quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Primeira vez, parte I





Os anos 90 no Recife foram de muita efervescência cultural, especialmente em relação à música. Era o auge do Mangue Beat (ou Bit), movimento pernambucaníssimo que reunia artistas locais em uma valorização ou reencontro com ritmos regionais, tais como o maracatu e o cavalo-marinho, com roupagens mais modernas e pesadas, misturando tradição e flertes com o eletrônico e muito rock n’ roll. Foi nessa época que surgiram grandes bandas pernambucanas, tais como a Nação Zumbi, que viria a perder, cedo demais, seu vocalista e um dos líderes do Movimento Mangue, Chico Science, em um acidente de automóvel na cidade de Olinda. Além da Nação, vieram ainda a Mundo Livre SA, Banda Eddie, Sheik Tosado, Devotos do Ódio, Mestre Ambrósio e muitas outras, que ficaram pelo meio do caminho ou se metamorfosearam ainda em outros projetos musicais, influenciando bandas mais novas como a Mombonjó ou artistas como Karina Buhr, que seguem levando a tradição da moderna música pernambucana, sempre com um olhar no horizonte distante.

Muitas dessas bandas tocaram seus primeiros acordes no bairro do Pina, zona sul da cidade, mais precisamente no bar alternativo Soparia, capitaneado pelo maluco beleza Roger de Renor. Lá circulavam figuras carimbadas da música local, gente como Fred 04, China, Canibal, Siba e outros, que quando não estavam dando uma canja no acanhado palco do bar, se dedicavam as famosas sopas de Roger, bebiam uma cerveja gelada ou iam fazer a cabeça nos arredores. Espremida entre as palafitas da comunidade ribeirinha de Brasília Teimosa e os arranha-céus da beira-mar de Boa Viagem, a Soparia funcionava mais ou menos como uma terra de ninguém, onde os frequentadores, além de ouvir boa música, podiam fazer uso de drogas ilícitas leves praticamente sem a intervenção das autoridades públicas, que sabiam bem o que se passava, mas não tinham muitos recursos ou disposição para fazer algo a respeito. E foi aí que eu, imbuído pelo espírito libertário local, decidi que havia chegado a hora de passar por mais uma fase no desenvolvimento de um adolescente recifense normal: ficar muito doido de maconha.



O estágio seguinte é sobreviver a um caminhada na praia de Boa Viagem.



Eu via aqueles artistas andando para cima e para baixo, geralmente com alguma gatinha alternativa do lado e pensava que, se eu não sabia cantar, assobiar e conseguia ter dificuldades para encontrar o tom certo até tocando apito, ao menos eu podia fazer a balaca puxando um fumo de leve junto com os músicos. Ruim não podia ser, já que tinha tanta gente fazendo. Externei meu plano para dois amigos que prontamente contactaram um grupo de confiança para patrocinar minha primeira experiência no mundo das drogas ilícitas. E quando falo “grupo de confiança”, na verdade quero dizer “bando de desconhecidos de aspecto suspeito e prováveis antecedentes criminais”. Todos juntos, fomos para um beco perpendicular à via principal onde se encontrava a Soparia, lotadíssima em um sábado à noite. Naquela época, além de nunca ter experimentado maconha eu também era virgem e tinha a distinta sensação que ambos os fatos estavam tatuados na minha testa, possivelmente com a palavra “retardado” escrita embaixo. A bem da verdade, eu preferia estar caminhando para o meu primeiro coito (não com aqueles caras, obviamente), mas minha lógica juvenil determinava que uma coisa fatalmente levaria a outra. Eu iria queimar um baseado, ficar muito louco e, automaticamente, alguma gostosa local ia querer dar para mim, talvez ali mesmo, meio que brotando da terra. Eu já me imaginava no futuro, compartilhando a fantástica história com hipotéticos netinhos.



"Opa, essa também é neta? Mal aí."



