segunda-feira, 24 de outubro de 2011

As recifenses, parte 2: só na conversinha





Todo mundo sabe que as mulheres falam em um dialeto próprio, cheio de significados ocultos, frases de duplo sentido e armadilhas semânticas nas quais até os homens mais experientes estão passíveis de cair. Mas quando falamos das recifenses, a coisa assume proporções assustadoras. A mulher da capital pernambucana possui o poder de confundir os homens e transformá-los em tabacudos incontroláveis. A sua mente femininamente malévola é capaz de engendrar os diálogos mais obtusos, fazendo com que os homens percam não apenas a paciência, mas também a sanidade e a esperança de um amanhã melhor. Ao conversar com uma dessas amazonas tropicais, o homem já começa o diálogo derrotado e tudo o que pode fazer é tentar, ao menos, compreender o que diabos está se passando ali. Não é fácil. Djavan, que sem dúvida sobreviveu a alguns diálogos com as mulheres do Recife, sabe bem como é. Em um raro momento de coerência lírica, ele descreveu exatamente o que acontece todas as vezes em que um homem tenta estabelecer contato com a fêmea local.


Eu levo a sério, mas você disfarça
Você me diz à beça e eu nessa de horror
E me remete ao frio que vem lá do sul
Insiste em zero a zero e eu quero um a um
Sei lá o que te dá que não quer meu calor
São Jorge por favor me empresta o dragão
Mais fácil aprender japonês em braile
Do que você decidir se dá ou não


O que nos leva a um dos fenômenos mais comuns da relação homem/mulher na capital de Pernambuco. A enrolação. Claro, ninguém supõe que a mulher, ainda que esteja doida pelo cara, vá se jogar no colo dele enquanto arranca a própria calcinha com uma das mãos e com a outra vá fazendo sinal para o táxi mais próximo. Acreditem, já sugeri esse tipo de estratégia e minha noite sempre terminou na delegacia. Ao menos lá eu sempre arrumava companhia. Várias companhias. Companhias brutas, que não aceitavam um “não, pelo amor de Deus, lá não!” como resposta. Mas eu divago. Enfim, ninguém espera esse comportamento. Mas o jogo duro local é algo lendário e a recifense quase sempre sente que, caso o homem não termine a noite lambendo o salto do seu sapato, ele não se esforçou o suficiente e, portanto, não passa de um pobre coitado morto nas calças cordão molhado que mija no pé. Daí que surgem os diálogos típicos da balada do Recife.


Mulher recifense 1: Ai, meu Deus, ele tá me olhando! Ele tá me olhando!

Mulher recifense 2: Calma! Não fique nervosa! Tudo bem, ele parece uma mistura de Gianechinni com Johnny Depp, mas mantenha a calma! Jesus, Maria e José, um homem desses lá em casa...

Mulher recifense 1: E o sorriso? Parece ser uma simpatia ele, ai que sonho...

Mulher recifense 2: Eita! Lá vem ele! Vai falar contigo! Postura amiga, postura!

Homem perfeito: Oi, boa noite, tudo bem?

Mulher recifense 1: E então.

Mulher recifense 2: Tudo indo.

Homem perfeito: Ah, que...bom. Então. Eu sou novo aqui na cidade, não conheço ninguém.

Mulher recifense 1: Sei.

Mulher recifense 2: Que cu, heim?

Homem perfeito: É...pois é. Será que...será que vocês se importavam de eu sentar aqui na mesa com vocês?

Mulher recifense 1: Tá me achando com cara de puta?

Homem perfeito: ...oi?

Mulher recifense 2: Tá pensando o que da minha amiga? Que ela é rapariga? É? É?!

Homem perfeito: Não! De jeito nenhum! Eu só queria...eu...eu nem sei o que significa essa palavra! Mas eu não tava pensando isso não! Só queria conhecer vocês melhor e...

Mulher recifense 1: Ah, aí pensou que só era chegar chegando e tava tudo certo, né?

Mulher recifense 2: Que era só ser bonito, simpático e educado e já ia dar uns pegas na minha amiga, né? Amiga, deixa eu ver aqui a tua testa rapidinho. Não, não tá escrito “VEM QUE EU TÔ FACINHA” não. Só ele que leu isso mesmo.

Homem perfeito: Mas eu...eu nem...

Mulher recifense 1: Vem de fora e pensa que vai passar o rodo aqui, né? Cabra safado! Ah, se eu ainda andasse armada...

Mulher recifense 2: Aposto que tem pau pequeno. Repara só. Tem pauzinho, né? Por isso anda de carrão importado, tinha que compensar alguma coisa.

Homem perfeito: ...

Mulher recifense 1: Olha a carinha dele. Vai chorar, é? É mulherzinha, é?

Mulher recifense 2: Isso, sai correndo! É o melhor que tu faz! Seu bosta!

Mulher recifense 1: Ai amiga...ele foi embora mesmo!

Mulher recifense 2: Já desistiu? Por isso que não tenho paciência com homem de fora.

Mulher recifense 1: E olha que eu facilitei, heim?

Mulher recifense 2: Demais. Tava ficando feio já, amiga. E outra. No mínimo, ele era frango. Relaxa.

Mulher recifense 1: Ai, ai...mas era um gato, viu?

Mulher recifense 2: Ô lá em casa...


Pois é. Não é fácil. Mas pode ficar pior.

