para as suas mãos em concha, rente a sua face avermelhada e percebe duas coisas. A primeira é que todos os fluidos e miasmas produzidos pelo seu corpo foram parar em suas palmas, juntando-se em uma espécie de pasta brilhante e pegajosa. A segunda é que Deus tem um senso de humor doentio. Sua parada se aproxima e você tenta, como uma espécie de contorcionista mentalmente deficiente, segurar toda aquela porcaria junto ao rosto ao mesmo tempo em que procurar puxar a cordinha com os cotovelos, rodopiando loucamente pelo veículo e derrubando com uma cabeçada certeira o moço cego que havia tomado a infeliz decisão de escolher aquele ônibus para vender canetas.

Para alívio dos outros passageiros, você finalmente desce do coletivo, ainda com as mãos junto ao rosto e sentindo uma fina coriza escorrer pelo queixo e deixar uma trilha escorregadia na calçada. Com a cabeça latejando no ritmo dos pingos que escapam do seu nariz, você se arrasta até sua casa, exibindo a mesma agilidade e coordenação motora de um zumbi recém-desenterrado. Sentindo-se idoso, você se joga na cama ao compreender que a privada do seu banheiro não teria potência suficiente para leva-lo ao esquecimento final. Antes de fechar os olhos e rezar para que o mundo acabe de uma vez, você sente uma incômoda sensação, que lhe tira o doce alívio do sono.

Havia esquecido de comprar remédio na farmácia.


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Barba






Eu queria ter uma barba. Pronto, falei. Esse desejo, que surpreende a maioria das pessoas, só pode ser verdadeiramente compreendido por aqueles que, como eu, faltaram no dia em que Deus distribuía pelos faciais. A questão é que a barba é não apenas um símbolo de hombridade extrema, mas também um dos poucos acessórios estéticos que um homem pode lançar mão sem perder para sempre o respeito dos seus pares. Afinal, homem que é homem não sai por aí pintando cabelo, botando lente de contato e dando chapinha no cabelo. E ser ou não gay não tem nada a ver com isso. É que simplesmente essas frescuras não caem bem em um homem, independente da orientação sexual. Renato Russo era um ótimo exemplo disso. O líder da Legião Urbana costumava ostentar uma barba que comunicava suas emoções mais profundas, quase tanto quanto as letras das suas músicas. Já quando, vez ou outra, surgia sem sua indefectível cabeleira facial, Russo praticamente não era reconhecido pelos fãs, possivelmente confundindo-o com o roadie da banda e tratando com o respeito equivalente. Para efeitos de comparação, vamos observar as duas fotos a seguir.

O cantor, apresentando uma barba de proporções bíblicas, seguro de si e no auge da carreira. Parece dizer apenas com o olhar “Sou cantor, poeta, dou o rabo com uma frequência até certo ponto alarmante e tenho uma barba digna. E você?”.




Ele já usava uma camisa com estampa de Maria Gadú antes de ela nascer.



Já nessa outra imagem, o artista aparece de cara limpa e aspecto definitivamente doentio. Não parece o líder de uma das maiores bandas de rock do Brasil e sim um estudante de informática que complementa a renda vendendo bíblias de porta em porta, cultiva há anos um relacionamento amoroso com seu travesseiro e, possivelmente, sofre de algum retardo mental e/ou desvio sexual.



"Uma festa? Posso levar meu travesseiro?"




Para os que ainda duvidam da barba na composição estética dos grandes mitos, basta tentar imaginar, por breves e angustiantes segundos, alguns dos maiores ícones da humanidade com o rosto obscenamente desprovido de pelos. O que seria de figuras como Che Guevara, Fidel Castro, Wolverine, Papai Noel, Osama Bin-Laden, Lula, Eufrazino Puxa-Briga, ZZ Top, Pedro de Lara, Jesus Cristo e Frida Kahlo? Apenas pálidas e intermitentes sombras nas recordações das pessoas.