Chegamos à viela escura e malcheirosa. Senti aquela adrenalina boa de quando sabemos que estamos fazendo algo errado, mas temos a razoável certeza de que vamos nos safar no final. Um dos malucos sacou a seda do bolso e começou a enrolar a erva com destreza. Tentando aparentar normalidade com aquilo tudo, eu buscava pensar em todas as mulheres que inescapavelmente passariam a frequentar a minha cama depois daquela noite. Como uma ereção poderia ser bastante mal interpretada naquela situação, eu prontamente passei a me concentrar na minha coleção de quadrinhos. A ereção aumentou. Já mencionei que eu era virgem? Nessa fase, até um pudim de tapioca consegue deixar um menino de pau duro. De qualquer forma, o cara terminou de confeccionar o cigarro, acendeu e deu uma longa baforada. Depois prendeu a respiração como se estivesse segurando um peido dentro de um elevador lotado. Como ninguém nunca tinha me explicado a parte teórica da coisa, eu tentava ir memorizando a movimentação e construindo uma espécie de tutorial mental, tudo isso tentando não fazer cara de donzelo. Era mais difícil do que se pode imaginar. Devido a alguma predestinação cósmica ou simplesmente por conta da meu semblante de mamão criado por vó, acabei sendo o último da roda a dar o pega. Isso era bom, porque me permitia estudar todos os outros participantes e tentar não fazer qualquer besteira que evidenciasse minha tabacudice e colocasse em risco meu prognóstico de sexo interminável.

O problema é que a natureza comunitária do ritual estabelecia que eu seria o último a botar a boca no baseado, dessa forma compartilhando saliva, pelos, suor e, provavelmente, doenças venéreas com todos os participantes, a maioria dos quais parecia ter passado um tempo considerável morando embaixo de algumas das inúmeras pontes do Recife. O medo de contrair uma espécie de gonorreia bucal não me deteve e segui em frente quando me estenderam o embrulhinho aceso, todo amassado e úmido. Respirei fundo, dei uma última olhada ao redor e coloquei o bagulho na boca. Senti o jantar voltando pela garganta imediatamente. Usando toda a minha força de vontade, engoli de volta a refeição semi-digerida, sem dúvida acrescentando um pouco de inhame com charque à mistura de fluidos corporais acumulados na ponta do cigarro. Respirei fundo e, demonstrando presença de espírito, lembrei de não soltar a fumaça imediatamente. Como eu não sabia que deveria segurar a névoa de cannabis nos pulmões, acabei prendendo a baforada nas bochechas mesmo, liberando-a aos poucos pela boca enquanto os outros participantes me encaravam incrédulos.

- Lá no Janga, onde eu me criei, a maloqueragem faz assim. – declarei, surpreendendo a mim mesmo com minha agilidade mental e firmeza na voz.

Comecei a relaxar um pouco mais e já estava chegando a conclusão de que a coisa, afinal de contas, não era um bicho de sete cabeças.

E foi nesse momento, evidentemente, que as coisas começaram a dar em merda.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

Gripe






Ninguém gosta de ficar doente. Mas entre as moléstias cotidianas, essas que não são graves o suficiente para provocar a simpatia alheia, mas ao mesmo tempo conseguem transformar seu corpo em um inútil saco de geleia, a gripe é a pior. Todos estão sujeitos, a qualquer momento, a ficar gripados. E o fato de todos saberem que é uma doença transmitida pelo ar faz com que os afetados sejam sutil, porém firmemente ostracizados pelo resto da sociedade mais ou menos sadia. E não tem muito como esconder. Você espirra e o velhinho simpático, esperando a vez dele no jogo de dominó, sai correndo desabalado, cobrindo a boca e o nariz. Ao passar por você, justifica, constrangido:

- Estou perto de me aposentar, não posso correr riscos.

Ao subir no ônibus, nota que um policial encara com suspeita os seus olhos vermelhos. Você os fecha e pede para chegar logo em casa, enquanto se pergunta de onde vem aquele assovio constante e ritmado, bem ao lado do seu ouvido. Horrorizado, percebe que é o seu próprio nariz, semi-entupido de muco esverdeado, formando uma bolha de catarro a cada respiração. Sente a gosma iniciando sua derradeira descida em direção aos seus lábios trêmulos. Por instinto, inspira profundamente, revertendo o movimento da meleca e fazendo um barulho semelhante ao de um aspirador de pó enguiçado. Em pânico, percebe que engoliu toda aquela nojeira, que lentamente escorre pelo seu esôfago, sob os olhos incrédulos dos passageiros ao seu redor. Ao seu lado, uma jovem mãe não se contem e descarrega seu café da manhã pela janela. O bebê em seu colo acorda e, por reflexo, dá uma golfada na cabeça do senhor calvo sentado na poltrona da frente. Com a voz embargada de catarro, você se desculpa aos passageiros pelo transtorno e a humanidade em geral por ter nascido.

