segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Dentista, parte II







O ser humano é a única espécie do planeta que tenta, de forma consciente e constante, se melhorar. E essa busca pela perfeição começa bem cedo, com os pais obrigando os filhos a realizarem inúmeras atividades supostamente benéficas, como natação, balé, karatê e manufatura de sapatos de marcas famosas. É tudo uma questão de cultura. Quando atividade física extenuante não dá conta, a medicina surge com intervenções que visam corrigir aquelas imperfeições com as quais a maioria de nós nascemos, mas poucos conseguem conviver em harmonia. Um dos procedimentos mais comuns e traumatizantes que uma criança costuma passar é ter que usar aparelhos ortodônticos. O principio da coisa é simples e brutal: busca-se reposicionar os dentes de um ser humano enquanto eles ainda estão enraizados em suas gengivas, utilizando uma série de instrumentos cujo único propósito é remodelar as arcadas dentárias que nos foram dadas por Deus e, dessa forma, afrontar toda a Sua obra.

E assim foi que, quando eu já havia perdido os meus dentes de leite e os permanentes começavam a nascer, meus pais perceberam algo estranho. Algo...não natural no meu sorriso. Com o passar do tempo, ficou evidente que alguma coisa terrivelmente errada estava se passando dentro da minha boca. Assustados, meus pais fizeram o que qualquer pai preocupado faria: acionaram os serviços de um padre que, após me inspecionar cuidadosamente, recomendou um ortodontista de reputação ilibada e preços populares. Ao chegarmos no consultório, fui encaminhado para a sala de Raio-X, onde permaneci imóvel pro vários minutos enquanto o técnico, sensato, se escondia atrás de uma placa de chumbo. Estávamos na sala do dentista quando chegaram os resultados. Incrédulo, o doutor mostrou os exames para a minha mãe, que arregalou os olhos e proferiu, com sua delicadeza habitual:

- Mas meu filho...é um macaco escritinho.

O dentista chamou minha mãe de lado e ambos confabularam em sussurros preocupados. Pode ter sido apenas minha imaginação, mas tenho quase certeza de ter escutado as palavras “aberração”, “impossível” e “eutanásia” no meio da conversa. No final, minha mãe deve ter convencido o doutor de que a ciência da Ortodontia tinha muito a aprender tentando consertar meu sorriso antes que ela fosse obrigada a me entregar ao zoológico da cidade. E foi assim que comecei a usar aparelhos. No plural mesmo. Aparentemente, minha condição só podia ser corrigida através da ação conjunta de todos os artifícios dentários criados pelo homem, além de outros que eram certamente proibidos pelas leis de países mais civilizados do que o Brasil. Inicialmente, me recusei a ser a cobaia daqueles experimentos. Por fim, em busca de aprovação materna e de uma aparência razoavelmente humana, concordei com o tratamento. O medo de ser sequestrado por algum circo itinerante também pesou da decisão.

Me fizeram usar peças metálicas coladas aos dentes, que cortavam meus lábios e minha língua, além de um aparelho removível, junto ao céu da boca, que na época achei bastante semelhante à dentadura da minha avó, só que sem os dentes. Uma espécie de chapa banguela, o que apenas a tornava mais sinistra sua aparência aracnídea. Além desses dois, precisava utilizar pequenas ligas de borracha conectando as mandíbulas, que forçavam minha dentição a se manter dentro da minha boca e não assustar os vizinhos. Não satisfeito, o doutor achou por bem me brindar com um aparelho extra oral, um tipo de para-choque metálico que sai da boca e se fixa na nuca do condenado. Eu precisava usar todos esses dispositivos ao mesmo tempo, durante o dia e mesmo na escola. Como os professores, por algum motivo, não permitiam que eu vestisse um saco de estopa na cabeça, precisei aprender a lidar com minha infeliz situação. E quando falo “aprender a lidar”, na verdade quero dizer “me segregar em locais obscuros da escola junto com os outros anormais”. Em termos de esquisitice, eu só perdia para o pobre coitado que usava colar correcional no pescoço e a menina albina. Havia um garoto anão que costumava andar conosco, mas ele logo percebeu que estávamos queimando o filme dele e nunca mais apareceu. Soube depois que teve uma grande carreira profissional em um dos postos de gasolina da cidade.



Ninguém era páreo para sua elegância.



