segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Detesto ônibus, parte I: despida de sanidade





Detesto ônibus e o sentimento é mútuo. Ciente dessa volátil relação kármica entre mim e meu transporte diário, o universo costuma testar a minha paciência me colocando em situações que jamais deveriam acontecer fora de um filme de David Lynch. Essa semana mesmo eu peguei o coletivo, como faço todos os dias de minha desgraçada vida de pedestre. Me posicionei no solitário assento imediatamente atrás da jaula de vidro que segrega idosos, gestantes e outras minorias do resto do ônibus, mas que garante que essas pessoas sigam seu caminho sentadas e fora da habitual zona de assalto do veículo. Na minha frente, de costas para mim e isolada por uma divisória de vidro, acomodou-se uma senhora de cabelos brancos e olhar distante. Assim que sentou, começou a remexer alguma coisa dentro de sua enorme e desproporcional bolsa. Finalmente encontrando o que queria, ela abriu a janela e, quando o ônibus se deteve na parada, jogou o objeto pela janela. Horrorizado de ver uma idosa arremessando lixo pela janela do coletivo, voltei meu olhar para o item descartado, para saber a que me referir na hora de passar uma descompostura na velha mal-educada. Meus olhos se fixaram em um molambo caído pateticamente na lateral do veículo, próximo ao pneu. O que eu vi vai me acompanhar pelo resto da minha vida.

Era um sutiã.

Ele era velho, grande e inescapavelmente bege. Aquela senhora de aparência serena havia acabado de atirar seu sutiã pela janela do coletivo, quase acertando o para-brisa do carro que tentava ultrapassar o ônibus. Com o cérebro impactado pelo absurdo da situação, fiquei em dúvida se ela havia pescado a peça de sua bolsa ou se havia removido a que ela estava usando naquela hora.



Tipo assim. Só que com uma octogenária. Em um ônibus sacolejante.


Ao lado dela, um senhor trêmulo observava atentamente, talvez excitado com a perspectiva de um strip-tease ao vivo e gratuito, sem dúvida o primeiro depois de muitas décadas de secura geriátrica. Ao atentar para essa possibilidade, minha mão automaticamente agarrou a barra de emergência da janela. Tentando manter a calma, contemporizei que a desapegada senhora ainda não havia, ao menos, jogado fora sua calcinha. Agradeci a Deus pelos pequenos milagres do cotidiano e passei a observar a velha com atenção e uma certa medida de temor, protegido pela barreira de vidro e metal que, eu agora percebia, servia para separar o resto do ônibus daquela área em particular, não o contrário. De repente, a velha jogou mais uma peça de roupa pela janela. E mais outra. Outra. A intervalos regulares, a idosa ia jogando o conteúdo da sua bolsa pela Av. Conselheiro Aguiar, enquanto motoristas atônitos tentavam desviar daquela chuva de brechó. Me perguntei o motivo daquela insanidade. Talvez fosse uma maneira altamente informal de doar suas roupas para as moradoras de rua do Recife que já estivessem na melhor idade. Uma espécie de drive-thru filantrópico. Ou quem sabe ela estivesse criando um caminho de roupas, como as migalhas de João e Maria ou o fio de Teseu, ciente de que o Alzheimer não permitiria que ela lembrasse o caminho de volta para casa. Certamente subiria em um ônibus aleatório quando desejasse retornar e gritaria, triunfante, para o motorista confuso: “Siga aquela calçola! Depois aquela meia! E...bem...aquela cueca também!”.

Imaginei minha avó possuída por uma vontade semelhante à daquela pobre mulher, ensandecidamente jogando suas roupas pela janela do ônibus e viajando pelada, os trancos e solavancos do veículo criando um espetáculo de horror indizível. Apenas o mais básico dos instintos de autopreservação me impediu de encerrar minha atormentada existência esmagando minha cabeça na catraca do ônibus. Ao meu redor, talvez por puro constrangimento, as pessoas pareciam nada perceber, concentradas em pontos invisíveis da geografia urbana recifense enquanto, bem nas suas vistas, uma senhora de idade avançada descarregava o conteúdo do seu guarda-roupa pelas ruas da cidade. A absoluta falta de reação dos passageiros, com exceção do velhinho pervertido, apenas deixava o tom de pesadelo kafkiano da coisa toda ainda mais pronunciado. Seria louca? Ela era, ao menos, lúcida o suficiente para distinguir a parte de não pagantes do resto do ônibus, fazendo valer seu direito de idosa ao mesmo tempo em que abusava da complacência social adquirida com a idade. O mais provável é que ela simplesmente não se importasse mais com a opinião alheia e sentisse que, se as lixeiras da cidade não corriam emparelhadas aos ônibus para receber suas roupas descartadas, então a prefeitura é que devia tomar algum tipo de providência, não ela. Procurei me imaginar ao chegar naquela mesma idade, cerca de 50 anos no futuro, talvez atirando minha coleção de DVDs pela janela de um trem flutuante, enquanto as pessoas lá embaixo eram bombardeadas por anacrônicas amostras de cinema em apenas duas dimensões. Perturbado por aqueles pensamentos, pedi parada e desci, enquanto a despirocada senhora engatava uma animada conversa com o cartaz a sua frente. Saquei meu celular e liguei para a minha avó.