De repente, sente uma explosão partindo da altura dos pulmões e se movimentando rapidamente em direção ao seu nariz. Pode ser mais um espirro ou o encosto de exu caveira finalmente abandonando seu corpo devastado. Na dúvida, cobre o rosto com as mãos e tenta, pateticamente, proteger a civilização da patologia que transformou você em mero veículo de suas disseminações. O escandaloso espirro é respondido por esperançosas exclamações de “saúde” por estranhos até mesmo do lado de fora do ônibus em movimento. Você olha para as suas mãos em concha, rente a sua face avermelhada e percebe duas coisas. A primeira é que todos os fluidos e miasmas produzidos pelo seu corpo foram parar em suas palmas, juntando-se em uma espécie de pasta brilhante e pegajosa. A segunda é que Deus tem um senso de humor doentio. Sua parada se aproxima e você tenta, como uma espécie de contorcionista mentalmente deficiente, segurar toda aquela porcaria junto ao rosto ao mesmo tempo em que procurar puxar a cordinha com os cotovelos, rodopiando loucamente pelo veículo e derrubando com uma cabeçada certeira o moço cego que havia tomado a infeliz decisão de escolher aquele ônibus para vender canetas.

Para alívio dos outros passageiros, você finalmente desce do coletivo, ainda com as mãos junto ao rosto e sentindo uma fina coriza escorrer pelo queixo e deixar uma trilha escorregadia na calçada. Com a cabeça latejando no ritmo dos pingos que escapam do seu nariz, você se arrasta até sua casa, exibindo a mesma agilidade e coordenação motora de um zumbi recém-desenterrado. Sentindo-se idoso, você se joga na cama ao compreender que a privada do seu banheiro não teria potência suficiente para leva-lo ao esquecimento final. Antes de fechar os olhos e rezar para que o mundo acabe de uma vez, você sente uma incômoda sensação, que lhe tira o doce alívio do sono.

Havia esquecido de comprar remédio na farmácia.


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Barba






Eu queria ter uma barba. Pronto, falei. Esse desejo, que surpreende a maioria das pessoas, só pode ser verdadeiramente compreendido por aqueles que, como eu, faltaram no dia em que Deus distribuía pelos faciais. A questão é que a barba é não apenas um símbolo de hombridade extrema, mas também um dos poucos acessórios estéticos que um homem pode lançar mão sem perder para sempre o respeito dos seus pares. Afinal, homem que é homem não sai por aí pintando cabelo, botando lente de contato e dando chapinha no cabelo. E ser ou não gay não tem nada a ver com isso. É que simplesmente essas frescuras não caem bem em um homem, independente da orientação sexual. Renato Russo era um ótimo exemplo disso. O líder da Legião Urbana costumava ostentar uma barba que comunicava suas emoções mais profundas, quase tanto quanto as letras das suas músicas. Já quando, vez ou outra, surgia sem sua indefectível cabeleira facial, Russo praticamente não era reconhecido pelos fãs, possivelmente confundindo-o com o roadie da banda e tratando com o respeito equivalente. Para efeitos de comparação, vamos observar as duas fotos a seguir.

O cantor, apresentando uma barba de proporções bíblicas, seguro de si e no auge da carreira. Parece dizer apenas com o olhar “Sou cantor, poeta, dou o rabo com uma frequência até certo ponto alarmante e tenho uma barba digna. E você?”.




Ele já usava uma camisa com estampa de Maria Gadú antes de ela nascer.



Já nessa outra imagem, o artista aparece de cara limpa e aspecto definitivamente doentio. Não parece o líder de uma das maiores bandas de rock do Brasil e sim um estudante de informática que complementa a renda vendendo bíblias de porta em porta, cultiva há anos um relacionamento amoroso com seu travesseiro e, possivelmente, sofre de algum retardo mental e/ou desvio sexual.



"Uma festa? Posso levar meu travesseiro?"




Para os que ainda duvidam da barba na composição estética dos grandes mitos, basta tentar imaginar, por breves e angustiantes segundos, alguns dos maiores ícones da humanidade com o rosto obscenamente desprovido de pelos. O que seria de figuras como Che Guevara, Fidel Castro, Wolverine, Papai Noel, Osama Bin-Laden, Lula, Eufrazino Puxa-Briga, ZZ Top, Pedro de Lara, Jesus Cristo e Frida Kahlo? Apenas pálidas e intermitentes sombras nas recordações das pessoas.