Bem pior.




quarta-feira, 19 de outubro de 2011

As recifenses







As recifenses são as mulheres mais difíceis do mundo. E sabem disso. Por Deus, elas gostam disso. É uma fama construída e espontaneamente viralizada pelos traumatizados homens da capital pernambucana. Além, claro, dos pobres coitados que, turistando pelos lados de cá, acabam quebrando a cara e o espírito contra a impávida muralha de negativas da fêmea local. Exemplos dessas tristes derrocadas são frequentes e comuns. Quase sempre, trata-se de algum ingênuo segurando uma simpática, embora autodestrutiva, placa com os dizeres “Me beije, sou carioca”. E isso durante o carnaval, período de maior descontração, liberdades e libertinagens, festa da carne e tudo mais. O escárnio com o qual esta abordagem pouco criativa, porém honesta, é recebido pela recifense é de fazer o coração doer. O homem do Recife já não alimenta muitas esperanças de contato mais íntimo com o sexo oposto, observando com uma simpatia desapaixonada os esforços frustrados dos visitantes. Há quem diga que a crescente população homossexual da cidade tem raízes nessa questão, mas é exagero. Ainda existem aqueles guerreiros que, movidos por instinto ancestral ou puro desespero de causa, ainda vão à luta, dispostos a defender sua honra, masculinidade e, se possível, pegar em um peitinho. Esses semideuses caminham entre nós, cientes de que, se conseguem pegar uma mulher do Recife, são capazes de, facilmente, pegar a mulher do sultão, de burca, na praça em frente à mesquita. Sem falar árabe. E depois ainda pegam a mãe dele, por puro tédio.

O grande sociólogo pernambucano Gilberto Freyre tentava explicar o recato quase patológico da recifense através da herança cultural lusitana. Os portugueses, tão ciumentos quando melancólicos, costumavam esconder dentro de casa sua esposa, filhas e qualquer coisa remotamente do sexo feminino, sempre prontos a defender o bom nome da família. Henry Koster, britânico criado em Lisboa, ao passar algum tempo no Nordeste do Brasil, lá pelo século XIX, se decepcionava ao tentar obter um vislumbre sequer da mulher recifense, dentro de casa uma entidade invisível, saindo à rua sempre coberta por um longo véu a protegê-la de olhares cobiçosos, reais ou imaginários. Ao mesmo tempo, costumava flagrar, em uma mistura de espanto e deleite, as filhas de algum grande senhor de engenho, veraneando na capital pernambucana, a tomar despreocupados e desinibidos banhos no rio Capibaribe, a pele branca contrastando com os cabelos negros, a água turva de mangue mal escondendo os corpos nus. A recifense é, portanto, uma provocadora por herança, genética e criação. Seu prazer é o flerte, aproveita a viagem muito mais do que o destino, onde muitas vezes nem se chega. Munida de um escudo de recato, ocasionalmente deixa entrever a carne proibida cuja armadura esconde. E os homens, coitados, perdem a batalha antes mesmo de a guerra começar. O que não os impede de seguir lutando.

Nos próximos posts, vamos analisar o comportamento da mulher do Recife, verificando seus hábitos e defesas naturais, em uma tentativa de fazer com que os homens, caso não consigam se dar bem, ao menos tenham capacidade de salvaguardar alguma medida de hombridade enquanto são miseravelmente escorraçados por estas sereias de rio, verdadeiro terror dos navegantes experientes e marinheiros de primeira viagem.


PS – O Blog da Reclamação não se responsabiliza por corações partidos, espíritos despedaçados e autoestimas destruídas. Na dúvida, siga o exemplo dos homens locais: procure o boteco mais próximo, peça pelo brega mais bisonho que você encontrar na radiola de ficha e fique só em sua mesa até que a auto piedade transforme você em uma casca vazia desprovida de alma. Ou então mude de cidade, o que for mais barato.



sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Detesto ônibus II: objetos irremovíveis ou a Guerra das Bundas





Tomei o ônibus para mais uma viagem de casa para a faculdade. Distraído, imaginava quais vergonhas eu passaria durante a aula quando um indivíduo, portando um capacete de motoqueiro, sentou ao meu lado. Tinha ombros largos, cara de poucos amigos e, aparentemente, um órgão genital de proporções tão dantescas que exigiam que ele mantivesse as pernas tão abertas quanto uma prostituta em dia de pagar o aluguel. Despejou-se no assento como se fosse a poltrona da sua casa, fazendo pouco caso do meu espaço pessoal. Sentindo minha moral atacada e minha individualidade subitamente invadida, fiz o que qualquer homem com um mínimo de respeito próprio faria: contra-ataquei. Forcei minha presença para retirá-lo do meu lado da fronteira, aproveitando-me da desorganização do assalto inicial. Desacostumado a uma resistência tão feroz, o sujeito recuou até sua porção do assento. Com o canto do olho, estudamos um ao outro, medindo forças e fraquezas, buscando adivinhar a disposição do inimigo, tentando descobrir quem, afinal, iria mais longe na defesa de sua soberania glútea. E assim começou o conflito que viria a ser conhecido nos Anais da História como a Guerra das Bundas.