Pedi sua benção e também que ela nunca, jamais, sob hipótese alguma andasse de ônibus no Recife.



domingo, 25 de setembro de 2011

No meu tempo... Parte Final





No recife dos anos 80 e começo de 90, a pior coisa que poderia acontecer com uma criança era ser desmoralizada junto ao resto da meninada. E a forma mais rápida de garantir que seu melhor amigo perdesse sua dignidade, assim como o respeito dos seus pares, possivelmente para todo o sempre, era levando-o ao limite, provocando-o ao ponto em que ele iria partir para a briga, se jogar no canal mais próximo ou entrar em curto, colocando-se em posição fetal enquanto tentava, aos berros, calar as vozes que insistiam que ele deveria matar a própria família vestido de hipopocaré enquanto usava um pogobol como arma. 



Geralmente acompanhado pelo espectro maldito do Palhaço Chocolate.



Em suma, transformar o infeliz em um estilão, um pária desgraçado, incapaz de aguentar uma brincadeira e, portanto, inadequado para se relacionar com o resto da humanidade. A molecada calejada costumava ser dura na queda e não perdia a cabeça por qualquer coisa. Na tentativa de se quebrar o espírito dos coleguinhas, muitas vezes se recorria à arma definitiva, aquela que separava garotinhos mijões de homens de verdade, capazes de sobreviver em uma sociedade composta por cruéis duelos de pipa, injustas rapas de bolas de gude e sensuais jogos de salada mista. Uma bomba psicológica que apenas os mais fortes conseguiam sobreviver. Xingar a mãe.

Enquanto hoje em dia as mães dos amigos são amadas como verdadeiras tias, que mimam os coleguinhas dos filhos com lanches e passeios ao cinema, naquele tempo a coisa era um tanto diferente. As crianças não conheciam limites e faziam todo o possível para escrotizar a progenitora alheia.


- Diz, véi, beleza? Cadê tua mãe, aquela gostosa?

- Tá bem e mandou um recado pra tua mãe. É pra ela deixar de ir lá em casa de madrugada dar pro meu pai. Tá pegando mal já.

- Limpeza, eu aviso a ela. Aproveito e mando ela devolver a calcinha da tua véia, que ela esqueceu lá no meu quarto.

- Era uma fio-dental, marca Cordão Cheiroso? Se foi, é a que eu dei de presente pra tua mãe, aquela véia safada, no dia do aniversário dela. Diz pra ela guardar com carinho e lembrar de mim quando for enfiar ela no rêgo.

- Ei! Não fale do aniversário dela não! Até pra festinha tu foi, puto safado! Ainda ganhou bolo!

- Ôxe. Ganhei bolo e uma amolegada dela lá na cozinha. Visse não? Agora na próxima, manda ela tirar aquela aliança, que tava machucando a minha pomba.

- ...

- E diga pro teu pai, aquele corno manso, dar dinheiro pra tua véia comprar gilete. Matagal da porra, véi.

- ...

- Vai estilar? Vai?? Ahh, estilou! Se Fudeu! Vou dizer pra todo mundo! Eu...péra...larga esse xêxo...deixa de ser estilãAAAAAAAARRRGGGHHH!



"Mamãe disse pra te dar um lanchinho. Lá no porão."



Algumas mães eram tão sacaneadas pelos amigos dos filhos que se tornavam verdadeiras instituições. Lembro de uma, chamada Teresa, que era a mais amada do Colégio Nóbrega, no centro do Recife. Em uma ocasião particularmente apoteótica, dezenas de crianças, meninas inclusas, marcharam espontaneamente pelos corredores da distinta e tradicional instituição de ensino religioso, aos gritos de “TERESA, GOSTOSA!”. Alguns improvisaram instrumentos musicas enquanto outros se dedicavam a coreografias que fariam uma dançarina de forró universitário de hoje em dia ficar corada de vergonha. Eu participava daquela proto-flashmob, observando os olhos marejados de lágrimas do filho de Teresa, cujo nome eu não conseguiria lembrar nem para salvar a minha vida, ao mesmo tempo em que agradecia a Deus e a todos os santos por nunca terem descoberto o nome da minha mãe.

Pelo menos não naquela escola.



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

No meu tempo... Parte III






Na minha infância, a violência era mais do que gratuita. Era encorajada e distribuída na base do bamburim. Em alguns casos, literalmente, como quando aconteciam as comemorações de Cosme e Damião. Os santos gêmeos da igreja católica têm uma relação especial com as crianças e no seu dia distribuem doces para a meninada. Espécie de Halloween nacional, fazia com que hordas de moleques sujos e mal-educados formassem bandos unidos por uma frouxa lealdade e um desejo por confeitos baratos que beirava a psicose. Esses grupos saíam pelas ruas da região metropolitana do Recife, principalmente nos bairros mais periféricos, indo de porta em porta a procura dos doces.