Apertar o aparelho doía tanto que a única opção de alimentação era intravenosa, por semanas a fio. Os dentes ficavam bambos ao ponto de me fazer perder a paciência e tentar corrigi-los usando as mãos mesmo. Afitas eram uma constante e não havia escovação que fizesse com que todos os fragmentos das refeições se desprendessem da teia metálica que era o meu sorriso. Chegava na sexta sentindo o gosto do almoço da segunda. Durante a semana, sofria o bullying das outras crianças quando a expressão ainda não havia se popularizado, mas suas consequências já eram bastante palpáveis. Minha única distração durante os recreios solitários era assustar as crianças das séries mais baixas. O cimento do aparelho fixo deixava as partes visíveis dos dentes amareladas e as pessoas na rua já começavam a pedir cigarro quando eu sorria. Finalmente, depois de anos de dor e isolamento, chegou o momento de retirar todos os mecanismos que lotavam a minha boca. Depois do procedimento, a primeira coisa que eu percebi é que agora havia tanto espaço na minha cavidade bucal que minha língua ficava um tanto perdida, como se tivesse vivido por anos em uma quitinete e agora houvesse se mudado para um duplex com salão de festas. O dentista não escondeu a surpresa com o resultado, duvidando menos de sua própria capacidade do que das minhas chances de exibir um sorriso que não fosse encarado como um prenúncio do apocalipse. Minha mãe já não mandava eu me esconder no quarto de empregadas quando tinha visita em casa e o futuro se avizinhava brilhante. No final, tudo acabaria bem. Não fosse pelos meus dentes sisos que surgiram logo que terminei o tratamento odontológico e reverteram todo o processo de correção.

Hoje, quando me pedem para sorrir, mando logo tomar no cu.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Dentista, parte I





Nunca gostei de ir ao dentista. A odontologia é umas das últimas especialidades da Saúde que continua contando com métodos e equipamentos simplesmente medievais. Precisa arrancar um dente, amigão? Não tem laser que vá fazer isso de uma forma indolor ou que não envolva você cuspindo uma quantidade assustadora de sangue como se fosse um boxeador em fim de carreira. Pediatras basicamente aprendem a manejar inofensivos estetoscópios e Dermatologistas não necessitam de mais do que traquejo com algumas pomadas ou, no máximo, um elegante bisturi elétrico para remoção de verrugas anais. Por Deus, até mesmo um Proctologista precisa apenas de uma luva resistente, um pouco de vaselina e pacientes compreensivos para poder realizar seu trabalho.



"Dr., o senhor pode...pode ao menos tirar esse anel...?"


Dentistas se armam, literalmente, com arsenais compostos de brocas cujo som é capaz de fazer os testículos de um homem sadio se recolherem institivamente no seu abdômen, ganchos cujo único propósito é fazer os pacientes borrarem as calças ante a sua visão horrenda, pinças capazes de extrair um dente ainda que a raiz dele esteja fincada na sua alma e lixas motorizadas que não pareceriam deslocadas no armário de um serial killer. E enquanto você está preso na poltrona do terror, cego por uma luz alienígena e lutando contra o instinto de se jogar pela janela ao ouvir o som da perfuratriz em miniatura, o dentista, sádico, ainda conta piada. Nada melhor do que ouvir a última do papagaio enquanto se engasga com o próprio sangue. E quem é maluco de não achar graça da piada de uma pessoa que tem uma agulha da grossura do seu dedo mindinho apontada para os nervos expostos do seu molar?



"GAAAAAAAAAHHHHHHH!"



Tenho medo de Dentistas. Não tenho vergonha de falar, só mantenho a voz baixa com medo de um deles ouvir e vir tomar satisfações munido de um boticão. Além disso, como uma espécie de Pokemons saídos do inferno, os Dentistas também possuem sua própria e terrível evolução: o Ortodontista. Um profissional que, não satisfeito em nos causar inenarrável dor física e angústia mental, ainda rouba nossa dignidade através de tratamentos humilhantes e, como qualquer paciente pode testemunhar, infindáveis. Apenas aqueles que sofreram nas mãos dessa entidade maléfica podem compreender os traumas indizíveis que deixam cicatrizes indeléveis nas gengivas e nos espíritos de milhares de pessoas mundo afora.

E eu, claro, sou uma delas.



Continua...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Vovó e a chuva





Uma das maiores características dos idosos é o apego aos hábitos. O que para os mais jovens pode parecer teimosia senil, para os velhinhos é apenas uma maneira de se ancorar mais firmemente em uma existência que muda mais rapidamente do que eles conseguem acompanhar com suas bengalas. E por estarem cada vez mais perto do último jogo de dominó de suas vidas, nada mais natural do que cultivar e persistir em cuidados supostamente saudáveis, mas que não possuem o menor fundamento científico. A minha avó, por exemplo, morre de medo de chuva. Para ela, qualquer precipitação é um prenúncio do juízo final, onde o combate final da humanidade será travado contra as doenças que, aparentemente, permanecem incubadas em nuvens de tempestade, aguardando pacientemente o momento certo de despejar sua carga mortífera sobre os despreparados transeuntes, sem diferenciar os ímpios dos seus netos. Para vovó, as dez pragas do Egito foram um verdadeiro mamão com açúcar. Afinal, no deserto não chove. No final das contas, todos os problemas possíveis e, principalmente, os imagináveis, acabavam sendo atribuídos à chuva, verdadeiro vetor do Armagedom. Gripe? Chuva. Alergia? Chuva. Dor de cabeça? Chuva. Fratura exposta? Chuva. Câncer no reto? Chuva. Queda da Bovespa? Chuva. Apocalipse zumbi? Tente adivinhar. 