E, contudo, existem aqueles que discordam dessa verdade irrefutável. Pior ainda são aqueles que, abençoados com uma barba vasta e honrosa, insistem em raspá-la, criminosamente extinguindo dos seus rostos esse símbolo da aliança entre Deus e os homens. Para os imberbes como eu, nada é mais irritante do que encontrar algum pagão de cara escanhoada e ouvir algo como “Você que tem sorte, não precisa nem comprar gilete. Já eu preciso fazer a barba três vezes ao dia e à noite não consigo dormir com o barulho dela crescendo”. Esses infiéis desperdiçam seu dom divino e ainda afirmam invejar os deficientes capilares que, como eu, são incapazes de cultivar um mísero cavanhaque.

E é nesse momento que se faz necessário reconhecer a parcela de culpa feminina nessa inversão de valores. Que homem já não foi ameaçado pela sua companheira caso insistisse em manter sua barba junto com a sua masculinidade? Quantos camaradas, aterrorizados pela perspectiva de uma greve de sexo por tempo indeterminado, se emascularam com uma navalha, creme e loção barata? O que, afinal, as mulheres têm contra a abundância de pelos faciais de alguns homens mais afortunados? Seria uma recordação genética impressa em seu DNA e multiplicada por seus cromossomos, herança dos tempos das cavernas quando os homens possuíam barba, clava e muito mais atitude do que os seus descendentes? Ou seria uma mera demonstração de crueldade coletiva, as mulheres buscando humilhar os homens e evidenciar ainda mais a sua supremacia no relacionamento? Pouco importa. Enquanto os homens seguem desperdiçando perucas e mais perucas faciais com vistas a se encaixar no conformismo estético criado e mantido pelas mulheres, o mundo vai decaindo em uma espiral de desespero, frustração e indignos rostinhos de bebê. E Deus finalmente perdeu a paciência com o descaso dos seres humanos por suas dádivas, fazendo com que aberrações imberbes como eu sejam cada vez mais comuns. O apocalipse já começou e a face dele nos foi revelada.



ARREPENDEI-VOS! Hmm. Pensando bem, eu pegava.



Agora reclame da barba do seu namorado.


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Amigo gordo





Todo mundo tem ou já teve um amigo gordo. E se você não tem ou nunca teve, azar o seu, porque amigo gordo é ótimo. Costumam ser os mais engraçados, escrotos, cretinos e divertidos dos companheiros. Tem gente que diz que é para compensar a aparência, que todo gordinho tem problemas de autoestima, etc e tal. Para mim, isso é puro preconceito. É dizer que o cara tem sempre que justificar o bom-humor com o excesso de peso. Conversa. Prefiro pensar que o gordo, através de uma dieta composta de bacon, manteiga, sarapatel e outras comidas felizes, alcançou uma espécie de conhecimento humorístico elevado e sobrenatural, negado ao resto de nós. Alegria lipídica, que o amigo gordo espalha generosamente aonde quer que vá, fazendo as pessoas gravitarem ao seu redor, atraídas pelo magnetismo daquele coração enorme e safenado. Chega a despertar a inveja alheia, aquela inveja malhada, sarada, vitaminada, anabolizada, dos atletas de academia, que por não saberem conversar, dialogam apenas com máquinas de metal e pesos de chumbo, deixando os músculos falarem sem nada dizer. São esses que perdem a namorada para o gordinho safado que nunca pisou em uma academia e se perguntam o que ele tem, afinal de contas, para conseguir com um sorriso em camadas o que eles não conseguem com horas de caretas suadas. Faltou bom-humor. Faltou inteligência. Faltou sem-vergonhice. Faltou amizade.

Quando crianças nós tínhamos, lá na rua, o nosso amigo gordo cujo apelido, vejam só, era Gordo. O Gordo nunca estava triste. O sorriso que se espalhava pela cara larga era tão presente e sincero que irritava. Acolchoado por camadas de gordura bem localizada, o Gordo ria quando apanhava e batia quando queria, impondo respeito em meio a gargalhadas que estremeciam a pança vasta e branca. O Gordo não tinha limites e te fazia rir cinco minutos depois de você voltar do enterro da sua avó. O Gordo não tinha instinto de autopreservação e escrotizava impiedosamente o síndico, o filho do síndico, a mulher do síndico e ainda era bem-quisto por toda a vizinhança. O Gordo não jogava nada de futebol, mas era disputado a tapa pelos times, porque sem ele a pelada não tinha graça. O Gordo era romântico, distribuindo caixinhas de presente recheadas de baratas, traumatizando as mesmas meninas que mais tarde levaria ao cinema, braços dados e risadas incessantes incomodando os vizinhos de poltrona. O Gordo era conhecido por todo o bairro e até os desafetos queriam ser seus amigos.