Ai de quem não desse. Muitos vizinhos, desesperados, preferiam simplesmente jogar as balas por cima do muro, enquanto vigiavam as entradas das casas de panela em punho. Quando isso acontecia, todo o sentimento de união era imediatamente destruído e a pirralhada se engalfinhava como os animais que eram, enquanto dentro das casas, cachorros especialmente treinados para buscar a garganta de qualquer ser com menos de 1,30 de altura espumavam em antecipação, caso algum invasor tentasse se aproveitar da confusão ir direto à fonte dos bombons. Mais de um anão inocente perdeu sua vida para estas feras durante as comemorações de Cosme e Damião, tentando entregar uma carta ou um garrafão de água.



"...totó?"



Mas a verdade é que, quando a criançada precisava extravasar sua violência, qualquer desculpa servia. Prova disso era a brincadeira do babau, cujas regras simples, porém altamente respeitadas, mostravam que ninguém estava seguro, desde que não houvesse nenhum adulto por perto. Basicamente, bastava que alguém falasse alguma besteira proscrita pelo bando, ao que uma das crianças incitava as outras a encher de tabefe a cabeça do pobre coitado que tentou ser engraçado, mas que falhou miseravelmente. Se a vítima tentasse fugir, em vez de enfrentar seu destino como um homem, algumas rasteiras e voadoras eram permitidas, só para lembrar a todos como é que o mundo funcionava.


- Bora começar! Eu sou He-Man, pedi primeiro!

- Eu sou Mentor!

- Aríete!

- Stratos!

- GORPO!

- ...

- ...

- ...

-...é o quê, doido? Gorpo? Gorpo?!

- É, eu acho massa, ele voa...

- Massa um caralho! Porra de Gorpo! TU É FRANGO É?

- Mas Gorpo tinha namorada! O nome dela era Driele e...

- Aquilo era um traveco! E Gorpo é gay, todo mundo sabe disso!

- Mas...

- Só tem um jeito de resolver essa parada. Galera, diz aí, o que é que tem na vaca?

- LEITE!

- Não! Isso não! Por fav...

- O que é que tem no leite??

- NESCAU!!

- Nãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonão...

- O que é que ele merece??

- BABAU!




"Não, não parem de bater...eu gosto de assistir..."



E aí o cacete comia, até que a mãe do infeliz chegasse ou as convulsões iniciassem, o que acontecesse primeiro. O menino brutalizado, uma vez recuperado, passava o resto da sua infância buscando descontar o babau levado, tornando-se mais uma peça da sangrenta engrenagem que moía crianças e cuspia homens feitos, cientes da única verdade irrefutável desse universo.

A vida é sofrimento.



Continua...



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

No meu tempo... Parte II






De fato, as crianças locais possuíam um profundo, ainda que horrivelmente deturpado, senso de honra. Duvidar da palavra empenhada era praticamente um convite a uma pisa bem dada. Se o amiguinho jurava de pé junto que não apenas encontrou com o espírito da Galega do Banheiro, como também convenceu a entidade a mostrar sua calcinha, o melhor que se tinha a fazer era acreditar, ou ao menos tentar ser um mentiroso razoável. Ocasionalmente, uma das crianças, movida por ousadia sobrenatural ou simplesmente um intenso desejo de autodestruição, acabava por duvidar do colega. Na frente da turma toda.

- Oxe. Mentira do carai doido!

Tensão. As outras crianças, farejando a futura matança no ar, se aglomeram como aves de rapina.

- É o quê, doido?! Tá duvidando de mim?

O outro garoto hesita. Olha ao redor, os rostos dos companheiros ávidos por sangue. Tarde demais para voltar atrás.

- Duvido sim!

O colega, ferido em seu orgulho de mentiroso, parece prestes a ter uma síncope. Seu corpo treme, as unhas se enterram em seus punhos cerrados. Tudo que é necessário para liberar de vez essa fúria assassina é o estímulo apropriado.

- E digo mais. DUVIDEODÓ!

 Os garotos se atracam selvagemente, para o deleite da criançada, sempre gritando frases de encorajamento e sugestões úteis para a situação.

- Chuta os ovo, doido!

- Dá-lhe na caixa dos peito, pro catarro sair!

- Vai no nariz, que o frango chora!

- TIRA MEL!

Tirar mel dos amigos (ou dos temporariamente inimigos) era a maior humilhação que podia ser imposta a outro ser humano. Em uma brincadeira normal, era indigno. Numa briga, era o equivalente a finalizar o adversário em uma luta de Vale-Tudo, só que a desonra era bem maior, além de duradoura. Consistia, basicamente, de passar os dedos indicador e médio pela racha a bunda do amigo, gritando alucinadamente “Tirei o mel!”, enquanto a outra criança, ridicularizada, corria para casa e pedia aos pais para se mudarem para outro estado. Não é raro, no Recife, velhos colegas de escola, já homens feitos, se encontrarem por acaso e relembrarem os bons tempos de escola.

- Afrânio! Fala, velho, tudo limpeza?

- Opa, Marcondes...tudo tranquilo...olha, tenho que ir nes...

- Afrânio, peraí, bora relembrar os velhos tempos!

- Eu acho melhor n...

- Tá ligado aquele recreio que tu levou um cacete de Romildo? Lembra?

- É, Marcondes...lembro sim...

- E tu lembra como terminou a briga?

- Marcondes, eu não quero pensar nis...

- Ele tirou teu mel! TIROU TEU MEL!

- ...

- TABACUDO, TABAREL, VIRA O CU QUE EU TIRO MEL! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! Lembra? Ah, muito bom, viu...