Naquela guerra fria particular, nenhum milímetro de território seria sacrificado. Cada respiração profunda se configurava em uma tentativa de demover o inimigo. Resoluto, eu buscava me ancorar ao assento utilizando a minha bunda, as nádegas funcionando como pseudópodes de um organismo unicelular determinado a sobreviver a um combate de morte com um oponente ancestral. Nenhuma fraqueza podia ser demonstrada. Em momento nenhum eu cedi à pressão constante. Nem mesmo quando o ônibus saltou por cima de um quebra-molas, fazendo com que meu oponente e eu aterrissássemos, impassíveis, sobre nossos respectivos sacos escrotais. Muito menos quando o motorista do veículo, ensandecido, passou desembestado pelas próximas sete lombadas, destruindo para sempre minhas esperanças de constituir uma família com filhos ou mesmo de manter uma ereção por mais de dez segundos. Eu era uma rocha estéril, uma árvore petrificada eternamente enraizada no banco do coletivo. Na minha frente, uma senhora calva e de aspecto sujo, penteou seus cabelos ralos com uma escova de bolso. Uma avalanche de caspa voou em direção aos meus olhos, como flocos de neve de um horrendo inverno nuclear. Nem mesmo pisquei.

Em certo momento, meu adversário fechou os olhos. Teria caído em um sono exausto e povoado de terríveis pesadelos envolvendo sangue, morte e glúteos masculinos? Eu rezava para que fosse assim. Ou estaria ele concentrado, orando para algum deus maldito em busca da força necessária para sobrepujar a minha vontade? Em silêncio, eu pedia às entidades sobrenaturais que tomassem posse de algum desafortunado motorista e o fizessem enfiar seu carro embaixo do ônibus, fazendo o coletivo capotar e arremessar meu vizinho de assento janela afora, defenestrando meu competidor e encerrando de vez aquele conflito. A pressão continuava e a minha bunda, travada em uma cãibra inumana pelo que pareceram horas, havia se tornado apenas um receptáculo de dor e cujo sofrimento aumentava exponencialmente a cada sacolejada do veículo. Subitamente, algo mudou. A barreira humana do meu lado esquerdo pareceu estremecer, fraquejar. Finalmente, o motoqueiro se ergueu e eu me preparei, automaticamente, para levar uma capacetada no nariz. Mas o golpe jamais veio. Em júbilo, percebi que ele finalmente havia chegado à sua parada. Creio que detectei uma lágrima brilhante no canto mais esquecido do seu olho direito, mas pode ter sido apenas uma impressão. Meu braço estava parcialmente gangrenado, minha genitália totalmente inutilizada e meu traseiro havia perdido toda e qualquer sensibilidade, criando perigosas possibilidades para um futuro permeado de ônibus e metrôs lotados. Mas eu estava feliz.


Havia vencido.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Detesto ônibus, parte I: despida de sanidade





Detesto ônibus e o sentimento é mútuo. Ciente dessa volátil relação kármica entre mim e meu transporte diário, o universo costuma testar a minha paciência me colocando em situações que jamais deveriam acontecer fora de um filme de David Lynch. Essa semana mesmo eu peguei o coletivo, como faço todos os dias de minha desgraçada vida de pedestre. Me posicionei no solitário assento imediatamente atrás da jaula de vidro que segrega idosos, gestantes e outras minorias do resto do ônibus, mas que garante que essas pessoas sigam seu caminho sentadas e fora da habitual zona de assalto do veículo. Na minha frente, de costas para mim e isolada por uma divisória de vidro, acomodou-se uma senhora de cabelos brancos e olhar distante. Assim que sentou, começou a remexer alguma coisa dentro de sua enorme e desproporcional bolsa. Finalmente encontrando o que queria, ela abriu a janela e, quando o ônibus se deteve na parada, jogou o objeto pela janela. Horrorizado de ver uma idosa arremessando lixo pela janela do coletivo, voltei meu olhar para o item descartado, para saber a que me referir na hora de passar uma descompostura na velha mal-educada. Meus olhos se fixaram em um molambo caído pateticamente na lateral do veículo, próximo ao pneu. O que eu vi vai me acompanhar pelo resto da minha vida.

Era um sutiã.

Ele era velho, grande e inescapavelmente bege. Aquela senhora de aparência serena havia acabado de atirar seu sutiã pela janela do coletivo, quase acertando o para-brisa do carro que tentava ultrapassar o ônibus. Com o cérebro impactado pelo absurdo da situação, fiquei em dúvida se ela havia pescado a peça de sua bolsa ou se havia removido a que ela estava usando naquela hora.



Tipo assim. Só que com uma octogenária. Em um ônibus sacolejante.


Ao lado dela, um senhor trêmulo observava atentamente, talvez excitado com a perspectiva de um strip-tease ao vivo e gratuito, sem dúvida o primeiro depois de muitas décadas de secura geriátrica. Ao atentar para essa possibilidade, minha mão automaticamente agarrou a barra de emergência da janela. Tentando manter a calma, contemporizei que a desapegada senhora ainda não havia, ao menos, jogado fora sua calcinha. Agradeci a Deus pelos pequenos milagres do cotidiano e passei a observar a velha com atenção e uma certa medida de temor, protegido pela barreira de vidro e metal que, eu agora percebia, servia para separar o resto do ônibus daquela área em particular, não o contrário. De repente, a velha jogou mais uma peça de roupa pela janela. E mais outra. Outra. A intervalos regulares, a idosa ia jogando o conteúdo da sua bolsa pela Av. Conselheiro Aguiar, enquanto motoristas atônitos tentavam desviar daquela chuva de brechó. Me perguntei o motivo daquela insanidade. Talvez fosse uma maneira altamente informal de doar suas roupas para as moradoras de rua do Recife que já estivessem na melhor idade. Uma espécie de drive-thru filantrópico. Ou quem sabe ela estivesse criando um caminho de roupas, como as migalhas de João e Maria ou o fio de Teseu, ciente de que o Alzheimer não permitiria que ela lembrasse o caminho de volta para casa. Certamente subiria em um ônibus aleatório quando desejasse retornar e gritaria, triunfante, para o motorista confuso: “Siga aquela calçola! Depois aquela meia! E...bem...aquela cueca também!”.