Um dia, encontraram o Gordo cabisbaixo, sentado na calçada em frente ao prédio onde morava. A meninada, desacostumada de ver o amigo tão sorumbático, perguntou o que havia acontecido. Havia acabado de chegar do médico com sua mãe. Interrompeu-se para suspirar tristemente e os amigos, já esperando o pior, o encorajaram a continuar. Criando coragem, o Gordo explicou que a mãe já não aguentava mais. Não tinha mais forças. Havia levado o filho a um especialista, que receitou uma dieta infalível combinada com exercícios para o garoto.

- Vou ficar magro! – Desabafou, por fim, o Gordo.

As outras crianças sentaram-se ao seu lado, cabisbaixas. A vizinhança já não seria mais a mesma. Naquela mesma semana, metade dos moradores do prédio se mudou para outro bairro.

O primeiro a partir, lágrimas nos olhos, foi o síndico.



Uma singela homenagem do Blog da Reclamação no Dia do Amigo, lembrando uma época em que amizade era comemorada todos os dias e não apenas quando a Internet precisa nos lembra da importância das pessoas especiais que escolhemos ter ao nosso lado.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Histórias que os homens contam, parte II






Os homens adoram aumentar as histórias. Faz parte da natureza masculina tentar adicionar sabor ao conto através do exagero. Principalmente quando o assunto é o próprio desempenho durante aventuras amorosas. De fato, mente-se bastante, mas geralmente não sobre um dos temas que, verdade seja dita, preocupa muito mais os homens do que as mulheres. Curiosamente, a macharia raramente adultera o tamanho da própria genitália, ao menos quando conversam com seus companheiros de gênero. O motivo para isso, na verdade, é bastante simples. É perfeitamente possível dizer, por exemplo, que você passou as férias em uma praia perdida no litoral alagoano, onde um navio de luxo repleto de participantes do “XII Encontro de Modelos Ucranianas Ninfomaníacas” acabou encalhando e você, narrador, passou semanas como o único e exótico prato de dúzias de europeias desinibidas e sexualmente famintas. Forçado? Sem dúvida. Mas quem pode provar que isso tudo não aconteceu? Não se pode fazer o mesmo com a sua bilola porque, caso você seja um ser humano do sexo masculino e de anatomia razoavelmente correta, ela está o tempo todo com você. Não adianta chegar para o seu grupo de amigos e clamar “Minha rôla tem 27cm de comprimento! Mole! Bando de otário!” e esperar que a macharia aceite essa informação placidamente. De fato, o mais provável é que seus amigos entrem em comum acordo tacitamente e, juntos, procedam á tarefa trabalhosa, porém gratificante, de arriar as suas calças no meio da rua e expor sua mísera pitoquinha para o mundo, traumatizando tanto você quanto seus vizinhos pelo resto da vida.

Pode-se, é verdade, inventar algo do gênero para uma interlocutora do sexo feminino. Mas isso é, quase sempre, extremamente contraproducente. Primeiro porque, caso você tenha intimidade suficiente para discutir as dimensões da sua jemba com uma mulher, é provável que ela já tenha visto seu equipamento de qualquer forma e a memória disso sem dúvida ainda rende boas risadas para ela e suas amigas. Segundo, a verdade é que afirmar possuir um caralho do tamanho de uma criança de sete anos de idade vai, muito provavelmente, fazer sua interlocutora sair correndo e emitindo gritos de horror e incredulidade. E a história sem dúvida será posta a prova por entusiasmados colegas de cela na prisão onde você já vai chegar sob a acusação de assédio sexual e com fama de mentiroso. Em suma, quando o assunto é tamanho de órgão masculino, é preferível seguir o conselho de um sábio amigo meu: se é para falar de tamanho, diga logo que é um anão genital. Se você não for, sua companheira vai ficar agradavelmente surpresa e, até certo ponto, agradecida. Caso seja, ninguém vai poder dizer que você não avisou e ela já vai comparecer ao ato sem grandes expectativas mesmo.