- ...

 - A gente cantava isso pra tu todo recreio, a turma toda, até o vestibular...pense na arriação que...pera...pra que essa faca? Afrânio, pelamordedeus, não faça nenhuma loucura! AFRÂNIO! NÃÃÃÃRRRRRGGGHHHHH!


Algumas feridas demoram mais a cicatrizar do que outras.



Continua...

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

No meu tempo... Parte I





No meu tempo de criança não tinha frescura. Ao contrário dos meninos superprotegidos de hoje, que não empinam pipa nem no ventilador porque em casa tem ar-condicionado central, a gente ia pro meio da rua, se jogando no meio da lama e desafiava a criatividade divina a manufaturar novas e poderosas doenças que nos fizessem sossegar o facho em casa. Quem não criava ao menos um bicho-de-pé, com nome e sobrenome, era ostracizado pelas outras crianças, inclusive as meninas, e conheço gente que pegou cobreiro até nas costas, de tanto se sarrabulhar no lodo feito porco. Nas matas do Janga, que não eram virgens porque mesmo naquela época isso já era difícil de encontrar, eu brinquei de tudo que era jogo e brincadeira não eletrônica concebível.

Polícia e Ladrão era uma das favoritas, com a criançada geralmente preferindo ficar do lado errado da lei, já prenunciando o estilo de vida que muitos adotariam quando adultos. Eu, particularmente, não curtia muito brincar de esconde-esconde. A molecada sem limite costumava se embrenhar nos terrenos baldios da região, habitados por mosquitos da dengue, cachorros raivosos, traficantes de drogas e um sem número de bolas de futebol. Aliás, esse não era o único jogo que envolvia uma pelota. Também brincávamos de quadrado, vôlei sem rede, basquete sem cesta, sete cortes, queimado e doidinho, no caso eu, sempre. Também rolavam todas as variações possíveis da brincadeira de Pega, como a Pega Macaco, por exemplo. Nesta versão, só estava imune quem se pendurasse em algum lugar, o que fazia com que o Pega aguardasse, paciente e sadicamente, que as crianças se cansassem da incômoda posição e se espatifassem no chão. Pega Congelou dava a oportunidade de exercitar um pouco de trabalho em equipe, com as crianças salvando umas as outras do congelamento ao tocá-las, geralmente com um indigno tapa na bunda. A grandiloquente e altamente complexa Pega Congelou Americano determinava que os congelados só poderiam readquirir seus movimentos caso as crianças livres conseguissem passar por entre suas pernas. A ânsia de resgatar os companheiros costumava afetar a percepção espacial da molecada, que acabava por acertar cabeçadas violentas e, algumas vezes, intencionais no saco dos amigos, que depois de libertos mal conseguiam se arrastar e findavam sendo congelados novamente, as mãos enfiadas entre as pernas finas.

Quando a ânsia destrutiva infantil se tornava incontrolável, havia diversas formas de extravasar a energia assassina acumulada. A brincadeira de chulipa era uma delas, com as crianças acertando os antebraços umas das outras com golpes destruidores usando apenas dois dedos. Só quem já levou uma chulipa sustenta conhece a dor que se espalhava do braço ao coração, acompanhada da marca vermelha que permanecia no local por no mínimo uma semana. Se na UFC permitissem chulipas, as lutas seriam muito mais curtas. A meninada tinha ainda sua própria versão da infame roleta russa, a temida brincadeira do cuscuz, geralmente praticado em horário letivo. Malignamente simples, requeria apenas um pouco de areia, um graveto e nervos de aço. O cuscuz, que era o montinho de terra, tinha seu cume fincado pelo pedacinho de madeira, enquanto os participantes se alternavam em retirar pequenas quantidades do bolo. Quem derrubasse o palito era perseguido como um cão e barbarizado pelos amigos, que não poupavam a mão na hora de baixar o cacete. A tensão pulsante só era interrompida por duas coisas: a campainha que anunciava o fim do recreio ou um chute bem dado no cuscuz, destruindo a brincadeira e despertando o demônio oculto no espírito de todas as crianças que participavam e até das que estavam apenas olhando. Geralmente, quem fazia isso era um gordinho. Geralmente um cacete, sempre era um gordinho, que saía correndo com uma velocidade jamais exibida durante as aulas de Educação Física em direção à sala de aula, nos segundos finais do intervalo. 



"Huhuhuhuhuhuhuhuh!"



Possuídas, as crianças partiam em perseguição, berrando pelos corredores abarrotados da escola:

- PEGA O GORDO FELADAPUTA, PEGA!

Em noventa e nove por cento das ocasiões, o gordinho inexplicavelmente escapava, entrando na sala logo antes da professora. Com a aula iniciada, tudo o que restava aos meninos prejudicados era ameaçar, em voz baixa, a integridade física do colega e imaginar formas criativas de espanca-lo. O gordo, escroto que só ele mesmo, apenas ria, ciente de que sua gordice boa-praça faria os amigos esquecer o incidente no dia seguinte, quando o ciclo se reiniciaria. No Recife, quem nunca passou pela brincadeira do cuscuz (e sobreviveu) é considerado uma espécie de meio-homem, um eterno virgem que jamais terá o respeito dos seus pares, sendo estigmatizado pela sociedade adulta pelo resto de sua vida.