Imaginei minha avó possuída por uma vontade semelhante à daquela pobre mulher, ensandecidamente jogando suas roupas pela janela do ônibus e viajando pelada, os trancos e solavancos do veículo criando um espetáculo de horror indizível. Apenas o mais básico dos instintos de autopreservação me impediu de encerrar minha atormentada existência esmagando minha cabeça na catraca do ônibus. Ao meu redor, talvez por puro constrangimento, as pessoas pareciam nada perceber, concentradas em pontos invisíveis da geografia urbana recifense enquanto, bem nas suas vistas, uma senhora de idade avançada descarregava o conteúdo do seu guarda-roupa pelas ruas da cidade. A absoluta falta de reação dos passageiros, com exceção do velhinho pervertido, apenas deixava o tom de pesadelo kafkiano da coisa toda ainda mais pronunciado. Seria louca? Ela era, ao menos, lúcida o suficiente para distinguir a parte de não pagantes do resto do ônibus, fazendo valer seu direito de idosa ao mesmo tempo em que abusava da complacência social adquirida com a idade. O mais provável é que ela simplesmente não se importasse mais com a opinião alheia e sentisse que, se as lixeiras da cidade não corriam emparelhadas aos ônibus para receber suas roupas descartadas, então a prefeitura é que devia tomar algum tipo de providência, não ela. Procurei me imaginar ao chegar naquela mesma idade, cerca de 50 anos no futuro, talvez atirando minha coleção de DVDs pela janela de um trem flutuante, enquanto as pessoas lá embaixo eram bombardeadas por anacrônicas amostras de cinema em apenas duas dimensões. Perturbado por aqueles pensamentos, pedi parada e desci, enquanto a despirocada senhora engatava uma animada conversa com o cartaz a sua frente. Saquei meu celular e liguei para a minha avó.

Pedi sua benção e também que ela nunca, jamais, sob hipótese alguma andasse de ônibus no Recife.



domingo, 25 de setembro de 2011

No meu tempo... Parte Final





No recife dos anos 80 e começo de 90, a pior coisa que poderia acontecer com uma criança era ser desmoralizada junto ao resto da meninada. E a forma mais rápida de garantir que seu melhor amigo perdesse sua dignidade, assim como o respeito dos seus pares, possivelmente para todo o sempre, era levando-o ao limite, provocando-o ao ponto em que ele iria partir para a briga, se jogar no canal mais próximo ou entrar em curto, colocando-se em posição fetal enquanto tentava, aos berros, calar as vozes que insistiam que ele deveria matar a própria família vestido de hipopocaré enquanto usava um pogobol como arma. 



Geralmente acompanhado pelo espectro maldito do Palhaço Chocolate.



Em suma, transformar o infeliz em um estilão, um pária desgraçado, incapaz de aguentar uma brincadeira e, portanto, inadequado para se relacionar com o resto da humanidade. A molecada calejada costumava ser dura na queda e não perdia a cabeça por qualquer coisa. Na tentativa de se quebrar o espírito dos coleguinhas, muitas vezes se recorria à arma definitiva, aquela que separava garotinhos mijões de homens de verdade, capazes de sobreviver em uma sociedade composta por cruéis duelos de pipa, injustas rapas de bolas de gude e sensuais jogos de salada mista. Uma bomba psicológica que apenas os mais fortes conseguiam sobreviver. Xingar a mãe.

Enquanto hoje em dia as mães dos amigos são amadas como verdadeiras tias, que mimam os coleguinhas dos filhos com lanches e passeios ao cinema, naquele tempo a coisa era um tanto diferente. As crianças não conheciam limites e faziam todo o possível para escrotizar a progenitora alheia.


- Diz, véi, beleza? Cadê tua mãe, aquela gostosa?

- Tá bem e mandou um recado pra tua mãe. É pra ela deixar de ir lá em casa de madrugada dar pro meu pai. Tá pegando mal já.

- Limpeza, eu aviso a ela. Aproveito e mando ela devolver a calcinha da tua véia, que ela esqueceu lá no meu quarto.

- Era uma fio-dental, marca Cordão Cheiroso? Se foi, é a que eu dei de presente pra tua mãe, aquela véia safada, no dia do aniversário dela. Diz pra ela guardar com carinho e lembrar de mim quando for enfiar ela no rêgo.

- Ei! Não fale do aniversário dela não! Até pra festinha tu foi, puto safado! Ainda ganhou bolo!

- Ôxe. Ganhei bolo e uma amolegada dela lá na cozinha. Visse não? Agora na próxima, manda ela tirar aquela aliança, que tava machucando a minha pomba.

- ...

- E diga pro teu pai, aquele corno manso, dar dinheiro pra tua véia comprar gilete. Matagal da porra, véi.