E, contudo, existem aqueles que discordam dessa verdade irrefutável. Pior ainda são aqueles que, abençoados com uma barba vasta e honrosa, insistem em raspá-la, criminosamente extinguindo dos seus rostos esse símbolo da aliança entre Deus e os homens. Para os imberbes como eu, nada é mais irritante do que encontrar algum pagão de cara escanhoada e ouvir algo como “Você que tem sorte, não precisa nem comprar gilete. Já eu preciso fazer a barba três vezes ao dia e à noite não consigo dormir com o barulho dela crescendo”. Esses infiéis desperdiçam seu dom divino e ainda afirmam invejar os deficientes capilares que, como eu, são incapazes de cultivar um mísero cavanhaque.

E é nesse momento que se faz necessário reconhecer a parcela de culpa feminina nessa inversão de valores. Que homem já não foi ameaçado pela sua companheira caso insistisse em manter sua barba junto com a sua masculinidade? Quantos camaradas, aterrorizados pela perspectiva de uma greve de sexo por tempo indeterminado, se emascularam com uma navalha, creme e loção barata? O que, afinal, as mulheres têm contra a abundância de pelos faciais de alguns homens mais afortunados? Seria uma recordação genética impressa em seu DNA e multiplicada por seus cromossomos, herança dos tempos das cavernas quando os homens possuíam barba, clava e muito mais atitude do que os seus descendentes? Ou seria uma mera demonstração de crueldade coletiva, as mulheres buscando humilhar os homens e evidenciar ainda mais a sua supremacia no relacionamento? Pouco importa. Enquanto os homens seguem desperdiçando perucas e mais perucas faciais com vistas a se encaixar no conformismo estético criado e mantido pelas mulheres, o mundo vai decaindo em uma espiral de desespero, frustração e indignos rostinhos de bebê. E Deus finalmente perdeu a paciência com o descaso dos seres humanos por suas dádivas, fazendo com que aberrações imberbes como eu sejam cada vez mais comuns. O apocalipse já começou e a face dele nos foi revelada.



ARREPENDEI-VOS! Hmm. Pensando bem, eu pegava.



Agora reclame da barba do seu namorado.


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Amigo gordo





Todo mundo tem ou já teve um amigo gordo. E se você não tem ou nunca teve, azar o seu, porque amigo gordo é ótimo. Costumam ser os mais engraçados, escrotos, cretinos e divertidos dos companheiros. Tem gente que diz que é para compensar a aparência, que todo gordinho tem problemas de autoestima, etc e tal. Para mim, isso é puro preconceito. É dizer que o cara tem sempre que justificar o bom-humor com o excesso de peso. Conversa. Prefiro pensar que o gordo, através de uma dieta composta de bacon, manteiga, sarapatel e outras comidas felizes, alcançou uma espécie de conhecimento humorístico elevado e sobrenatural, negado ao resto de nós. Alegria lipídica, que o amigo gordo espalha generosamente aonde quer que vá, fazendo as pessoas gravitarem ao seu redor, atraídas pelo magnetismo daquele coração enorme e safenado. Chega a despertar a inveja alheia, aquela inveja malhada, sarada, vitaminada, anabolizada, dos atletas de academia, que por não saberem conversar, dialogam apenas com máquinas de metal e pesos de chumbo, deixando os músculos falarem sem nada dizer. São esses que perdem a namorada para o gordinho safado que nunca pisou em uma academia e se perguntam o que ele tem, afinal de contas, para conseguir com um sorriso em camadas o que eles não conseguem com horas de caretas suadas. Faltou bom-humor. Faltou inteligência. Faltou sem-vergonhice. Faltou amizade.

Quando crianças nós tínhamos, lá na rua, o nosso amigo gordo cujo apelido, vejam só, era Gordo. O Gordo nunca estava triste. O sorriso que se espalhava pela cara larga era tão presente e sincero que irritava. Acolchoado por camadas de gordura bem localizada, o Gordo ria quando apanhava e batia quando queria, impondo respeito em meio a gargalhadas que estremeciam a pança vasta e branca. O Gordo não tinha limites e te fazia rir cinco minutos depois de você voltar do enterro da sua avó. O Gordo não tinha instinto de autopreservação e escrotizava impiedosamente o síndico, o filho do síndico, a mulher do síndico e ainda era bem-quisto por toda a vizinhança. O Gordo não jogava nada de futebol, mas era disputado a tapa pelos times, porque sem ele a pelada não tinha graça. O Gordo era romântico, distribuindo caixinhas de presente recheadas de baratas, traumatizando as mesmas meninas que mais tarde levaria ao cinema, braços dados e risadas incessantes incomodando os vizinhos de poltrona. O Gordo era conhecido por todo o bairro e até os desafetos queriam ser seus amigos.