Continua...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Dentista, parte II







O ser humano é a única espécie do planeta que tenta, de forma consciente e constante, se melhorar. E essa busca pela perfeição começa bem cedo, com os pais obrigando os filhos a realizarem inúmeras atividades supostamente benéficas, como natação, balé, karatê e manufatura de sapatos de marcas famosas. É tudo uma questão de cultura. Quando atividade física extenuante não dá conta, a medicina surge com intervenções que visam corrigir aquelas imperfeições com as quais a maioria de nós nascemos, mas poucos conseguem conviver em harmonia. Um dos procedimentos mais comuns e traumatizantes que uma criança costuma passar é ter que usar aparelhos ortodônticos. O principio da coisa é simples e brutal: busca-se reposicionar os dentes de um ser humano enquanto eles ainda estão enraizados em suas gengivas, utilizando uma série de instrumentos cujo único propósito é remodelar as arcadas dentárias que nos foram dadas por Deus e, dessa forma, afrontar toda a Sua obra.

E assim foi que, quando eu já havia perdido os meus dentes de leite e os permanentes começavam a nascer, meus pais perceberam algo estranho. Algo...não natural no meu sorriso. Com o passar do tempo, ficou evidente que alguma coisa terrivelmente errada estava se passando dentro da minha boca. Assustados, meus pais fizeram o que qualquer pai preocupado faria: acionaram os serviços de um padre que, após me inspecionar cuidadosamente, recomendou um ortodontista de reputação ilibada e preços populares. Ao chegarmos no consultório, fui encaminhado para a sala de Raio-X, onde permaneci imóvel pro vários minutos enquanto o técnico, sensato, se escondia atrás de uma placa de chumbo. Estávamos na sala do dentista quando chegaram os resultados. Incrédulo, o doutor mostrou os exames para a minha mãe, que arregalou os olhos e proferiu, com sua delicadeza habitual:

- Mas meu filho...é um macaco escritinho.

O dentista chamou minha mãe de lado e ambos confabularam em sussurros preocupados. Pode ter sido apenas minha imaginação, mas tenho quase certeza de ter escutado as palavras “aberração”, “impossível” e “eutanásia” no meio da conversa. No final, minha mãe deve ter convencido o doutor de que a ciência da Ortodontia tinha muito a aprender tentando consertar meu sorriso antes que ela fosse obrigada a me entregar ao zoológico da cidade. E foi assim que comecei a usar aparelhos. No plural mesmo. Aparentemente, minha condição só podia ser corrigida através da ação conjunta de todos os artifícios dentários criados pelo homem, além de outros que eram certamente proibidos pelas leis de países mais civilizados do que o Brasil. Inicialmente, me recusei a ser a cobaia daqueles experimentos. Por fim, em busca de aprovação materna e de uma aparência razoavelmente humana, concordei com o tratamento. O medo de ser sequestrado por algum circo itinerante também pesou da decisão.

Me fizeram usar peças metálicas coladas aos dentes, que cortavam meus lábios e minha língua, além de um aparelho removível, junto ao céu da boca, que na época achei bastante semelhante à dentadura da minha avó, só que sem os dentes. Uma espécie de chapa banguela, o que apenas a tornava mais sinistra sua aparência aracnídea. Além desses dois, precisava utilizar pequenas ligas de borracha conectando as mandíbulas, que forçavam minha dentição a se manter dentro da minha boca e não assustar os vizinhos. Não satisfeito, o doutor achou por bem me brindar com um aparelho extra oral, um tipo de para-choque metálico que sai da boca e se fixa na nuca do condenado. Eu precisava usar todos esses dispositivos ao mesmo tempo, durante o dia e mesmo na escola. Como os professores, por algum motivo, não permitiam que eu vestisse um saco de estopa na cabeça, precisei aprender a lidar com minha infeliz situação. E quando falo “aprender a lidar”, na verdade quero dizer “me segregar em locais obscuros da escola junto com os outros anormais”. Em termos de esquisitice, eu só perdia para o pobre coitado que usava colar correcional no pescoço e a menina albina. Havia um garoto anão que costumava andar conosco, mas ele logo percebeu que estávamos queimando o filme dele e nunca mais apareceu. Soube depois que teve uma grande carreira profissional em um dos postos de gasolina da cidade.



Ninguém era páreo para sua elegância.