- ...

- Vai estilar? Vai?? Ahh, estilou! Se Fudeu! Vou dizer pra todo mundo! Eu...péra...larga esse xêxo...deixa de ser estilãAAAAAAAARRRGGGHHH!



"Mamãe disse pra te dar um lanchinho. Lá no porão."



Algumas mães eram tão sacaneadas pelos amigos dos filhos que se tornavam verdadeiras instituições. Lembro de uma, chamada Teresa, que era a mais amada do Colégio Nóbrega, no centro do Recife. Em uma ocasião particularmente apoteótica, dezenas de crianças, meninas inclusas, marcharam espontaneamente pelos corredores da distinta e tradicional instituição de ensino religioso, aos gritos de “TERESA, GOSTOSA!”. Alguns improvisaram instrumentos musicas enquanto outros se dedicavam a coreografias que fariam uma dançarina de forró universitário de hoje em dia ficar corada de vergonha. Eu participava daquela proto-flashmob, observando os olhos marejados de lágrimas do filho de Teresa, cujo nome eu não conseguiria lembrar nem para salvar a minha vida, ao mesmo tempo em que agradecia a Deus e a todos os santos por nunca terem descoberto o nome da minha mãe.

Pelo menos não naquela escola.



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

No meu tempo... Parte III






Na minha infância, a violência era mais do que gratuita. Era encorajada e distribuída na base do bamburim. Em alguns casos, literalmente, como quando aconteciam as comemorações de Cosme e Damião. Os santos gêmeos da igreja católica têm uma relação especial com as crianças e no seu dia distribuem doces para a meninada. Espécie de Halloween nacional, fazia com que hordas de moleques sujos e mal-educados formassem bandos unidos por uma frouxa lealdade e um desejo por confeitos baratos que beirava a psicose. Esses grupos saíam pelas ruas da região metropolitana do Recife, principalmente nos bairros mais periféricos, indo de porta em porta a procura dos doces.

Ai de quem não desse. Muitos vizinhos, desesperados, preferiam simplesmente jogar as balas por cima do muro, enquanto vigiavam as entradas das casas de panela em punho. Quando isso acontecia, todo o sentimento de união era imediatamente destruído e a pirralhada se engalfinhava como os animais que eram, enquanto dentro das casas, cachorros especialmente treinados para buscar a garganta de qualquer ser com menos de 1,30 de altura espumavam em antecipação, caso algum invasor tentasse se aproveitar da confusão ir direto à fonte dos bombons. Mais de um anão inocente perdeu sua vida para estas feras durante as comemorações de Cosme e Damião, tentando entregar uma carta ou um garrafão de água.



"...totó?"



Mas a verdade é que, quando a criançada precisava extravasar sua violência, qualquer desculpa servia. Prova disso era a brincadeira do babau, cujas regras simples, porém altamente respeitadas, mostravam que ninguém estava seguro, desde que não houvesse nenhum adulto por perto. Basicamente, bastava que alguém falasse alguma besteira proscrita pelo bando, ao que uma das crianças incitava as outras a encher de tabefe a cabeça do pobre coitado que tentou ser engraçado, mas que falhou miseravelmente. Se a vítima tentasse fugir, em vez de enfrentar seu destino como um homem, algumas rasteiras e voadoras eram permitidas, só para lembrar a todos como é que o mundo funcionava.


- Bora começar! Eu sou He-Man, pedi primeiro!

- Eu sou Mentor!

- Aríete!

- Stratos!

- GORPO!

- ...

- ...

- ...

-...é o quê, doido? Gorpo? Gorpo?!

- É, eu acho massa, ele voa...

- Massa um caralho! Porra de Gorpo! TU É FRANGO É?

- Mas Gorpo tinha namorada! O nome dela era Driele e...

- Aquilo era um traveco! E Gorpo é gay, todo mundo sabe disso!

- Mas...

- Só tem um jeito de resolver essa parada. Galera, diz aí, o que é que tem na vaca?

- LEITE!

- Não! Isso não! Por fav...

- O que é que tem no leite??

- NESCAU!!

- Nãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonãonão...

- O que é que ele merece??

- BABAU!




"Não, não parem de bater...eu gosto de assistir..."



E aí o cacete comia, até que a mãe do infeliz chegasse ou as convulsões iniciassem, o que acontecesse primeiro. O menino brutalizado, uma vez recuperado, passava o resto da sua infância buscando descontar o babau levado, tornando-se mais uma peça da sangrenta engrenagem que moía crianças e cuspia homens feitos, cientes da única verdade irrefutável desse universo.

A vida é sofrimento.



Continua...



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

No meu tempo... Parte II






De fato, as crianças locais possuíam um profundo, ainda que horrivelmente deturpado, senso de honra. Duvidar da palavra empenhada era praticamente um convite a uma pisa bem dada. Se o amiguinho jurava de pé junto que não apenas encontrou com o espírito da Galega do Banheiro, como também convenceu a entidade a mostrar sua calcinha, o melhor que se tinha a fazer era acreditar, ou ao menos tentar ser um mentiroso razoável. Ocasionalmente, uma das crianças, movida por ousadia sobrenatural ou simplesmente um intenso desejo de autodestruição, acabava por duvidar do colega. Na frente da turma toda.

- Oxe. Mentira do carai doido!