Um dia, encontraram o Gordo cabisbaixo, sentado na calçada em frente ao prédio onde morava. A meninada, desacostumada de ver o amigo tão sorumbático, perguntou o que havia acontecido. Havia acabado de chegar do médico com sua mãe. Interrompeu-se para suspirar tristemente e os amigos, já esperando o pior, o encorajaram a continuar. Criando coragem, o Gordo explicou que a mãe já não aguentava mais. Não tinha mais forças. Havia levado o filho a um especialista, que receitou uma dieta infalível combinada com exercícios para o garoto.

- Vou ficar magro! – Desabafou, por fim, o Gordo.

As outras crianças sentaram-se ao seu lado, cabisbaixas. A vizinhança já não seria mais a mesma. Naquela mesma semana, metade dos moradores do prédio se mudou para outro bairro.

O primeiro a partir, lágrimas nos olhos, foi o síndico.



Uma singela homenagem do Blog da Reclamação no Dia do Amigo, lembrando uma época em que amizade era comemorada todos os dias e não apenas quando a Internet precisa nos lembra da importância das pessoas especiais que escolhemos ter ao nosso lado.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Histórias que os homens contam, parte II






Os homens adoram aumentar as histórias. Faz parte da natureza masculina tentar adicionar sabor ao conto através do exagero. Principalmente quando o assunto é o próprio desempenho durante aventuras amorosas. De fato, mente-se bastante, mas geralmente não sobre um dos temas que, verdade seja dita, preocupa muito mais os homens do que as mulheres. Curiosamente, a macharia raramente adultera o tamanho da própria genitália, ao menos quando conversam com seus companheiros de gênero. O motivo para isso, na verdade, é bastante simples. É perfeitamente possível dizer, por exemplo, que você passou as férias em uma praia perdida no litoral alagoano, onde um navio de luxo repleto de participantes do “XII Encontro de Modelos Ucranianas Ninfomaníacas” acabou encalhando e você, narrador, passou semanas como o único e exótico prato de dúzias de europeias desinibidas e sexualmente famintas. Forçado? Sem dúvida. Mas quem pode provar que isso tudo não aconteceu? Não se pode fazer o mesmo com a sua bilola porque, caso você seja um ser humano do sexo masculino e de anatomia razoavelmente correta, ela está o tempo todo com você. Não adianta chegar para o seu grupo de amigos e clamar “Minha rôla tem 27cm de comprimento! Mole! Bando de otário!” e esperar que a macharia aceite essa informação placidamente. De fato, o mais provável é que seus amigos entrem em comum acordo tacitamente e, juntos, procedam á tarefa trabalhosa, porém gratificante, de arriar as suas calças no meio da rua e expor sua mísera pitoquinha para o mundo, traumatizando tanto você quanto seus vizinhos pelo resto da vida.

Pode-se, é verdade, inventar algo do gênero para uma interlocutora do sexo feminino. Mas isso é, quase sempre, extremamente contraproducente. Primeiro porque, caso você tenha intimidade suficiente para discutir as dimensões da sua jemba com uma mulher, é provável que ela já tenha visto seu equipamento de qualquer forma e a memória disso sem dúvida ainda rende boas risadas para ela e suas amigas. Segundo, a verdade é que afirmar possuir um caralho do tamanho de uma criança de sete anos de idade vai, muito provavelmente, fazer sua interlocutora sair correndo e emitindo gritos de horror e incredulidade. E a história sem dúvida será posta a prova por entusiasmados colegas de cela na prisão onde você já vai chegar sob a acusação de assédio sexual e com fama de mentiroso. Em suma, quando o assunto é tamanho de órgão masculino, é preferível seguir o conselho de um sábio amigo meu: se é para falar de tamanho, diga logo que é um anão genital. Se você não for, sua companheira vai ficar agradavelmente surpresa e, até certo ponto, agradecida. Caso seja, ninguém vai poder dizer que você não avisou e ela já vai comparecer ao ato sem grandes expectativas mesmo.