Apertar o aparelho doía tanto que a única opção de alimentação era intravenosa, por semanas a fio. Os dentes ficavam bambos ao ponto de me fazer perder a paciência e tentar corrigi-los usando as mãos mesmo. Afitas eram uma constante e não havia escovação que fizesse com que todos os fragmentos das refeições se desprendessem da teia metálica que era o meu sorriso. Chegava na sexta sentindo o gosto do almoço da segunda. Durante a semana, sofria o bullying das outras crianças quando a expressão ainda não havia se popularizado, mas suas consequências já eram bastante palpáveis. Minha única distração durante os recreios solitários era assustar as crianças das séries mais baixas. O cimento do aparelho fixo deixava as partes visíveis dos dentes amareladas e as pessoas na rua já começavam a pedir cigarro quando eu sorria. Finalmente, depois de anos de dor e isolamento, chegou o momento de retirar todos os mecanismos que lotavam a minha boca. Depois do procedimento, a primeira coisa que eu percebi é que agora havia tanto espaço na minha cavidade bucal que minha língua ficava um tanto perdida, como se tivesse vivido por anos em uma quitinete e agora houvesse se mudado para um duplex com salão de festas. O dentista não escondeu a surpresa com o resultado, duvidando menos de sua própria capacidade do que das minhas chances de exibir um sorriso que não fosse encarado como um prenúncio do apocalipse. Minha mãe já não mandava eu me esconder no quarto de empregadas quando tinha visita em casa e o futuro se avizinhava brilhante. No final, tudo acabaria bem. Não fosse pelos meus dentes sisos que surgiram logo que terminei o tratamento odontológico e reverteram todo o processo de correção.

Hoje, quando me pedem para sorrir, mando logo tomar no cu.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Dentista, parte I





Nunca gostei de ir ao dentista. A odontologia é umas das últimas especialidades da Saúde que continua contando com métodos e equipamentos simplesmente medievais. Precisa arrancar um dente, amigão? Não tem laser que vá fazer isso de uma forma indolor ou que não envolva você cuspindo uma quantidade assustadora de sangue como se fosse um boxeador em fim de carreira. Pediatras basicamente aprendem a manejar inofensivos estetoscópios e Dermatologistas não necessitam de mais do que traquejo com algumas pomadas ou, no máximo, um elegante bisturi elétrico para remoção de verrugas anais. Por Deus, até mesmo um Proctologista precisa apenas de uma luva resistente, um pouco de vaselina e pacientes compreensivos para poder realizar seu trabalho.



"Dr., o senhor pode...pode ao menos tirar esse anel...?"


Dentistas se armam, literalmente, com arsenais compostos de brocas cujo som é capaz de fazer os testículos de um homem sadio se recolherem institivamente no seu abdômen, ganchos cujo único propósito é fazer os pacientes borrarem as calças ante a sua visão horrenda, pinças capazes de extrair um dente ainda que a raiz dele esteja fincada na sua alma e lixas motorizadas que não pareceriam deslocadas no armário de um serial killer. E enquanto você está preso na poltrona do terror, cego por uma luz alienígena e lutando contra o instinto de se jogar pela janela ao ouvir o som da perfuratriz em miniatura, o dentista, sádico, ainda conta piada. Nada melhor do que ouvir a última do papagaio enquanto se engasga com o próprio sangue. E quem é maluco de não achar graça da piada de uma pessoa que tem uma agulha da grossura do seu dedo mindinho apontada para os nervos expostos do seu molar?



"GAAAAAAAAAHHHHHHH!"



Tenho medo de Dentistas. Não tenho vergonha de falar, só mantenho a voz baixa com medo de um deles ouvir e vir tomar satisfações munido de um boticão. Além disso, como uma espécie de Pokemons saídos do inferno, os Dentistas também possuem sua própria e terrível evolução: o Ortodontista. Um profissional que, não satisfeito em nos causar inenarrável dor física e angústia mental, ainda rouba nossa dignidade através de tratamentos humilhantes e, como qualquer paciente pode testemunhar, infindáveis. Apenas aqueles que sofreram nas mãos dessa entidade maléfica podem compreender os traumas indizíveis que deixam cicatrizes indeléveis nas gengivas e nos espíritos de milhares de pessoas mundo afora.

E eu, claro, sou uma delas.



Continua...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Vovó e a chuva





Uma das maiores características dos idosos é o apego aos hábitos. O que para os mais jovens pode parecer teimosia senil, para os velhinhos é apenas uma maneira de se ancorar mais firmemente em uma existência que muda mais rapidamente do que eles conseguem acompanhar com suas bengalas. E por estarem cada vez mais perto do último jogo de dominó de suas vidas, nada mais natural do que cultivar e persistir em cuidados supostamente saudáveis, mas que não possuem o menor fundamento científico. A minha avó, por exemplo, morre de medo de chuva. Para ela, qualquer precipitação é um prenúncio do juízo final, onde o combate final da humanidade será travado contra as doenças que, aparentemente, permanecem incubadas em nuvens de tempestade, aguardando pacientemente o momento certo de despejar sua carga mortífera sobre os despreparados transeuntes, sem diferenciar os ímpios dos seus netos. Para vovó, as dez pragas do Egito foram um verdadeiro mamão com açúcar. Afinal, no deserto não chove. No final das contas, todos os problemas possíveis e, principalmente, os imagináveis, acabavam sendo atribuídos à chuva, verdadeiro vetor do Armagedom. Gripe? Chuva. Alergia? Chuva. Dor de cabeça? Chuva. Fratura exposta? Chuva. Câncer no reto? Chuva. Queda da Bovespa? Chuva. Apocalipse zumbi? Tente adivinhar. 



"Vó, tem vitamina C?"



No raciocínio de vovó, as chances de se sobreviver a uma chuvarada são mais ou menos proporcionais à possibilidade de se dar bem nessa vida sem ser médico, advogado ou engenheiro. Quando vou passar o final de semana com ela e sou pego pela rápida e inofensiva garoa do verão recifense, costumo surpreendê-la em seu quarto, já separando suas roupas pretas.