Tensão. As outras crianças, farejando a futura matança no ar, se aglomeram como aves de rapina.

- É o quê, doido?! Tá duvidando de mim?

O outro garoto hesita. Olha ao redor, os rostos dos companheiros ávidos por sangue. Tarde demais para voltar atrás.

- Duvido sim!

O colega, ferido em seu orgulho de mentiroso, parece prestes a ter uma síncope. Seu corpo treme, as unhas se enterram em seus punhos cerrados. Tudo que é necessário para liberar de vez essa fúria assassina é o estímulo apropriado.

- E digo mais. DUVIDEODÓ!

 Os garotos se atracam selvagemente, para o deleite da criançada, sempre gritando frases de encorajamento e sugestões úteis para a situação.

- Chuta os ovo, doido!

- Dá-lhe na caixa dos peito, pro catarro sair!

- Vai no nariz, que o frango chora!

- TIRA MEL!

Tirar mel dos amigos (ou dos temporariamente inimigos) era a maior humilhação que podia ser imposta a outro ser humano. Em uma brincadeira normal, era indigno. Numa briga, era o equivalente a finalizar o adversário em uma luta de Vale-Tudo, só que a desonra era bem maior, além de duradoura. Consistia, basicamente, de passar os dedos indicador e médio pela racha a bunda do amigo, gritando alucinadamente “Tirei o mel!”, enquanto a outra criança, ridicularizada, corria para casa e pedia aos pais para se mudarem para outro estado. Não é raro, no Recife, velhos colegas de escola, já homens feitos, se encontrarem por acaso e relembrarem os bons tempos de escola.

- Afrânio! Fala, velho, tudo limpeza?

- Opa, Marcondes...tudo tranquilo...olha, tenho que ir nes...

- Afrânio, peraí, bora relembrar os velhos tempos!

- Eu acho melhor n...

- Tá ligado aquele recreio que tu levou um cacete de Romildo? Lembra?

- É, Marcondes...lembro sim...

- E tu lembra como terminou a briga?

- Marcondes, eu não quero pensar nis...

- Ele tirou teu mel! TIROU TEU MEL!

- ...

- TABACUDO, TABAREL, VIRA O CU QUE EU TIRO MEL! HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA! Lembra? Ah, muito bom, viu...

- ...

 - A gente cantava isso pra tu todo recreio, a turma toda, até o vestibular...pense na arriação que...pera...pra que essa faca? Afrânio, pelamordedeus, não faça nenhuma loucura! AFRÂNIO! NÃÃÃÃRRRRRGGGHHHHH!


Algumas feridas demoram mais a cicatrizar do que outras.



Continua...

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

No meu tempo... Parte I





No meu tempo de criança não tinha frescura. Ao contrário dos meninos superprotegidos de hoje, que não empinam pipa nem no ventilador porque em casa tem ar-condicionado central, a gente ia pro meio da rua, se jogando no meio da lama e desafiava a criatividade divina a manufaturar novas e poderosas doenças que nos fizessem sossegar o facho em casa. Quem não criava ao menos um bicho-de-pé, com nome e sobrenome, era ostracizado pelas outras crianças, inclusive as meninas, e conheço gente que pegou cobreiro até nas costas, de tanto se sarrabulhar no lodo feito porco. Nas matas do Janga, que não eram virgens porque mesmo naquela época isso já era difícil de encontrar, eu brinquei de tudo que era jogo e brincadeira não eletrônica concebível.

Polícia e Ladrão era uma das favoritas, com a criançada geralmente preferindo ficar do lado errado da lei, já prenunciando o estilo de vida que muitos adotariam quando adultos. Eu, particularmente, não curtia muito brincar de esconde-esconde. A molecada sem limite costumava se embrenhar nos terrenos baldios da região, habitados por mosquitos da dengue, cachorros raivosos, traficantes de drogas e um sem número de bolas de futebol. Aliás, esse não era o único jogo que envolvia uma pelota. Também brincávamos de quadrado, vôlei sem rede, basquete sem cesta, sete cortes, queimado e doidinho, no caso eu, sempre. Também rolavam todas as variações possíveis da brincadeira de Pega, como a Pega Macaco, por exemplo. Nesta versão, só estava imune quem se pendurasse em algum lugar, o que fazia com que o Pega aguardasse, paciente e sadicamente, que as crianças se cansassem da incômoda posição e se espatifassem no chão. Pega Congelou dava a oportunidade de exercitar um pouco de trabalho em equipe, com as crianças salvando umas as outras do congelamento ao tocá-las, geralmente com um indigno tapa na bunda. A grandiloquente e altamente complexa Pega Congelou Americano determinava que os congelados só poderiam readquirir seus movimentos caso as crianças livres conseguissem passar por entre suas pernas. A ânsia de resgatar os companheiros costumava afetar a percepção espacial da molecada, que acabava por acertar cabeçadas violentas e, algumas vezes, intencionais no saco dos amigos, que depois de libertos mal conseguiam se arrastar e findavam sendo congelados novamente, as mãos enfiadas entre as pernas finas.