"Espera...qual era a pergunta mesmo?"



Evidentemente, se não é prático mentir sobre si, é perfeitamente possível fazer isso em relação a outras pessoas. Todo homem tem pelo menos um amigo, quase sempre imaginário, que é conhecido por apelidos como “O Jumento de Itú” ou algo semelhante. Histórias que servem para impor tanto terror quanto respeito aos corações dos companheiros de conversa. E cada um que aumente o ponto e a pica alheia, até dimensões definitivamente não humanas. Eu, por exemplo, tenho um tio do interior que ocasionalmente se hospeda aqui em casa. A fama de bem-dotado sempre foi uma espécie de lenda familiar, uma que eu jamais havia me interessado em conferir. Certa noite, embriagado de sono, levantei e me dirigi ao banheiro do corredor. Descuidadamente, abri a porta sem bater e o que eu vi vai povoar meus pesadelos pelo resto da minha atormentada existência. Lá estava meu tio, de pé em frente ao vaso sanitário, uma mão apoiada no frio azulejo da parede e a outra segurando o que, à primeira vista, pensei ser a perna dele. Me perguntava, ingenuamente, o que meu tio estaria fazendo com um pé praticamente enfiado na água da privada quando meu cérebro entorpecido finalmente registrou o bizarro cálculo que se apresentava aos meus sentidos. Aquilo não era uma perna. Por Deus, ninguém nasce com três pernas.



O QUE FOI VISTO NÃO PODE SER DESVISTO!



Boquiaberto, passei o que pareceram horas paralisado por um terror abjeto, enquanto ouvia meu tio assobiando tranquilamente. Na falta de uma explicação para o absurdo que estava à minha frente, minha mente inventava outras mais racionais. Cheguei a pensar que uma serpente albina havia pulado da privada e abocanhado a virilha do meu tio. Acostumado ao trato com animais selvagens, ele talvez houvesse se mantido inacreditavelmente calmo e tentasse convencer o bicho a se soltar na base da conversa. Finalmente, o horror da realidade inescapável fincou suas garras em meu cérebro. Corri para o meu quarto aos berros, resquícios de sanidade e precaução me urgindo a trancar a porta atrás de mim. Deitei na cama em posição fetal, nádegas tensas voltadas para a parede e a certeza de que Deus não existia, ou jamais permitiria que tal abominação caminhasse pela terra ao lado de suas criações. Ao ser informado de que meu tio havia puxado ao meu avô, experimentei um sentimento de intensa compaixão pela minha avó, verdadeira guerreira que por décadas foi esposa de um homem que, caso o mito se aproxime do real, deveria estar sendo estudado pela ciência.

Isso em uma época em que não existia televisão e o único passatempo era fazer menino.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Histórias que os homens contam, parte I






O imaginário masculino é povoado de mitos, sendo os mais evidentes e absurdos aqueles relacionados à sexualidade. Homens gostam de contar (e ouvir) histórias, quase sempre sem o menor fundo de verdade, desde que envolvam sexo, partes do corpo feminino, partes do corpo masculino ou uma combinação criativa disso tudo. Sim, mulheres, os homens falam de vocês. Algumas vezes contando vantagens. E comentam os seus detalhes anatômicos mais íntimos. Se você se surpreendeu com isso, ou é uma cínica ou não sabe bem como os homens funcionam. A questão é os machos prestam atenção (e divulgam) coisas diferentes das que as fêmeas se preocupam em esconder. A conversa entre dois homens, do ponto de vista feminino, transcorre mais ou menos assim:


- Velho, peguei a doida ontem e levei lá pra casa. Aí, tal, fui tirando a roupa dela, né? Tirei tudo e cheguei na calcinha. Velho, Putamerda, juro por Deus, era a calcinha da minha avó!

- Não!

- Sério, porra! Sabe calçola bege, que mais parece um short?

- Meu Deus! Era nova, pelo menos?

- Porra nenhuma! Aquela calcinha foi herança, tenho certeza. Furada e cheia de manchas suspeitas. Na boa, quase que eu brocho.

- Mas e aí? Continuasse?