- Meu filho, veio correndo? Tá todo suado, meu Deus...

- Não, vó, isso é chuva mesmo.

Os olhos da minha avó são tomados por um terror ancestral. Ela me encara como se houvesse um cadáver em avançado estado de decomposição na sua frente.

- Chuva? Minha nossa senhora!

- Que foi?

- Deixe eu ligar logo pra sua tia, que é médica.

- Oxe! Só por causa de uma chuvinha nas costas?

- Um macho vinha nas costas? E você acha pouco? Vou ligar pro padre também! Que desgosto, meu neto, com esses vícios...não foi assim que eu te criei! - Indignou-se minha avó, cuja audição já não era mais como antigamente.

- Não foi a senhora que me criou, foram os meus pais!

- Está explicado então.  – sentenciou a matriarca, dando o assunto por encerrado e a discussão como vencida.

- Vó! Eu não sou gay! E nem vou morrer por causa de uma chuva! Eu...vó, para de me olhar assim, já disse que eu não sou gay!

- Não vou arriscar. Fique aí que sua tia já chega. Aliás, além do padre, vou chamar um pastor e um pai de santo pra ver se dão jeito nesse seu outro...problema. No desespero, é melhor ser ecumênico. – resignou-se a anciã, católica fervorosa.

- Mas vov...

- Calado. Aqui quem manda sou eu. Vá para o quarto, tome remédio, reze dez pais-nossos e não se atreva a vestir as roupas das suas primas.

- ...

- Já já eu chego com sua vitamina de abacate.


Só para garantir, tive que dormir isolado no quarto de empregada. Quarentena da vovó.


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O futuro

Não é todo dia que a gente encontra o reflexo do próprio futuro.







Esse é um desses dias. E, seu Fernando, um abraço para o senhor!

Um dia, eu chego lá.






quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Histórias que os homens contam, parte IV ou A triste história de Ataulfo






Ataulfo era um rapaz normal, saudável, bem apessoado, estudioso e possuía apenas dois vícios: videogame e mulheres. Sim, Ataulfo não era uma pessoa original, mas nem por isso menos feliz. No início dos anos 2000, a febre no Recife eram os cybercafés que se espalhavam pela cidade como vírus eletrônicos, com jogadores de todas as idades se agrupando em clãs que se digladiavam virtualmente em espetáculos repletos de violência, morte e pizza barata. Uma dessas casas era, inacreditavelmente, frequentada por um limitadíssimo e altamente específico público feminino, sempre nas madrugadas, horário em que as meninas, entre um cliente e outro, apareciam para relaxar das agruras da lida diária, ou melhor, noturna. Ataulfo, que já era velho demais para ter hora de ir para a cama, porém muito jovem para ter alguma responsabilidade concreta naquela altura da sua vida, era assíduo dessas noitadas, em uma época em que ver uma garota, independente de sua linha de trabalho, estraçalhando seus amigos no Counter Strike era o equivalente a comparecer ao folclórico enterro de anão, só que todas as noites. Empreendedor, Ataulfo tomou coragem e propôs, junto ao proprietário da Lan House, uma pequena festa com as coleguinhas. Um diminuto e seleto grupo de sócios foi formado e a tertúlia marcada para a madrugada seguinte, quando a casa, excepcionalmente, fecharia suas portas para uma “manutenção preventiva”.



"Qual de vocês é o técnico de rede...?"



Já antevendo as indizíveis aventuras sexuais que faria parte naquele dia, Ataulfo decidiu não fazer feio e adquiriu um produto próprio para o afobados e aqueles que desejam fazer seu desempenho render por períodos de tempo não naturais: um espécie de anestésico em aerossol, com o objetivo de diminuir a sensibilidade do homem e aumentar, digamos, seu tempo de vida útil durante o ato. Na noite marcada, lá estava Ataulfo ao lado dos seus amigos, partidas de Unreal Tournament entremeadas por desinibidas demonstrações de afeto por parte das meninas da noite. Quando sentiu que a celebração se aproximava do seu ápice, Ataulfo correu para o banheiro levando sua arma secreta. Um tanto nervoso, leu as instruções do produto, ansioso para retornar à festa. O rótulo afirmava que a aplicação era local e que duas doses do spray bastariam para atingir os resultados anunciados.

Ataulfo aplicou 27 vezes.

Na ânsia de entrar para a história das Lan Parties recifenses como um verdadeiro maratonista sexual, Ataulfo exagerou na dosagem. Tanto que, quando o anestésico fez efeito, perdeu não apenas a sensibilidade de sua bilola, mas também de toda a região da virilha e de boa parte de ambas as pernas. Se arrastando pateticamente para fora do banheiro, conseguiu, com muito esforço, se posicionar de forma mais ou menos digna sobre uma poltrona. Por mais que se concentrasse, simplesmente não conseguia comunicação alguma com sua pitoca, que estava, literalmente, dormindo em serviço. Uma das garotas se aproximou de Ataulfo, que engoliu em seco e, pela primeira vez me sua vida, desejou com todas as forças estar a quilômetros de distância de qualquer mulher.

- Ataulfo, é hoje...vai, mostra quem é que manda nesse jogo...

