quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Horror

Fui até a cozinha verificar as opções de almoço. Abri a geladeira, fucei as prateleiras, cutuquei o congelador, buli nas gavetas e finalmente encontrei a carne que minha mãe havia deixado temperada para que eu cozinhasse. Ao abrir a tampa do vasilhame plástico, contive uma exclamação de horror ancestral e por pouco não derrubo o conteúdo no chão. Lá estava ele. Vermelho. Brilhante. Ensanguentado. Medonho.

Fígado.

Sim, dentro da vasilha manchada estavam fatias do órgão abjeto, prontos para irem para a panela e depois, presume-se, para o estômago de algum pobre coitado incauto. No caso, eu. Indiferente ao meu asco e à uma possível retribuição divina, minha mãe ainda havia coberto tudo com sal, pimenta e colorífico, talvez visando mascarar o horror adormecido sob aquela absurda camada de temperos. Se você já viu um fígado, então vou poupar-lhe de uma descrição mais aprofundada. Ciente de que este é um blog de família, também não colocarei uma foto dessa coisa, de modo a não ofender os corações mais vacilantes.













 Há, te peguei!


Sim, isso aí em cima é a foto de um fígado. Ou seja, eu menti para você. A vida é assim mesmo, paciência. Não reclame comigo, e sim com Deus, que permite que tais aberrações gastronômicas coexistam conosco no mesmo plano físico. Francamente, não sei onde Ele estava com a cabeça. Ao observar aqueles horrendos pedaços de carne, me perguntei o que havia feito para que minha mãe me punisse daquela forma. Dar fígado para uma criança comer, sabemos todos, é um dos castigos mais antigos exercidos pelas progenitoras impacientes e com certas tendências sádicas. Nada original, mas altamente eficiente. Tanto que deixei de ser menino faz tempo, mas ainda sinto uma fraqueza nas pernas quando ouço falar de fígado. De fato, não gosto nem de pronunciar a palavra. Fígado. Pronto, agora me sinto sujo. Hora de escovar os dentes na tentativa de me livrar do palavrão. Em um nível puramente científico, porém, não deixa de ser interessante tentar descobrir quais razões levam um ser humano sadio e razoavelmente civilizado a se alimentar de um órgão cujas funções incluem a produção de gordura, purificação de toxinas (que acabam se acumulando nele) e transformação de amônia em ureia. Isso mesmo, ureia. Ou seja, a primeira etapa do mijo começa no fígado. Já bateu a fome?

Desconfio de quem come fígado sem ter uma arma apontada para as cabeças de toda a sua família. Se gosta, então, pode ter certeza: é psicopata. Sabe o Hannibal Lecter, o assassino do filme Silêncio dos Inocentes? Foi preso depois de degustar o fígado de um colega com favas e vinho Chianti. Daí se tem uma ideia do tipo de pervertido que consome esse órgão horroroso. 




 Jantar lá em casa? Eu compro o vinho, você traz o fígado.


Mas tenho fé em Deus e na genética, que um dia há de criar animais desprovidos de fígados, privando as mães de cerca de 74% do seu poder de ameaça. E se você ainda tem alguma dúvida sobre os malefícios do consumo desse troço, saiba que o foi gras, também conhecido como patê de fígado de ganso, é obtido ao se alimentar forçadamente o animal até que seu órgão atinja proporções bíblicas. E quando falo “órgão”, não me refiro ao pênis dele e sim ao fígado. Já falei que isso aqui é um blog de família, cacete. Embora passar o dia sendo alimentado e não fazendo mais nada seja o sonho de aproximadamente 93,87% dos leitores desse blog, no caso dos gansos isso leva a uma existência infeliz e sofrida, tudo para alimentar as sanhas de alguns tarados que não sabem mais em quê gastar seu dinheiro.




 Acha que ele está feliz? Acha?!


Tanto asco pode parecer estranho, especialmente partindo de alguém que adora buchada, sarapatel e tripa de bode torrada, além de já ter sido flagrado comendo tanajura em mais de uma ocasião, mas insisto no meu argumento de que é preciso ter alguma espécie de desordem mental e moral para ter coragem de encarar uma coisa tão nojenta. E lá estava eu, prestes a preparar o almoço. Fígado acebolado. 

Mais ou menos como mandar o condenado dar o nó da corda na qual ele vai ser enforcado.

6 comentários:

  1. Das vísceras, a única que ainda desce é o fígado bovino acebolado e olhe lá...abomino o "Foie gras". As "ADAS" eu não curto não...arghh!buchada, panelada...lembro das aulas de anatomia...arggghhh mil vezes!hehehe.Mas aposto que o fígado acabou se tornado um manjar dos deuses...confesse!:**

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  2. Também adoro buchada, sarapatel e tripa de bode torrada, mas fígado não entra. Acho que o problema é o cheiro.

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  3. ei al fredo..sarapatel...tem fígado!

    =P

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  4. Amo muito tudo isso! Figado eh demais de bom! Muita cebola! Muita pimenta e toxinas para dentro!!!

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  5. ARGHT! Não gosto de fígado, muito menos de sarapatel, de buchada de boi, de caldo de mocotó e qq outra coisa desse gênero, mas tem algo MUITO pior que eu gosto: Mc DOnald´s! Pq meu Deus, pq????
    AHHHHH

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  6. Impossível dimensionar a minha reação de completo horror ululante ao vislumbrar no âmago das faculdades mentais tamanho deletério hepatófago.

    resumindo: PQP!!!

    vê esse site, é irado.
    http://www.lileks.com/institute/gallery/meat/2.html

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Vai, danado, reclama!