"Espera...qual era a pergunta mesmo?"



Evidentemente, se não é prático mentir sobre si, é perfeitamente possível fazer isso em relação a outras pessoas. Todo homem tem pelo menos um amigo, quase sempre imaginário, que é conhecido por apelidos como “O Jumento de Itú” ou algo semelhante. Histórias que servem para impor tanto terror quanto respeito aos corações dos companheiros de conversa. E cada um que aumente o ponto e a pica alheia, até dimensões definitivamente não humanas. Eu, por exemplo, tenho um tio do interior que ocasionalmente se hospeda aqui em casa. A fama de bem-dotado sempre foi uma espécie de lenda familiar, uma que eu jamais havia me interessado em conferir. Certa noite, embriagado de sono, levantei e me dirigi ao banheiro do corredor. Descuidadamente, abri a porta sem bater e o que eu vi vai povoar meus pesadelos pelo resto da minha atormentada existência. Lá estava meu tio, de pé em frente ao vaso sanitário, uma mão apoiada no frio azulejo da parede e a outra segurando o que, à primeira vista, pensei ser a perna dele. Me perguntava, ingenuamente, o que meu tio estaria fazendo com um pé praticamente enfiado na água da privada quando meu cérebro entorpecido finalmente registrou o bizarro cálculo que se apresentava aos meus sentidos. Aquilo não era uma perna. Por Deus, ninguém nasce com três pernas.



O QUE FOI VISTO NÃO PODE SER DESVISTO!



Boquiaberto, passei o que pareceram horas paralisado por um terror abjeto, enquanto ouvia meu tio assobiando tranquilamente. Na falta de uma explicação para o absurdo que estava à minha frente, minha mente inventava outras mais racionais. Cheguei a pensar que uma serpente albina havia pulado da privada e abocanhado a virilha do meu tio. Acostumado ao trato com animais selvagens, ele talvez houvesse se mantido inacreditavelmente calmo e tentasse convencer o bicho a se soltar na base da conversa. Finalmente, o horror da realidade inescapável fincou suas garras em meu cérebro. Corri para o meu quarto aos berros, resquícios de sanidade e precaução me urgindo a trancar a porta atrás de mim. Deitei na cama em posição fetal, nádegas tensas voltadas para a parede e a certeza de que Deus não existia, ou jamais permitiria que tal abominação caminhasse pela terra ao lado de suas criações. Ao ser informado de que meu tio havia puxado ao meu avô, experimentei um sentimento de intensa compaixão pela minha avó, verdadeira guerreira que por décadas foi esposa de um homem que, caso o mito se aproxime do real, deveria estar sendo estudado pela ciência.

Isso em uma época em que não existia televisão e o único passatempo era fazer menino.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Histórias que os homens contam, parte I






O imaginário masculino é povoado de mitos, sendo os mais evidentes e absurdos aqueles relacionados à sexualidade. Homens gostam de contar (e ouvir) histórias, quase sempre sem o menor fundo de verdade, desde que envolvam sexo, partes do corpo feminino, partes do corpo masculino ou uma combinação criativa disso tudo. Sim, mulheres, os homens falam de vocês. Algumas vezes contando vantagens. E comentam os seus detalhes anatômicos mais íntimos. Se você se surpreendeu com isso, ou é uma cínica ou não sabe bem como os homens funcionam. A questão é os machos prestam atenção (e divulgam) coisas diferentes das que as fêmeas se preocupam em esconder. A conversa entre dois homens, do ponto de vista feminino, transcorre mais ou menos assim:


- Velho, peguei a doida ontem e levei lá pra casa. Aí, tal, fui tirando a roupa dela, né? Tirei tudo e cheguei na calcinha. Velho, Putamerda, juro por Deus, era a calcinha da minha avó!

- Não!

- Sério, porra! Sabe calçola bege, que mais parece um short?

- Meu Deus! Era nova, pelo menos?

- Porra nenhuma! Aquela calcinha foi herança, tenho certeza. Furada e cheia de manchas suspeitas. Na boa, quase que eu brocho.

- Mas e aí? Continuasse?

- Foi difícil, mas segui em frente. Eu já tava ali, não queria que ela percebesse que eu tinha visto a calcinha ridícula dela e quase desmaiei. Foda. Me senti enganado.

- Cara, tu é macho mesmo.

- E olha que nem te falei das quatro celulites que eu encontrei na bunda dela.