"Vó, tem vitamina C?"



No raciocínio de vovó, as chances de se sobreviver a uma chuvarada são mais ou menos proporcionais à possibilidade de se dar bem nessa vida sem ser médico, advogado ou engenheiro. Quando vou passar o final de semana com ela e sou pego pela rápida e inofensiva garoa do verão recifense, costumo surpreendê-la em seu quarto, já separando suas roupas pretas.


- Meu filho, veio correndo? Tá todo suado, meu Deus...

- Não, vó, isso é chuva mesmo.

Os olhos da minha avó são tomados por um terror ancestral. Ela me encara como se houvesse um cadáver em avançado estado de decomposição na sua frente.

- Chuva? Minha nossa senhora!

- Que foi?

- Deixe eu ligar logo pra sua tia, que é médica.

- Oxe! Só por causa de uma chuvinha nas costas?

- Um macho vinha nas costas? E você acha pouco? Vou ligar pro padre também! Que desgosto, meu neto, com esses vícios...não foi assim que eu te criei! - Indignou-se minha avó, cuja audição já não era mais como antigamente.

- Não foi a senhora que me criou, foram os meus pais!

- Está explicado então.  – sentenciou a matriarca, dando o assunto por encerrado e a discussão como vencida.

- Vó! Eu não sou gay! E nem vou morrer por causa de uma chuva! Eu...vó, para de me olhar assim, já disse que eu não sou gay!

- Não vou arriscar. Fique aí que sua tia já chega. Aliás, além do padre, vou chamar um pastor e um pai de santo pra ver se dão jeito nesse seu outro...problema. No desespero, é melhor ser ecumênico. – resignou-se a anciã, católica fervorosa.

- Mas vov...

- Calado. Aqui quem manda sou eu. Vá para o quarto, tome remédio, reze dez pais-nossos e não se atreva a vestir as roupas das suas primas.

- ...

- Já já eu chego com sua vitamina de abacate.


Só para garantir, tive que dormir isolado no quarto de empregada. Quarentena da vovó.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O futuro

Não é todo dia que a gente encontra o reflexo do próprio futuro.







Esse é um desses dias. E, seu Fernando, um abraço para o senhor!

Um dia, eu chego lá.






quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Histórias que os homens contam, parte IV ou A triste história de Ataulfo






Ataulfo era um rapaz normal, saudável, bem apessoado, estudioso e possuía apenas dois vícios: videogame e mulheres. Sim, Ataulfo não era uma pessoa original, mas nem por isso menos feliz. No início dos anos 2000, a febre no Recife eram os cybercafés que se espalhavam pela cidade como vírus eletrônicos, com jogadores de todas as idades se agrupando em clãs que se digladiavam virtualmente em espetáculos repletos de violência, morte e pizza barata. Uma dessas casas era, inacreditavelmente, frequentada por um limitadíssimo e altamente específico público feminino, sempre nas madrugadas, horário em que as meninas, entre um cliente e outro, apareciam para relaxar das agruras da lida diária, ou melhor, noturna. Ataulfo, que já era velho demais para ter hora de ir para a cama, porém muito jovem para ter alguma responsabilidade concreta naquela altura da sua vida, era assíduo dessas noitadas, em uma época em que ver uma garota, independente de sua linha de trabalho, estraçalhando seus amigos no Counter Strike era o equivalente a comparecer ao folclórico enterro de anão, só que todas as noites. Empreendedor, Ataulfo tomou coragem e propôs, junto ao proprietário da Lan House, uma pequena festa com as coleguinhas. Um diminuto e seleto grupo de sócios foi formado e a tertúlia marcada para a madrugada seguinte, quando a casa, excepcionalmente, fecharia suas portas para uma “manutenção preventiva”.



"Qual de vocês é o técnico de rede...?"



Já antevendo as indizíveis aventuras sexuais que faria parte naquele dia, Ataulfo decidiu não fazer feio e adquiriu um produto próprio para o afobados e aqueles que desejam fazer seu desempenho render por períodos de tempo não naturais: um espécie de anestésico em aerossol, com o objetivo de diminuir a sensibilidade do homem e aumentar, digamos, seu tempo de vida útil durante o ato. Na noite marcada, lá estava Ataulfo ao lado dos seus amigos, partidas de Unreal Tournament entremeadas por desinibidas demonstrações de afeto por parte das meninas da noite. Quando sentiu que a celebração se aproximava do seu ápice, Ataulfo correu para o banheiro levando sua arma secreta. Um tanto nervoso, leu as instruções do produto, ansioso para retornar à festa. O rótulo afirmava que a aplicação era local e que duas doses do spray bastariam para atingir os resultados anunciados.