Quando a ânsia destrutiva infantil se tornava incontrolável, havia diversas formas de extravasar a energia assassina acumulada. A brincadeira de chulipa era uma delas, com as crianças acertando os antebraços umas das outras com golpes destruidores usando apenas dois dedos. Só quem já levou uma chulipa sustenta conhece a dor que se espalhava do braço ao coração, acompanhada da marca vermelha que permanecia no local por no mínimo uma semana. Se na UFC permitissem chulipas, as lutas seriam muito mais curtas. A meninada tinha ainda sua própria versão da infame roleta russa, a temida brincadeira do cuscuz, geralmente praticado em horário letivo. Malignamente simples, requeria apenas um pouco de areia, um graveto e nervos de aço. O cuscuz, que era o montinho de terra, tinha seu cume fincado pelo pedacinho de madeira, enquanto os participantes se alternavam em retirar pequenas quantidades do bolo. Quem derrubasse o palito era perseguido como um cão e barbarizado pelos amigos, que não poupavam a mão na hora de baixar o cacete. A tensão pulsante só era interrompida por duas coisas: a campainha que anunciava o fim do recreio ou um chute bem dado no cuscuz, destruindo a brincadeira e despertando o demônio oculto no espírito de todas as crianças que participavam e até das que estavam apenas olhando. Geralmente, quem fazia isso era um gordinho. Geralmente um cacete, sempre era um gordinho, que saía correndo com uma velocidade jamais exibida durante as aulas de Educação Física em direção à sala de aula, nos segundos finais do intervalo. 



"Huhuhuhuhuhuhuhuh!"



Possuídas, as crianças partiam em perseguição, berrando pelos corredores abarrotados da escola:

- PEGA O GORDO FELADAPUTA, PEGA!

Em noventa e nove por cento das ocasiões, o gordinho inexplicavelmente escapava, entrando na sala logo antes da professora. Com a aula iniciada, tudo o que restava aos meninos prejudicados era ameaçar, em voz baixa, a integridade física do colega e imaginar formas criativas de espanca-lo. O gordo, escroto que só ele mesmo, apenas ria, ciente de que sua gordice boa-praça faria os amigos esquecer o incidente no dia seguinte, quando o ciclo se reiniciaria. No Recife, quem nunca passou pela brincadeira do cuscuz (e sobreviveu) é considerado uma espécie de meio-homem, um eterno virgem que jamais terá o respeito dos seus pares, sendo estigmatizado pela sociedade adulta pelo resto de sua vida.


Continua...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Dentista, parte II







O ser humano é a única espécie do planeta que tenta, de forma consciente e constante, se melhorar. E essa busca pela perfeição começa bem cedo, com os pais obrigando os filhos a realizarem inúmeras atividades supostamente benéficas, como natação, balé, karatê e manufatura de sapatos de marcas famosas. É tudo uma questão de cultura. Quando atividade física extenuante não dá conta, a medicina surge com intervenções que visam corrigir aquelas imperfeições com as quais a maioria de nós nascemos, mas poucos conseguem conviver em harmonia. Um dos procedimentos mais comuns e traumatizantes que uma criança costuma passar é ter que usar aparelhos ortodônticos. O principio da coisa é simples e brutal: busca-se reposicionar os dentes de um ser humano enquanto eles ainda estão enraizados em suas gengivas, utilizando uma série de instrumentos cujo único propósito é remodelar as arcadas dentárias que nos foram dadas por Deus e, dessa forma, afrontar toda a Sua obra.

E assim foi que, quando eu já havia perdido os meus dentes de leite e os permanentes começavam a nascer, meus pais perceberam algo estranho. Algo...não natural no meu sorriso. Com o passar do tempo, ficou evidente que alguma coisa terrivelmente errada estava se passando dentro da minha boca. Assustados, meus pais fizeram o que qualquer pai preocupado faria: acionaram os serviços de um padre que, após me inspecionar cuidadosamente, recomendou um ortodontista de reputação ilibada e preços populares. Ao chegarmos no consultório, fui encaminhado para a sala de Raio-X, onde permaneci imóvel pro vários minutos enquanto o técnico, sensato, se escondia atrás de uma placa de chumbo. Estávamos na sala do dentista quando chegaram os resultados. Incrédulo, o doutor mostrou os exames para a minha mãe, que arregalou os olhos e proferiu, com sua delicadeza habitual:

- Mas meu filho...é um macaco escritinho.

O dentista chamou minha mãe de lado e ambos confabularam em sussurros preocupados. Pode ter sido apenas minha imaginação, mas tenho quase certeza de ter escutado as palavras “aberração”, “impossível” e “eutanásia” no meio da conversa. No final, minha mãe deve ter convencido o doutor de que a ciência da Ortodontia tinha muito a aprender tentando consertar meu sorriso antes que ela fosse obrigada a me entregar ao zoológico da cidade. E foi assim que comecei a usar aparelhos. No plural mesmo. Aparentemente, minha condição só podia ser corrigida através da ação conjunta de todos os artifícios dentários criados pelo homem, além de outros que eram certamente proibidos pelas leis de países mais civilizados do que o Brasil. Inicialmente, me recusei a ser a cobaia daqueles experimentos. Por fim, em busca de aprovação materna e de uma aparência razoavelmente humana, concordei com o tratamento. O medo de ser sequestrado por algum circo itinerante também pesou da decisão.