- Ecaaaaaaa!


Caso a ironia fina do diálogo apresentado acima tenha se perdido nas leitoras mais paranoicas, vamos deixar claro que homens não dão a mínima se a mulher está usando uma calcinha velha, feia e bege. Aliás, boa parte dos homens sofre de “daltonismo masculino”. Não enxergamos (e nem fazemos questão de perceber) cores como salmão, fúcsia, lavanda, lilás, turquesa ou bege. Nenhum homem de verdade vai deixar de te comer por causa da sua esdrúxula calcinha. Para deixar ainda mais claro, para os homens não existem calcinhas feias. Há apenas duas categorias: aquelas que são mais eróticas, tipo fio-dental, e as que ficam no meio do caminho e aí basta tirar. E a não ser que sua bunda pareça mais um cenário de Moon Patrol, não é uma ou outra celulite que vai nos incomodar.


Moon Patrol: usado em metáforas anatômicas femininas desde 1983.


De fato, quando dois amigos se encontram e, inevitavelmente, começam a trocar histórias de aventuras sexuais, o diálogo parece mais com isso aqui:


- Velho, peguei a doida ontem e levei lá pra casa. Aí, tal, fui tirando a roupa dela, né? Tirei tudo e cheguei na calcinha. Velho, Putamerda, juro por Deus, era o maior rabo que eu já vi na minha vida!

- Não!

- Sério, porra! Sabe travesseiro? Aquele de casal? Pronto, um pouco maior. Se eu abraçasse aquela bunda, não juntava as mãos do outro lado.

- Coisa linda do pai! E aí?

- Bom, aí eu comi.

- Massa.

- Bote fé.


E é isso. Mas não pensem que a macharia não tem lá suas incertezas. No fundo, somos sensíveis, apenas avessos à frescura. E as dúvidas masculinas, quando surgem, podem traumatizar muito mais do que as das suas contrapartes femininas...


terça-feira, 12 de julho de 2011

Reaja!




Dizem por aí que a gente tem mais é que ser tolerante e perdoar nossos inimigos. A filosofia cristã ensina que a gente precisa dar a outra face e os psicólogos vendem a ideia de que ter paciência com quem tenta nos sacanear é uma mostra de superioridade. Dessa forma, estaríamos caminhando para uma existência mais pacífica, iluminada e equilibrada.

Eu digo “foda-se” para tudo isso.

Não, sério. Não estou interessado em dar nem um lado da cara para apanhar, quanto mais ela toda. E também não quero fingir superioridade para os filhos da puta da vida. Ao contrário. Para mim, a melhor, e talvez a única maneira de não ser novamente escrotizado por um desses desgraçados é reagindo à altura. Eu não quero meus inimigos de pé aplaudindo a minha vitória. Quero eles debaixo da terra, sendo roídos por vermes passeando alegremente em sua carne putrefata, mas ainda vivos o suficiente para escutar o som abafado da festa que eu estarei dando sobre os seus caixões. Desejo que meus adversários morram gritando meu nome e que a última imagem que vejam e carreguem em seus espíritos amaldiçoados por toda a eternidade seja de mim queimando a bandeira do time de futebol deles. Se alguém quer me prejudicar, então o tempo de conversar civilizadamente já passou. Qualquer diálogo que eu pudesse vir a ter com algum infeliz desse calibre se desenrolaria mais ou menos assim:


- Boa noite.

- Ahhhhhhhh! Que lugar é esse? O que eu tô fazendo aqui?

- Por favor, acalme-se. Eu administrei uma droga em seu sistema nervoso que faz com que você perca o controle das suas funções motoras voluntárias. Em outras palavras, você não pode se mover. Contudo, você logo perceberá que ainda pode sentir dor...de maneiras que você jamais experimentou durante todo o seu patético simulacro de vida.

- Fred...Fred, cara, por favor...eu não fiz por mal! Juro por Deus, eu não vi que aquele era o último pão doce coberto de coco da padaria! Eu só cortei teu lugar na fila porque...porque...bom, eu achei que não ia dar em nada e...

- Shhh...nada disso importa mais. Logo (afagando os cabelos cobertos de suor gélido do homem a sua frente), nada mais importará para você. Nem mesmo o pão doce coberto de coco.

- Não! Não, Fred, Pelamordedeus, não! Eu...eu acabei de sujar as calças, Fred!