Ataulfo aplicou 27 vezes.

Na ânsia de entrar para a história das Lan Parties recifenses como um verdadeiro maratonista sexual, Ataulfo exagerou na dosagem. Tanto que, quando o anestésico fez efeito, perdeu não apenas a sensibilidade de sua bilola, mas também de toda a região da virilha e de boa parte de ambas as pernas. Se arrastando pateticamente para fora do banheiro, conseguiu, com muito esforço, se posicionar de forma mais ou menos digna sobre uma poltrona. Por mais que se concentrasse, simplesmente não conseguia comunicação alguma com sua pitoca, que estava, literalmente, dormindo em serviço. Uma das garotas se aproximou de Ataulfo, que engoliu em seco e, pela primeira vez me sua vida, desejou com todas as forças estar a quilômetros de distância de qualquer mulher.

- Ataulfo, é hoje...vai, mostra quem é que manda nesse jogo...

O pobre rapaz se esforçou até sentir lágrimas escapando dos olhos. Desesperado, encarava raivosamente a própria região pélvica, esperando desenvolver subitamente alguma disciplina Jedi que o fizesse levantar, com a força da mente, aquele amontoado de carne morta. Nada. Frustrada, a garota perdeu a paciência e resolveu partir para a ignorância.



"Braguilha de botão? Quem diabos usa braguilha de botão?!"



- Ataulfo, deixa da tua frescura! Tá todo mundo pelado aqui. Tira essa calça agora, vai!

- Não! Pelo amor de Deus, não!

A menina arrancou, com a maestria que a profissão exige, as calças amarrotadas de Ataulfo. Ao ver aquela protuberância mole apontando tristemente para o chão, a moça virou-se para os outros participantes da festa e sentenciou a plenos pulmões:

- ATAULFO É UM RÔLA DE BORRACHA!

Quando, depois de três dias de angústia e pensamentos suicidas, ele finalmente sentiu uma tímida ereção acarretada pela tradicional, embora largamente subaproveitada, tesão da mijada matinal, Ataulfo chorou. Já o apelido, Rôla de Borracha, pegou na mesma hora e o acompanharia pelo resto de sua vida amargurada.

Essa história, ninguém o deixaria esquecer.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Histórias que os homens contam, parte III




Existe apenas um aspecto de sua vida sexual no qual o homem se sente mais ou menos livre para aumentar ou, dependendo da ingenuidade da sua plateia, criar histórias tão fantásticas quanto absurdas: sua performance na cama. Evidentemente, a veracidade do boato pode ser confirmada junto à companheira (ou ao companheiro) de aventuras do historiador em questão, mas as pessoas raramente chegam ao ponto de interrogar os participantes dessas singelas ficções eróticas. Preferem, ao menos no caso do público masculino, elaborar situações ainda mais estapafúrdias, perdendo por completo o senso de ridículo simplesmente com o intuito de contar vantagem e angariar um módico de respeito junto aos seus pares. É relativamente comum entreouvir, em uma mesa cheia de machos, afirmações desse porte:

- Vocês tão é por fora! Peguei a doida ontem, levei pro motel, dei três seguidas e só não rolou mais uma porque o tempo acabou!

Os companheiros ao redor meneiam suas cabeças com gravidade e aprovação.

- Isso não é nada! Arrastei a nêga lá pra casa ontem, meti a noite toda e ela ainda gozou dezessete vezes! Dezessete! Fora os múltiplos!

Boquiabertos, os amigos saúdam o narrador. Uns ensaiam palmas circunspectas, outros erguem uma das sobrancelhas questionando a veracidade do relato.

- Bando de incompetentes! Arriei a madeira em três só ontem! Ao mesmo tempo! Não me perguntem como, mas eu consegui! E elas todas se pegaram loucamente na minha frente! Bem na minha frente!

- Bem, isso realmente é impress...

- E eu já contei que eram todas da mesma família? Sim! Filha, mãe e avó! Avó! HAHAHAHAHAHAHA! Quero ver alguém superar essa! Ah, dona Teresa, que saudade daquele pão de ló, viu...

Trêmulos, os demais convivas se levantam da mesa, alguns tropeçando de pura indignação. Aproveitam-se do estado semi-catatônico do último contador de histórias, perdido em recordações de dona Teresa e seus dotes erótico-culinários, para escapar de mansinho, ao mesmo tempo em que pedem a Deus e a todos os santos que nada daquilo seja verdade.

Eu mesmo já havia presenciado um desses trovadores sexuais em ação. Alguns anos atrás, um aluno meu confidenciou-me, sem o menor estímulo da minha parte, suas aventuras do último final de semana. Depois de discorrer por minutos acerca dos invejáveis dotes físicos de sua companheira, lançou a bomba:

- E nesse dia, teacher, foram nove. Juro pela fé de Abraão.