O pobre rapaz se esforçou até sentir lágrimas escapando dos olhos. Desesperado, encarava raivosamente a própria região pélvica, esperando desenvolver subitamente alguma disciplina Jedi que o fizesse levantar, com a força da mente, aquele amontoado de carne morta. Nada. Frustrada, a garota perdeu a paciência e resolveu partir para a ignorância.



"Braguilha de botão? Quem diabos usa braguilha de botão?!"



- Ataulfo, deixa da tua frescura! Tá todo mundo pelado aqui. Tira essa calça agora, vai!

- Não! Pelo amor de Deus, não!

A menina arrancou, com a maestria que a profissão exige, as calças amarrotadas de Ataulfo. Ao ver aquela protuberância mole apontando tristemente para o chão, a moça virou-se para os outros participantes da festa e sentenciou a plenos pulmões:

- ATAULFO É UM RÔLA DE BORRACHA!

Quando, depois de três dias de angústia e pensamentos suicidas, ele finalmente sentiu uma tímida ereção acarretada pela tradicional, embora largamente subaproveitada, tesão da mijada matinal, Ataulfo chorou. Já o apelido, Rôla de Borracha, pegou na mesma hora e o acompanharia pelo resto de sua vida amargurada.

Essa história, ninguém o deixaria esquecer.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Histórias que os homens contam, parte III




Existe apenas um aspecto de sua vida sexual no qual o homem se sente mais ou menos livre para aumentar ou, dependendo da ingenuidade da sua plateia, criar histórias tão fantásticas quanto absurdas: sua performance na cama. Evidentemente, a veracidade do boato pode ser confirmada junto à companheira (ou ao companheiro) de aventuras do historiador em questão, mas as pessoas raramente chegam ao ponto de interrogar os participantes dessas singelas ficções eróticas. Preferem, ao menos no caso do público masculino, elaborar situações ainda mais estapafúrdias, perdendo por completo o senso de ridículo simplesmente com o intuito de contar vantagem e angariar um módico de respeito junto aos seus pares. É relativamente comum entreouvir, em uma mesa cheia de machos, afirmações desse porte:

- Vocês tão é por fora! Peguei a doida ontem, levei pro motel, dei três seguidas e só não rolou mais uma porque o tempo acabou!

Os companheiros ao redor meneiam suas cabeças com gravidade e aprovação.

- Isso não é nada! Arrastei a nêga lá pra casa ontem, meti a noite toda e ela ainda gozou dezessete vezes! Dezessete! Fora os múltiplos!

Boquiabertos, os amigos saúdam o narrador. Uns ensaiam palmas circunspectas, outros erguem uma das sobrancelhas questionando a veracidade do relato.

- Bando de incompetentes! Arriei a madeira em três só ontem! Ao mesmo tempo! Não me perguntem como, mas eu consegui! E elas todas se pegaram loucamente na minha frente! Bem na minha frente!

- Bem, isso realmente é impress...

- E eu já contei que eram todas da mesma família? Sim! Filha, mãe e avó! Avó! HAHAHAHAHAHAHA! Quero ver alguém superar essa! Ah, dona Teresa, que saudade daquele pão de ló, viu...

Trêmulos, os demais convivas se levantam da mesa, alguns tropeçando de pura indignação. Aproveitam-se do estado semi-catatônico do último contador de histórias, perdido em recordações de dona Teresa e seus dotes erótico-culinários, para escapar de mansinho, ao mesmo tempo em que pedem a Deus e a todos os santos que nada daquilo seja verdade.

Eu mesmo já havia presenciado um desses trovadores sexuais em ação. Alguns anos atrás, um aluno meu confidenciou-me, sem o menor estímulo da minha parte, suas aventuras do último final de semana. Depois de discorrer por minutos acerca dos invejáveis dotes físicos de sua companheira, lançou a bomba:

- E nesse dia, teacher, foram nove. Juro pela fé de Abraão.

Aquela revelação fez meu queixo cair e minhas nádegas se contraírem de terror. Por puro instinto de autopreservação, detectei o local da parede onde se encontrava a viga de sustentação, feita de aço sólido. Lá, aterrorizado com a perspectiva de ser atacado por aquele selvagem e passar a fazer parte de suas estatísticas desumanas, encostei meus glúteos tensos e refleti sobre o que poderia haver de verdade naquela história. Os homens, convenhamos, funcionam de um jeito diferente das mulheres. O orgasmo é capaz de exaurir tanto eles quanto elas, mas o macho, ao menos quando originário do planeta Terra, precisa de algum tempo para se recompor. E tem seus limites. Chega uma hora em que nada mais fica de pé, por mais que se estimule. Se bem que é difícil imaginar uma mulher que já não esteja satisfeita lá pela terceira ou quarta, a não ser que as primeiras tenham sido muito mal dadas. Coisa que, infelizmente para todos os envolvidos, acontece com bastante frequência. É por isso que alguns homens, ansiosos em levar suas companheiras à plenitude do prazer, chegam a extremos que, no pior dos casos, pode deixar suas vidas em risco e no melhor, fere de morte sua dignidade. 

A história que será contada no próximo post ocorreu com um rapaz que, por motivos legais, será chamado aqui de Ataulfo.