Me fizeram usar peças metálicas coladas aos dentes, que cortavam meus lábios e minha língua, além de um aparelho removível, junto ao céu da boca, que na época achei bastante semelhante à dentadura da minha avó, só que sem os dentes. Uma espécie de chapa banguela, o que apenas a tornava mais sinistra sua aparência aracnídea. Além desses dois, precisava utilizar pequenas ligas de borracha conectando as mandíbulas, que forçavam minha dentição a se manter dentro da minha boca e não assustar os vizinhos. Não satisfeito, o doutor achou por bem me brindar com um aparelho extra oral, um tipo de para-choque metálico que sai da boca e se fixa na nuca do condenado. Eu precisava usar todos esses dispositivos ao mesmo tempo, durante o dia e mesmo na escola. Como os professores, por algum motivo, não permitiam que eu vestisse um saco de estopa na cabeça, precisei aprender a lidar com minha infeliz situação. E quando falo “aprender a lidar”, na verdade quero dizer “me segregar em locais obscuros da escola junto com os outros anormais”. Em termos de esquisitice, eu só perdia para o pobre coitado que usava colar correcional no pescoço e a menina albina. Havia um garoto anão que costumava andar conosco, mas ele logo percebeu que estávamos queimando o filme dele e nunca mais apareceu. Soube depois que teve uma grande carreira profissional em um dos postos de gasolina da cidade.



Ninguém era páreo para sua elegância.



Apertar o aparelho doía tanto que a única opção de alimentação era intravenosa, por semanas a fio. Os dentes ficavam bambos ao ponto de me fazer perder a paciência e tentar corrigi-los usando as mãos mesmo. Afitas eram uma constante e não havia escovação que fizesse com que todos os fragmentos das refeições se desprendessem da teia metálica que era o meu sorriso. Chegava na sexta sentindo o gosto do almoço da segunda. Durante a semana, sofria o bullying das outras crianças quando a expressão ainda não havia se popularizado, mas suas consequências já eram bastante palpáveis. Minha única distração durante os recreios solitários era assustar as crianças das séries mais baixas. O cimento do aparelho fixo deixava as partes visíveis dos dentes amareladas e as pessoas na rua já começavam a pedir cigarro quando eu sorria. Finalmente, depois de anos de dor e isolamento, chegou o momento de retirar todos os mecanismos que lotavam a minha boca. Depois do procedimento, a primeira coisa que eu percebi é que agora havia tanto espaço na minha cavidade bucal que minha língua ficava um tanto perdida, como se tivesse vivido por anos em uma quitinete e agora houvesse se mudado para um duplex com salão de festas. O dentista não escondeu a surpresa com o resultado, duvidando menos de sua própria capacidade do que das minhas chances de exibir um sorriso que não fosse encarado como um prenúncio do apocalipse. Minha mãe já não mandava eu me esconder no quarto de empregadas quando tinha visita em casa e o futuro se avizinhava brilhante. No final, tudo acabaria bem. Não fosse pelos meus dentes sisos que surgiram logo que terminei o tratamento odontológico e reverteram todo o processo de correção.

Hoje, quando me pedem para sorrir, mando logo tomar no cu.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Dentista, parte I





Nunca gostei de ir ao dentista. A odontologia é umas das últimas especialidades da Saúde que continua contando com métodos e equipamentos simplesmente medievais. Precisa arrancar um dente, amigão? Não tem laser que vá fazer isso de uma forma indolor ou que não envolva você cuspindo uma quantidade assustadora de sangue como se fosse um boxeador em fim de carreira. Pediatras basicamente aprendem a manejar inofensivos estetoscópios e Dermatologistas não necessitam de mais do que traquejo com algumas pomadas ou, no máximo, um elegante bisturi elétrico para remoção de verrugas anais. Por Deus, até mesmo um Proctologista precisa apenas de uma luva resistente, um pouco de vaselina e pacientes compreensivos para poder realizar seu trabalho.



"Dr., o senhor pode...pode ao menos tirar esse anel...?"


Dentistas se armam, literalmente, com arsenais compostos de brocas cujo som é capaz de fazer os testículos de um homem sadio se recolherem institivamente no seu abdômen, ganchos cujo único propósito é fazer os pacientes borrarem as calças ante a sua visão horrenda, pinças capazes de extrair um dente ainda que a raiz dele esteja fincada na sua alma e lixas motorizadas que não pareceriam deslocadas no armário de um serial killer. E enquanto você está preso na poltrona do terror, cego por uma luz alienígena e lutando contra o instinto de se jogar pela janela ao ouvir o som da perfuratriz em miniatura, o dentista, sádico, ainda conta piada. Nada melhor do que ouvir a última do papagaio enquanto se engasga com o próprio sangue. E quem é maluco de não achar graça da piada de uma pessoa que tem uma agulha da grossura do seu dedo mindinho apontada para os nervos expostos do seu molar?



"GAAAAAAAAAHHHHHHH!"



Tenho medo de Dentistas. Não tenho vergonha de falar, só mantenho a voz baixa com medo de um deles ouvir e vir tomar satisfações munido de um boticão. Além disso, como uma espécie de Pokemons saídos do inferno, os Dentistas também possuem sua própria e terrível evolução: o Ortodontista. Um profissional que, não satisfeito em nos causar inenarrável dor física e angústia mental, ainda rouba nossa dignidade através de tratamentos humilhantes e, como qualquer paciente pode testemunhar, infindáveis. Apenas aqueles que sofreram nas mãos dessa entidade maléfica podem compreender os traumas indizíveis que deixam cicatrizes indeléveis nas gengivas e nos espíritos de milhares de pessoas mundo afora.

E eu, claro, sou uma delas.



Continua...