Aquela revelação fez meu queixo cair e minhas nádegas se contraírem de terror. Por puro instinto de autopreservação, detectei o local da parede onde se encontrava a viga de sustentação, feita de aço sólido. Lá, aterrorizado com a perspectiva de ser atacado por aquele selvagem e passar a fazer parte de suas estatísticas desumanas, encostei meus glúteos tensos e refleti sobre o que poderia haver de verdade naquela história. Os homens, convenhamos, funcionam de um jeito diferente das mulheres. O orgasmo é capaz de exaurir tanto eles quanto elas, mas o macho, ao menos quando originário do planeta Terra, precisa de algum tempo para se recompor. E tem seus limites. Chega uma hora em que nada mais fica de pé, por mais que se estimule. Se bem que é difícil imaginar uma mulher que já não esteja satisfeita lá pela terceira ou quarta, a não ser que as primeiras tenham sido muito mal dadas. Coisa que, infelizmente para todos os envolvidos, acontece com bastante frequência. É por isso que alguns homens, ansiosos em levar suas companheiras à plenitude do prazer, chegam a extremos que, no pior dos casos, pode deixar suas vidas em risco e no melhor, fere de morte sua dignidade. 

A história que será contada no próximo post ocorreu com um rapaz que, por motivos legais, será chamado aqui de Ataulfo.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Taras






Nada melhor do que ter intimidade entre quatro paredes. Quando o casal, independente de sua orientação sexual, se conhece melhor e se sente mais a vontade um com o outro, a coisa, por assim dizer, flui com mais tranquilidade. O cara se sente confortável em dar umas palmadas na bunda da companheira, a menina não vai ter melindres em berrar “bate feito homem, cacete!” e todos ficam felizes. O problema é que nós, seres humanos, fomos projetados para perder a noção das coisas. Em algum momento, alguém vai extrapolar o limite do bom senso e o que deveria ser uma atividade no mínimo prazerosa, pode se transformar em uma sessão de exorcismo desprovida tanto de roupas quanto de dignidade. E por mais que a gente deva se soltar nessas horas, um pouco de autocrítica nunca matou ninguém e pode te salvar, no dia seguinte, de uma ressaca moral de proporções bíblicas.



***


- Ai, vem, meu gostoso, tô doida de tesão...

- Olha só, antes de começarmos, eu queria deixar claro que eu topo tudo, tudo mesmo. Frescura zero. Desde que não envolva...bem...coisas invadindo meu ser, sabe?

- Ah, que besteira, você precisa expandir seus horizontes!

- Deus me defenda. Eu uso meu horizonte pra me sentar, então preciso cuidar bem dele. Valeu aí e minhanossasenhoradoperpétuosocorro o que é isso na sua mão?!

- Ai, vai...só um pouquinho...

- Se você tentar chegar perto de mim com essa coisa, eu te mato com ela e alego legítima defesa. Não há juiz no mundo que vá me condenar em vista da situação.

- Mas você pode até gostar!

- Eu NÃO vou gostar! Acabei de deixar claro que não quero nada entrando em mim e você aparece com...com...esse troço aí. Olha o tamanho dele. Nada na natureza é tão grande assim. Por Deus, nada deveria ser tão grande assim! Eu posso acabar perdendo um pedaço do pulmão!

- Se você topar, eu chamo aquela minha amiga, Julinha. A gente pode finalmente fazer aquele men...

- Posso passar lubrificante? Ou vai no seco mesmo?


***


- Eu quero você! Agora!

- Pois eu tô aqui, sou todo seu, vem...

- Eu quero morder o seu pescoço e arranhar as suas costas!

- Vai, sua danada, pode arranhar... morde, de com força...

- Eu quero puxar o seu cabelo e apertar o seu pescoço!

- ...oi? Olha só, puxar o cabelo tudo bem, mas...

- Eu quero morder suas gengivas e arrancar as suas sobrancelhas!

- Certo. Então. Agora tá começando a ficar estranho. Estilei valendo. Se você puder me desamarrar agora eu...

- Eu quero arrancar seus mamilos e depilar o seu saco com cera quente!

- SOCORRO! POR TUDO O QUE É SAGRADO, SOCORRO!

- Eu quero lamber a parte de dentro da sua pálpebra e passar a língua pela sua córnea! Vai, abre o olho! EU MANDEI ABRIR!

- NÃÃÃÃÃRRRRRRRRRGGGGGHHHHHHHH!


***


- Ai, amor, deixa eu brincar com teu saco, vai...

- Deixo, claro. Mas com cuidAAAAAAAAAAAAARRRGGHHHH!!

- Que foi?!

- Para! Em nome de Jesus, para!

- Não tava gostosinho?

- As minhas pernas...eu não sinto minhas pernas!

- Frescura! Eu só encostei!

- Meus futuros...filhos...perdidos...para sempre...

- Mas eu só ia fazer um carinho...

- Você apertou ele como se fosse uma bolinha de fisioterapia!