- Foi difícil, mas segui em frente. Eu já tava ali, não queria que ela percebesse que eu tinha visto a calcinha ridícula dela e quase desmaiei. Foda. Me senti enganado.

- Cara, tu é macho mesmo.

- E olha que nem te falei das quatro celulites que eu encontrei na bunda dela.

- Ecaaaaaaa!


Caso a ironia fina do diálogo apresentado acima tenha se perdido nas leitoras mais paranoicas, vamos deixar claro que homens não dão a mínima se a mulher está usando uma calcinha velha, feia e bege. Aliás, boa parte dos homens sofre de “daltonismo masculino”. Não enxergamos (e nem fazemos questão de perceber) cores como salmão, fúcsia, lavanda, lilás, turquesa ou bege. Nenhum homem de verdade vai deixar de te comer por causa da sua esdrúxula calcinha. Para deixar ainda mais claro, para os homens não existem calcinhas feias. Há apenas duas categorias: aquelas que são mais eróticas, tipo fio-dental, e as que ficam no meio do caminho e aí basta tirar. E a não ser que sua bunda pareça mais um cenário de Moon Patrol, não é uma ou outra celulite que vai nos incomodar.


Moon Patrol: usado em metáforas anatômicas femininas desde 1983.


De fato, quando dois amigos se encontram e, inevitavelmente, começam a trocar histórias de aventuras sexuais, o diálogo parece mais com isso aqui:


- Velho, peguei a doida ontem e levei lá pra casa. Aí, tal, fui tirando a roupa dela, né? Tirei tudo e cheguei na calcinha. Velho, Putamerda, juro por Deus, era o maior rabo que eu já vi na minha vida!

- Não!

- Sério, porra! Sabe travesseiro? Aquele de casal? Pronto, um pouco maior. Se eu abraçasse aquela bunda, não juntava as mãos do outro lado.

- Coisa linda do pai! E aí?

- Bom, aí eu comi.

- Massa.

- Bote fé.


E é isso. Mas não pensem que a macharia não tem lá suas incertezas. No fundo, somos sensíveis, apenas avessos à frescura. E as dúvidas masculinas, quando surgem, podem traumatizar muito mais do que as das suas contrapartes femininas...


terça-feira, 12 de julho de 2011

Reaja!




Dizem por aí que a gente tem mais é que ser tolerante e perdoar nossos inimigos. A filosofia cristã ensina que a gente precisa dar a outra face e os psicólogos vendem a ideia de que ter paciência com quem tenta nos sacanear é uma mostra de superioridade. Dessa forma, estaríamos caminhando para uma existência mais pacífica, iluminada e equilibrada.

Eu digo “foda-se” para tudo isso.

Não, sério. Não estou interessado em dar nem um lado da cara para apanhar, quanto mais ela toda. E também não quero fingir superioridade para os filhos da puta da vida. Ao contrário. Para mim, a melhor, e talvez a única maneira de não ser novamente escrotizado por um desses desgraçados é reagindo à altura. Eu não quero meus inimigos de pé aplaudindo a minha vitória. Quero eles debaixo da terra, sendo roídos por vermes passeando alegremente em sua carne putrefata, mas ainda vivos o suficiente para escutar o som abafado da festa que eu estarei dando sobre os seus caixões. Desejo que meus adversários morram gritando meu nome e que a última imagem que vejam e carreguem em seus espíritos amaldiçoados por toda a eternidade seja de mim queimando a bandeira do time de futebol deles. Se alguém quer me prejudicar, então o tempo de conversar civilizadamente já passou. Qualquer diálogo que eu pudesse vir a ter com algum infeliz desse calibre se desenrolaria mais ou menos assim:


- Boa noite.

- Ahhhhhhhh! Que lugar é esse? O que eu tô fazendo aqui?

- Por favor, acalme-se. Eu administrei uma droga em seu sistema nervoso que faz com que você perca o controle das suas funções motoras voluntárias. Em outras palavras, você não pode se mover. Contudo, você logo perceberá que ainda pode sentir dor...de maneiras que você jamais experimentou durante todo o seu patético simulacro de vida.

- Fred...Fred, cara, por favor...eu não fiz por mal! Juro por Deus, eu não vi que aquele era o último pão doce coberto de coco da padaria! Eu só cortei teu lugar na fila porque...porque...bom, eu achei que não ia dar em nada e...