- Sim...bem...de fato. Creio que é melhor começarmos os trabalhos. Agora, por favor, deixe-me virar seu rosto para este lado...

- O que é que você...Ahhhh, não! Pelo amor de Deus, afaste esse maçarico da minha córnea!

- Já pode sentir o cheiro de queimado? Lembra um pouco o de bacon fritando, não? Hmm...bacon...

- Nãonãonãonão, Fred, por Jesus, eu tenho mulher e filhos!

- Ora, por que você teve que dizer isso? Agora vou ter que ir atrás deles também. Já volto.

- Nããããããrrrrggggggghhhhhhh!!!!

- Quer que eu traga pão doce na volta?


E a lição que fica disso tudo? Não existe uma justiça kármica pronta para vingar as indignidades sofridas no dia a dia. E Deus, se existe, quer mais é que você se ajude, porque Ele tem mais o que fazer. Da próxima vez que alguém pisar no seu calo, dê uma resposta desproporcionalmente mais agressiva, tipo um chute no saco, e sorria na certeza de aquela pessoa jamais vai ousar tirar vantagem de você ou, nesse caso específico, terá filhos novamente. Como se diz por aí, quem vive bonzinho morre coitadinho.

É isso ou se acostumar a viver sem seu pão doce. Coberto de coco.


segunda-feira, 14 de março de 2011

Especial carnaval: e a culpa, de quem é?


Se você acessou a Internet durante as últimas semanas e especialmente durante o carnaval, já deve ter visto o vídeo abaixo.








A jornalista Rachel Sheherazade, além de ter nome de mocinha de filme de aventura árabe, também é uma observadora perspicaz da realidade à sua volta. Como, aliás, todo profissional da comunicação deveria ser. No caso de Rachel, o pau quebrou nas costas do carnaval, que por não ser um só e sim uma multidão, acabou ficando sem defesa dos comentários ácidos da paraibana. Ácidos, quase azedos, mas oportunos. O que Rachel descreve é, de fato, um lado do nosso carnaval que, manifestação cultural que é, não nasceu de um planejamento prévio ou de um pensamento lógico. O carnaval apenas é. Defeituoso, barulhento, excludente, inconveniente, perigoso, absurdo, quente, entorpecente e até mesmo vergonhoso em alguns momentos. Isso nem se discute.

Mas o discurso da jornalista acaba ficando raso ao apontar apenas um lado de uma discussão complexa e multifacetada, que envolve fatores que transcendem os problemas discutidos. O carnaval é uma expressão da cultura de um povo, povo este que é responsável por seus próprios atos e decisões. Rachel coloca ênfase demasiada no aspecto negativo da festa, esquecendo que quem faz o carnaval são as pessoas. A celebração, que possui uma história rica e relevante dentro da construção do caráter nacional, não pode ser o bode expiatório de mazelas sociais que vão além de uma festividade que dura apenas quatro dias. É como se um trabalhador brasileiro passasse a frequentar uma casa de forró depois do expediente e, após algum tempo, abandonasse esposa e filhos à própria sorte para viver uma existência desregrada e irresponsável até o fim dos seus dias. Não foram a música, a dança, a cachaça barata ou as mulheres fáceis que destruíram aquela família. Se é necessário falar de culpa, que ela seja apontada para os que merecem carregá-la. Ou seja, nós mesmos.

Nós, que nos permitimos manipular por governo, mídias de massa, marcas de cerveja. Que nos contentamos em uma vida miserável durante o resto do ano, aguardando fevereiro chegar e nos fazer esquecer os problemas, as angústias, as decepções, as dores. Esquecer de nós mesmos. Porque é bem mais fácil atribuir a culpa ao carnaval, dizer que já não é mais o mesmo, que tornou-se algo comercial, inchado e parcial. Por essa lógica distorcida, o trabalhador do parágrafo acima seria uma vítima do forró, um inocente, castigado em sua ingenuidade, arrebatado por um sincero desejo de celebrar que degenerou-se em algo vil e desprezível. Mas não. O monstro era ele, não a música que o embalava. Desgraçado era ele, não a cachaça que o embriagava. Safado era ele, não a prostituta que o consumia noite após noite. O culpado era ele, apenas ele. O carnaval, afinal de contas, não é bom nem mal. É, sim, uma festa, formada por pessoas que têm potencial para o bem ou para o mal. 

Vamos admitir nossa responsabilidade e parar de colocar a culpa de nossas desgraças no carnaval.