- Ah, é...verdade. É que me acalma, sabe?

- ...

- E aí? Levanta mais não, é?



***


- Sério? Camisinha musical? Tu acha que ISSO vai me excitar?

- Mas ela toca a música-tema de Battlestar Galactica! Escuta só.

- ...

- Massa, né?

- Supimpa. Faz assim. Você usa pra quando for comer a bunda de um dos seus amigos nerds, beleza? Tô fora.

- Mas...

- Fui.



***


E ainda tem gente que diz que essa é a melhor parte do relacionamento.



sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Primeira vez, parte final





Francamente, a única coisa que eu sentia era uma sensação de ardência na garganta, uma espécie de azia constante no esôfago. As pessoas ao meu redor ficavam cada vez mais descontraídas a cada tragada, mas eu mesmo não percebia diferença nenhuma. Com todo mundo rindo, falando alto e argumentando coisas totalmente desconexas, comecei a me destacar do grupo pelo meu silêncio encabulado. Por sorte, sempre fui conhecido por conversar absurdos por derradeiro mesmo, então era simplesmente uma questão de dar vazão a todas as teorias sem sentido que eu, sabiamente, costumava guardar apenas para mim.

- Eu acho que os Ursinhos Carinhosos eram os X-Men da época deles. Tipo, cada um tinha um poder diferente, né? E eles agiam em equipe também. Às vezes, quando eu brigo com a minha mãe, eu chego pra ela e grito “CORAÇÃO” imaginando um arco-íris saindo do meu bucho e batendo na cara dela, tá ligado? Aí ela vem e me dá um cacete de eu ficar troncho. É assim quase todo dia. Vocês acham que isso é normal?

Em vez das risadas habituais que haviam me transformado em um pária na escola, me obrigando a passar a maior parte do recreio escondido entre o banheiro e a lixeira da quadra, meu discurso era respondido com olhares de solene estupefação e um profundo respeito. Talvez virar maconheiro não fosse assim tão complicado. Era tudo uma questão de prender a respiração na hora certa, proferir uma torrente quase inesgotável de desatinos e possuir pouca ou nenhuma noção de higiene pessoal. O bagulho ia passando de mão em mão e eu sentia que tudo ia acabar bem. Naquela época, além de virgem eu era muito ingênuo.

Vinda de lugar nenhum, uma viatura da Polícia Civil rodou lentamente pela rua onde estávamos. A função deles era mais prezar pela segurança nos arredores, procurando ladrões, arruaceiros, esse tipo de coisa. Fumar maconha não podia, claro, mas eles geralmente tinham mais o que fazer e não perdiam tempo com esse tipo de infração. Os policiais olharam para os maconheiros, os maconheiros olharam para os policiais, e estes últimos concluíram que o melhor era seguir em frente mesmo. E teriam feito isso, se um dos integrantes do grupo não tivesse tido uma reação um tanto exagerada quanto à presença da autoridade policial naquele momento.

- PUATAQUEPARIU! Os hômi! Os hômi! Fudeu tudo de vez!

- Mas eles não vão nem par...

- Me dá essa porra desse baseado aqui! – gritou ele, tomando o cigarro da boca de outro participante e o enterrando em uma imundície não identificável ao lado do seu pé e bem nas vistas dos policiais.

- Velho, para com iss...

- Eu não vou ser preso de novo, tá entendendo? EU NÃO VOU VOLTAR PRAQUELE LUGAR!

- Mas...

- Eu não vou voltar a ser a Gretchen do Aníbal Bruno! NUNCA MAIS!

- ...

- ...

- ...

- ...

- Seu policial, pode vir! Tá tudo limpeza aqui! Ninguém tava fumando maconha não, é rocha?

Estarrecido, o grupo observou enquanto os policiais, de cara feia, desciam do seu veículo, armados com escopetas de grosso calibre. O sargento, que comandava a operação, parecia extremamente desgostoso, provavelmente porque planejava chegar em casa cedo naquela noite e agora teria que parar e efetivamente fazer o seu trabalho, tudo por causa de um maconheiro histérico.

- Todo mundo de cara pra parede, bando de meliante safado!

Nos viramos para o muro às nossas costas, alguns com a desenvoltura adquirida através de anos de baculejos, outros, como eu, com as pernas trêmulas e no limite da incontinência urinária. Já imaginava as manchetes de jornal anunciando, no dia seguinte, o encarceramento de um menino de classe média de Boa Viagem, vergonhosamente consumindo tóxicos junto a um notório grupo de marginais. Pensava o quanto era injusto ir para a cadeia virgem, fato que sem dúvida seria remediado assim que meu companheiro de cela encarasse meus olhos verdes e carinha de bebê. Resignado, aceitei o meu destino e comecei a considerar nomes artísticos para a minha temporada na prisão. “Galega do Janga” era um apelido com evidente apelo comercial e sem dúvida eu venceria ao menos um Miss Mulherzinha da Penitenciária. Assaltado por esses pensamentos sombrios, eu observava, de esguelha, os policiais revistando meus comparsas. Um deles, provavelmente movido por puro terror, desatou a rir incontrolavelmente, para imensa irritação do policial que o abordara.