- Shhh...nada disso importa mais. Logo (afagando os cabelos cobertos de suor gélido do homem a sua frente), nada mais importará para você. Nem mesmo o pão doce coberto de coco.

- Não! Não, Fred, Pelamordedeus, não! Eu...eu acabei de sujar as calças, Fred!

- Sim...bem...de fato. Creio que é melhor começarmos os trabalhos. Agora, por favor, deixe-me virar seu rosto para este lado...

- O que é que você...Ahhhh, não! Pelo amor de Deus, afaste esse maçarico da minha córnea!

- Já pode sentir o cheiro de queimado? Lembra um pouco o de bacon fritando, não? Hmm...bacon...

- Nãonãonãonão, Fred, por Jesus, eu tenho mulher e filhos!

- Ora, por que você teve que dizer isso? Agora vou ter que ir atrás deles também. Já volto.

- Nããããããrrrrggggggghhhhhhh!!!!

- Quer que eu traga pão doce na volta?


E a lição que fica disso tudo? Não existe uma justiça kármica pronta para vingar as indignidades sofridas no dia a dia. E Deus, se existe, quer mais é que você se ajude, porque Ele tem mais o que fazer. Da próxima vez que alguém pisar no seu calo, dê uma resposta desproporcionalmente mais agressiva, tipo um chute no saco, e sorria na certeza de aquela pessoa jamais vai ousar tirar vantagem de você ou, nesse caso específico, terá filhos novamente. Como se diz por aí, quem vive bonzinho morre coitadinho.

É isso ou se acostumar a viver sem seu pão doce. Coberto de coco.


segunda-feira, 14 de março de 2011

Especial carnaval: e a culpa, de quem é?


Se você acessou a Internet durante as últimas semanas e especialmente durante o carnaval, já deve ter visto o vídeo abaixo.








A jornalista Rachel Sheherazade, além de ter nome de mocinha de filme de aventura árabe, também é uma observadora perspicaz da realidade à sua volta. Como, aliás, todo profissional da comunicação deveria ser. No caso de Rachel, o pau quebrou nas costas do carnaval, que por não ser um só e sim uma multidão, acabou ficando sem defesa dos comentários ácidos da paraibana. Ácidos, quase azedos, mas oportunos. O que Rachel descreve é, de fato, um lado do nosso carnaval que, manifestação cultural que é, não nasceu de um planejamento prévio ou de um pensamento lógico. O carnaval apenas é. Defeituoso, barulhento, excludente, inconveniente, perigoso, absurdo, quente, entorpecente e até mesmo vergonhoso em alguns momentos. Isso nem se discute.

Mas o discurso da jornalista acaba ficando raso ao apontar apenas um lado de uma discussão complexa e multifacetada, que envolve fatores que transcendem os problemas discutidos. O carnaval é uma expressão da cultura de um povo, povo este que é responsável por seus próprios atos e decisões. Rachel coloca ênfase demasiada no aspecto negativo da festa, esquecendo que quem faz o carnaval são as pessoas. A celebração, que possui uma história rica e relevante dentro da construção do caráter nacional, não pode ser o bode expiatório de mazelas sociais que vão além de uma festividade que dura apenas quatro dias. É como se um trabalhador brasileiro passasse a frequentar uma casa de forró depois do expediente e, após algum tempo, abandonasse esposa e filhos à própria sorte para viver uma existência desregrada e irresponsável até o fim dos seus dias. Não foram a música, a dança, a cachaça barata ou as mulheres fáceis que destruíram aquela família. Se é necessário falar de culpa, que ela seja apontada para os que merecem carregá-la. Ou seja, nós mesmos.

Nós, que nos permitimos manipular por governo, mídias de massa, marcas de cerveja. Que nos contentamos em uma vida miserável durante o resto do ano, aguardando fevereiro chegar e nos fazer esquecer os problemas, as angústias, as decepções, as dores. Esquecer de nós mesmos. Porque é bem mais fácil atribuir a culpa ao carnaval, dizer que já não é mais o mesmo, que tornou-se algo comercial, inchado e parcial. Por essa lógica distorcida, o trabalhador do parágrafo acima seria uma vítima do forró, um inocente, castigado em sua ingenuidade, arrebatado por um sincero desejo de celebrar que degenerou-se em algo vil e desprezível. Mas não. O monstro era ele, não a música que o embalava. Desgraçado era ele, não a cachaça que o embriagava. Safado era ele, não a prostituta que o consumia noite após noite. O culpado era ele, apenas ele. O carnaval, afinal de contas, não é bom nem mal. É, sim, uma festa, formada por pessoas que têm potencial para o bem ou para o mal. 

