segunda-feira, 5 de setembro de 2011

No meu tempo... Parte I





No meu tempo de criança não tinha frescura. Ao contrário dos meninos superprotegidos de hoje, que não empinam pipa nem no ventilador porque em casa tem ar-condicionado central, a gente ia pro meio da rua, se jogando no meio da lama e desafiava a criatividade divina a manufaturar novas e poderosas doenças que nos fizessem sossegar o facho em casa. Quem não criava ao menos um bicho-de-pé, com nome e sobrenome, era ostracizado pelas outras crianças, inclusive as meninas, e conheço gente que pegou cobreiro até nas costas, de tanto se sarrabulhar no lodo feito porco. Nas matas do Janga, que não eram virgens porque mesmo naquela época isso já era difícil de encontrar, eu brinquei de tudo que era jogo e brincadeira não eletrônica concebível.

Polícia e Ladrão era uma das favoritas, com a criançada geralmente preferindo ficar do lado errado da lei, já prenunciando o estilo de vida que muitos adotariam quando adultos. Eu, particularmente, não curtia muito brincar de esconde-esconde. A molecada sem limite costumava se embrenhar nos terrenos baldios da região, habitados por mosquitos da dengue, cachorros raivosos, traficantes de drogas e um sem número de bolas de futebol. Aliás, esse não era o único jogo que envolvia uma pelota. Também brincávamos de quadrado, vôlei sem rede, basquete sem cesta, sete cortes, queimado e doidinho, no caso eu, sempre. Também rolavam todas as variações possíveis da brincadeira de Pega, como a Pega Macaco, por exemplo. Nesta versão, só estava imune quem se pendurasse em algum lugar, o que fazia com que o Pega aguardasse, paciente e sadicamente, que as crianças se cansassem da incômoda posição e se espatifassem no chão. Pega Congelou dava a oportunidade de exercitar um pouco de trabalho em equipe, com as crianças salvando umas as outras do congelamento ao tocá-las, geralmente com um indigno tapa na bunda. A grandiloquente e altamente complexa Pega Congelou Americano determinava que os congelados só poderiam readquirir seus movimentos caso as crianças livres conseguissem passar por entre suas pernas. A ânsia de resgatar os companheiros costumava afetar a percepção espacial da molecada, que acabava por acertar cabeçadas violentas e, algumas vezes, intencionais no saco dos amigos, que depois de libertos mal conseguiam se arrastar e findavam sendo congelados novamente, as mãos enfiadas entre as pernas finas.

Quando a ânsia destrutiva infantil se tornava incontrolável, havia diversas formas de extravasar a energia assassina acumulada. A brincadeira de chulipa era uma delas, com as crianças acertando os antebraços umas das outras com golpes destruidores usando apenas dois dedos. Só quem já levou uma chulipa sustenta conhece a dor que se espalhava do braço ao coração, acompanhada da marca vermelha que permanecia no local por no mínimo uma semana. Se na UFC permitissem chulipas, as lutas seriam muito mais curtas. A meninada tinha ainda sua própria versão da infame roleta russa, a temida brincadeira do cuscuz, geralmente praticado em horário letivo. Malignamente simples, requeria apenas um pouco de areia, um graveto e nervos de aço. O cuscuz, que era o montinho de terra, tinha seu cume fincado pelo pedacinho de madeira, enquanto os participantes se alternavam em retirar pequenas quantidades do bolo. Quem derrubasse o palito era perseguido como um cão e barbarizado pelos amigos, que não poupavam a mão na hora de baixar o cacete. A tensão pulsante só era interrompida por duas coisas: a campainha que anunciava o fim do recreio ou um chute bem dado no cuscuz, destruindo a brincadeira e despertando o demônio oculto no espírito de todas as crianças que participavam e até das que estavam apenas olhando. Geralmente, quem fazia isso era um gordinho. Geralmente um cacete, sempre era um gordinho, que saía correndo com uma velocidade jamais exibida durante as aulas de Educação Física em direção à sala de aula, nos segundos finais do intervalo. 



"Huhuhuhuhuhuhuhuh!"



Possuídas, as crianças partiam em perseguição, berrando pelos corredores abarrotados da escola:

- PEGA O GORDO FELADAPUTA, PEGA!

Em noventa e nove por cento das ocasiões, o gordinho inexplicavelmente escapava, entrando na sala logo antes da professora. Com a aula iniciada, tudo o que restava aos meninos prejudicados era ameaçar, em voz baixa, a integridade física do colega e imaginar formas criativas de espanca-lo. O gordo, escroto que só ele mesmo, apenas ria, ciente de que sua gordice boa-praça faria os amigos esquecer o incidente no dia seguinte, quando o ciclo se reiniciaria. No Recife, quem nunca passou pela brincadeira do cuscuz (e sobreviveu) é considerado uma espécie de meio-homem, um eterno virgem que jamais terá o respeito dos seus pares, sendo estigmatizado pela sociedade adulta pelo resto de sua vida.


Continua...

3 comentários:

  1. Faltou Tarimba, Fubica, Gato Mia, Salada Mista e outras brincadeiras com conotação sexual. Ah! E no quesito vilência, faltou Dono da Rua. O pau comia, meu véio.

    Ass: Mauro, o galhofeiro Pulador de Carniça.

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  2. Danado, né que eu gostei do texto! Eu me identifiquei demais!!!!

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  3. Chulipa era um classico. Não sei porque deixamos de brincar disso.

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Vai, danado, reclama!