- HAHAHAHAHAHAHAHAHA!

- Tá achando engraçado, fela da puta?!

- HAHAHAHAHAHAHAHAHA, não, não, é que quando eu tô nervoso, eu começo a HAHAHAHAHAHAHAHA!

- A quê??

- HAHAHAHAHAHAHAHAHA! Foi mal, foi mal, eu não consigo me controlAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

- Ah, consegue não? Quer tirar onda? Quer?? Então toma!

O policial, indignado, plantou um tabefe na orelha do rapaz, que automaticamente passou das risadas às lágrimas. Eu sentia que ia precisar de uma cueca limpa caso conseguisse voltar para casa vivo enquanto engolia em seco, na tentativa de fazer com que meu coração não escapasse pela boca. O sargento, baixinho e bigodudo, se posicionou atrás de mim e começou o procedimento, de forma dura, porém profissional. Por puro nervosismo, tentei me refugiar nos meus passatempos favoritos, tentando esquecer o terror daquela situação. Pensei nas minhas revistas de super heróis e senti uma inexplicável ereção se avolumando na minha calça. Horrorizado, mudei o foco dos meus pensamentos para outra paixão: comida. Lembrando do pudim de tapioca, percebi que a ereção aumentava ainda mais, justamente no momento em que o sargento encerrava a revista com a obrigatória apalpada pélvica.

- Não bastasse fumar maconha, ainda tem mais essa... – sentenciou o velho policial, o nojo patente na voz.

Envergonhado, procurei visualizar minha avó praticando ioga ou qualquer outra coisa que encerrasse minha paudurecência juvenil, sem sucesso. O sargento, constrangido, acabou por reunir os seus homens.

- Todos pra viatura. O vício desses aí é outro. Tá liberado, bando de frango!

O carro de polícia se afastou enquanto o grupo permanecia alguns minutos mudo, de cara para o muro, só para garantir. Quando finalmente conseguimos reunir coragem para começar a nos mover, o paranoico que havia começado aquilo tudo tirou o pé do monte de porcarias onde havia escondido o baseado, colocou o embrulho imundo na boca, sacou um isqueiro e sorriu.

- Meu irmão, quase, heim? Salvei a gente, bote fé.

Ensaiei outras tentativas depois desse dia, mas logo me convenci de que fumar maconha é coisa para quem tem talento. Em mim nunca fez efeito e a socialização do ritual nunca compensou o risco. Eventualmente, iniciei uma vida sexual ativa e normal, desprovida de super-heróis, pudins de tapioca e sargentos conservadores.

A Soparia fecharia algum tempo depois, deixando órfã uma quantidade considerável de artistas pernambucanos e maconheiros sem rumo.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Primeira vez, parte I





Os anos 90 no Recife foram de muita efervescência cultural, especialmente em relação à música. Era o auge do Mangue Beat (ou Bit), movimento pernambucaníssimo que reunia artistas locais em uma valorização ou reencontro com ritmos regionais, tais como o maracatu e o cavalo-marinho, com roupagens mais modernas e pesadas, misturando tradição e flertes com o eletrônico e muito rock n’ roll. Foi nessa época que surgiram grandes bandas pernambucanas, tais como a Nação Zumbi, que viria a perder, cedo demais, seu vocalista e um dos líderes do Movimento Mangue, Chico Science, em um acidente de automóvel na cidade de Olinda. Além da Nação, vieram ainda a Mundo Livre SA, Banda Eddie, Sheik Tosado, Devotos do Ódio, Mestre Ambrósio e muitas outras, que ficaram pelo meio do caminho ou se metamorfosearam ainda em outros projetos musicais, influenciando bandas mais novas como a Mombonjó ou artistas como Karina Buhr, que seguem levando a tradição da moderna música pernambucana, sempre com um olhar no horizonte distante.

Muitas dessas bandas tocaram seus primeiros acordes no bairro do Pina, zona sul da cidade, mais precisamente no bar alternativo Soparia, capitaneado pelo maluco beleza Roger de Renor. Lá circulavam figuras carimbadas da música local, gente como Fred 04, China, Canibal, Siba e outros, que quando não estavam dando uma canja no acanhado palco do bar, se dedicavam as famosas sopas de Roger, bebiam uma cerveja gelada ou iam fazer a cabeça nos arredores. Espremida entre as palafitas da comunidade ribeirinha de Brasília Teimosa e os arranha-céus da beira-mar de Boa Viagem, a Soparia funcionava mais ou menos como uma terra de ninguém, onde os frequentadores, além de ouvir boa música, podiam fazer uso de drogas ilícitas leves praticamente sem a intervenção das autoridades públicas, que sabiam bem o que se passava, mas não tinham muitos recursos ou disposição para fazer algo a respeito. E foi aí que eu, imbuído pelo espírito libertário local, decidi que havia chegado a hora de passar por mais uma fase no desenvolvimento de um adolescente recifense normal: ficar muito doido de maconha.