Vamos admitir nossa responsabilidade e parar de colocar a culpa de nossas desgraças no carnaval.


sexta-feira, 11 de março de 2011

Especial carnaval: multicultural




Durante o carnaval, assim como no resto do ano, as pessoas tendem a se segregar em diferentes tribos, geralmente espelhando suas preferências, preconceitos e idiossincrasias. São geralmente bem fáceis de identificar e seguem padrões tão rígidos que é possível prever que forma vão se comportar ou até mesmo que tipo de fantasia vão usar.


Os bombados

São os débeis-mentais que passaram o ano investindo mais da metade do salário em anabolizantes equinos e sessões de halterofilismo durante a madrugada. Costumam andar em hordas musculosas e cobertas de óleo, para dar aquele brilho especial. São comumente vistos embriagados no final da folia, levando ré da moça do espetinho. Podem ser facilmente identificados pela voz aguda e total ausência de genitália funcional.

Fantasias: Bebê, Cupido, Adão, Banhista, Índio, Salva-vidas, Naturista, Vítima de violência sexual no presídio ou qualquer outra coisa que exija o mínimo de vestuário. 


As piriguetes

O sábio já dizia: toda mulher quer dar. Talvez não nesse exato momento e muito menos para você, seu incompetente. Mas que quer, quer. As piriguetes também, só que com muito mais urgência, afinal o carnaval dura apenas quatro dias. Como fica difícil exibir a mercadoria quando se está fantasiada de repórter da Al Jazira, as piriguetes costumam ser bem mais desinibidas em seus trajes. Podem ser vistas saindo dos becos escuros de Olinda, lançando um olhar de desapontamento para algum bombado eternamente engajado em uma luta vã contra sua própria disfunção erétil.

Fantasias: Bebê, cupido, Eva, Banhista, Índia, Miss Borracharia, BBB, ex-BBB, Chacrete, Dançarina de axé, Dorminhoca de camisola ou Bruna Surfistinha.


Os pirraias

É a meninada quase impúbere que não faz a menor ideia do significado do carnaval, não conhece nenhuma das suas músicas ou danças e acha que usar fantasia é a maior queimação. Com poucas diferenças perceptíveis, meninos e meninas basicamente competem com seus amigos no número de ficadas por dia. E quando dizemos “ficadas”, na verdade queremos dizer “beijo rápido sem língua em um indivíduos avulso e sem nome”. Dificilmente alguém come alguém, para o alívio dos pais assustados com as terríveis e infundadas histórias de orgias sexuais carnavalescas que ressurgem todo ano. Durante a folia, é normal ouvir gritos de felicidade e êxito, como “Dezessete! Ganhei!” ou “Peguei num peitinho! Peguei num peitinho!”. Costumam passar as semanas pós-carnaval padecendo de papeira, pano-branco ou alguma outra doença desagradavelmente superficial.

Fantasias: Nenhuma. É coisa de velho.


Os cafuçus

É a mundiça, a massa de desvalidos e financeiramente prejudicados que perfaz a maior parte da multidão mal-ajambrada do carnaval. Uma boa quantidade deles compareceu a festa para tirar um trocado mesmo e ver se finalmente consegue terminar de pagar aquele celular ching-ling que comprou do vizinho traficante. Estão em todo lugar, vendendo espetinho de carne felina, água mineral de torneira e cerveja Schin. Os que não demonstraram empreendorismo o suficiente para improvisar um negócio temporário qualquer costumam ser os mais animados, pulando, dançando, se esfregando uns nos outros incessantemente e misteriosamente surgindo em todos os polos de folia, aparentemente vindos de lugar nenhum.