O estágio seguinte é sobreviver a um caminhada na praia de Boa Viagem.



Eu via aqueles artistas andando para cima e para baixo, geralmente com alguma gatinha alternativa do lado e pensava que, se eu não sabia cantar, assobiar e conseguia ter dificuldades para encontrar o tom certo até tocando apito, ao menos eu podia fazer a balaca puxando um fumo de leve junto com os músicos. Ruim não podia ser, já que tinha tanta gente fazendo. Externei meu plano para dois amigos que prontamente contactaram um grupo de confiança para patrocinar minha primeira experiência no mundo das drogas ilícitas. E quando falo “grupo de confiança”, na verdade quero dizer “bando de desconhecidos de aspecto suspeito e prováveis antecedentes criminais”. Todos juntos, fomos para um beco perpendicular à via principal onde se encontrava a Soparia, lotadíssima em um sábado à noite. Naquela época, além de nunca ter experimentado maconha eu também era virgem e tinha a distinta sensação que ambos os fatos estavam tatuados na minha testa, possivelmente com a palavra “retardado” escrita embaixo. A bem da verdade, eu preferia estar caminhando para o meu primeiro coito (não com aqueles caras, obviamente), mas minha lógica juvenil determinava que uma coisa fatalmente levaria a outra. Eu iria queimar um baseado, ficar muito louco e, automaticamente, alguma gostosa local ia querer dar para mim, talvez ali mesmo, meio que brotando da terra. Eu já me imaginava no futuro, compartilhando a fantástica história com hipotéticos netinhos.



"Opa, essa também é neta? Mal aí."



Chegamos à viela escura e malcheirosa. Senti aquela adrenalina boa de quando sabemos que estamos fazendo algo errado, mas temos a razoável certeza de que vamos nos safar no final. Um dos malucos sacou a seda do bolso e começou a enrolar a erva com destreza. Tentando aparentar normalidade com aquilo tudo, eu buscava pensar em todas as mulheres que inescapavelmente passariam a frequentar a minha cama depois daquela noite. Como uma ereção poderia ser bastante mal interpretada naquela situação, eu prontamente passei a me concentrar na minha coleção de quadrinhos. A ereção aumentou. Já mencionei que eu era virgem? Nessa fase, até um pudim de tapioca consegue deixar um menino de pau duro. De qualquer forma, o cara terminou de confeccionar o cigarro, acendeu e deu uma longa baforada. Depois prendeu a respiração como se estivesse segurando um peido dentro de um elevador lotado. Como ninguém nunca tinha me explicado a parte teórica da coisa, eu tentava ir memorizando a movimentação e construindo uma espécie de tutorial mental, tudo isso tentando não fazer cara de donzelo. Era mais difícil do que se pode imaginar. Devido a alguma predestinação cósmica ou simplesmente por conta da meu semblante de mamão criado por vó, acabei sendo o último da roda a dar o pega. Isso era bom, porque me permitia estudar todos os outros participantes e tentar não fazer qualquer besteira que evidenciasse minha tabacudice e colocasse em risco meu prognóstico de sexo interminável.

O problema é que a natureza comunitária do ritual estabelecia que eu seria o último a botar a boca no baseado, dessa forma compartilhando saliva, pelos, suor e, provavelmente, doenças venéreas com todos os participantes, a maioria dos quais parecia ter passado um tempo considerável morando embaixo de algumas das inúmeras pontes do Recife. O medo de contrair uma espécie de gonorreia bucal não me deteve e segui em frente quando me estenderam o embrulhinho aceso, todo amassado e úmido. Respirei fundo, dei uma última olhada ao redor e coloquei o bagulho na boca. Senti o jantar voltando pela garganta imediatamente. Usando toda a minha força de vontade, engoli de volta a refeição semi-digerida, sem dúvida acrescentando um pouco de inhame com charque à mistura de fluidos corporais acumulados na ponta do cigarro. Respirei fundo e, demonstrando presença de espírito, lembrei de não soltar a fumaça imediatamente. Como eu não sabia que deveria segurar a névoa de cannabis nos pulmões, acabei prendendo a baforada nas bochechas mesmo, liberando-a aos poucos pela boca enquanto os outros participantes me encaravam incrédulos.

- Lá no Janga, onde eu me criei, a maloqueragem faz assim. – declarei, surpreendendo a mim mesmo com minha agilidade mental e firmeza na voz.

Comecei a relaxar um pouco mais e já estava chegando a conclusão de que a coisa, afinal de contas, não era um bicho de sete cabeças.

E foi nesse momento, evidentemente, que as coisas começaram a dar em merda.