Fantasias: Blusa do Recifolia, mortalha usada do carnaval da Bahia, camisa do Santa Cruz, A La Ursa, vendedor de qualquer coisa.


Os MESCs (Movimento Eu Sou Cabeça) 

São os intelectuais, que vão atrás do lado cultural e lírico do carnaval, fingindo que não estão nem aí se ninguém entende qual é a fantasia deles ou se chegam à quarta-feira de cinzas sem pegar nem uma gripe. Costumam encarnar na mesma esquina ano após ano, vestindo uma expressão blasé que bem poderia ser uma máscara, de tão rígida que é. Tentam demonstrar seus conhecimentos de cinema, literatura, quadrinhos, TV e música através de seus trajes.

Fantasias: David Bowie em sua fase Starman, Batman de Tim Burton, Mafalda, Clarice Lispector, Leminsky, Focault ou algum personagem de filme Indie, quanto mais obscuro melhor.


Os metaleiros

É somente durante o carnaval que essa sub-raça vagamente humana tem uma oportunidade de interagir com outros bípedes sem assustá-los com seu visual e opiniões extremadas. Se questionados quanto ao motivo de estarem em pleno Quatro Cantos de Olinda, cobertos de confete cor-de-rosa e pulando ao som de Alceu Valença, eles vão grunhir animalescamente e responder que só vieram para acompanhar a namorada que, aliás, saiu para comprar uma cerveja para ele já faz umas três horas e meia. Caso o interlocutor insista em pôr em dúvida a existência dessa mulher, o metaleiro fatalmente se tornará agressivo, despejando a fúria dos seus deuses pagãos sobre a cabeça do infiel.

Fantasias: Homem-das-cavernas, Mendigo, William Wallace, Guerreiro medieval ou Cavaleiro em busca da Santa Virgindade. Qualquer coisa que envolva cabelos compridos, barba desgrenhada e extrema aversão à higiene pessoal.


Os coroas

São a velha guarda da folia, já têm lá seus sessenta anos de carnaval nas costas e falam com saudade dos tempos em que lança-perfume era utilizado para perfumar mesmo. Costumam se restringir aos bailes fechados, mas ocasionalmente se juntam em bandos e saem às ruas de Olinda ou do Recife Antigo, para horror dos pirraias, que acham tudo a maior queimação. São saudados pelos outros foliões com sorrisos indulgentes e marchinhas que evoquem sua extensa experiência carnavalesca, tais como “Madeira do Rosarinho”, “Po po po po po po po po” e a imortal “A pipa do vovô não sobe mais”.

Fantasias: Somente as clássicas. Faraó, Presidiário, Pirata, Papa-angu e a mais realista de todas, múmia.


Os maloqueiros

Nem todo mundo vai ao carnaval com boas intenções. As multidões de foliões alcoolizados e distraídos são o terreno perfeito para a ação desses marginais, que se aproveitam da confusão para passar a mão nos pertences alheios. Nunca estão sozinhos e costumam trazer seus cabelos cortados estilo codorna de feira e pintados em cores aberrantes e não-naturais, como verde-limão e fúcsia.

Fantasias: Uniformes de torcidas organizadas, absolutamente qualquer coisa que envolva máscaras. 


Os turistas

Os gringos são fascinados pelo carnaval brasileiro. Olham para a massa fedorenta espremida pelas ruas a cantar e, em suas mentes primeiro mundistas se perguntam “como é que tanta gente pobre junta pode ser tão feliz?”. Encantados, se jogam na mundiça, fazendo a alegria dos maloqueiros, que triplicam suas arrecadações. Quando pertencentes ao gênero masculino, são invariavelmente encontrados nos braços de alguma mulata de medidas fartas e intenções suspeitas. Podem ser identificados pelas trancinhas rastafári e pele eternamente rosada.

Fantasias: Por motivos inescrutáveis para o nativo brasileiro, estão sempre vestindo camiseta florida, chapéu de pescador, bermuda e uma mochila incompreensivelmente grande nas costas. Costumam dançar sem mover os pés e apontando os dedos indicadores para o alto.


Pois é. O carnaval, especialmente o pernambucano, é verdadeiramente multicultural. Onde mais se poderia encontrar tanta gente diferente convivendo em harmonia?

Ao menos até a quarta-feira de cinzas.